Um japonês especialista em cachaça – Capítulo V

Vista aérea do centro de São Bernardo do Campo

 

Vista ampliada do sentro de SBC

 

Vista Terraço Itália, anos 50/60

 

5. Operário industrial.
Com uma semana de espera veio uma correspondência da indústria. Estava sendo convocado para providenciar a documentação complementar e assumir sua vaga. Ao ler a carta, Marinês observou o rosto se abrir num sorriso largo. Começou a rodopiar, como se estivesse dançando e jogando os braços para o alto. Ela não sabia do que se tratava e ficou olhando, a espera de uma explicação, se é que ela viria.
 
Quando se cansou de rodar e rir sem parar, Manoel deparou com a senhoria olhando para ele interrogativamente. Controlou os últimos acessos de riso e vibração para dizer:
– Estou contratado, dona Marinês. Vou ser operário da indústria. Olhe aqui a carta me chamando para providenciar os documentos, – mostrou a carta que a pobre senhora mal conseguia decifrar. Lia mal e a vista já cansada, sem óculos completava a questão.
– Seu Manoel, não consigo ler sem óculos. Mas é ótimo para o senhor. Vai ser onde o seu novo emprego?
– Ali em São Bernardo do Campo.
– Isso quer dizer que o senhor vai mudar daqui, pois morar mais perto ajuda muito.
– Vou ver isso depois. Por enquanto fico aqui. Se resolver mudar, eu aviso com antecedência. Não se preocupe, dona Marinês. A senhora não merece que ninguém faça sacanagem.
– Nem todos pensam assim. Obrigada.
– Vou passar lá hoje mesmo para ver o que falta na documentação. Provavelmente terei que passar por um exame médico e coisas assim.
– Mas o senhor está vendendo saúde. Pra que exame médico?
– Coisas que a lei exige. Se depois de sair do emprego se queixar de que adquiriu alguma doença em consequência do trabalho, tem como provar o contrário, se havi alguma coisa antes de iniciar.
– O mundo cada vez fica mais moderno. Mais antes não tinha dessas coisas.
– Mas hoje tem e eu não acho ruim. É até muito bom, pois nos garante em caso de demissão.
– Isso é verdade. Sem comprovante, não há o que dizer em contrário.
– Até mais tarde, dona Marinês. Vou passar na oficina dizer que não vou mais trabalhar e vou até o escritório da indústria, aqui mesmo na capital. Não ficá longe.
 
Foi ate´seu quarto, trocou a camisa para estar em condições de tirar fotografia se fosse necessário e saiu. Ao chegar à oficina, um pouco depois da hora, vestido em trajes diferentes, Chico Cearense soube da novidade. Ficaria sem o principal ajudante que aparecera em muitos anos de trabalho ali naquele lugar. Mas era o sonho dele e teria que seguir em busca de realizar esse projeto.
 
– Estou vendo que foi chamado para a indústria. Parabéns!
– Como o senhor soube?
– Chegou atrasado pela primeira vez em mais de um ano e vestido desse jeito! Até parece que vai tirar fotografia ou fazer exame de fezes.
– Ora pois, pois, seu Chico! Fazer exame de fezes! Será que até isso vou precisar fazer?
– Nós temos o costume de falar que alguém vai tirar fotografia ou fazer exame de fezes quando se veste de modo diferente do habitual.
– Ah! Pensei que iam querer a ver meu cocô! O senhor estar a mangar comigo.
– Vai em paz, Manoel! Que Deus lhe acompanhe, lhe abençoe e torne realidade seus sonhos.
– Obrigado, seu Chico. Foi um ano ótimo que passei aqui, mas quero subir um pouco, crescere. Acho que me entende.
– Entendo sim. Por mais que lamente perder sua ajuda valiosa, desejo tudo de bom e melhor para você. Passe aqui no final da semana para acertarmos as nossas contas. Pode ser?
– Não tem problema. Passo sábado depois do almoço.
 
