Um japonês especialista em cachaça! – Capítulo IV

Veiculos em São Paulo anos 50

 

Ônibus do transporte coletivo em SP.

 

Movimento nas ruas de SP nos anos 50.
Fotografias baixadas da página Fotos de São Paulo anos 50.

 

4. – Um bom começo, traz uma supresa 
 
desagradável.
 
            O almoço na pensão era simples mas bem temperado e nutritivo. Dona Marinês viera mocinha com os pais do nordeste e a vida dura levara-lhe os pais quando contava apenas com 16 anos. Um irmão mais velho e outros dois menores foram obrigados a dar conta de se cuidarem mutuamente. Empregara-se em um restaurante como ajudante e fizera de tudo. Começando com faxina, depois lavar louça, cortar legumes e finalmente iniciara seu aprendizado na cozinha. A cozinheira, já um pouco idosa, com gosto foi delegando tarefas à voluntariosa mocinha e assim em algum tempo tinha dominado todos os segredos que a velha senhora detinha.
 
            Um dia a cozinheira ficou doente e foi desenganada pelos medicos. Como isso aconteceu de um momento para outro sem aviso prévio, quem ficou provisóriamente no lugar da cozinheira, foi Marinês. Colocou em prática tudo que aprendera e usou a criatividade para incrementar alguns pratos, sem no entanto alterar-lhes a essência. Resultou que no final da refeição o dono do restaurante veio lhe dar congratulações pelo excelente desempenho. Vários clientes habituais haviam vindo lhe externar sua satisfação com os pratos que haviam ficado mais saborosos. Indagaram inclusive se havia trocado a cozinheira, ao que ele falou que não. Deveria ser alguma inovação da mesma.
 
            Não faria uma mudança definitive antes de saber o verdadeiro estado da antiga funcionária. Sabia que ela era idosa e poderia não resistir ao ataque de coração que sofrera. Após uma semana de internação, pequenas melhoras e recaídas depois, a velha profissional encontrou o descanso eterno. Restava ao proprietário decidir pela contratação de uma nova cozinheira ou confirmar a antiga ajudante para a posição de titular. Decidiu esperar mais um ou dois dias e observar o comportamento da jovem. Ao final da semana, antes de qualquer decisão, foi conversar com Marinês.
 
            A coitada levou um susto quando o patrão veio lhe falar novamente em questão de poucos dias. O falecimento da chefe havia deixado uma lacuna profunda e ela imaginou que havia sido considerada incompetente. Seria provavelmente despedida e teria que procurar outro trabalho. Ao contrário do que supunha, o patrão veio lhe propor algo que mudaria sua vida.
            – Marinês, você aceita ser a nova cozinheira chefe?
            – Eu, seu Júlio?
            – Sim, você. Por que a surpresa?
            – Pensei que o senhor não estava satisfeito com meu trabalho e iria me demitir.
            – Demitir você! Não notou que nesses dias houve um aumento bem grande de fregueses no estabelecimento? Desde aquele dia que vim lhe fazer o elogio a cada dia mais gente nova tem vindo comer aqui e depois veio elogiar sua comida.
            – Eu estava ocupada trabalhando e nem percebi nada.
            – Quer dizer que não tem nada contra a ideia?
            – Espero saber fazer tudo o que a Dona Joana fazia. Ela tinha muita experiência.
            – Eu acho que você soube aproveitar bem a convivência com ela e aprendeu tudo direito. Vou avisar aos demais auxiliares que a partir de hoje você é a nova cozinheira chefe. Seu salário vai melhorar bastante e espero que saiba mandar os outros fazer o serviço menos importante. Dedique sua atenção aos detalhes para que os pratos fiquem ainda melhores. Acho até que pode aprender a fazer algumas coisa novas. Vou verificar se há alguém para lhe passar umas receitas diferentes. Vamos ampliar nosso cardápio.
            – Eu nem sei o que dizer, seu Júlio. É claro que eu aceito e quero que sempre me fale se alguma coisa tiver que ser melhorada.
 
