Na senda dos monges! – Capítulo I, (Revisto)

morro de araçoiaba

Morro Araçoiaba, Sorocaba, SP.

Na senda dos monges.

 

  1. Giovanni Maria D’Agostini.

 

– Buon jorno, signiori!

– Bom dia!

– E qui que necessito me apresentar para ter documento de strangero?

– Sim. É aqui mesmo.

O funcionário da prefeitura de Sorocaba, responsável pelo cartório, em pleno dia 24 de dezembro de 1844, levantou-se e pegou no grosso livro de registro de estrangeiros. Abriu-o procurando a primeira página em branco, para fazer mais um assentamento. Nesse dia haviam se apresentado vários outros. Esse pelo jeito de falar, deveria ser italiano. Usava uma espécie de hábito religioso, estatura mediana, cabelos compridos, barba cerrada longa, caindo sobre o os ombros e peito. Tinha semelhança com os Freis Capuchinhos, que nessa época andavam pelo interior do país, evangelizando a população.

– Qual é o seu nome?

– Mio nuomo es Giovanni Maria D’Agostini. Nascito en Italia. Puode vere qui en este papel. – falou o homem entregando um papel dobrado, quase ilegível de tanto uso. Sujo de suor e terra das estradas do mundo.

 

– Vou fazer seu documento com o nome João Maria D’Agostini. Fica mais fácil de pronunciar, certo.

– Pode ser. Non importa.

O registro foi feito no livro e um novo documento identificando o seu portador como João Maria D’Agostini, natural da Itália. Antes de terminar, o funcionário perguntou:

– Veio direto da Itália para Sorocaba?

– Non. Io pase por Caracas em Venezuela, dopo estuvo em Colômbia, Equador, Peru. Entrei em Brasile por vila de Tabatinga. Pelos rios chegue  en Belém, Pará. Desembarque en Rio de Janeiro dia 19 de augusto desto anno, do vapor Imperatriz.

– Importante é a data de hoje, que vai constar do documento, como se tivesse chegado hoje. O que o senhor faz para viver?

– Come? Para viver?

– Em que o senhor trabalha?

– Io sono de verdade Frade Giovanni. Sou ermitão. Mio alimento es de fructas, alguna cosa que una buena alma me dá e pronto. Facio cruces, rosários e picolas imagens. Troco por comida o algum denaro para comprar algunas cosas necessárias.

O funcionário terminou de redigir o documento, conferiu, esperou a tinta secar e o deu ao seu dono para conferir.

– Faça o favor de verificar se está bem assim? Depois não vai ser possível modificar mais tarde.

João Maria pegou o documento, leu e balançou afirmativamente a cabeça.  Dobrou o papel, colocando-o em uma espécie de caderneta de couro, bastante surrado, onde não havia mais nada. Nem uma moeda ou nota de vinte reis que fosse. O documento ficou assim redigido e assinado:

“Frei João Maria d’Agostinho, natural de Piemonte, Itália, idade 43 anos, solteiro, profissão de solitário eremita, vindo para exercer o seu Ministério. Declarou residir nas matas do Termo desta Cidade, muito principalmente na do Morro da Fábrica de ferro de Ipanema, e ter chegado no dia 24 de dezembro de 1844. Veio do Rio de Janeiro, onde chegou do Pará no Vapor Imperatriz a 19 do mês de Agosto do presente anno de 1844: apresentou um documento que fica arquivado neste Cartório: e para constar lavrei este termo d’apresentação que assigno com o apresentado, eu Procópio Luiz Leitão Freire, Escrivão Serventuário o escrevi e assigno.