Caminhão da indústria nacional FNM

 

Estacionamento de Fuscas

 

Vespa com rodinhas de apoio

 

Primeiros caminhões reboque de carreta

 

Rei das estradas nos tempos mais antigos, caminhão Scania Vabis (maçarico)
 
Saiu e foi até o ponto de ônibus. Em quinze minutos embarcou e depois de meia hora descia a poucos metros do escritório da indústria ali na capital. Chegou e havia alguns outros candidatos esperando para fazer a mesma coisa que ele. Esperou cerca de meia hora e foi atendido. Realmente, teria que trazer até o final da semana, ou o mais tardar até dois dias depois do início que seria na segunda feira seguinte, os documentos constantes de uma pequena lista:
 
– Carteira de Trabalho e Previdência Social.
– Exame de sangue.
– Raio X do torax.
– Atestado médico de seu estado de saúde.
– Duas fotografias 3×4 cm.
– Diploma de habilitação em torno, que seria anotado e devolvido.
– Documento de identidade. 
Junto com isso recebeu uma requisição ao laboratório, outra ao médico para fazer, por conta da indústria, os exams necessários.
 
Munido das requisições, passou num fotógrafo ali perto e providenciou as fotografias. Ficariam prontas dali a dois dias. Depois foi até o laboratório onde marcaram os exame para a manhã seguinte. Um pouco adiante conseguiu passar no consultório médico antes do encerramento do expediente. Tinham uma vaga para o final da tarde de quinta feira. Marcou a consulta e seguiu a pé por um trecho, apreciando a área da cidade que lhe era pouco conhecida. Depois tomou o ônibus e retornou para as proximidades da pensão.
 
Ao chegar, os colegas de moradia já sabiam da novidade e lhe deram as congratulações. Ele lhes mostrou a carta, as requisições dos exames, a lista de documentos. Para celebrar saiu e foi até um armazem nas proximidades onde comprou alguns litros de vinho de boa qualidade. Iria comemorar com os amigos sua nova condição. Se não estivesse bêbado, mais tarde escreveria uma carta à família, comunicando as novidades. Fazia quase um mês que não escrevia e estranhava a demora em receber resposta da última missiva. A pedido de Manoel dona Marinês preparara uma refeição especial, usando alguns ingredientes trazidos pelo mesmo.
 
Embora a comida na pensão fosse sempre elogiada, um incremento era bem vindo para variar. Naquela noite não sobrou nada, nem para tratar o cachorro, exceto os ossos existentes na carne servida. Depois de algumas garfadas, Manoel levantou, chamou a atenção de todos e falou:
 
– Meus amigos, companheiros de jornada aqui na pousada de dona Marinês. Estou contente por realizar meu sonho de ingressar na indústria como torneiro mecânico. Começo segunda feira que vem. Por isso, quero que tomem comigo um copo de vinho em comemoração. Temos aqui algumas garrafas que vamos abrir. Espero que todos aproveitem e se alegrem comigo.
– Viva o Manoel!
– Viva! Ip! Hurra! Ip! Hurra!
Uma Sonora salva de palmas ecoou pelo salão de refeições. As rolhas das garrafas iam sendo removidas e os copos servidos. Quando todos tinham diante de si a bebida, Manoel tomou do seu e falou novamente:
– Um brinde ao futuro do Brasil!
 
Todos ergueram seus copos, que tilintaram ao se chocarem de leve entre si. Depois cada um bebeu um generoso gole da bebida. Era realmente um vinho encorpado, de sabor marcante e bem ao estilo dos vinhos portuguêses. Depois do brinde, quem estava em pé tornou a sentar-se e a refeição continuous alegre. Dois hóspedes chegaram um pouco atrasados, mas logo estavam a par da situação e se integraram ao pequeno banquete. Evidentemente houve quem tivesse bebido um pouco além da medida, ou era fraco para bebidas alcoólicas e algumas risadas um pouco fora de tom começaram a ecoar no recinto. Nada porém fora das medidas.
 
