Um japonês especialista em cachaça. – Capítulo II

 

 

 

Porto, na cidade do Porto, Portugal

 

Vista noturna, foz do rio Douro, Porto, Portugal

 

2. – Metendo-se 
 
em confusão
A convivência na oficina com pessoas de várias idades e procedências, clientes de todas as categorias, influenciaram significativamene na personalidade de Manoel. Por natureza voluntarioso, absorveu conceitos de liberdade, rebeldia e até um certo grau de violência. Era uma forma de se defender das condições do meio em que vivia. Não raro entrava em conflito com o irmãos mais velho, sendo necessária a intervenção firme de Dolores e Joaquim. Aos poucos os ânimos serenavam.
 
Quando estava para completar 18 anos, ele foi convidado por um amigo para trabalhar no porto. A oficina fazia manutenção de máquinas de barcos e a oportunidade de estar a bordo de um deles mexeu com a curiosidade do rapaz. O dono da oficina não queria que ele deixasse o trabalho, nem os pais estavam de acordo. Mas ele estava disposto a ir e foi. Começou a trabalhar, conseguindo em pouco tempo perceber que a diferença não era grande. Apenas o tamanho das peças dos motores e demais componentes eram consideravelmente maiores. Mas para tudo existe o jeito de fazer acontecer e ele logo dominou os fundamentos do novo trabalho.
 
Quando voltava para casa, coisa que não acontecia todos os dias, vinha contando as aventuras vividas no cais e nas pequenas viagens que fizera a bordo até a cidade do Porto, ida e volta. Convivia com marinheiros, estivadores e toda sorte de gente. Tudo isso vinha como que impresso em suas maneiras de agir. Adquiria o linguajar típico, começando a diferenciar-se do resto da família. Em junho de 1953, após um ano de trabalho no porto e nos navios, ocorreu uma menifestação contra o governo, conclamada pelos líderes dos estivadores, marinheiros e demais trabalhadores do porto. Ao ser convidado a participar ele aceitou imediatamente. Não iria deixar de participar. Queria ser aceitô e não ficaria for a do movimento.
 
O que ele não sabia eram as consequências que poderiam advir desse seu gesto. Seguiram para a cidade do Porto onde ocorreria a grande concentração. Avisara a família que ficaria for a por alguns dias, mas não disse por quê. Pensaram tratar-se de outra viagem a trabalho. Quando a manifestação ia a meio, discursos sendo pronunciados, palavras de ordem gritadas, bandeiras agitadas, algumas desordens praticadas por vândalos sempre presentes, as tropas de repressão apareceram. Os mais espertos, calejados de outras ocasiões, conseguiram safar-se rapidamente e ficaram apenas os inexperientes. Uma centena e meia de rapazes se viu cercada de homens, portando toda sorte de armas. Alguns gestos de reação resultaram em pancadas com cassetetes, um ou outro tiro foi disparado e logo havia alguns estendidos no chão, feridos.
 
Os demais levantaram as mãos e se renderam. Não contavam com aquilo. Tinham sido deixados abandonados igual cordeiros jogados aos lobos. Nem mesmo os companheiros de jornada, vindos de Ancede estavam ali, salvo meia dúzia de incautos igual a Manoel. Foram conduzidos para uma prisão provisória, interrogados, identificados, fotografados, ameaçados para contarem coisas de que nem eles faziam a menor ideia. Haviam vindo reivindicar melhores condições de trabalho para o povo em geral e estavam sendo acusados de atividades subversivas, guerrilha e outras tantas atividades ditas ilegais.
 
O que mais doia era o fato de estar ali na prisão, sem poder fazer contato com a família, sem roupas limpas para trocar. A comida era péssima, para dormir um mísero acolchoado servindo de cobertor e ao mesmo tempo para forrar o piso frio da cela. Dormiam amontoados o que diminuia um pouco o frio, porém, para quem estava acostumado a dormir sempre em cama limpa, bem aconchegado, isso era um martírio. Ninguém falou em avisar a família. Quando tentavam perguntar sobre isso, eram calados com ameaças de mais pancadas. Revolucionários não tinham dereito de receber visitas de familiares, pelo menos enquanto não fossem julgados e sentenciados a uma penitenciária.
 