            Assim ela assumira a chefia da cozinha do restaurante e algum tempo depois ele se tornara um dos pontos mais procurados pelos comerciários, funcionários públicos, advogados e mesmo empresários que estavam na região, na hora de almoçar e jantar. A nova posição de Marinês no restaurante, permitiu ajudar mais a família e custear os estudos dos irmãos para poderem ocupar melhores posições. Um belo dia encontrou um conterrâneo muito galante, aparentava estar bem colocado na vida e se apaixonou por ele. Após alguns meses se casaram e foram morar na casa que Marinês conseguira comprar com suas economias.
 
            O mais triste da história veio depois de passados os dias de festa e comemoração. O noivo apaixonado, gentil e atencioso, sempre ostentando prosperidade, mostrou ser bem diverso, uma vez casados. Sua prosperidade era apenas de fachada, começando a ficar até tarde na cama, usando para isso uma desculpa qualquer. Logo começou a pedir dinheiro para despesas de viagem de negócios e Marinês, a princípio deu de bom grado. Um momentâneo aperto logo seria superado e tudo voltaria ao que parecera ser.
 
            No entanto esse dia de normalizer tudo nunca chegou. Ao contrário, cada vez mais o marido se tornava exigente, pedindo mais dinheiro, demonstrando um ciume doentio, querendo vigiar os passos da esposa. Isso não tardou a deixare a infeliz bastante constrangida. Tinha crises de nervosismo no trabalho, mostrava-se irritadiça com as auxiliares, cometeu alguns erros na preparação de pratos e o patrão percebeu.
 
            Veio conversar com Marinês querendo saber o que acontecia. Inicialmente ela deu a desculpa de que andava nervosa. O marido a pressionava para terem um filho e ela estava demorando a engravidar. Isso a deixava for a de seu normal. Por algum tempo isso funcionou, ela se esforçou por controlar suas reações indesejáveis e aparentemente tudo voltou ao normal.
 
            Um dia o marido veio pessoalmente ao restaurante fazer exigências à mulher. Queria que ela exigisse aumento de salário, participação no negócio, pois ela teria condições perfeitamente de buscar trabalho em um estabelecimento mais categorizado. Julio ficou indignado, pedindo de modo firme, embora comedido que ele se retirasse do recinto. Os clientes ficaram alarmados e alguns se puseram ao lado do dono para lhe garantir a segurança. Um deles saiu de mansinho indo em busca de socorro policial existente não muito longe.
 
            Alguns minutos depois uma dupla de agentes de segurança chegaram ao estabelecimento e convidaram o arruaceiro a se retirar. Diante da recusa, deram-lhe voz de prisão e o levaram ao destacamento a duas quadras dali.
 
            Quando Marinês soube como o episódio terminara caiu em uma crise de choro e desespero. O que seria de sua vida? Como poderia continuar trabalhando se o marido estava se indispondo abertamente com o patrão? Os auxiliares a confortaram e se esmeraram em seguir suas orientações para completar o serviço daquela refeição. Depois do encerramento do serviço, Júlio chamou seu advogado e debateram a atitude a tomar diante do acontecido. Marinês estava preocupada com a prisão do marido. Também temia pelo que ele faria se fosse solto. Como ele iria reagir a tudo isso? Em menos de dois anos de casamento ele se transformara de um homem gentil, suave e carinhoso em alguém irascível, cruel e malvado. Em várias ocasiões se mostrare relativamente agressivo.
 