Quando as garrafas estavam vazias, alguém sugeriu sairem em busca de mais bebida, porém Manoel obstou dizendo ser suficiente para uma noite. Não valia a pena estragar um motivo de alegria e festa, em algo que poderia virar tristeza e arrependimento. Os estômagos forrados, um pouco de tontura provocada pelo álcool do vinho, não tardou a fazer os efeitos previsíveis. Um a um começaram a se retirar em direção aos respetivos aposentos. Quando o último se retirou, Manoel deu a Marinês uma pequena soma em dinheiro que guardara, em agradecimento pelo esmero na preparação da refeição.
– Nem precisa. Você comprou os ingredientes. Eu apenas precisei preparar o que ia fazer de qualquer maneira.
– Fica como um presente. A senhora tem sido como minhã mãe aqui no Brasil. Sempre escrevo para ela e falo da senhora. Hoje vou escrever contando as novidades, para por a carta no correio amanhã, logo cedo.
– Seus pais devem ficar com muita saudades, com você assim longe de casa. Não tem irmãos?
– Eu sou o caçula. Tenho dois irmãos e duas irmãs, todos mais velhos que eu.
– Devem estar casados, com filhos.
– Um dos irmãos e uma irmã estão casados. Os outros dois estão noivos e pretendem se casar no próximo ano.
– Não ficá com saudades da família?
– Saudades eu sinto, mas estou em busca do meu sonho. Em Portugal está muito triste. A ditadura salazarista é um regime que não deixa liberdade, o povo está cada vez mais na miséria e ninguém consegue tirar aqueles crápulas do poder. As forças armadas e de segurança estão por toda parte. Não se pode dizer um ai que eles já sabem e quere saber o que foi.
– Nossa Senhora! Ainda bem que aqui a ditadura não durou muito tempo. Acho que começou quase no mesmo tempo que em Portugal.
– E lá pelo andar das coisas ainda vai durar alguns anos. Só depois que o Salazar morrer vai haver alguma chance de mudança. Isso se os capangas dele não assumirem e continuarem com a coisa.
– Nosso presidente é bem dinâmico. Está construindo a nova capital lá no estado de Goiás, implantando indústrias, o Getúlio criou a Petrobrás que começa a crescer. Isso é muito bom. Acho que dessa vez o país sai do buraco e se desenvolve.
– E eu espero crescer junto com ele. Foi por isso que vim aqui para o Brasil.
– Quanto tempo já está aqui?
– Quase quatro anos. Cheguei pouco antes da morte do Presidente Getúlio. Trabalhei mais de dois anos no porto de Santos, como estivador.
– Então é isso que lhe deu esses braços fortes, esse peito largo. Carregar aqueles sacos de café e outras mercadorias exige muita força.
– Mas cansa demais. Não iria aguentar por mais tempo e vim embora logo que vi uma chance.
– Aqui está começando com o pé direito. Já tinha um bom trabalho na oficina do seu Chico Cearense e agora vai para a indústria de peças de automóveis.
– Vamos em frente com força e coragem, dona Marinês. Acho que também vou para meu quarto. Ainda quero escrever para minhã família e depois dormir. Amanhã tenho exames de sangue logo cedo. Tenho que sair daqui em jejum e só tomar café depois de tirar sangue.
– Boa noite. Também vou dormir depois de arrumar umas coisas aqui na cozinha.
– Boa noite.
 
Foi para seu quarto e sentou-se à escrivaninha para escrever. Mal começou e os olhos pesaram. Pensou que não haveria mal algum em escrever essa carta na noite do dia seguinte. Estaria melhor disposto e não correria o risco de escrever errado, ou ter que recomeçar. Amasou a folha de papel que estava usando, jogando-a no lixo, depois de rasgar. Não tinha escrito nada importante ainda, mesmo assim não era conveniente expor sua vida familiar a alguém que por acaso pegasse aquele papel nas mãos.
 