[Assinatura] Procópio Luiz Leitão Freire

[Assinatura] Giovani mã deagostini, solit. eremita

À margem esquerda do termo de apresentação, lê-se:

Estatura baixa

Cor clara

Cabelos grisalhos

Olhos pardos

Nariz regular

Boca dita [regular]

Barba cerrada

Rosto comprido

Sinais particulares Aleijado dos três dedos da mão esquerda”

(Fonte: Livro de Registros de Estrangeiros, folha 18, 1842-1865, Apresentação de Estrangeiros – Delegacia, Sorocaba, SP. Este livro se encontra na cidade de Sorocaba, no Arquivo do Gabinete de Leitura)

(O trecho acima foi tirado do Blog “caminhosdomonge.blogspot.com.br” de Alexandre de Oliveira Karsburg, publicado no dia 10/12/2012. Alexandre é autor do livro “O eremita das Américas”, publicado pela UFSM. É com certeza a maior autoridade nacional em tudo que ser relaciona ao Monge João Maria d’Agostini)

– Molta gracia! Un felice dia de Natal!

O funcionário inclinou levemente a cabeça em sinal de despedida e esperou o imigrante sair. Depois que o viu suficientemente longe, falou ao colega que trabalhava na mesa ao lado:

– Mais um maluco para se juntar aos muitos que há por aqui!

– E esse parece dos bem malucos!

– Ermitão! Tem graça. Vai morrer de fome por algum canto dessa terra.

– Sempre encontram uma alma piedosa para lhes dar algo de comer. O povo é de boa índole.

– Eu de minha parte, botava essa turma de refugos humanos toda para fora do país, se estivesse no lugar do Imperador.

– Nosso Imperador ainda é um menino. Tem coração de criança e não fará uma coisa dessas.

– O que é uma lástima.

O novo integrante da população brasileira saiu e perambulou algum tempo pela cidade, sendo olhado de esguelha em vários lugares, ou então nem lhe deitavam um olhar. Faziam de conta que não o viam. Ele não se importava. Estava acostumado a essas coisas. Lentamente se afastou da área central e dirigiu-se à periferia, saindo da aglomeração de casas. Encontrou pequenos sítios e não tardou a ver uma casa perto da estrada, que tinha ao lado um pomar cheio de frutas. Havia bananas, goiabas e uma grande variedade de outras frutas. Um pé de goiabas estava bem na beira da estrada, tendo belos frutos maduros ao alcance da mão. Ao seu lado um outro de ameixas também maduras.

Viu uma senhora no pátio e gritou:

– Buona cera, signiora! Puodo comer unas frutas?

– Pode. Mas não estrague. Colha só o que vai comer. – e ficou ali tratando as galinhas enquanto um cão latia, mas não fazia menção de avançar. Latia por latir.

João Maria colheu uma fruta, mordeu com gosto e sentiu o sabor. Estava madura e saborosa. Muito doce. Mentalmente elevou uma prece ao céu agradecendo pelo fruto. Dirigiu outra prece pedindo que aquela fruteira fosse a mais produtiva e de frutos mais saborosos da região. Depois de comer vários frutos, tanto goiabas quanto ameixas, colocou alguns em um embornal e em cada bolso do hábito, para comer mais tarde, se não encontrasse outra coisa. Olhou para a casa e viu a mulher sentada na varanda, aparentemente descansando. Era pouco depois do meio dia. A mulher estava olhando para a estrada e quando o viu ele gritou:

– Molta gratia signiora! A la otra volta!

Rogou a Deus que abençoasse a bondosa senhora por permitir a ele saciar a fome com tão saborosas frutas. Voltou para a estrada e seguiu o caminho.

Um ou dois dias depois os membros da família, ao comerem das goiabas e ameixas do pomar, notaram que aquelas frutas, da beira da estrada, estavam mais bonitas, saudáveis e doces. Nunca antes haviam notado qualquer diferença e agora algo mudara.

– Vai ver que foi o “monge” que comeu delas, abençoou as fruteiras e fez isso, – falou a mulher aos filhos.

– Monge! Que monge, mamãe?

– Na véspera de Natal, logo depois do meio dia, quando vocês estavam lá no fundo, limpando o paiol, parou uma espécie de capuchinho ou sei lá que ordem e pediu para comer umas frutas. Eu deixei, afinal estão caindo no chão e se estragando.