Os que haviam induzido os companheiros de Ancede a participarem da manifestação e conseguiram escapar, aos poucos deram a conhecer o que de fato ocorrera. Não tardou e a notícia chegou à família Ferreira. Ao saberem da notícia, o irmão mais velho Joaquim Filho, aproveitando a ida à cidade do Porto para participar de um treinamento que iria fazer, levou também o encargo de saber notícias do irmão. O tempo era pouco e não foi fácil saber do paradeiro. Ninguém se dispunha a falar sobre questões de presos politicos. Era assunto considerado proibido, pois poderia render dissabores a quem deles se ocupasse.
 
Nas horas de folga, perambulou de um estabelecimento prisional ao outro até conseguir localizer o irmão. Usou de sua posição numa das vinícolas mais renomadas de Ancede para abrir caminha até ele. Encontrou-o em péssimo estado. Estava sujo, barbado, magro, com marcas de agressões típicas de tortura aplicada pelos interrogadores. Ficou sabendo que seria preciso um advogado para tentar retirar o irmão daquele lugar. Não connhecia ninguém, nem advogado na cidade. Tampouco dispunha de dinheiro para pagar o serviço.
 
Em nova visita falou que estaria voltando naquela noite para Ancede e tentaria conseguir recursos para livrar o irmão daquela encrenca. Reuniram algumas economias, pediram adiantamentos em seus trabalhos e até o patrão de Manoel no cais, tinha dinheiro a pagar a ele. Tudo isso reunido deu para juntar uma quantia que pensavam daria para pagar um advogado e assim tirar o irmão daquela enrascada.
 
A mãe Dolores ficou em prantos, imaginando o eu caçula naquele estado lastimável. Ouvira contar histórias suficientes para saber o destino reservado aos que caiam nas garras das tropas de segurança do governo. Joaquim dizia que ele estava tendo o que procurara. Bem que havia sido avisado para não se meter em encrencas, mas ele era teimoso e não dera ouvidos às palavras paternas.
Com o dinheiro no bolso, tomando cuidado para não ser roubado, Antônio foi até a cidade do Porto. Perto da cadeia havia um escritório de advocacia, bastante decrépito, mas dadas as circunstâncias, não podia escolher um que tivesse luxo na isntalação, pois certamente lhe cobraria muito caro. Após esperar por umas duas horas, conseguiu ser atendido e verificou que ali mesmo havia uma pilha enorme de processos com a mesma matéria. O Doutor José Guimarães estava reunindo todos os processos e assim daria encaminhamento de uma única vez ao Meritíssimo Senhor Juiz. Tornaria as custas menores e assim o dinheiro que Antônio levava seria suficiente, sobrando um pouco para retornarem em paz para casa.
 
Foram precisos alguns dias para que tudo tramitasse e ao final da semana, passando pelo escritório do causídico, soube que o irmão seria solto na manhã de sábado. Deveria tratar de voltar para casa o mais rapido possível, para não ser visto pelas proximidades perambulando, sob pena de tornar para a prisão. Os agentes de segurança eram terríveis. Marcavam as fisionomias e por qualquer ninharia levavam os ex-prisioneiros novamente a cadeia.
 
Nas primeiras horas de sábado Antônio estava esperando pelo irmão que saiu parecendo um farrapo humano. Passara quase um mês na prisão e isso deixara marcas. Elas certamente permaneceriam por muito tempo, possivelmente para sempre. Manoel caiu nos braços do irmão aos prantos. Antônio o amparou e ajudou a caminhar. Passaram em um local onde se vendiam roupas e adquiriram algo melhor para vestir, pois o que trazia no corpo eram frangalhos. O dono do estabelecimento ofereceu um cubículo nos fundos onde foi possível se lavar razoavelmente e trocar a roupa. Antes de irem tomar o trem para Ancede, foram comer em uma birosca nas proximidades da estação. Antônio se emocionou a ver o irmão devorar faminto até mesmo alimentos que normalmente talvez não quisesse, ou não estivesse disposto a comer. A fome é o melhor tempero.
 