Deitou-se depois de escovar os dentes e tomar banho. Estava suado e dormiria melhor depois de uma boa chuveirada. Meia hora depois estava deitado, agradeceu mentalmente à Deus, à Nossa Senhora de Lourdes pelo sucesso que estava tendo na terra que escolhera por nova patria. Em instantes dormia a sono solto. Mal a aurora pintou o horizonte de tons alaranjados e já estava em pé, preparando-se para sair. Deveria chegar cedo para dar tempo de fazer a coleta de sangue e depois bater a chapa de raio-X. Demoraria em torno de 30 a 40 minutos no transporte e assim chegaria perto de sete e meia.
Discos de vinil, 78 rpm

 

Telefone de mesa antigo

 

Telefone de parede anos 50

 

Primeiros televisores.

 

Disco Trio Surdina

 

Adicionar legenda
 
 
Depois o dia era seu. Poderia desfrutar como lhe aprouvesse. Ao sair disse adeus a dona Marinês que já estava em pé na cozinha preparando o desjejum dos hóspedes, alguns já sentados tomando café. Cumprimentou a todos e saiu. Com um pouco de sorte chegou antes das sete e meia, quando a fila para a coleta de material dos exames ainda era pequena. Uma funcionária passou perguntando o tipo de exames e distribuia senhas para servirem na ordem de chamada. Em poucos minutos as portas foram abertas e entraram numa sala de espera não muito grande. Quem chegasse depois teria que esperar do lado de fora até liberar espaço ali dentro.
 
Os números começaram a ser chamados e logo foi a vez de Manoel. Estava levemente apreensido pois era a primeira vez que coletava sangue para exames clínicos. Imaginou se iria doer na hora da picada da agulha, mas seus braços tinham veias bem salientes e visíveis, o que tornou o processo muito fácil. Quando ainda esperava sentir a dor, foi avisado de que terminara a coleta. Recebeu um comprovante que lhe permitiria retirar o resultado na tarde de sexta feira.
 
Passou no balcão de informações de onde foi encaminhado ao outro setor onde faria o raio-X. Também isso era a primeira vez que fazia e ele ficou imaginando como seria. Que raio de máquina era essa que, pelo que vira outros mostrarem,  tirava como que uma fotografia do interior do corpo, mostrando os ossos, e alguma coisa um tanto difusa dos demais órgãos. O que os medicos viam naquilo ali, não podia imagina. Os ossos sim, seria possível ver uma fratura, alguma luxação ou outra lesão qualquer. Quanto ao resto não saberia dizer. Bem isso cabia aos médicos e não a ele dizer.
 
Ali o processo também era rápido. Havia duas portas e eram chamados alternadamente de uma ou de outra. Era de supor que houvesse dois equipamentos fazendo os exames. Notou que os de um lado demoravam menos que do outro e foi nesse que chamaram sua senha. Depois ficou sabendo que na outra porta entravam os que iam fazer exames de quadril, coluna, pois a máquina nesse caso tinha uma configuração diferente. Ao entrar, lhe indicaram uma espécie de placa metálica, tendo à frente um objeto alongado, com a ponta apontada para o seu peito. O operador inseriu um objeto em formato de quadrilatero na parte posterior da placa, pediu que inspirasse profundamente e segurasse o ar. Postado atrás de um biombo, ouviuse um leve ruido e pronto.
 
Agora deveria ficar de frente para a placa, com os braços bem abertos, encostando o máximo possível e o resto se repetiu. Depois disso estava pronto. Também alí recebeu o comprovante para retirar o laudo junto com os exames. Estava liberado. Não for a nada do que imaginara. Apenas desconhecia o motive de o operador se seconder atrás daquele biombo. Anos mais tarde soube que isso era para não se expor ao raio-X, a cada exame realizado. Isso poderia trazer danos à sua saúde. O paciente ficava exposto apenas ao raio naquele momento do exame e depois ficaria meses, talvez anos sem repetir a exposição. O operador sofreria a exposição dezenas de vezes todos os dias. Aí é que estava o dano.
 
Ainda eram nove e meia da manhã. Não longe dali encontrou um café, onde sentou e pediu uma xícara de café com leite e um pão com manteiga. Estava com fome e o estômago roncava pedindo alguma coisa para digerir. Depois disso pegou um ônibus e foi para os lados da indústria onde iria trabalhar. Estava disposto a conhecer previamente o local que seria sua casa por assim dizer, nos próximos anos se tudo corresse de acordo. Serviria para avaliar a conveniência ou não de mudar-se para as proximidades da fábrica, se é que havia alguma pensão ou mesmo um alojamento compartilhado com colegas na redondeza.
 
