Na senda dos monges! – Capítulo XIV – Consolidando a propriedade

  1. Consolidando a propriedade.

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    Mapa município de Caçador, SC.

 

Depois do plantio e construção das instalações básicas para a criação de gado, chegou o momento de pensar em providenciar o melhoramento da moradia. A dificuldade era obter madeiras serradas para a construção. Fazer tudo a mão, falquejar peça por peça, além de consumir um tempo muito longo, tinha o inconveniente do desperdício de madeira. Os irmãos sentaram e trocaram ideias sobre a melhor maneira de resolver a questão.

Havia a possibilidade de trazer carroções e juntas de bois para o transporte. Além de ser muito longe, havia a dificuldade adicional das estradas. Era possível que demorassem dias em uma única viagem para levar toras e depois outro tanto para trazer as madeiras serradas da serraria que ficava um bom trecho rio abaixo. Pensaram em comprar madeira serrada e trazer de barco, mas suspeitavam de que o custo seria muito elevado. Ali quem sabia fazer contas e escrever era João, ficando encarregado dessa parte. Decidiram que João faria uma visita ao povoado, onde existia uma pequena serraria.

A proposta era trocar madeira em toras por madeira serrada pronta e assim aproveitar a viagem de um pequeno barco a motor existente no rio.  Não tinha capacidade para carregar muita madeira por vez, mas era o que havia disponível. Se o dono da serraria aceitasse essa forma de negócio, teriam ainda que negociar com o dono do barco o custo do transporte. Talvez ele aceitasse o pagamento em toras. Poderiam então preparar estas nas proximidades da margem do rio, facilitando o transporte até o ponto de embarque. Havia um local apropriado para atracar e construir uma rampa para rolar as toras até o barco.

Uma carroça seria trazida para transportar a madeira serrada do rio até o local da construção. Pedro tinha aprendido na fazenda Batista em Passo Fundo, com um carpinteiro contratado para construir algumas instalações a trabalhar madeira. Poderia, com as ferramentas adequadas, conduzir a construção. Seria um processo lento, pois havia necessidade de ficar cuidando sempre da roça e também do gado. Havia onças na floresta e o risco seria no momento do nascimento dos bezerros. Para capturar um animal adulto ela teria alguma dificuldade, porém um bezerro era fácil de capturar. Por sorte havia caça abundante na região, tornando farta a fonte de alimento para as predadoras, o que tornava a preocupação por esse lado pouco

Nos rios eram encontrados alguns jacarés, mas dificilmente viriam até os córregos, não representando risco de perder animais na boca dos répteis. O mais provável era que perdessem algum animal menor por ataque de cobras sucuris. Não existiam em quantidade, mas havia algumas, tornando sempre possível o ataque de uma delas. O velho Trovão Distante insistia que não deveriam matar animais selvagens por matar. Destruir a natureza trazia castigo de Tupã. Todas as criaturas lhe pertenciam e eram destinadas a servir de alimento e nada mais. A destruição pura e simples era castigada com raios, tempestades e outras ocorrências. João estava disposto a adotar esses cuidados em sua atividade. Os peões estavam proibidos de caçar apenas para diversão.

Depois de fazerem o planejamento das edificações a serem feitas em primeiro lugar, João pegou o caminho montado em Tordilho. Ele já estava com mais de dez anos de idade, porém ainda era forte e bem saudável. Teria pela frente um bom par de anos de bons serviços. Seu caminhar era de uma suavidade que tornava a cavalgada algo agradável. Saindo cedo pela manhã, conseguiu alcançar o povoado ao entardecer. Procurou um lugar para passar a noite e conseguiu uma cama em um estabelecimento comercial, onde também havia quartos para eventuais hóspedes.

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Rio do Peixe em seu começo.