– Reparou que daqueles pés nenhuma fruta tem bicho dentro? Todas estão saudáveis e muito mais doces que dos outros. São gostosos, mas daqueles estão diferentes.

– Eu quero ver isso de perto, – falou a mãe e foi saindo para experimentar uma fruta de cada e tirar a dúvida.

Os filhos correram acompanhando a mãe e mostraram. Naquele pé de goiaba e no de ameixa dos quais o monge comera, não havia frutas caídas, nos outros uma porção se estragava pelo chão. Experimentou uma fruta de um pé, depois de outro, por fim daqueles perto da estrada. Sentiu o sabor, observou a beleza das frutas e foi obrigada a concordar. As frutas dali eram mais saborosas e estavam totalmente saudáveis. Nem sinal de fruta caída no chão estragando ou com sinal de sendo comida pelos bichos.

– Vamos ver se isso continua assim. Se na próxima safra acontecer o mesmo, alguma coisa houve. Esse homem é santo. Eu quase mandei ele ir embora, mas era véspera de Natal e tive a impressão de que tinha tanta fome. Fiquei com muita pena. Se não fosse totalmente estranho teria convidado para comer um prato de comida.

– Vai ver que era o Menino Jesus disfarçado, mãe!

– Ou São José, talvez!

– Não vamos dizer nada para ninguém. O povo se souber, vai comer até as raízes da goiabeira e da ameixeira.

– Vamos fazer uma cerca bem alta ao redor para ninguém chegar perto.

João Maria, depois de perambular por algum tempo, retornou por outro caminho para as proximidades da cidade. Ali, perto da Fábrica de Ferro Ipanema, de onde subia bastante fumaça, encontrara uma gruta a meio caminho do topo do morro (Morro do Araçoiaba ou Ipanema). A fumaça era sinal de uso do fogo para fabricar coisas. Ao chegar mais perto, ouviu ruído de ferro sendo batido e se deu conta de que produziam objetos de metal. Sempre encontrava lugar para pernoitar na natureza. Raras vezes fora obrigado a aceitar um lugar no paiol ou celeiro de alguém para dormir.

Dirigiu-se para lá e subiu pela espécie de trilha que avançava pela ladeira acima até um determinado ponto. Dali em diante, abriu passagem entre a vegetação e caminhou mais algum tempo. De repente viu diante de si o que procurava. A gruta, ampla o suficiente para lhe dar abrigo e uma fonte de água ao lado. Era tudo que precisava. Limpou o lugar e quebrou alguns galhos verdes para forrar o chão, onde iria dormir naquela noite. No dia anterior não tivera tempo de limpar e arrumar seu refúgio.  Encontrou frutas silvestres e experimentou uma para testar. Não a conhecia e poderia ser tóxica. As goiabas e ameixas que trouxera, ficariam para mais tarde ou para a manhã seguinte.

Depois de algum tempo sem sentir reação adversa com a ingestão da fruta estranha, de agradável sabor, decidiu comer mais algumas. Se aquela primeira não lhe fizera mal, mais algumas também não fariam. Trazia no bolso uma pederneira que servia para obter fogo. Reuniu lenha seca que encontrou nas redondezas, numa quantidade suficiente para passar a noite. O fogo espantaria algum animal selvagem que se aproximasse. Não havia vestígios de ser habitada, mas nunca se sabe. Confiava em Deus, mas não era seu hábito pôr o Altíssimo à prova. Depois de acender o fogo, sentou-se e se pôs a comer as goiabas. A escuridão cobria a floresta e em seu abrigo natural reinava absoluto silêncio. Uma coruja piou no toco da árvore seca que ficava perto. Os grilos cricrilavam, os pirilampos voavam para todos os lados, iluminando com suas luzes esverdeadas a mata. Parecia um céu estrelado, recobrindo a superfície da terra. A noite era estrelada, o céu limpo. Aqui entre a vegetação os pirilampos pareciam querer iluminar a noite do nascimento do Filho de Deus.