Teve que mudar duas vezes de ônibus para chegar ao destino. Isso tornava a questão complicada, pois, salvo existisse uma linha que fizesse o percurso em trajetória mais direta, seriam mais de três horas por dia para ir e voltar do trabalho. Ao chegar nas proximidades da imensa fábrica recém instalada, pronta para entrar em operação sentiu um orgulho inexplicável. A partir da próxima segunda feira faria parte daquilo ali. Seria uma peça na engrenagem, mas isso já bastava. Fazer parte daquele enorme progresso que se deixava antever. Decidiu indagar ali se existia uma linha de transporte que o deixasse perto da pensão, em menos tempo.
 
Ficou sabendo que entraria em operação no dia seguinte, experimentalmente, uma nova linha que faria o percurso de modo direto, até o centro da capital. O ponto final ficava pouco distante da Estação da Luz. Era preciso saber o tempo que seria gasto nesse percurso para avaliar se valeria a pena permanecer na pensão de dona Marinês ou mudar-se para um lugar mais próximo da indústria. Viu por ali alguns ciclistas e lhe ocorreu que, dependendo da distância, poderia comprar uma bicicleta para ir e vir pedalando. Economizaria o dinheiro da passagem, já que nessa época ainda não existia o “vale transporte”, coisa surgida bem mais tarde.
 
Na dúvida, indagou na região sobre a existência de pensões e pousadas. Recebeu algumas indicações e decidiu investigar depois de almoçare. Comera pouco no café da manhã e estava com fome. Encontrou um pequeno restaurante de um nordestino, onde comeu comida típica, com bastante pimenta. Apreciava o ardido da pimento e não estranhou. Conversou com o proprietário, falando que até os últimos dias trabalhara com um cearense dono de uma oficina na região do Brás. Agora iria trabalhar na indústria instalada ali perto.
 
– Eu estou pensando em construir aqui nos fundos do terreno algumas peças para alugar. Acho que vai haver bastante procura, depois que essas fábricas começarem a funcionar. Vou esperar um pouco ainda, mas é bem possível que faça isso.
– Serei um possível candidato a vaga. Moro numa pensão lá no Brás e estou vendo que vai ser demorado vir todos os dias de ônibus de lá até aqui e voltar.
– Vai gastar para lá de três horas, somando tudo.
– Esse tempo ficá melhor aplicado descansando, passeando ou mesmo estudando.
– Pretende estudar, mesmo empregado, trabalhando?
– Vou ver se consigo fazer as duas coisas.
– Aqui perto estão construindo uma escola do SENAI. Acho que é isso. Maria! Oh Maria!
– Que foi? – falou a mulher saindo por uma porta que dava para a cozinha.
 – A escola que estão construindo ali perto daquela outra escola, é do SENAI?
– É sim. Pelo menos isso está escrito numa grande placa que tem na frente.
– Eu acabei de fazer curso no SENAI. Mas eles tem uma porção de outros e posso fazer, para o caso de não ter vaga de uma especialidade, tenho outra opção.
– Sabes, tu és bem sabido, bichinho. Fazer curso para o caso de perder o emprego numa fábrica, pode arranjar numa outra com outro trabalho diferente. Isso é boa ideia, não sabe?
– Costuma-se dizer que alguém prevenido vale por dois.
– Verdade verdadeira, home!
Conjunto habitacional moderno.

 

Vista recente de SBC

 

Ponto de ônibus anos 50.
 
Nisso veio a comida e Manoel se pôs a comer com vontade. A inatividade fizera a fome ficar um pouco disfarçada, mas ao sentir o cheiro da comida voltou com toda força. O dono foi atender a outros fregueses que vinham chegando. Eram trabalhadores das redondezas. Vinham de oficinas, escritórios e balcões de lojas para comer, ter um pequeno descanso e depois voltar para o expediente da tarde. Manoel saboreou com prazer o prato variado que pedira e regou tudo isso com uma garrafa de cerveja. Não tomaria vinho, pois queria andar pelas redondezas em busca de pensões e pousadas. O vinho o deixaria sonolento e desatento. Não era conveniente.
 