Na manhã seguinte foi até a serraria. A instalação era precária, mas a serra funcionava perfeitamente, acionada pela energia de uma roda d’água. Viu uma bela pilha de tábuas e também madeiras de vigamento, ripas de diversas medidas. Ainda estavam em construção partes para instalar equipamentos adicionais, que permitiriam fornecer madeiras melhor preparadas. Conversou com o dono nos intervalos entre as mudanças de posição da madeira sobre o trilho que o mantinha em contato com a serra. Fez a proposta que tinha arquitetado e o homem, um imigrante alemão chamado Johan Schmidt, pensou um pouco antes de falar:

– Senhor tem quantidade de madeira que precisa?

– Fizemos um projeto. Meu irmão sabe construir e calculamos aproximadamente a quantidade de tábuas, vigas, ripas. Mas não tem problema se houver um pouco de sobra. Depois iremos precisar mais madeira para construir outras coisas.

O homem pegou uma folha de papel, onde estavam especificadas as quantidades e medidas de madeira. Leu e fez algumas observações, sugeriu mudanças nas medidas para não fugir ao padrão que adotava. Em princípio a proposta lhe interessava. Precisaria apenas tempo para calcular as metragens de toras a serem fornecidas em troca. Isso demoraria algumas horas pois poderia fazer o cálculo melhor à noite, quando poderia sentar e dedicar toda atenção ao assunto.

João concordou. Enquanto isso ele iria tratar com o dono do barco da questão do transporte. Encontrou o pequeno atracadouro vazio. O barco havia saído em uma rápida viagem rio abaixo, levando telhas e outros produtos para outro morador. A distância era pequena e não iria demorar. A previsão era voltar antes do anoitecer. O povoado não era muito grande e não foi preciso caminhar muito para chegar ao posto comercial onde se podia comprar o essencial para uso nas propriedades. Havia desde pregos, ferramentas básicas, utensílios para cozinha e mantimentos, tecidos, botas, selas e peças de arreios em geral. Pediu ali informações sobre o custo de pregos, dobradiças, trancas para portas e janelas, enfim uma série de objetos que seriam usados na edificação que iriam fazer.

Anotou os preços dos diversos modelos, para posterior decisão sobre a compra. Haviam esquecido de fazer essas contas e precisaria verificar com Pedro esse assunto. Sabia fazer contas, mas era fraco no assunto carpintaria e marcenaria. As ferramentas que havia disponíveis não satisfaziam completamente as necessidades. Talvez fosse preciso uma viagem até um local mais desenvolvido, para adquirir o que faltasse. O dono do estabelecimento recomendou procurar em Canoinhas ou Curitibanos. As distâncias eram aproximadamente as mesmas. João indagou como o barco havia vindo parar ali e não conseguiu a informação. Parecia ter sido trazido pelo Rio Uruguai e depois subira o Rio do Peixe.

Estava em uso alguns anos, prestando bons serviços aos moradores da região. Uma pequena caldeira movia o “navio” como os moradores o chamavam pomposamente. Estava prestes a ser contratado para mais um serviço relevante. Mesmo sendo cheio de curvas, o Rio era um caminho que facilitava o transporte de produtos ao longo de suas margens. Havia outros em outros povoados mais acima e abaixo. Por vezes vinham trazer mercadorias e levar outras para atender às populações ribeirinhas. Era confortador saber que seria possível usar esse transporte entre as localidades existentes no vale.

Próximo do anoitecer, ouviu-se um apito forte e logo outro mais perto. Era o barco chegando ao atracadouro, onde era amarrado ao tronco de uma árvore ali existente, além de uma âncora lançada para o fundo da água. As duas formas de ancoragem garantiam a permanência no lugar em caso de muita chuva e subida do nível do rio. João chegou perto e esperou pelo término da ancoragem. Alguns minutos depois o dono e dois ajudantes desceram em terra.

– Boa tarde, senhor!

– Buenas tardes! – Respondeu o homem de boné na cabeça.

– Podemos conversar um pouco, sobre o transporte de madeira?

– Vamos ali em casa. Vou me lavar e comer alguma coisa. Depois estou as ordens para conversar com o senhor.

Seguiram para uma casa humilde nas proximidades e uma cadeira foi oferecida a João. O homem sumiu no interior, onde se ouviu conversa dele com uma voz feminina. Provavelmente era a esposa ou talvez uma filha ou criada. Cinco minutos depois, ele entrou enxugando a boca na manga, limpando os restos de algo que acabara de comer. Sentou-se e disse:

– Em que posso lhe ajudar, senhor?

– Estou negociando com a serraria a serragem de madeira para construir casa e galpão, alguns quilômetros acima. Quero ver se é possível fazer o transporte com o seu barco para ser mais rápido.

– As toras estão prontas?

– Ainda não. Vim primeiro ver se é possível o transporte. Se nos entendermos, podemos fazer uma rampa para rolar as toras e também para descarregar as madeiras serradas.

– A que altura fica sua propriedade?

– Logo depois do primeiro rio um pouco maior que tem do lado esquerdo de quem sobe. Tem uma curva e um lugar mais fundo ali. Acho ser o melhor lugar para fazer a carga e descarga.

– Preciso ver esse lugar para não perder tempo. Se não for o melhor lugar, vai fazer trabalho à toa. Se ainda não preparou as toras, deixa para fazer depois que definirmos o lugar de carga e descarga.

– Sim. Fazemos o corte nas proximidades do lugar.

– Podemos fazer isso amanhã pela manhã. Pode ser?

– Tenho que falar primeiro com o homem da serraria e fechar o negócio da madeira com ele.

– Depois que terminar de negociar, venha aqui e vamos até lá. Aproveitamos amanhã que não tem nenhum outro frete para fazer, além de um pouco de madeira e telhas um pouco antes, na terra do seu Francisco.

– Conheço. Comprei dele uma vaca algum tempo atrás.

– Vamos e voltamos amanhã, depois de descarregar e ver onde vamos atracar na sua terra.

– Obrigado. Só quero saber se posso lhe pagar o frete em toras.

– Isso é possível negociar. O Fritz da serraria me compra a madeira. Sempre temos negócios de transporte a fazer e vamos nos entender nesse assunto.

– Vou para o meu quarto e dormir. Quero levantar cedo amanhã.

– Pensei que iria jantar comigo. Podemos terminar de conversar sobre os detalhes do negócio.

– Se não lhe causar incômodo, eu aceito.

Continuaram conversando por alguns minutos e logo a mulher avisou que a comida estava pronta. A refeição era a base de eixe, existente em abundância no Rio que passava a poucos metros da casa. Uma travessa generosa de peixe frito, feijão, farinha de mandioca e mandioca cozida, além de um prato de salada de pepinos. Terminado o jantar, João agradeceu a hospitalidade e foi dormir. O dia fora longo e queria descansar. Queria estar em pé bem cedo para tratar da aquisição das madeiras. Nesse momento lhe ocorreu que esquecera do cavalo. Na empolgação com o transporte e ida no barco não lembrara de tordilho. Seria possível levar o animal no barco? Teria que ver isso logo de manhã. O animal estava num estábulo em segurança, bem alimentado e protegido.

Dormiu e pela manhã, mal o dia raiou, estava em pé, tinha encontrado o dono da hospedaria com um chimarrão pronto e lhe dera algumas cuias. Depois adquiriu um pedaço de pão para comer e quebrar o jejum. Passou no estábulo ver o cavalo, dar comida e água, pois ficara a noite sem nada. Ao chegar à serraria, encontrou lá o senhor Carlos Albuquerque, dono do barco. Viera verificar a madeira que seria carregada. Depois iria tratar de colocar as telhas e algumas pequenas coisas no barco. Até eles terminarem a negociação estaria terminando de colocar as madeiras também no barco.

João pediu se haveria problema em levar o cavalo, ao que ouviu dizer que havia até um compartimento para receber o animal. Era habitual transportar cavalos de um lugar a outro. Ficou tranquilizado com isso. O senhor Fritz Keller tinha calculado o custo de toda madeira que precisaria e a quantidade de toras necessárias para pagar tudo. Em poucos minutos estavam combinados e recebeu a promessa de que, em um mês aproximadamente a madeira estaria pronta para ser transportada. Tempo suficiente para preparar também as toras e o embarcadouro. Recebeu um papel com a discriminação das madeiras a serem fornecidas cortadas e das toras para serrar.

Satisfeito foi buscar o cavalo. Pelo visto haveria tempo para deixar o animal pastar um pouco nas proximidades da casa do dono do barco. Vira ali um pedaço de grama bem crescida. Certamente não faria mal se fosse rebaixada em parte para alimentar tordilho. Levou-o até lá e viu a atividade das mercadorias sendo carregadas. Haviam surgido mais coisas a transportar alguns quilômetros além. Era importante aproveitar o tempo para levar o máximo de carga possível, aumentando os ganhos.

Não tenho o que fazer, foi ajudar no serviço de carga. Em alguns minutos chegaram duas juntas de bois puxando duas carretas carregadas de madeira serrada. A serraria ficava perto e voltariam para buscar mais uma carga. Faltava pouco para o meio dia quando tudo ficou carregado. João foi buscar tordilho que a essa altura fizera um belo serviço de poda na grama do pátio da casa de Carlos. A mulher ficou satisfeita, pois a grama alta atrapalhava para caminhar e também favorecia o aparecimento de certo tipo de aranhas.

Tordilho estranhou um pouco o ambiente, mas não foi difícil convencê-lo a subir no barco. Em poucos minutos estava acomodado no compartimento, onde ficaria seguro, sem risco de cair ou saltar do barco. A mulher de Carlos trouxe o almoço até o barco e eles sentaram ali mesmo para comer. Enquanto isso a caldeira aquecia e era aprontada para partir. Ao terminarem de almoçar, a pressão estava no ponto e, um apito forte, avisou a partida do barco. Carlos manobrou de ré, colocando o seu “navio” a contra a correnteza, começando a mover-se lentamente para frente. Aos poucos a velocidade aumentou, mas não muito. Subir o rio, contra a força da água, exigia bastante força e a máquina não era das mais fortes. Depois de vencer um trecho de correnteza mais forte, o barco começou a se deslocar mais depressa. Em uma hora e meia alcançaram a terra de seu Francisco, onde havia um atracadouro. As telhas e madeiras, com ajuda dos filhos do morador, foram descarregadas rapidamente.

João olhou bem o local do atracadouro e concluiu que escolhera bem. Seria perfeito para fazer a carga e descarga o ponto que escolhera para isso. Faltaria apenas a confirmação do marinheiro. Não tardou e estavam novamente navegando, depois de ter sido feito o acerto do frete com um dos filhos de seu Francisco. Cumprimentara os rapazes e mandara lembranças aos pais. Haviam perguntado sobre a vaca e ele lhes disse estar ótima, produzindo bastante leite. A bezerrinha nascera e estava no ponto de desmamar. Com mais meia hora chegaram ao local que João imaginara ser apropriado para carregar e descarregar. Carlos olhou detidamente o local, mediu a profundidade da água, avaliou a altura do barranco e concordou. Apontou uma árvore como referência. Seria ali o ponto ideal para fazer o local de embarque.

Seguiram um pouco à frente, num lugar mais limpo e uma rampa foi colocada na borda do barco, encostada na margem. O cavalo foi descido e foi preciso abrir passagem com o facão até um ponto em que poderia montar. Os marinheiros acenaram e seguiram rio acima. Havia uma boa caminhada até a cabana. Ia contente, pois fora mais fácil de conseguir tudo que precisava. Na viagem pelo rio conversara com Carlos e este se dispusera a trazer, em uma de suas viagens para Canoinhas as ferramentas de que João precisasse e não existissem no povoado. Chegou em casa com o sol próximo ao horizonte. Encontrou Lua com o filho brincando no pátio com um cachorrinho que havia vindo com Pedro.

Uma preocupação toldava o semblante da mulher. O avô Trovão Distante, estava bem doente. Na noite anterior tivera uma crise de tremedeira e pensara ser malária ou outra forma de febre, mas amanhecera muito fraco, não comera nada o dia inteiro. Só pedia água e falava nos antepassados. Dizia a todo momento que estava sendo chamado pelos ancestrais e iria ter com eles em pouco tempo. Lua estava inconsolável. Vivera durante muito tempo com o avô, sendo criada por ele e depois cuidando dele. Agora estava na iminência de ficar sem ele. Era-lhe difícil imaginar a vida sem o ente querido. João a amparou, segurando o filho num dos braços. Ela se pôs a chorar silenciosamente.

João afagou carinhosamente seus cabelos, deixando que seu pranto corresse livremente. Depois de alguns minutos ela levantou a cabeça, enxugou os olhos e falou:

– Lua vai ter que viver sem Trovão. Ele não quer mais ficar aqui com Lua, João e pequeno bisneto.

Um beijo suave na face, depois outro nos lábios macios da mulher serviram para acalmar seu coração amargurado. Foram juntos até junto do ancião e realmente ele estava próximo de seu fim. Ao ver o homem de sua neta, falou com voz sumida, reunindo as últimas forças:

– João, prometer cuidar bem de Lua e pequeno?

– Eu prometo, eu juro, eu garanto Trovão Distante. Vai em paz, grande amigo.

– Tupã vai cuidar de tudo agora. Eu vou encontrar…

Um suspiro e silenciou. Aquele índio, que em outros tempos fora forte, vigoroso, causando inveja a muitos, havia esgotado as últimas energias. Iria caçar e pescar nos campos do além, junto com seus antepassados. Com certeza teria um lugar reservado no “céu” de Tupã, junto aos inúmeros membros de sua família, desde muitas gerações. Fora, em toda sua longa vida, um homem digno. Nunca envergonhara sua estirpe. Defendera a família enquanto tinha forças. Agora estava em paz, deixando a última flor de sua família, Lua Serena em mãos seguras e garantira também sua descendência.

Em alguns minutos Pedro retornou do pasto onde fora supervisionar as primeiras vacas que haviam parido. Cinco belos bezerros haviam nascido. Estavam todos bem e o último levantara para mamar havia pouco antes de sair de lá. Os peões estavam cuidando, pois poderia ocorrer o nascimento de mais algum durante a noite e não desejavam que nada acontecesse com eles. Ao chegar encontrou o irmão de retorno consolando a mulher Lua que chorava copiosamente. Um olhar inquiridor obteve como resposta do irmão:

– O velho Trovão Distante foi caçar no além.

Imediatamente Pedro entendeu. Aproximou-se e sem saber o que fazer diante da situação, ficou mudo por um minuto. Depois entrou na cabana, onde encontrou o velho índio deitado imóvel sobre o catre. Olhou por um minuto, constatando que realmente ele estava morto. Não restava dúvida alguma quanto ao estado do velho. Saiu calmamente e foi para perto da cunhada.

– Ele viveu uma vida longa e cheia de aventuras. Com certeza está com os seus antepassados.

– Ele está com Tupã agora, – falou Lua.

Os dois não sabiam qual era o costume entre os indígenas numa situação dessas. Não deveriam ter um ritual complicado antes do sepultamento. Precisariam perguntar à Lua o que fazer. Pedro, em seu íntimo, decidiu deixar que o irmão fizesse essa pergunta. João parece que adivinhou os pensamentos do irmão e falou:

– Minha querida Lua, como devemos fazer para sepultar seu avô?

– Aqui perto tem um lugar onde estão sepultados meus pais, irmãos e outros membros da família. Vamos cavar a cova e envolver corpo numa manta. Coloca sentado e cobre de terra.

– Podemos fazer isso amanhã pela manhã?

– Sim. Lua passar noite cuidando corpo. Vocês dormir para fazer cova amanhã antes de sol nascer.

Lua enxugou as lágrimas, o pequeno estava chorando de fome. Deu de mamar ao filho e depois preparou a refeição noturna. Não havia onde colocar o corpo de Trovão, apenas haviam colocado o mesmo na posição de cócoras, antes de enrijecer. Do contrário seriam obrigados a cavar uma cova bem profunda para sepultar o velho em pé, ou teriam de quebrar seus ossos, o que não seria conveniente. Deitaram para dormir, mas foi difícil conciliar o sono. Levantaram e foram para o lado de fora, sentar-se em umas pedras. Ali sentados João contou à Pedro o resultado de seus negócios no povoado.

– Depois de sepultar o velho, vamos começar a preparar as toras e depois limpar o lugar para fazer a carga, – disse Pedro.

– Tem até o ponto onde fazer isso. Vou mostrar amanhã, depois que terminar aqui.

Ficaram longo tempo conversando, até a lua crescente surgir no horizonte. Fora deitar e conseguiram dormir um pouco. Lua ficou acordada a noite inteira, velando o corpo do avô. Seu rosto parecia sereno, como se dormisse sentado. Quando amanheceu, ainda com um resto de luar, João e Pedro foram para o lugar indicado por Lua, pondo-se a cavar vigorosamente. Queriam cumprir o que ela recomendara. Terminar antes do nascer do sol. Quando os primeiros raios surgiram no céu matinal, João carregou o corpo magro do velho índio até a cova, onde foi depositado carinhosamente. Lua pegou um punhado de terra e jogou sobre o corpo, fazendo sinal aos dois que poderiam concluir o sepultamento. Em poucos minutos um pequeno montículo de terra fresca assinalava o local da sepultura de um remanescente da tribo, que um dia fora numerosa.

Com o braço sobre o ombro da mulher, João conduziu-a de volta para a cabana. Pedro seguiu atrás, levando as ferramentas. Chegaram e Lua foi tirar leite. Aprendera a fazer a tarefa, não sem alguma dificuldade inicial, mas depois que entendera como fazer, logo ficara hábil no manejo das tetas da vaca. Em pouco tempo tinha ordenhado a vaca e deu a porção de leite ao bezerro. Trouxe o líquido para a cabana, colocou uma porção para ferver e com água quente que havia no fogo, coou um pouco de café. Aprendera a gostar da bebida, inicialmente rejeitada. Tomaram café em silêncio, enquanto Lua foi cuidar do filho. Depois de terminada a refeição, foram para fora, onde João disse à Lua:

– Querida, eu vou até a beira do rio com Pedro, mostrar onde vamos carregar toras e madeira. Lá vamos escolher as árvores que vão dar a madeira para nossa casa.

– Lua fazer comida para almoço. João trazer peixe de rio?

– Vou pegar uns peixes sim. Vamos comer peixes.

Deu um abraço e um beijo no pequeno filho, colocou-o nos braços da mãe e depois os irmãos foram selar os cavalos. Logo seguiam pela trilha até a beira do rio onde João localizou a árvore marcada por Carlos. Havia pedras no barranco, tornando o local firme para suportar a plataforma de carga e descarga. Nas proximidades havia uma porção de pinheiros e também imbuias, canelas e outras árvores boas para toras. Poderiam fazer as toras todas ali perto, sem precisar transportar longe. Era um fator que favorecia a tarefa. Examinaram com cuidado as árvores próximas, marcando as que pretendiam derrubar para serem usadas na construção.

João procurou em um pedaço de pau podre alguns vermes para servirem de isca e foi até a beira do rio tentar pescar. O rio tinha peixes em abundância, o que facilitou a tarefa. Em menos de uma hora tinha pescado vários quilos de belos peixes. Dera-se ao luxo de devolver à água os de menor porte, pois poderiam crescer muito, antes de serem pescados para comer. Com um arame, tendo uma argola na ponta, pendurou os peixes presos pelas guelras, à sela e montou. O irmão seguiu-o e pouco antes do meio dia chegaram novamente ao pequeno pátio da cabana. Seria necessário também limpar o local onde pretendiam construir a casa, o galpão e estábulo.

Lua ficou feliz com o belo suprimento de peixes trazidos. Logo depois de servir o almoço ao marido e cunhado, foi até o córrego limpar os peixes. Era hábil no manejo da faca e logo os peixes estavam limpos. Cortou a carne em postas finas, salgando-as e pendurando a maior parte ao sol para secar. O exemplar maior, seria assado para a refeição da noite. Pedro e João decidiram ir até o pasto ver como estava o gado. Eram poucos minutos até lá e encontraram os peões, um em cada ponto, cuidando dos animais. Mais duas vacas haviam parido e duas estavam deitadas em lugares próximos em trabalho de parto.

Foram ver os bezerros que já caminhavam ao lado das mães, mamando a cada instante. Elas se mantinham juntas. Pareciam adivinhar que assim teriam maior possibilidade de defender conjuntamente as crias. Pedro disse:

– Elas sabem que unidas tem mais força.

– E pensar que a gente costuma dizer que só o homem raciocina.

– Não sei se chega a tanto, mas deve ser por instinto. A própria natureza ensina.

Esperaram um pouco e foram verificar as novilhas. Uma parte delas já havia entrado no cio e estavam cobertas. Os touros eram eficientes. Não deixavam escapar uma fêmea no cio. Os peões sabiam melhor quais eram as cobertas. Até o momento nenhuma delas repetira o cio, significando que a cobertura estava sendo eficiente. Era habitual que algumas falhassem, além de a cobertura ocorrer no momento inadequado, levando a impedir a fecundação. Se houvesse até 10% repetindo o cio, estaria dentro da normalidade. Pelo que se observava, iriam ficar longe desse limite, pois a maior parte estava dando sinais de começar a gestação. Para quem tinha prática, era fácil saber se a vaca estava coberta ou não.

Voltaram contentes, observaram os novos bezerros nascidos há poucos minutos e começando a querer se pôr de pé. Estando tudo em ordem, não faltava nada aos peões e decidiram voltar para casa. Chegaram à cabana, sentindo de longe o cheiro agradável de peixe assando. Lua sabia temperar de forma especial, combinando sal, pimenta e ervas. Aprendera com o avô Trovão e João complementara, mostrando o uso dos temperos do homem branco.

– Pode deixar que eu tiro o leite agora, – falou João para Lua.

Pegou os utensílios e foi buscar a vaca que pastava não longe dali. Tinha milho guardado em um pequeno rancho de sapé, onde foi buscar um punhado de espigas e picou duas raízes de mandioca para alimentar o animal. O suplemento dado, melhorava a qualidade do leite produzido, bem como sua quantidade. Quando a escuridão começava a descer, ele estava voltando com o leite. O peixe estava quase pronto, pois não tinha necessidade de muito tempo sobre o fogo. A carne branca e leve, ficava assada logo.

Um pouco do leite foi posto para ferver, e o restante guardado para reunir ao da manhã seguinte. Daria um queijo crioulo, muito saboroso em mistura com outros condimentos. O peixe estava muito saboroso. Antes de comerem, Lua falou:

– Este peixe vamos comer em honra de avô Trovão Distante.

– Ao grande amigo Trovão Distante, um brinde. Que haja muitos peixes e caça nos campos de Tupã, – falou João.

Sentaram e comeram em silêncio. A morte do velho era muito recente. Sabiam que a jovem mulher ainda estava com o coração dolorido pela perda. O pequeno estava no colo da mãe, ganhando pequenos pedacinhos de carne, de onde eram removidas cuidadosamente as espinhas. Parecia apreciar o petisco. Resmungava enquanto movia a boca, como se estivesse mastigando. No maxilar inferior, o primeiro dente estava visível, ainda pouco acima da gengiva. Mais algum tempo e estaria com a pequena boca cheia de dentes, tornando-se capaz de mastigar.

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Ponte ferroviária sobre Rio Uruguai em Marcelino Ramos. Desembocadura do Rio do Peixe na margem catarinense.

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