Havia caminhado bastante. Estava cansado e decidiu deitar-se depois de colocar lenha no fogo para fornecer um pouco de calor. Não sabia como seria a madrugada. Convinha manter o fogo aceso. Decisão acertada, a madrugada foi fria e com neblina. Acordou sentindo o ar gelado, ativou o fogo com alguns pedaços de lenha e voltou a dormir. A cama de folhas que fizera estava confortável como poucas.

Deitado relembrou pela centésima vez sua vida na distante Itália. Nascera em 1901 e mal completara 19 anos quando a mãe faleceu. Pouco depois, peregrinou até Roma, onde permaneceu algum tempo. Conseguiu concluir o aprendizado de Latim, Francês, bem como os conhecimentos básicos de Teologia e dos Evangelhos. Conviveu com diversos monges e eremitas até 1927, quando se fez também eremita, prometendo solenemente a Deus:

“Quero servir a Deus nos mais terríveis desertos do mundo até o dia de minha morte” – assim declarou Agostini ao se tornar eremita, ainda na Itália, em 1827

(Trecho extraído do Blog “caminhosdomonge.blogspot.com.br” do dia 17/04/2013, publicado por Alexandre de Oliveira Karsburg).

Peregrinara pelo sul da França, cruzara os Pirineus e chegara a Espanha, onde tentou a vida de monge num mosteiro. Logo descobriu que não tinha vocação para ficar engaiolado igual passarinho. Iria cumprir sua promessa a Deus, em outras plagas. Retornara a Itália e em 1838, embarcara em Gênova, indo direto para Caracas na Venezuela.

Após permanecer por cerca de quatro meses no Cerro da Gávea, embarcara num vapor em 15 de dezembro e viajara até Santos. Subira a Serra e chegara a São Paulo, onde se deteve pouco, seguindo em direção à Sorocaba, chegando ao entardecer do dia 23. Encontrara a gruta e ali passara a noite. Naquela manhã fora legalizar sua situação perante as autoridades para não ter complicações futuras. Não poderia anunciar o Evangelho sem estar em dia com seus documentos perante as autoridades civis e eclesiásticas. Com essas lembranças adormeceu profundamente.

Ao raiar do dia, o alegre chilrear dos pássaros da floresta o acordou com uma suave melodia. Era a sinfonia da natureza saudando o novo dia que chegava. Avisavam ao novo morador da gruta que era hora de levantar. Espreguiçou-se, distendendo os músculos levemente doloridos pela posição em que dormira. Foi até a fonte, lavou o rosto. A água pura que brotava abundante era um convite. Retirou o hábito e lavou o corpo. Estava sozinho e longe de olhares indiscretos. Não precisava tomar cuidados nesse sentido. Esperou uns minutos, sacudiu as últimas gotas de água da pele e tornou a vestir-se. Comeu a última goiaba, depois de fazer uma prece matinal, agradecendo a noite de sono, a água da fonte, o sol que brilhava radioso. Era dia de Natal. O aniversário do Divino Mestre.

Nesse momento muitas crianças, certamente, estavam recebendo presentes, habitualmente distribuídos nessa ocasião. Lamentava que o dia tão sagrado estivesse sendo transformado em motivo de comércio. Lembrou de Jesus expulsando os vendilhões do Templo do Senhor em Jerusalém, há mais de 1800 anos. Verificou o fogo.  Não queria que se alastrasse para a vegetação próxima. Depois de meditar por alguns minutos, desceu o morro, cantando salmos que sabia de memória. Quando não tinha algum especial, criava versos com suas palavras e seguia alegre, louvando a natureza e seu Criador. Ou caminhava silencioso, meditando.

Os operários da fábrica que ficava próxima, ouviram o cantar do ermitão. No dia precedente alguns haviam visto o homem enveredar na direção do morro e agora ouviam o seu cantar. Embora fosse feriado, havia alguns que tinham tarefas especiais para executar e estavam na fábrica. A voz do homem era forte e grave. Um deles brincou:

– Parece um bugio roncando!