Embarcaram no trem na segunda classe e voltaram. Chegaram já no começo da noite, devido às frequentes paradas no meio do caminho. A família recebeu os dois com júbilo, mas Manoel estava abatido. Mesmo a alegria de estar livre, não foi capaz de remover de seu semblante uma núvem de tristeza. Aquele período na prisão, provocara uma transformação profunda em seu espírito. Antes sempre falador e com as palavras na ponta da língua para replicar, rebater e discutir, agora estava pensativo. Falava devagar, com poucas palavras. Parecia temer dizer algo além do conveniente. Os irmãos queriam saber como fora a experiência, mas ele não tinha, pelo menos no momento, disposição de contar nada.
 
Dolores aconselhou os demais a deixarem o tempo passar. Também Joaquim deixou as reprimendas que preparara para mais tarde, talvez nunca. Parecia que o filho tivera uma dose gigantesca de algo que ninguém ali poderia lhe dar. Sentira dor, tinha marcas ainda mal cicatrizadas por todo corpo e ninguém perguntou como isso acontecera. Com certeza iriam reavivar a dor sentido no momento das agressões.
 
Depois de ficar o final de semana em casa, Manoel voltou ao cais para ver se ainda poderia trabalhar lá. Foi olhado com desconfiança. Temiam que tivesse revelado coisas que ninguém queria que fossem tornadas públicas. Infelizmente sua vaga na oficina estava preenchida. Haviam pensado que ele ficaria por muito tempo preso ou talvez nunca mais voltasse. Teve vontade de perguntar se os colegas de aventura haviam voltado, mas preferiu ficar quieto. Quanto menos mexesse nesse caso, melhor seria. Voltou para casa cabisbaixo e acabrunhado. Não tinha vontade de voltar a antiga oficina, embora soubesse que estavam necessitando de alguém como ele.
 
A necessidade falou mais alto e voltou para o antigo trabalho. O que todos estranhavam era o fato de não ser mais o rapaz alegre e brincalhão de antes. Era agora um rapaz com um olhar meio carrancudo, pouco disposto a falar, menos ainda sobre suas experiências recentes. Competente como sempre for a, fazia seu trabalho e depois se recolhia a casa dos pais. A partir de certo dia começou a passar em um boteco do caminho e tomava uma bebida, coisa logo percebida por Dolores. Ele antes não foram chegado ao álcool e agora dera para voltar um pouco alto. Tentou conversar com ele mas não houve resposta mais consistente. Pediu que o deixassem em paz, só isso.
 