Ao terminar a refeição pagou com gosto e deixou uma gorjeta que achou generosa, despediu-se e saiu. Andou a procura das pensões e pousadas que lhe haviam indicado e encontrou uma pensão, com aparência de ser limpa. Os hóspedes que estavam à vista eram de aspecto digno e provavelmente de boa convivência. Indagou o preço, as condições e deixou dito que, se decidisse, voltaria nos próximos dias em busca de hospedagem. Continou a procurar, mas os demais lugares eram mal conservados, com aparência de sujos, hóspedes mal encarados. Ou ao contrário, eram muito bons, porém os preços também condiziam com isso.
 
Tinha como objetivo economizar o máximo que podia. Não era seu projeto de vida ser empregado para o resto da vida. Mesmo sabendo da possibilidade de se aposentar, não confiava nesse Sistema. Quem garantiria que, quando chegasse a hora de usufruir do benefício, não teriam mudado as regras, o dinheiro das contribuições sumido e os beneficiários ficariam na mão? Melhor ter seu pecúlio, depois montar seu próprio negócio, nada muito grande. Não era ambicioso a esse ponto. Queria ser dono do seu próprio nariz e isso seria conseguido economizando trodos os meses uma boa parcela dos seus ganhos. Se houvesse chance de fazer horas extras ele faria, sempre que possível. Geraria excedente para ser economizado.
 
Em seu íntimo pensava no dia em que seria dono de um estabelecimento. Pensava no nome, na fachada, até o ramo de negócio era ainda uma incognita. Não sendo coisa de urgência, teria tempo suficiente para pensar sobre tudo com vagar. Em dado momento pensou em casamento, mas isso representava atraso na realização de seus planos. Deixaria para pensar em ter uma família quando se estabelelcesse com seu próprio comércio. Daí sim poderia dar a uma mulher a vida que julgava digna de uma companheira do homem. Os filhos teriam o que de melhor lhes pudesse proporcionar. Com esses pensamentos chegou de volta às proximidades da indústria e ali embarcou de retorno à capital. Pela sua avaliação, com uma bicicleta faria o percurso da pensão que lhe agradara em no máximo quinze minutos. Bem melhor do que ficar três horas diárias sacolejando dentro de um ônibus.
 
Antes de embarcar no ônibus, perguntara ao porteiro da indústria se haveria lugar para deixar uma bicicleta durante o expediente, ao que esse perguntou:
– Pretende vir de bicicleta da capital?
– Não meu amigo. Estive vendo uma pensão aqui perto e posso vir de bicicleta, se puder guardar em algum lugar.
– Tem o estacionamento e ali há onde guardar uma bicicleta. Acho até que estão pensando em fazer um lugar especial pra elas.
– Obrigado amigo. Vou procurar uma de boa qualidade para comprar.
– Compre lá na capital que encontra mais barata.
– Com certeza. Até segunda feira, amigo.
– Até segunda, cumpanheiro.
 

 

O relógio lhe indicou o tempo da viagem de retorno. Uma hora e vinte e cinco minutos. Restavam ainda umas dez quadras para percorrer a pé e isso resultaria em mais de três horas, quase três e meia todos os dias. Não haveria alternativa. O jeito era mudar, mesmo lamentando deixar a pensão de dona Marinês. Não poderia se dar ao luxo de ser sentimental se quisesse manter o foco no seu objetivo. Teria sempre um lugar onde ir passear nos finais de semana, rever os amigos, jogar conversa for a. Era útil mudar de ares de vez em quando. 
 

 

Aero Willys do Brasil.

 

 

Estacionamenteo de automóveis.

 

Represa Billings, com mata atlântica ao fundol

 

Loja de música anos 50/60

 

Renault Dauphine, precursor do Ford Corcel.
 

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