– Ou um carvoeiro, – disse outro.

Em alguns minutos viram o dono da voz surgir de entre as árvores e se aproximar da fábrica. Quando chegou perto, começaram a fazer troça desabridamente, sem se importar com a possibilidade de ofendê-lo. Julgavam-se membros de uma nova classe social, acima da plebe mais humilde dos casebres da região periférica da cidade. Era-lhes permitido fazer praticamente o que lhes aprouvesse, sem se preocuparem com ninguém. Fabricavam ferramentas, utensílios metálicos, equipamentos agrícolas. Armas eram produzidas em um setor especial ao qual só os mais especializados tinham acesso.

– Ei, bugio!

– Homem das cavernas!

Um dos operários, vendo que ele não reagia, continuando a caminhar serenamente, o olhar calmo e tranquilo, chegou e parou em sua frente:

– Quem mora no mato é índio ou bugio! O que veio fazer na cidade?

– Felice Natal, fratello! – ouviu-o dizer com um sorriso nos lábios.

– O que foi que você falou?

– Io chamei você de mio irmão.

– E pensa você que tenho um irmão de sua estirpe?  Vá se olhar num espelho.

– Eu acho que ele nem sabe o que é um espelho, – falou outro.

– Bom dia, feliz Natal! – voltou a dizer João Maria usando o melhor português que conseguiu reunir.

– Deixem o homem em paz! Ele não quer nada com vocês, não estão vendo? – falou o chefe dos operários que viera ver o que estavam fazendo ali fora, em lugar de estar trabalhando.

– A la próxima volta, fratello! – disse João Maria ao novo personagem que entrara em cena.

– Vá com Deus, amigo.

Ele acenou em saudação e seguiu seu caminho. Os operários foram, embora relutantes, para o seu trabalho. Tinham perdido boa ocasião de se divertir à custa daquele espantalho, vestido de frade. Chegou ao perímetro urbano e, ao passar pela região central, encontrou tudo muito quieto, parado. Ao longe se ouvia som de música e o espocar de alguns fogos de artifício. Iria ver o que era aquilo. Deveria ser a famosa feira se Sorocaba, onde se reuniam tropeiros de todos os cantos do país de que ouvira falar. Uns vinham vender tropas de muares, cavalos, bois e outros animais menores. Outros tinham como objetivo comprar esses mesmos animais para o serviço, ou para abate em sua região. Era a maior feira de animais de todo o país. Muito próprio para conhecer pessoas de todos os lados. Caminhou calmamente até lá e era realmente a feira.

O movimento de pessoas e animais era imenso. Mesmo em dia de feriado, o povo estava ali fazendo negócios, pagando e recebendo, separando o que fora vendido, fazendo os lotes que iriam levar para seu novo destino. As vestimentas que usava, não permitiriam muita velocidade em caso de algum estouro de boiada ou um animal desembestado. Por isso se manteve nas bordas, onde se localizavam os quiosques de comidas típicas de todas as regiões. Havia mulheres da Bahia vendendo acarajés, nordestinos vendendo redes, laços de couro cru, chapéus de couro, selas, arreios em geral. Também havia carne seca, carne de sol. Cabrito e carneiro assado, buchada de bode, toda sorte de artigos. Sentou-se em um tronco de pau e ficou observando o movimento.

Em dado momento apareceu um touro, distribuindo chifradas para todo lado. Vinha na direção de um menino de cinco ou seis anos e o teria trucidado. João Maria levantou-se com agilidade inimaginável e pulou para a frente do animal dizendo:

– Calma boizinho! É apenas um bambino. Vai procurar alguém de tuo tamanho!

O animal estacou, escarvou o chão, bufando! Nisso o dono que de quem ele fugira, chegou e o laçou certeiro. Em segundos, outros laços, jogados de todos os lados, impediam os movimentos do imenso animal. A mãe do menino abraçou-o com os olhos marejados de lágrimas. Veio para perto de João Maria e falou:

– Deus seja louvado, seu padre.