Em um belo dia, depois de um ano e meio, reuniu suas roupas e demais pertences em uma pequena mala que adquirira numa loja de coisas usadas. Surpresa a mãe perguntou:
– Tu vais viajar, meu ?
– Vou, minhã mãe. Vou para o Brasil.
– Para o Brasil? Que é que tu vais fazer no Brasil?
– Ouvi dizer que lá há tempo acabou a ditadura, o governo está se esforçando por implantar reformas para melhorar a condição dos trabalhadores. Tem muita gente indo para lá, mãe.
– Mas tu vais ficar tão longe, filho! Vou morrer de saudades de ti.
– Prometo escrever sempre. O que a senhora queria e já fiz. Parei de beber, reparou?
– Reparei! Apenas não quis dizer nada para não provocar lembranças do passado.
– Isso já passou. Aprendi a lição. Vou trabalhar na indústria no Brasil. Ouvi dizer que vão instalar fábricas de automóveis, fábricas de peças e tudo isso gera muitos empregos.
– Vou acender umas velas para Nossa Senhora. Que Deus te abençoe. Já falaste para o teu pai?
– Ainda não. Vou falar hoje e amanhã embarco no trem depois da noite. Um navio vai zarpar depois de amanhã e vou me empregar como faxineiro ou coisa assim para pagar a passagem.
– Eles aceitam isso? Ouvi dizer que maltratam bastante esses que viajam assim.
– Garanto que não maltratam mais que os guardas na cadeia. Pode me acreditar que sim, mãe.
Nisso o pai estava chegando e ouviu o final da conversa. Parou na expectative de saber o que acontecia e Dolores foi a primeira a falar:
– Joaquim! Nosso Manoelzinho vai embora para o Brasil!
– Que estás a dizer, menino? Ir embora para o Brasil? Vais ffazer o que lá, se não tens diploma de nada?
– Ouvi dizer pai, que lá tem emprego sobrando. O governo mantém cursos de preparação para os que querem trabalhar nas indústrias que estão instalando.
– Minha Nossa Senhora! Essa agora! Não tiveste suficiente com a temporada na cadeia?
– Pai é exatamente isso que me leva a partir. Não passa uma semana sem que apareça um agente de segurança perguntando por mim, querendo saber onde andei e o que fiz. Não aguento mais. Vou para longe desse país, onde só vivi coisas desagradáveis.
– Não fales assim de tua patria, menino.
– Uma patria que maltrata os filhos, coloca na cadeia quem não fez nada, não cometeu nenhum crime e depois ficá perseguindo! Essa patria eu renege, meu pai.
– E te vão a deixare sair assim, sem mais aquela? Precisas de passaporte para viajar ao exterior.
– Me informei. Nos navios mercantes a gente embarca como marinheiro e vai para onde quiser. Quando chegar lá, no porto de Santos no Brasil, desembarco e me ajeito por lá. Me disseram que é bem fácil, principalmente para nós portuguêses.
– Não podes esquecer que vais estar longe e não poderemos sair correndo a te socorrer, se acontecer algo por lá. Estarás por tua própria conta.
– Tem um amigo que também vai. Estivemos juntos na cadeia e ele também não aguenta mais a presença dos molambos do governo. Vou fazer fortuna no Brasil e depois mando buscar vocês todos.
– Ai, ai, ai! Se fazer fortuna fosse tão fácil assim, muito português que foi para lá teria voltado cá de bolsos cheios, distribuindo gaita a torto e direito. Isso é história da carochinha.
– Eu vou e não volto. Só se ficar rico e então venho buscar vocês, se é que vão querer ir para lá.
– Tu já és crescido, já tens tua vida, não te posso segurar. Mas não esqueças de tomar cuidado. Viver num pais estranho não é fácil.
– Mas lá falam português que nem nós. Nem vão perceber que acabei de chegar. Depois de um tempo dou um jeito e arrumo os documentos para ficar definitivo por lá.
 
Os irmãos ficaram preocupados com a decisão de Manoel e tentaram demovê-lo de seu propósito, mas ele estava irredutível. O jeito foi deixar que seguisse sua vontade. O dia seguinte foi gasto em visitar os amigos e parentes, avós e primos para lhes dizer adeus. No começo da noite encontrou-se com o amigo Cláudio Menezes e juntos foram tomar o trem. Os familiares não os acompanharam, para não chamar a atenção. Estariam fazendo uma viagem comum. Logo estariam de volta.
 
De madrugada chegaram à estação ferroviária próxima ao cais do porto na desembocadura do rio Douro. Ficaram algum tempo até iniciar a aurora sentados em bancos, caminhando de um lado para o outro. Quando as primeiras luzes do dia se fizeram anunciar, sairam na direção do porto. Não lhes foi difícil identificar um grande cargueiro que estava atracado. Recebera uma boa carga de vinho e descarregara outra sorte de mercadorias. Dali sairia para Espanha, onde faria uma escala rápida, outra parada em Marraquesh no Marrocos e depois Recife no Brasil. Dali seguiria para o sul e pararia em Santos.
 
Porto do Marrocos.
 