            Ainda não a agredira para valer, mas temia que isso seria apenas questão de dias, talvez mesmo hoje. O advogado sugeriu que deixassem o arruaceiro curtir um dia ou dois na cadeia. Isso Marinês julgou ser o pior a fazer, pois demosntraria pouco caso com a sua condição. Acompanhada do homem de leis foi até a delegacia para verificar em que pé estava a situação do marido. Lá chegando, foi avisada pelo delegado que o mesmo estava na cela igual a um tigre selvagem enjaulado. Trocaram impressões sobre a melhor atitude a tomar e, a pedido de Marinês, ele foi solto. Não sem antes receber do delegado uma boa descompostura pela desordem que causara no restaurante.
 
            Na hora ele prometeu se emendar, mudar de atitude, dizendo que estivera transtornado por negócios que não haviam corrido como o esperado. Clientes que lhe haviam dado calote e coisas assim. Marinês tinha quase absoluta certeza de que isso tudo não passava de invenção. Desconfiava há algum tempo de que na verdade ele não trabalhava, apenas gastava dinheiro e talvez mesmo participasse de atividades ilícitas. Apenas não tinha provas nem certeza de nada.
 
            Saíram da delegacia e seguiram para casa. Depois que se separaram do advogado o indivíduo não tardou a voltar com suas exigências à Marinês. Queria que ela se demitasse do restaurante e ele a levaria a um amigo, dono de outro estabelecimento. Ali se tornariam sócios, ganhariam muito mais dinheiro e ele inclusive assumiria a gerência, pois o dono estava adoentado. Precisava de tratamento e repouso. A insistência foi tanta que ela por fim aceitou.
 
Carros antigos em São Paulo.

 

Desfile de Romi-Isettas em São Paulo
 
            A saída de Marinês do restaurante, deixou Júlio muito compungido. Não seria fácil encontrar alguém para substituí-la com facilidade. Uma ajudante novamente veio a resolver seu problema. Não tinha o traquejo de Marinês, mas com um pouco mais de prática daria conta do recado.
 
            Marinês foi para o novo restaurante, mas nada do que o marido falara era verdadeiro. O dono era bastante grosseiro, exigente e para falar a verdade, pouco entendia do negócio. Depois descobriu que ganhara dinheiro de maneira pouco limpa e agora queria ter seu negócio legal, honesto. Assim teria uma forma de dar uma orígem aparentemente honesta, ao dinheiro que tinha. Desconfiou que não deixara de exercer sua atividade ilícita, inclusive que o marido era cúmplice dessa ocupação. O tempo passou, uma série de desentendimentos com o patrão, levaram Marinês ao ponto de querer largar tudo e desaparecer. Em um belo dia ouviu o marido falando com o patrão e combinarem o próximo golpe. Sentiu o coração desfalecer.
 
            Então era essa a fonte do dinheiro usado pelo agora marido, no tempo de namoro e noivado, para aparentar prosperidade. Estavam metidos em roubos e receptação de mercadorias roubadas. Tinham um esquema de suborno com homens da polícia e mesmo dos escalões superiors para lhes dar amparo as atividades. Ficou apavorada com a descoberta. Durante vários dias ficou indecisa. Deveria revelar o que sabia às autoridades? Deveria ficar quieta e fazer de conta não saber de nada? Havia o risco de ir denunciar exatamente a alguém que estivesse mancomunado com a quadrilha. Isso a colocaria diretamente na boca do lobo. Em caso de descobrirem as atividades ilegais, qual seria sua defesa?
 
            Depois de muito pensar, aproveitou um momento de folga e foi falar com o Senhor Júlio. Meio sem jeito procurou contar o que ficara sabendo e revelou suas dúvidas sobre o que fazer.
            – Mas você tem certeza disso que me falou?
            – Eu ouvi eles falarem sem medo. Pensavam que eu tinha saído para fazer compras. Voltei antes e eles não perceberam. Quando terminaram eu saí de perto para não me verem. Acho que se eles descobrissem eu ali escutando, seria possível até que corresse perigo de vida.
            – Penso que deveria denunciar isso, mas sem que seu nome apareça. Me autorizas a conversar com o advogado sobre isso?
            – Eu não sei se devo, mas preciso fazer alguma coisa. Não posso ficar quieta esperando sem fazer nada. Eu também estou envolvida nisso. Afinal sou casada com um deles.
            – Volta para a sua cozinha, Marinês. Fica quieta e deixe por minhã conta. Vou conversar com meu advogado e encotraremos uma forma de ajudar você. Talvez se consiga fazer uma denúncia ou passar uma pista para autoridades superiores.
            – O complicado é saber que tem gente graúda envolvida na história.
            – Temos que tomar cuidado para que isso não caia nos ouvidos errados, que o tiro pode sair pela culatra.
 