– Cuida de suo figlio! Dio no sta sempre presto para fazer un milagro.

A mulher fez questão de beijar a mão do homem que salvara o menino, pondo-se entre ele e o animal furioso. Os circundantes ficaram admirados com a coragem e serenidade do estranho. Se antes o haviam olhado com certo desdém, agora o olhavam com admiração, apesar de seus trajes bastante surrados e sujos. Não demorou e alguém falou que ali deveria estar um homem santo, debaixo daquelas vestes humildes. Os cochichos se espalharam e logo alguém lhe ofereceu um acarajé, depois um pedaço de carne assada, que ele recusou. Comeu uma espiga de milho assada, uma pamonha e sentiu-se satisfeito. Comera algumas frutas como desjejum. Em uma bica bebeu água para matar a sede, pois o dia estava quente. De hábitos frugais, a comida ingerida era bem mais do que suficiente para prover suas necessidades para o resto do dia.

Caminhou por entre as barracas e os olhares de admiração o seguiam por toda parte. Quando a tarde ia a meio, encetou a caminhada de volta até seu reduto. Levava, embrulhados em um papel pardo, algumas pamonhas e acarajés. Seriam seu jantar. Quando se aproximou da saída da cidade, perto da fábrica, encontrou casualmente uma tábua, bastante larga e comprida o suficiente. Iria servir como cama, apoiada sobre as pedras. Assim o corpo ficaria melhor apoiado durante as horas de sono. Era um pouco pesada, mas iria devagar para conseguir leva-la. Fora providencial sua passagem por aquela rua, diferente daquela por onde passara pela manhã.

aerea02-1263x462

Vista aérea da região dos morros próximos a Sorocaba.

 

Chegou a entrada da gruta bastante cansado, melhor dizendo, exausto. Sem perder tempo arrumou a tábua sobre as pedras, calçou os pontos onde não ficara apoiada e sentou para testar. Faltava colocar mais uma pedra num ponto, onde sobrara espaço. Colocou logo a pedra. Depois tratou de providenciar lenha e mais algumas folhas, especialmente de samambaias ou xaxim. Acendeu o fogo e usando uma frigideira que encontrara no caminho, jogada fora, aqueceu os acarajés e pamonhas. Ela estava sem cabo e não tinha tampa, mas serviria para aquecer alguma comida de vez em quando. Lavara-a cuidadosamente na água da fonte. Veria se era possível conseguir um pouco de banha para cozinhar alguma coisa vez ou outra.

Enquanto isso, na cidade, corria o boato da existência de um santo caminhando pela urbe. Casualmente o filho mais velho da mulher, dona do pomar, ouvira falar no homem e sua descrição. Tudo combinava. Deveria ser o mesmo homem e ficava, em sua opinião, provada a intervenção divina por seu intermédio. Contou o caso do touro à sua mãe ao chegar em casa e começaram a se recomendar à proteção do Santo Monge, como passaram a chamá-lo. Sem muito alarde, contaram aos vizinhos a história da goiabeira e agora parecia ser o mesmo homem que operara o milagre de parar o touro, antes de atingir o menino. Corria também que o homem era aleijado da mão esquerda. Os três dedos externos eram atrofiados, dificultando alguns movimentos.

Logo a novidade se espalhou por toda redondeza, entre os sitiantes, agricultores e a classe trabalhadora mais humilde. Passaram a prestar atenção para ver onde ele passava a noite. Ninguém sabia onde se abrigava, especialmente nessa época do ano, bastante chuvosa. Em menos de uma semana o segredo estava desvendado e começaram a procura-lo em busca de alívio para os males do corpo. Ele não receitava ou indicava nada. Recomendava chá, ervas para emplastros, bochechos, escalda-pés, e outras providências. Sua fama se espalhou por toda parte e passaram a se referir a ele como “Monge de Ipanema”.

images (6)

Vista de cima do morro de Araçoiaba

 

Nas noites enluaradas era ouvida sua voz forte entoando salmos. Nessas ocasiões os operários da fábrica diziam uns aos outros:

– O bugio está roncando novamente!