Traziam um bilhete de um conhecido do porto de Ancede dirigido ao chefe do serviço de bordo do cargueiro. Em poucos minutos estavam subindo a bordo e sendo acomodados nos cubículos destinados aos serviçais. Sem demora receberam suas tarefas que deveriam ser cumpridas à risca, do contrário seriam entregues ao comandante que decidiria o que seria de suas vidas. Estavam decididos a chegar ao destino que tinham em mente e suportariam o que fosse preciso. Pior do que for a a prisão não deveria ser com certeza.
 
Ocupados com o trabalho, nem perceberm quando o barco foi rebocado para o largo de onde iniciou sua longa viagem. Na hora do almoço estavam viajando, não muito distantes da costa, pois iriam aportar no sul da Espanha. Nem pensar em descer a terra. No país vizinho vigorava o regime franquista, tão ou mais déspota que o de Salazar na própria patria. Seria o mesmo que saltar do fogo para a frigideira. Ao entardecer estavam perto do primeiro porto. A patria ficara para trás e ninguém os havia importunado. Agora era manter a boca fechada, trabalhar duro, por mais que fosse difícil. Por sorte essa viagem os levaria a liberdade, quem sabe à fortuna e uma vida melhor.
 
Enquanto o enorme navio devorava milhas atrás de milhas mar afora, os dois clandestinos, sob a proteção do encarregado de serviço, faziam as tarefas mais humildes à bordo. Não reclamavam e, nos raros momentos de folga, trocavam impressões acerca das viagens na época dos barcos a vela, séculos atrás. Hoje fariam a travessia em poucos dias, coisa que, mesmo com ventos favoráveis, demorava semanas intermináveis na era das caravelas. À noite, quando lhes era permitido tomar um pouco de ar fresco, sob a proteção da escuridão, ficavam olhando as estrelas e vendo como ia mudando a configuração do firmamento dia a dia. O momento de cruzarem o equador foi apenas lembrado, mas não puderam participar da comemoração tradicional em todos os navios. Era outro seu objetivo.
 
Porto do Recife

 

Navio atracado para carga e descarga – Recife.
 
Tão ocupados andavam que, ao menos esperarem ouviram falar que estariam atracando no Recife em poucas horas. Mesmo ali não desceram em terra. Poderiam ser descobertos e deixados por lá. Seu destino era Santos, no estado de São Paulo. Após uma escala de menos de um dia, partiram para o sul. Ao chegarem em Santos, o encarregado lhes deu um pequeno presente pelo bom serviço que haviam prestado. Na verdade tinha uma verba para contratar trabalhadores e ao fazer esse jogo com os pseudo-clandestinos, economizava um bocado. Não lhe custava dar uma gratificação a eles, uma vez que havia sido seu trabalho que garantira essa verba extra.
 
Foto do porto de Santos no século XIX, por Marc Ferrez.
 
Desceram sem problemas e se misturaram à uma multidão que por ali circulava. Encontraram sem maiores dificuldades um patrício que tinha um pequeno comércio nas proximidades. Estava na cidade há uns dez anos. Trabalhara por algum tempo como estivador, economizara bastante e conseguira comprar uma parte do bar. Com o tempo terminara comprando a outra parte e agora era dono do estabelecimento. Não ganhava fortuna, mas não passava apertos. Tinha sempre na algibeira o dinheiro para comprar o que queria, pagar suas contas, os impostos e alguma propina aos policiais para fazerem vista grossa às apostas de jogo do bicho que recebia.
 
Os dois comeram pela primeira vez comida preparada em solo brasileiro e conheceram alguns ingredientes que desconheciam na terra natal. O aipim era um deles e lhes pareceu saboroso, misturado ao arroz, feijão e com um naco de carne. Era confortador poderem conversar com alguém de sua terra, aqui distante. Ele lhes deu orientações de como proceder para se legalizarem e não terem mais problemas com as autoridades. Os nativos de Portugal eram tidos como irmãos no Brasil e por isso tinham a vida facilitada. Não lhes era exigido um visto de entrada, passaporte e depois de algum tempo, poderiam requerer sua documentação como brasileiros sem maiores problemas.
 
Para passarem os primeiros dias ele lhes ofereceu um quartinho nos fundos do estabelecimento. O custo seria simbólico para ajudar os patrícios. Na manhã seguinte sairam em busca de trabalho, mas primeiro circularam um pouco pela cidade para conhecer, percorreram todo porto que era enorme, cheio de navios atracados, inclusive aquele que os trouxera. Estava agora recebendo um carregamento de café, destinado ao oriente. Os estivadores pareciam um bando de formigas entrando e saindo dos armazéns com os sacos cheios do grão precioso que eram depositados em uma plataforma. Logo um guindaste deixava uma plataforma vazia e içava a primeira carregada, levando-a para o interior do barco.
Enquanto isso os sacos iam sendo empilhados na outra plataforma, num rítmo alucinante. Ficaram olhando alguns minutos e imaginaram se estariam aptos a enfrentar essa faina por dias seguidos. Manoel falou:
– Se pagarem um bom salário, eu aguento. E tu Cláudio?
– Nos primeiros dias acho que o cansaço iria ser pesado, mas aos poucos a gente acostuma.
– Vamos ver se nos aceitam para trabalhar?
– Vamos.
 
Foram informados de que precisariam se cadastrar no escritório com o administrador para depois serem colocados nas escalas. Não haveria dificuldades pois estava ocorrendo uma falta no momento de trabalhadores. Dessa forma ficaria bem fácil. Procuraram o escritório e lá, depois de apresentarem seus documentos portuguêses, foram cadastrados sem demora. Isso era uma vantagem. Pelo menos para isso Portugal tinha serventia. Facilitar a entrada e encontrar trabalho no Brasil. Bendito Pedro Alvares Cabral que descobrira o Brasil, pensaram os dois. Ao sairem dali com os cartões de registro na mão e indicação de que deveriam se apresentar na manhã seguinte para o trabalho, falaram ao mesmo tempo:
– Bendito…
 
Pararam e riram, pois haviam começado a dizer a mesma coisa que lhes ocorrera no momento de verem a facilidade encontrada para entrar e encontrar trabalho no país. Sabiam de alguma facilidade, mas não tamanha simplicidade. Voltaram ao bar e contaram ao novo amigo como for a fácil todo o processo.
– Eu falei! Aqui é um paraíso, comparado com Portugal.
– Estou começando a concordar consigo, – falou Manoel.
– Se dúvida que sim.
 
Em comemoração decidiram tomar um copo de vinho. Poderiam gastar uns cobres da gratificação recebida no navio. Afinal na manhã seguinte começariam a trabalhar na nova patria de que estavam começando a gostar. Mal sabiam que o trabalho de estivador era estafante e a remuneração não era exatamente justa. Por vezes os capitães dos navios cargueiros ofereciam gratificações, para acelerar o processo de carrgamento. Mas uma grande parcela desse dinheiro ia parar nos bolsos dos mestres de grupos e os controladores do porto. Havia ali uma espécie de mafia. Não deveriam se indispor com os chefões sob pena de ficarem sem trabalho.
 
Uma vez marcados, nunca mais encontrariam serviço ali no porto. Essa foi a orientação recebida do novo amigo. Ele tivera tempo de tomar contato com esse sistema. Vira muitos bons trabalhadores ficarem dias de braços cruzados sem conseguir trabalho, até decidirem ir embora. Outros encontravam um lugar em algum barco e viajavam para outros portos em busca de meio de ganhar a vida. Assim ficaram sabendo que nem tudo eram flores na terra que os acolhia. Também havia pedras e espinhos em abundância. O segredo era evitar os espinhos e desviar das pedras a tempo de não tropeçar.
 
Os primeiros dias foram de ficarem esfalfados, voltando ao final do dia para o quartinho com as costas doidas, as pernas e braços tremendo de cansaço. O corpo todo dolorido, o estômago roncando de fome, pois até para comer havia pouco tempo. Era suficiente apenas para jogar alguns bocados de comida para dentro, beber uma caneca ou duas de água e continuar na labuta. Depois de três dias quase sem descanso, houve um dia sem navio para ser carregado. Foram avisados que deveriam descansar bastante, pois eram esperados mais de quinze grandes embarcações nos próximos dias e todas receberiam um bom carregamento de café.
 
Aquela noite foi como um apagar da vela. Os dois cairam na cama, depois de uma refeição farta e um copinho de vinho para relaxar. Dormiram até sol alto na manhã seguinte. Mas haviam recebido o pagamento de sua primeira jornada e era agradável ter aquele dinheiro no bolso. Dinheiro brasileiro, até pouco desconhecido. Era preciso se habituar a ele, aprender o valor das notas, seu poder de compra. Decidiram ambos escrever uma carta aos familiares, contando as novidades. Também foram procurar um lugar mais confortável para viverem. O quartinho era muito pequeno. Servira por alguns dias, mas agora teriam que encontrar algo mais adequado.
 
Encontraram um quarto amplo, com guarda roupa e duas camas numa pensão, a preço módico. Ali estava cheio de estivadores vindos de todos os cantos do país, especialmente do nordeste, onde o trabalho era mais escasso. Havia estrangeiros de diversas nacionalidades, falando uma algarravia de português, misturado com suas línguas nativas, por vezes difícile de compreender. Tudo isso aos poucos ia sendo apreendido e dominado. Os músculos foram aos poucos acostumados ao esforço intenso. Os braços e pernas apresentaram o efeito do exercício cosntante, ficando mais musculosas. As veias ficavam salientes e visíveis. Boa parte do tempo trabalhavam somente de calças, sem camisa. Uma espécie de touca feita com um saco vazio cobria a cabeça e parte dos ombros.
 
Dessa maneira passaram a integrar um imenso contingente de trabalhadores braçais no porto de Santos. O que mais era movimentado ali era o café, sem deixar de haver o movimento em sentido inverso de grandes quantidades de produtos industrializados, ainda vindos na maioria do exterior. Um terminal de carga de minérios também funcionava, mas era pequeno o volume em comparação com o restante. A matéria prima exportada pelo país para alimentar a indústria dos países do exterior, era embarcada em outros terminais portuários, mais ao norte. Por ali voltavam os produtos industrializados.
 
Mudaram-se para a pensão, prometendo ao patrício do bar voltarem sempre que possível para conversarem. Ainda não tinham travado conhecimento com outros patrícios em atividade no cais. Pelo visto não eram abundantes. Via de regra iam diretamente para a capital São Paulo. Era esse o objetivo que Manoel alimentava. Não sabia se Cláudio comungava essa vontade, mas de sua parte ele ficaria ali até deixar sua situação legalizada. Depois partiria para a capital, em busca de empregos mais de acordo com suas habilidades. Era mecânico e não iria passar o resto da vida carregando sacas de café na cabeça. Não era essa sua intenção.
 
Os meses correram e os dois trabalharam duro. Economizavam, cada um com seus objetivos. Cláudio queria também tornar-se dono de um bar em algum lugar da cidade, ali mesmo em Santos. Propôs inclusive a Manoel tornarem-se sócios. Manoel recusou e expôs os seus planos. Ouvira falar das escolas com cursos técnicos que preparavam os trabalhadores que seriam empregados nas indústrias automobilísticas em instalação na região metropolitan da capital. Era essa sua meta e não iria desistir.
 
          Enquanto trabalhavam, foram convidados a fazerem parte de um sindicato dos estivadores. A princípio ficaram ressabiados, pois vinham de uma experiência nada agradável com algo semelhante nas terras portuguêsas. A insistência foi tanta que acabaram se filiando e contribuindo com pequenas parcelas de seus ganhos para a manutenção do organismo. Toda semana, ou a cada duas semanas, uma porção significativa dos rendimentos era depositada em uma conta de poupança da Caixa Econômica. Cada um controlava seus depósitos e avaliava a evolução de suas economias.
 
Porto de Santos hoje.
Porto de Santos 2
Pátio de conteiners em Santos.

 

Navio movimentando conteiners em Santos.

Imagens copiadas dos sites de imagens na internet, sob o título de imagens do lugar citado.

 

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