            Marinês voltou ao novo restaurante bem a tempo de não ser surpreendida pelo marido durante a volta. Isso não podia acontecer de maneira alguma. O advogado ouviu de seu Júlio a narração da história e começou a juntar os fatos. Havia um rumor de que existia uma quadrilha dedicada a roubos, assaltos diversos, e ninguém sabia quem eram os cabeças. Os pequenos delinquentes era presos e interrogados, mas não revelavam os nomes de quem comandava o esquema. Não tardava e algum advogado apresentava um habeas corpus, conseguia impugnar os depoimentos, desqualificar as testemunhas e livravam o malfeitor. Enquanto isso a quadrilha prosseguia em atividade. Passavam alguns dias quietos e logo voltavam a agir, mudando de região, de foco de seus ataques. Assim disfarçavam bastante as pistas, dificultando sua identificação.
 
            O advogado fizera algumas indagações de modo sutil e soubera de um promotor interessado em por a quadrilha atrás das grades. Alegando um motivo qualquer agendou uma entrevista com o jurista. Depois de falar de assuntos de menor importância abordou o verdadeiro motivo que o levara ali. Narrou por alto os fatos, sem inicialmente citar nomes. Depois disso o interesse do promotor estava despertado. Indagou detalhes e pormenores. O advogado decidiu contar todos os detalhes. O homem encarregado de fazer a aplicação da lei, ouviu com atenção, anotou tudo detalhadamente e prometeu sigilo absoluto.
 
            Dispunha de maneiras de conduzir uma investigação, usando para isso homens de sua confiança nas fileiras das forças de segurança. Quando tudo estivesse descoberto e identificado, as prisões seriam efetuadas de uma única vez. Demorou alguns meses até que a equipe do promotor conseguiu levantar todas as informações. Na verdade o que parecia uma pequena quadrilha, revelou-se uma organização bem mais ampla, com ramificações em diferentes areas e escalões dos órgãos públicos. Seria uma operação bem complexa e o êxito era bem difícile, devido a impossibilidade de saber em quem seria possível confiar. Qualquer funcionário, agente ou mesmo autoridade, poderia ser um integrante da organização criminosa.
 
            No final conseguiu reunir provas suficientes para prender de uma única vez, pelo menos, a maioria dos cabeças da organização. Era claro que alguns iriam escapar, mas se conseguissem lhe quebrar a espinha dorçal, talvez depois fosse possível desmontar o resto. No mínimo demorariam muito para refazer toda estrutura. No dia que iriam realizar as prisões, a quadrilha tinha marcado mais um grande golpe. Havia um agente de confiança infiltrado e estava passando as informações de tudo. No momento da ação criminosa, os bandidos foram até certo ponto como tudo for a combinado.
 
Bondes convivendo com os carros nos anos 50 em SP.

 

Uma das primeiras trincheiras nas ruas de São Paulo.
 
            De repente apareceram veículos de policiais, agentes a pé, policiais militares de todos os lados, como um verdadeiro enxame. Enquanto os encarregados de realizar a ação criminosa foram surpreendidos e presos em sua quase totalidade, os cabeças identificados até ali, eram surpreendidos em suas casa por outras equipes e por sua vez conduzidos ao quartel general da operação. Reuniram um contingente bem maior de pessoas do que inicialmente haviam sido identificados. Foi preciso fazer uma triagem para ver quem realmente fazia parte e quem caira no meio da questão por acaso.
 
            Para surpresa das autoridades, encontraram no meio dos detidos uma porção de rostos conhecidos, ocupantes de posições dentro da administração pública e das forças de segurança. Isso ocorrera nos anos após o término da Segunda Gjerra Mundial. Os processos de investigação continuaram, os julgamentos e condenações foram extensos, alguns conseguiram ser absolvidos ou ter suas penas reduzidas. Os principais chefes eram exatamente o patrão e o marido de Marinês. Os dois se viram condenados a penas bastante longas.
 
            O que aumentara suas condeçaões foram as acusações cumulativas de assassinatos, com formação de quadrilha, roubos e assaltos. Dessa forma eles permaneceriam por mais de quinze anos enjaulados. Era possível que, se tivessem bom comportamento, em oito ou dez anos viessem a gozar de regime semi-aberto ou algo assim. O restaurante foi interditado, ficando Marinês momentaneamente sem emprego. Nessa situação encontrou-se com Júlio e ele lhe indicou um estabelecimento que estava à venda. Conseguiur vender a casa que era sua, tinha algum dinheiro guardado e o que faltou o antigo patrão lhe adiantou. Ela adquirira a pensão, onde até hoje trabalhavad, vivendo e lamentando sua má sorte.
 
            Tivera nas mãos a grande chance da vida e a desperdiçara com um homem que, ao que parecia, estaria saindo em pouco tempo da prisão. Manoel enquanto isso se tornou elemento essencial na oficina de seu Chico Cearense. O que aprendera na terra natal estava servindo para lhe garantir um meio de sobrevivência nesse início na capital paulista. O patrão estabelecia os preços dos serviços e lhe pagava uma comissão sobre o total, descontado o custo das peças. Ele desconfiava que as peças custavam menos, mas não tinha acesso à esses detalhes. Nem se preocupou demasiado com isso , pois não tinha intenção de fazer disso seu modo de vida. Esperava apenas terminar seu curso no SENAI para ir em busca de um lugar na indústria. Os meses passaram e as aulas de aprendizagem, embora exigissem bastante dos alunos, eram extremamente estimulantes.
 
            Desde criança Manoel sonhara com aquilo. Teria como participar da fabricação de peças para os automóveis que iriam ser produzidos no país. Certo que seria apenas uma peça na grande engrenagem da indústria, mas um bom número de pessoas iria rodar pelas rodovias do país, em um veículo com algumas peças que ele ajudara a fabricar. Isso o enchia de vontade para continuar a estudar e logo estaria usando um uniforme de uma grande indústria.
 
            Quando terminou o custo, tendo sido aprovado com louvor e recebido seu diploma, procurou a fábrica da Willys Overland do Brasil, mas ali não havia vagas para a sua especialidade. O encarregado da recepção lhe deu a indicação para procurar uma das indústrias de peças. Na fábrica de automóveis, na verdade apenas era feita a montagem dos carros, a solda das peças de carroceria, a pintura e por último a colocação das demais peças como eixos, rodas, Sistema de transmissão e moteres. Por último vinha o acabamento e controle de qualidade.
 
            Um pouco frustrado foi até uma das indústrias de peças. Na primeira não usavam muito serviço de tornearia, mas na segunda sim, encontrou o que procurava. Preencheu sua proposta, deixou as informações de sua habilitação e lhe prometeram entrar em contato em alguns dias. Voltou para a pensão e no dia seguinte foi trabalhar na oficina para ocupar o tempo. Tinha serviço começado e queria terminar. Um carro estava com a suspensão toda desmotada, esperando peças para substituição das que estavam desgastadas. Ao chegar o patrão o chamou e indicou onde estavam as peças que deveria usar.
 
            Eram usadas, pois o carro era mais antigo e não existiam peças novs genuinas. Tinham que recorrer aos depósitos de ferro velho que desmotavam os carros, por algum motivo destruidos ou danificados. As peças eram vendidas para usar nos veículos do mesmo modelo que estivessem precisando ser consertados. Levou todo material para perto do lugar em que iria trabalhar e começou a executar o trabalho com diligência. Em alguns momentos pediu ajuda a um rapaz ainda aprendiz, quando era necessária força auxiliar. Dessa forma, ao final do dia o serviço estava quase pronto.
 
            Chico perguntou se poderia excepcionalmente terminar o serviço, pois o dono tinha urgência. Como não tinha mais o compromisso de ir para aula à noite, continuous e quando já anaoitecia, conseguiu terminar de colocar a última peça. Conferiu tudo desde o começo e constatou que estava tudo em ordem. Nenhum parafuso ficara sem apertar devidamente, nenhuma trava faltava ser colocada. Estava pronto para um teste de rua. Chico sentou-se ao volante e fez o motor funcionar. Depois de uma tossida inicial, devido ao fato de ter ficado alguns dias parado, o motor roncou forte. Foi dada uma volta na quadra e não se verificou nenhum problema.
 
            Nisso o dono do veículo chegou, viu o serviço pronto, deu por sua vez uma volta e verificou que ficara tudo em ordem. Regateou um pouco na hora de pagar, mas no fim quitou o débito e saiu dali dirigindo seu veículo reformado. Estava pronto para mais uma longa temporada de bons serviços.
 
            Nesse meio tempo, o ex-marido de Marinês e o comparsa haviam sido liberados da prisão em liberdade condicional. Como pau torto não endireita, em poucos dias haviam articulado um esquema de conseguir dinheiro de modo fácil. Alugaram um grande galpão, meio abandonado e ali iniciaram a desmontagem de carros roubados. As peças eram vendidas nos ferros velhos, cujos donos não perguntavam da procedência. Bastava que o preço estivesse em níveis aceitáveis e o negócio era fechado. Assim começou a ocorrer um surto de roubos de carros em todo estado. Por caminhos tortuosos, placas trocadas, na calada da noite eles eram trazidos para o galpão onde um grupo de elementos se encarregava do desmonte.
 
            Em algumas horas o carro desaparecia, sem deixar vestígio. As peças eram levadas para os mais distantes recantos da capital, expostas em ferro velho. Os donos de oficinas agradeceram uma oferta extraordinária de peças para reposição nos carros que tinham que consertar. Antes chegavam a demorar vários meses até conseguirem peças e poderem fazer a manutenção. Além de tudo, os veículos desmontados ocupavam os espaços em suas oficinas.
 
            Por outro lado as autoridades policiais se viam às voltas com um crescente número de queixas de roubo de veículos, ocorridos nos mais distantes recantos do estado. Não havia uma região de concentração. Aconteciam roubos em toda parte, de modo sistemático. O que mais intrigava era o fato de que esses veículos simplesmente sumiam de vista. Por mais que se procurasse, não era possível encontrar nem rasto. Em determinado momento um agente reparou num caminhão carregado de peças de automóveis. De onde viriam essas peças?
 
            Decidiu seguir o veículo e viu quando ele encostou num ferro velho e ali descarregou parte do que trazia. Depois foi até outro estabelecimento semelhante e descarregou o restante. Levou a questão ao delegado sob cujas ordens servia. Relatou detalhadamente o que observara e o superior perguntou:
            – E o que tem isso? Deve ser um ferro velho vendendo para outro peças que estão sobrando, não acha?
            – Tive a impressão de que ali tem coisa errada, doutor. O motorista e o ajudante, ficavam olhando de modo estrando ao redor, como se temessem ser surpreendidos a qualquer momento.
            – Anotou o modelo do caminhão, o número das placas?
            – Claro, doutor. Até já fiz o levantamento do nome do proprietário. Está tudo aqui.
 
            Estendeu uma folha de papel em que anotara tudo que conseguira reunir. O delegado leu tudo e quando viu o nome do dono do caminhão, teve um lampejo de entendimento. O nome não lhe parecia estranho. Apenas não lembrava de onde o conhecia. Isso não seria difícile descobrir. Bastaria mandar um aviso a todas as delegacias e órgãos policiais. Em um ou dois dias teria a informação. Se o nome fosse de alguém ligado a atividades criminosas logo teria a resposta.
 
            O que ele não esperava, era que as placas levaram a um endereço e um homem que tivera seu carro furtado há algum tempo. As placas pertenciam a um automóvel de passeio e não um caminhão. Isso deixou o caso mais complicado. Significava que o tal caminhão também era provavelmente furtado e as placas eram falsas. Precisariam mandar um aviso a todas as unidades policiais para ficarem de olho nesse caminhão. Depois seria esperar pelas respostas.
            Em três dias chegou a resposta. O veículo estava naquele momento descarregando peças de automóvel num ferro velho no bairro, bem perto da delegacia. Sem demora uma equipe foi até lá para averiguar. Ao chegarem o veículo estava de saida. O motorista lançou um olhar enviesado aos agentes e seguiu seu caminho. O chefe da equipe resolveu seguí-lo e logo percebeu a tentative de despiste que ele estava usando. Quando entrou em uma rua que não tinha outra saída salvo do outro lado, depois de uma grande volta. Conseguiram avisar uma outra equipe para ficar de campana na saída da rua enquanto eles o seguiam de longe, como quem não está interessado nele.
 
            Num dado momento, o caminhão sumiu de vista, depois que passou por uma curva e nada mais era visível. A única coisa na redondeza era um velho galpão, que certamente pertencera a alguma empresa que fechara as portas ou encerrara sua atividades no local. Pararam a alguma distância e caminharam lentamente até as proximidades parando para ouvir detalhadamente. No início não ouviram nada, mas um ruido de marteladas vinha de longe, o tinido de ferramentas era levemente audível. Isso deixou os policiais em alerta.
 
            Comunicaram com a delegacia e deram conta do que acontecia. O delegado decidiu sabiamente chamar a equipe de volta. Mandaria alguém sem identificação vigiar o logal depois. Estava parecendo que estava prestes a identificar uma organização bem maior do que imaginava. Os encarregados de vigiar foram dois agentes, disfarçados de varredores, roçadores para remover o mato que crescia em alguns lugares ao longo da rua. Enquanto trabalhavam, ficavam vigiando o galpão. Durante o dia não viram nada de anormal, a não ser um outro caminhão saindo com a carroçeria coberta por uma lona. Era possível suspeitar de peças de carros escondidas debaixo do encerado.
 
            O delegado decidiu deixar outra equipe de plantão para vigiar durante a noite. Era provável que os veículos roubados eram trazidos sob o disfarce da escuridão. E foi isso que aconteceu. Em horários diversos, três carros de passeio e um pequeno caminhão entraram no galpão. O portão foi fechado e não se viu ninguém sair. Provavelmente os motoristas tinham de um lugar de saída por outro lado, para não dar na vista. Tendo essas informações em mãos, o delegado se reportou aos superiores pedindo orientações e reforços para uma ação conjunta. Desconfiava tratar-se de uma quadrilha superior às forças de que dispunha em sua delegacia.
 
            Foram feitas mais algumas diligências e fez-se um levantamento de todos os estabelecimentos de comércio de peças usadas que recebiam suprimentos provenientes desse galpão. Poderiam ter também outros lugares de fazer o desmanche. Uma vez feito o levantamento, até as oficinas que compravam as peças dos carros roubados foram identificadas. Uma delas era a de Chico Cearense, onde Manoel trabalhava.
 
            No instante em que o dono do carro embarcou para sair dali, a oficina foi invadida por um grupo de policiais, dando voz de prisão a todos os presentes. Surpresos ninguém se mexeu, pois não sabiam de nada anormal em suas vidas. Em poucos minutos estavam sendo conduzidos a delegacia mais próxima para serem interrogados.
 
            As perguntas giravam em torno da questão de compra de peças usadas em ferro velho para colocação em veículos estragados. Foram confrontados com o fato de existir uma quadrilha de roubos e desmonte de carros, para vender as peças. Nem Chico, muito menos Manoel e os outros que estavam com ele, tinham qualquer ideia desse assunto. Foram identificados e seus depoimentos anotados. Depois disso foram liberados e puderam voltar para casa. Ninguém tinha ideia do significado daquilo tudo. Chico comprava suas peças usadas há anos dos mesmos fornecedores. Realmente percebera ultimamente a existência mais abundante de peças a venda, mas jamais imaginara que isso se devia ao roubo que aumentara recentemente.
 
            Manoel chegou na pensão tarde da noite, com fome e teve que se contentar com um copo de leite que encontrou na geladeira e um pedaço de pão. Comeu e foi dormir. Na manhã seguinte decidiu dormir um pouco mais e depois foi tomar café. Enquanto comia, Marinês indagou de sua vida e ele lhe narrou o que acontecera no dia anterior. Nesse momento ela deu um pequeno “tapa” na própria testa e falou:
            – São eles!
            – Quem dona Marinês?
            – São eles. Sairam da prisão há uns três meses e já estão aprontando outra vez.
            – Continuo não entendendo. De quem a senhora está falando?
            – Do meu ex-marido e do comparsa dele. Estavam presos há mais de dez anos e agora estão soltos. São paus tortos que não endireitam nunca.
            – A senhora acha que eles tem a ver com a questão dos roubos de carros?
            – Isso começou quando? Não faz coisa de dois ou três meses?
            – Pelo que o delegado falou, sim. Mas será que eles sairam da prisão e já estão metidos em roubo de carros?
            – Sou capaz de apostar que sim.
            – Tomara que peguem eles logo.
            Ao chegar à oficina, Manoel viu a porta fechada. Uma fita amarrada e um pequeno cartaz dizia: “Estabelecimento interditado até o esclarecimento de utilização de peças de carros roubados”.
 
            Pronto. Mais uma vez via sua vida sendo envolvida de modo indireto em questões com a justiça. Só torcia para que não viesse atrapalhar seu ingresso na indústria. Investira seu trabalho, seus esforços na obtenção dos requisites para esse emprego e não queria que um envolvimento com justiça viesse atrapalhar seus planos nesse momento.
 
            Dois dias depois saiu nos jornais estampada a fotografia dos dois ex-presidiários, que estavam comandando uma organização dedicada ao roubo de carros e posterior desmonte. As peças eram vendidas aos donos de ferro velho, que por sua vez as vendiam aos donos de oficinas ou carros para aplicação nos veículos quebrados. Junto com eles um grande grupo de ladrões, puxadores, motoristas foi detido. As culpas eram menores, porém todos tinha sua participação nas ações criminosas. Até mesmo uma ou duas mortes haviam ocorrido durante as ações de roubo, quando os donos reagiram a ação.
 

 

            A sorte era que os donos de oficinas eram tidos como partícipes sem culpa, apenas tendo servido como aplicadores finais das peças. Não tinham como saber da orígem criminosa do que compravam. Os preços haviam continuado no mesmo nível de sempre, até um pouco mais caras em alguns casos. Dessa forma foram inocentados. Isso significou um imenso alívio para Chico Cearense e seus empregados. Quem mais ficou satisfeito com esse desfecho, foi Manoel. Não teria por que temer quanto ao seu ingresso na indústria. 
 
Ponte sobre avenida em São Paulo.

 

Garagem americana nos anos 50.
 

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