Observavam diariamente grupos de pessoas subindo o morro em busca do monge. Levavam pessoas doentes, aleijadas e fracas para que o “Santo Monge” lhes indicasse um remédio para o mal. Ele recomendava que procurassem o médico e sugeria ações lenitivas. Em geral os sintomas cediam com as beberagens, banhos, emplastros e outras providências. Com isso o médico ficava para depois. Vez ou outra ele voltava a feira e ali conheceu tropeiros, peões e gente de todos os cantos do país. Ao mesmo tempo estes ficavam sabendo da fama do monge e levavam as notícias para seus lugares de origem. Assim, em alguns meses, a fama do Monge Santo, Monge milagroso de Ipanema alcançava praticamente o país inteiro de Sul a Norte.

Conversou seguidamente com tropeiros de Santa Catarina. O conflito Farroupilha, impedia os criadores dos pampas de trazer suas tropas e elas eram necessárias lá mesmo para dar sustentação ao conflito com a coroa imperial. Mas, os produtores da região norte da província, conseguiam reunir lotes de animais e os moradores de Santa Catarina, especialmente da área litigiosa entre Paraná e Santa Catarina, levavam os animais para Sorocaba.  Assim ficou sabendo que o clima desse estado era mais semelhante ao da terra natal. Em sua mente se formou a decisão de deixar Sorocaba e peregrinar para o Sul. Se não se adaptasse poderia retornar, acompanhando os tropeiros que vinham o ano inteiro trazer tropas de animais.

Antes de completar seis meses desde sua chegada, iniciou a viagem para o sul. Despediu-se dos moradores mais próximos, que sempre lhe ofereciam donativos na forma de alimentos, alguma peça de vestuário. Uma senhora ajustara duas sotainas que não serviam ao antigo dono, consertara os estragos e assim podia vestir uma roupa limpa periodicamente.

Tropeiros que conhecera na feira ofereceram montaria para a viagem, e ele aceitou. Percorreu boa parte do percurso até a Lapa em lombo de burro, fazendo apenas uma parada para descansar. O povo humilde de toda região lamentou imensamente a partida desse homem que irradiava bondade. Além das indicações para os males do corpo, aconselhava na vida espiritual. De sua boca só se ouviam palavras serenas, conselhos sábios e recomendações de bondade. Recitava de memória trechos importantes do Evangelho e dos profetas do Antigo Testamento, fazendo comentários que os aplicavam a vida nos dias que corriam. Mesmo assim ele dizia haver nascido para ser peregrino. Não deveria ficar num lugar por muito tempo. Um dia talvez voltasse e depois tornasse a partir.

Na região de Castro permaneceu alguns dias até se recompor do cansaço da viagem. Logo havia reunido em seu redor um grupo de ouvintes das palavras de conforto espiritual que emanavam de sua boca. Aproveitava para conhecer as propriedades curativas das ervas nativas, que as senhoras idosas em geral conheciam bem. Serviriam futuramente para aliviar o sofrimento alheio. Não cansava de repetir as recomendações de penitência, piedade, oração do rosário. Suas mãos estavam sempre ocupadas em fazer um rosário, usando contas de sementes, um crucifixo, esculpido a canivete em um pedaço de madeira. Fazia pequenas imagens de santos. A maioria eram criados pela sua própria imaginação.

Conhecendo-lhe a bondade, as pessoas o recompensavam com sortimento de alimentos para viagem, apenas para terem em mãos um objeto de sua fabricação. Assim deixou ao longo do caminho uma esteira de lembranças que permaneceram por décadas. Sua passagem pelo caminho dos tropeiros nunca seria esquecida.

(Obs.: O texto desse capítulo foi revisto e completado. Por isso está sendo republicado hoje).

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *