Na senda dos monges! – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado – Capítulo IV – Fundamentando a comunidade

  • Fundamentando a comunidade.

 

Com a conclusão da casinha, foi hora de preparar a comemoração para celebrar a consumação do matrimônio de Isabel e Alfredo. Queriam apenas reunir as famílias, sem fazer despesas excessivas. O tempo e as condições não eram de exagerar ou desperdiçar. Havia trabalho demais por fazer na propriedade, ainda mais com a necessidade de abrir espaço para plantio na propriedade de Alfredo e Isabel. Mesmo não podendo fazer grandes cultivos nessa safra que na realidade já estava plantada, poderiam colher alguma coisa no plantio tardio, especialmente de feijão, talvez um pouco de milho, se a geada não viesse muito cedo.

Por uma questão de importância natural, a propriedade dos Batista passou a ser uma espécie de centro e ponto de convergência da redondeza. Assim, mesmo não divulgando muito a comemoração do enlace da filha Isabel com Alfredo, no dia havia várias pessoas que não haviam sido especificamente convidadas. Ninguém fez caso dessa exceção e ao final do dia o casal se despediu dos presentes para finalmente, após alguns meses, passarem a viver como marido e mulher. Haviam feito questão de se manterem intactos até o dia de poderem consumar sua união em sua própria casa. O esforço valeria a pena. Esperavam dar exemplo a outros casais, valorizando o amor, mas especialmente a fidelidade. Fidelidade mútua, como também à comunidade. A família esteio da sociedade e geradora de novos membros com elevados valores éticos e morais.

A medida que as propriedades da região adquiriam, aos poucos, maior importância econômica, produzindo gado de corte, erva mate, milho, pinhão em abundância a cada ano, mais e mais interessados em se estabelecer nas terras ainda disponíveis. Havia nas proximidades da margem do Rio do Peixe, dentro do perímetro da terra dos irmãos Batista, um local, junto a uma encosta rochosa, que parecia predestinado a local de oração e recolhimento. Pedro em um passeio percebeu o local com olhos diferentes. Ao chegar em casa, procurou o irmão João Maria e lhe propôs doarem ali um pedaço de terra, incluindo o pequeno morro, para servir de sede religiosa da comunidade que ser formava. João Maria propôs irem os dois e olhar em detalhes o lugar.

No dia seguinte, logo cedo, selaram seus cavalos e foram até lá. Caminharam por todo perímetro, verificaram a extensão e as condições. Aproveitaram para deixar demarcada a área, abrindo uma picada na base do facão, pelo menos de modo provisório. Seria necessário que o agrimensor fizesse a demarcação definitiva, e aproveitariam para fazer isso no momento em que esse viesse fazer a medição da terra de Alfredo e também de seu irmão. Na próxima visita do padre à região lhe comunicariam a intenção e entregariam o mapa já pronto para que o devido registro fosse feito. Enquanto isso iriam participando aos demais moradores sobre sua intenção. De todos receberam aprovação e havia os que queriam começar imediatamente a construção, para que nas próximas oportunidades, ali fossem feitas as celebrações comunitárias.

Não era conveniente colocar a carroça à frente dos bois. Esperariam que os aspectos locais fossem encaminhados para então começarem as obras. Do contrário poderiam ser obrigados a mudar tudo depois, pondo a perder o que tivesse sido feito, no caso de algum ponto do plano não sair a contento. No dia em que o agrimensor chegou para fazer as demarcações e elaboração dos memoriais das duas áreas, soube que haveria mais um pequeno serviço a fazer. O terreno destinado à construção de uma igreja que atenderia as necessidades espirituais do povo. Logo de saída falou que esse serviço seria feito gratuitamente. Havia tido ultimamente vários trabalhos na região, especialmente das famílias Batista e Schröder. Mais outros moradores começaram também a se movimentar para tratarem da legalização de suas terras. O que muitas vezes lhes faltava era o dinheiro para pagar as despesas envolvidas. Teriam que trabalhar primeiro e conseguir os recursos para enfrentar os custos.

Com os memoriais em mãos, Alfredo viajou para Curitibanos e lá encaminhou os registros, tanto em seu nome como também em nome do irmão. Dirigiu-se à casa paroquial e lá encaminhou ao vigário a intenção do sogro João Maria e tio Pedro, de doar uma área para a Igreja. O vigário recebeu o documento e se encarregou de encaminhar o registro, ficando a seu cargo avisar a data para assinatura da escritura de doação pelos doadores. Nesse tempo estavam disponíveis as escrituras da terra do Pai Francisco, bem como dos irmãos Batista. Foi com satisfação que recebeu esses documentos e os levou para casa.

Ao chegar a jovem esposa Isabel o recebeu com alegria esfuziante. Inicialmente ele estranhou e indagou:

– O que está acontecendo, meu bem?

– Tenho uma novidade para te comunicar, meu amor.

– Novidade! O que isso significa?

– Significa que você vai ser pai. Eu estou grávida.

Um abraço carinhoso e copiosas lágrimas foram a resposta de Alfredo. Estivera tão ocupado com o encaminhamento dos documentos de legalização da terra e sequer imaginara que isso poderia estar acontecendo. Ficou grandemente emocionado. Não via a hora de anunciar aos familiares, tanto de um quanto de outro. Isabel não contara nada ao pai nem à madrasta ou tia. Passara vários dias sentindo enjoos matinais e em outros momentos durante o dia. Isso, aliado ao atraso do ciclo menstrual, trouxe a confirmação da gravidez. Os seios estavam levemente doloridos, coisa que nunca sentira antes, pelo menos com a intensidade de agora. Não havia dúvidas.

Naquela noite o amor entre eles foi especial. Ainda mais carinhoso do que havia sido até aquele momento. Na manhã seguinte, depois das atividades matinais, foram até a casa dos pais de Isabel onde deram a notícia e entregaram o documento de propriedade da terra. Seguiram depois até a casa de Francisco com a intenção de fazer o mesmo. Encontraram a mãe de Alfredo sozinha, pois os irmãos estavam no trabalho de cultivo da roça de milho e demais plantações. O documento encheu a senhora de alegria, mas o anúncio da gravidez da nora, superou a primeira emoção. Seria o primeiro neto ou neta. Como mãe dedicada e carinhosa que fora, sentia sua maternidade ter continuação.

Chamou Isabel para um quartinho, onde estava uma máquina de costura, bastante usada, na qual eram confeccionadas as roupas da família. Mostrou alguns cortes de tecidos e se prontificou a começar nos próximos dias a confecção de roupinhas para o (a) neto (a) que começava a se desenvolver no ventre da jovem esposa de Alfredo. Fez a senhora lembrar de seu casamento e primeira gravidez. Também casara aos quinze anos e logo sentiu crescer em seu ventre o primeiro filho. Sentira-se parte da humanidade, contribuiria com sua prole para povoar esse imenso país onde havia tanta terra por ocupar, cultivar e explorar.

Na hora do almoço encontraram com Francisco e os irmãos de Alfredo, deixando a todos felizes em terem nas mãos o documento que provava serem agora proprietários de sua terra. O irmão mais velho recebeu seu comprovante de encaminhamento da requisição de seu lote. Ao saberem da notícia da gravidez de Isabel, a futura tia e os tios se alegraram mais ainda. Havia tempo que não existia uma criança na casa. Começaram a planejar o que cada um faria com o pequeno sobrinho, como o iriam “estragar”, quais seriam as traquinagens que lhe ensinariam. Isabel se restringiu a sorrir levemente, pensando em seu interior que, no momento oportuno, veria o que de fato iriam fazer. O certo era que sem exceção, todos ficariam esperando o pequeno ser vir ao mundo.

Antes de anoitecer os dois retornaram para casa. Por mais que se sentissem bem na companhia da família, era em sua casa que deviam passar a maior parte do tempo. Seus afazeres domésticos ainda eram poucos, pois tinham apenas uma vaca para tirar leite e uma porca em vias de parir, além de dois capados, que cevariam para prover carne e banha nos meses subsequentes. Em pouco tempo estavam prontos e se recolheram, depois de cuidar da higiene noturna. Isabel preparou o jantar, aproveitando ovos que havia recolhido naquele dia, um tanto de leite, bem como pão assado no forno que ficava ao lado da casa, protegido por um telhadinho, junto com um grande cocho de lavar roupa.

Os dias seguiram céleres e aos poucos a propriedade do casal ia adquirindo forma. Algumas novilhas vindas da propriedade do pai, bem como também de João Maria, se juntaram à primeira vaca. Eram poucas, mas serviam para começar a criação. Ainda havia tempo de plantar feijão para a safra tardia, batatinha e cuidar das reservas de erva mate nativa. Os pinheirais logo começariam a derrubar sua provisão de pinhões. Quanto mais pudessem recolher, melhor, pois sempre havia procura por mais do produto, devido à sua diversidade de usos na culinária e alimentação animal. Com um pouco de empenho, teriam um bom suprimento de produtos para pôr à venda na chegada do inverno.

O ano de 1999 caminhava para sua primeira metade enquanto no Paraná, partindo de Ponta Grossa, os trilhos da EFSPRG caminhavam para Rebouças. No Rio Grande do Sul avançavam rumo ao norte, demandando Cruz Alta. Periodicamente havia técnicos percorrendo a região por onde seria estendida a linha, causando sempre algum alvoroço, entre os moradores. Alguns anunciavam o início da construção imediatamente, outros duvidavam dizendo que ainda rolaria muita água pelo rio antes dessa concretização. Nessas ocasiões surgiam sempre os rumores sobre desapropriações de terrenos para a passagem dos trilhos; a concessão da faixa de terras de ambas as margens da estrada, à empresa construtora para exploração e loteamento para colonização. O resultado era uma insegurança, especialmente de parte dos que não haviam legalizado suas terras.

Havia muitos que afirmavam não valer à pena legalizar, pois se o governo concedera as terras à companhia da estrada, de nada adiantariam documentos de propriedade. Isso suscitava de reações de grande revolta, dizendo que defenderiam a sua permanência nas terras com a própria vida. Iriam comprar armas, lutariam até o último homem, até a última gota de sangue, mas não arredariam pé de sua terra. Não era raro que ocorressem até pequenos entreveros entre os mais exaltados e os mais conformistas, adeptos da conveniência de ser mais cordato, aceitar o que viesse a acontecer. Aos poucos tudo se acalmava, afinal ainda não havia sinal de início da construção. Por ora não havia com que se preocupar.

Sempre que João Maria de Jesus chegava nas redondezas, um pequeno grupo de moradores acorria aos seus pés para pedir conselhos, realização de batizados, remédios para os males do corpo. Ele a todos atendia com simplicidade, distribuindo palavras de conforto, ânimo e estímulo para guardarem a Santa Religião, cumprir a vontade de Deus e não esquecer nunca de rezar com fervor, em especial o terço, a recomendação das almas. Depois de deixar suas recomendações, ele seguia seu caminho, deixando para trás o povo sempre com a esperança renovada. Deixava igualmente algumas previsões, que faziam os mais atentos pensar seriamente sobre o significado que elas continham.

Aos poucos tudo se acalmava, com o povo voltando aos afazeres que de cada dia. De nada adiantava ficar exaltado, sentado e esperando o advento de um possível apocalipse, sendo que era muito provável tratar-se de algo fantasioso. No fundo ficava sempre, em algumas pessoas, a preocupação com os dias vindouros. A julgar pelas previsões de João Maria e as notícias vindas por conta da EFSPRG, haveria nuvens escuras no horizonte da região. Havia ainda que somar a tudo isso a sombra que pairava sobre a região, devido ao litígio territorial entre Santa Catarina e Paraná. Mesmo com a sentença favorável de parte da mais alta corte nacional às pretensões de Santa Catarina, a relutância das autoridades paranaenses em aceitar a demarcação definitiva, deixava um clima de incerteza na vida dos moradores daquela área.

Os mais idosos, ouvindo as palavras de João Maria e juntando tudo, vaticinavam um futuro não muito auspicioso para a população do planalto. Bastava colocar em um mesmo caldeirão todos os ingredientes e deixar o caldo ferver para imaginar o resultado. Coisa boa não poderia ser. Para os mais jovens, confiantes num futuro mais promissor, com a chegada da estrada de ferro. Era voz corrente ser sinal de progresso a presença de uma ferrovia na região. Junto com ela vinham estabelecimentos comerciais, pequenas indústrias, aglomerações urbanas, causando em consequência um surto de desenvolvimento. Isso era sem dúvida motivo de euforia, principalmente para aqueles mais interessados em comércio e atividades, não ligadas à terra diretamente.

Em meio a esses acontecimentos o ano passou e pouco antes do final, nos últimos dias de novembro, nasceu o filho de Isabel e Alfredo. Era um menino, saudável e forte. Encheu de alegria aos pais, bem como aos avós. Agora seria o momento de torcer pela presença de João Maria para batizar o recém-nascido. Escolher os padrinhos, estabelecer o compadrio horizontal. Mais tarde seria a vez do batismo na igreja, com a presença de um padre. Seria o momento de escolher o compadrio vertical, colocando o filho sob a proteção de alguém mais poderoso. Nos casos de falta ou impossibilidade dos pais, eram os padrinhos que assumiriam a responsabilidade pela educação, sustento e encaminhamento na vida dos afilhados. Estabelecia-se ampla rede de um parentesco, não de sangue, mas de relações entre vizinhos e também com as pessoas mais importantes do lugar.

No decorrer do ano o padre avisou estar pronta a escritura colocando em nome da mitra diocesana o terreno doado pela família Batista. Poderiam, no momento oportuno, deslocar-se para a cidade e assinar o documento. No mês de julho, aproveitando um período mais propício, João Maria e Pedro foram cumprir esse compromisso assumido. O padre lhes agradeceu e sugeriu que se tratasse de fundar uma comunidade, elaborando um estatuto e registrando a entidade. Na continuidade seria o momento de iniciar os trabalhos de edificação de uma capela, bem como um pequeno prédio escolar. Convinha alfabetizar as crianças, pois o futuro estava a exigir a evolução da população. O começo seria pela retirada das crianças do analfabetismo.

Os dois irmãos retornaram com a cabeça cheia de ideias de progresso e mudanças. Teriam pela frente um trabalho árduo a desenvolver. A grande maioria era analfabeta e não seria muito fácil fazer-lhes ver a necessidade de fundar legalmente a comunidade. Além disso seria complicado elaborar os estatutos, justamente em face da falta de pessoas aptas a redigir e colaborar na formulação dos artigos do documento. Teriam que pedir ajuda a quem pudesse colaborar. João Maria lembrou de sua filha Isabel. Ela passara pelas classes na fazenda da família em Passo Fundo, tendo sido por várias vezes citada como aluna destacada. Certamente daria sua contribuição nesse momento. Talvez houvesse mais uma e outra pessoa capaz de ler e escrever. Fariam o esboço e depois o submeteriam a revisão de alguém mais capacitado. O próprio padre havia lhes dado um exemplar para servir de modelo e colocara seus auxiliares à disposição para revisar depois de pronto.

Logo ao chegarem, na medida em que encontravam os vizinhos, iam espalhando a notícia da formalização da escritura para a diocese. Agora estavam liberados para tratar da formalização da comunidade e construção de uma capela, além de um pequeno prédio escolar. Mais um problema à vista. Construir a escola era o mais fácil. Difícil mesmo era encontrar alguém capaz de desempenhar a função de mestre escola. Até mesmo uma mulher poderia ocupar o posto. Porém se era difícil encontrar homens alfabetizados, era mais difícil ainda essa tarefa quando se tratava de encontrar essa pessoa entre as mulheres. Novamente lembraram de Isabel. Restava saber se a mesma estaria disposta a assumir semelhante encargo.

O menino foi batizado por um vizinho, já que João Maria estava demorando a aparecer. O padre viria em um mês ou mais e então seria feito o batismo oficial. A notícia da constituição da comunidade da igreja, início da construção da igreja, se espalhou em poucos dias. Alguns vieram logo se oferecer à João e Pedro seus préstimos, toras e serviço para ajudar na construção. Sendo os primeiros moradores e os proprietários do maior rebanho de gado da região, eram eles considerados os moradores mais importantes. Alguns até lhes atribuíram o título de Coronel, o que eles recusaram, pois não tinham o direito de usar galardão. Eram apenas moradores como os demais. Estavam dispostos a colaborar com a comunidade, mas não faziam questão alguma de terem títulos honoríficos ou regalias.

Em 1900 espalhou-se a notícia da inauguração da primeira etapa paranaense da EFSPRG, entre Ponta Grossa e Rebouças. Na mesma época o padre de Curitibanos visitou a comunidade para inaugurar e abençoar a capela que haviam edificado. Também tinham conseguido, com muito esforço, concluído o estatuto da comunidade. O padre o levaria consigo e faria uma revisão, antes de encaminhar o documento para registro junto à diocese e também nos órgãos governamentais. Em alguns meses a comunidade estaria legalizada. A pequena escola também estava pronta, porém faltavam os equipamentos básicos para que a mesma começasse a funcionar. Faltavam os quadros para escrever, livros, cartilhas e materiais de ensino.

O padre se encarregou de desenvolver gestões junto às autoridades municipais a liberação de materiais para o funcionamento mínimo da escola. Veria a disponibilidade de algum mestre escola ou senhora capaz de assumir o trabalho de professor. Também poderiam apresentar alguém da comunidade que tivesse condições de assumir a função. Logo alguém lembrou de Isabel e ela foi questionada sobre o assunto. Ela sequer pensara em tamanha responsabilidade. Pensava ser incompetente para a função. Talvez, com um pouco de incentivo, ela aceitasse a tarefa.

A expansão de propriedades no vale do Rio do Peixe, despertou a cobiça de grandes fazendeiros da região de Canoinhas, Curitibanos e Lages. Vários deles enviaram seus capangas para demarcar áreas de terras e requerer a propriedade. Em alguns casos, até a expulsão de posseiros menores que se dedicavam principalmente ao extrativismo e não haviam encaminhado a legalização de suas posses. Isso ocasionava conflitos frequentes, inclusive com alguns atos de violência. Havia quem se conformasse e partisse para um lugar mais distante onde pudesse encontrar nova área para posse. Outros, mais bem relacionados, recorriam às armas defendendo o que consideravam seu, causando tiroteios e resultando em mortos, bem como feridos.

Cada notícia de violência perpetuada por capangas de algum coronel, causava revolta entre os moradores de menor poder e influência. O que evitavam era entrar em conflito com os poderosos, para não causar maiores transtornos. Ninguém ignorava que os órgãos governamentais estavam em grande parte ao serviço dos poderosos. O que agravava tudo na região era o litígio entre os dois estados na questão do domínio sobre o território contestado. Isso deixava um vácuo de poder, pois em alguns momentos, as autoridades paranaenses faziam uma varredura, tentando impor seu domínio. Na maior parte do tempo quem se apresentava como “dono” eram as autoridades catarinenses.

A sempre falada EFSPRG seguia em compasso de espera. Os grandes financistas europeus, passavam temporadas sem liberar recursos para novos investimentos, apesar das garantias oficiais oferecidas. Um clima de instabilidade política existente no Velho Mundo, contribuía para a menor disponibilidade de ativos financeiros para investir no novo mundo. O capital de risco é extremamente arisco, sendo que de um momento para outro, mudadas as condições internacionais, ele se retrai completamente. Da mesma forma, normalizadas essas condições, ele retorna a estar disponível e pronto a financiar os grandes projetos nos países em desenvolvimento.

A pressa de elaborar o projeto inicial pelo Engenheiro Teixeira Soares, fizera com que incorresse em erros de projeto como principalmente excesso de curvas, tornando a estrada lenta, pouco segura e com grande possibilidade de ser deficitária. Todos esses problemas levavam os investidores a analisar muito bem os projetos em que iriam investir seus capitais. As grandes distâncias transcontinentais, a instabilidade frequente na área política tornava tudo mais difícil. Era evidente a falta de alguém com influência e relacionamentos entre os financistas, para alavancar em pouco tempo o volume de recursos necessários. Surgiram diversos pretendentes à aquisição da concessão, mas ninguém dispunha do cacife suficiente para adquirir uma concessão desse porte. A parte em que sequer havia sido movida uma pá de terra, feito um aterro ou ponte, eram os pouco mais de duzentos quilômetros na região do território contestado entre Paraná e Santa Catarina. As previsões eram tratar-se do trecho mais caro, devido à inexistência do mínimo de infraestrutura. Era preciso trazer tudo de longe, levando ao encarecimento da obra.

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