Fantástico mundo novo! – Capítulo IV – Recebendo novas lições de vida.

  1. Recebendo novas lições de vida.

 

Sock e os filhos chegaram em pouco tempo, cansados de um dia intenso de trabalho no porto. O segundo navio estava praticamente carregado. Com pouco tempo na manhã seguinte concluiriam o serviço. Ouviram admirados as novidades que Zósteles e Minck traziam. Era de ficar pasmo diante da receptividade que a proposta de ensinar a ler e escrever, além de lições de filosofia, haviam tido de parte da população. Havia sim, alguns que ficavam céticos a respeito, mas um bom número de meninos e meninas havia sido inscrita pelos pais. Também os adolescentes estavam entusiasmados. Um grupo de homens estava disposto a discutir e ouvir lições de filosofia. Viam nisso uma oportunidade de deixar para trás os dias de ignorância. Mesmo dedicando a vida ao trabalho humilde, poderiam ter um nível cultural mais elevado.

Em meio aos relatos feitos por Minck, suas irmãs Song e Xing, pediram se poderiam também tomar lições de leitura e escrita. Sock consultou Muhn com o olhar e concordou. Estabeleceu, porém, que deveriam frequentar as lições em turnos diferentes, para não deixar a mãe sozinha com os afazeres domésticos. Isso a sobrecarregaria. Diante dessa posição, os rapazes, também se propuseram a participar das sessões de filosofia, uma vez que seriam apenas três noites. O jantar transcorreu em alegre conversação, intercalada entre bocados de comida levados à boca. Muhn olhava severa para os filhos, quando eles começavam a falar tendo a boca cheia de alimento. Imediatamente eles mastigavam primeiro e depois falavam. Assim, havia oportunidade de todos falarem, sem transformar a refeição em uma balbúrdia incompreensível.

Terminada a refeição, Muhn e as filhas prepararam uma vasilha reforçada de chá, que foi adoçado com mel. Todos saborearam uma caneca do líquido de aroma agradável. Logo o cansaço começou a fazer efeito e começaram a recolher-se ao leito. Mas Minck escapou de fininho e subiu lépido ao alto do penhasco. Mal pisou no lugar de sempre, viu a sua estrela piscando em rápida sucessão. Parecia que Arki esperava tão ansioso quanto ele pelo encontro. Sem demora o raio de luz azul cruzou o espaço e logo a voz de Arki se fez ouvir:

– Estou aqui, meu amigo!

– Eu também acabei de chegar. Estive ocupado o dia inteiro.

– Me conte o que andou fazendo. Quero ouvir de sua própria boca.

– Ontem à tarde encontrei na aldeia um filósofo. Ele vem de muito longe. Peregrinou por muitos lugares e é muito sábio. Vamos ter lições de leitura, escrita, os adultos vão aprender filosofia.

– E você vai participar, creio eu!

– Certamente. Minhas irmãs e os irmãos também estão animados.

– Isso é muito bom. A família inteira elevando seu grau de cultura. Terão uma melhor percepção das coisas depois disso.

– Mal posso esperar pelo começo das lições. Até o Senhor Sporg, dono do salão onde Zósteles vai ministrar as lições, irá participar dos estudos de filosofia. Ele disse que não existe idade para aprender coisas novas.

– Você verá ao longo de sua vida evolutiva, que o aprendizado não termina nunca. Até o Pau Universal, o Deus Supremo, sempre está evoluindo. Mesmo sendo todo poderoso, acumula as experiências dos seres que evoluem em todos os Super Universos, até chegarem ao Paraíso. Isso ele não pode fazer sem a ajuda de vocês, humanos.

– Quer dizer que Deus aprende com a nossa experiência?

– Mais ou menos isso. Ele amplia sua experiência, multiplica sua misericórdia, mesmo ela já sendo infinita.

– Isso fica um pouco complicado, amigo Arki. Mas espero entender com o tempo.

– Até para nós, seres espirituais, há limite para a compreensão de algumas coisas.

– Assim eu fico mais confortável em minha ignorância. Se todos aprendemos juntos, um dia chegaremos ao final da jornada.

– Pelo menos nos aproximaremos da perfeição divina. Esse é o objetivo que deve nos mover a todos.

– Eu observei que o mestre Zósteles, também possui a “fagulha” e ele ficou admirado com minhas noções, aprendidas de você, sobre o universo e a vida nas outras esferas.

– Ele veio guiado pela “fagulha” divina, para encontrar sua aldeia. Será o começo de uma grande evolução para grande parte da população local. Aos poucos vocês irão ultrapassar essa fase, alcançando níveis que ainda nem imaginam.

– Estou ficando curioso para saber cada vez mais.

– Tudo tem seu tempo, Minck. Não queira apressar as coisas. Após cada obstáculo, vem mais um e mais, sempre mais. Com a prática, a habilidade de superá-los cresce e fica sempre mais fácil. Avança-se mais depressa.

– Mais ou menos como a criança quando aprende a caminhar. Os primeiros passos são vacilantes e aos poucos aprende a correr. Pode vir a ser um corredor bem veloz.

– Exatamente. Vou tentar resumir em poucas palavras a história da evolução da espécie humana em um planeta. Depois de pronto o ambiente físico, material, preparado o suprimento de energia, chegam os portadores de vida. Eles preparam os modelos projetados pelos Arquitetos do Universo. Quando eles estão prontos a Ministra Divina, que atua em união com o Filho Criador, fornece o sopro de vida. Assim as formas de vida adquirem a mente e capacidade de reprodução. A Ministra Divina, é como a mãe da criação. Ela fornece à mente primitiva dos seres humanos as características que os diferenciam das outras formas de vida, isto é, os animais e plantas. Essa tarefa cabe aos sete espíritos ajudantes da mente.

O primeiro traz a intuição, responsável pela percepção instantânea das coisas, o instinto primitivo, os reflexos de autopreservação.

O segundo é responsável pela compreensão, que permite coordenar as coisas, associar ideias, raciocinar rapidamente.

O terceiro traz a coragem. Dela vem a fidelidade, é a base do caráter e da fibra moral. Tem como fruto o altruísmo.

O quarto é do conhecimento. A curiosidade incita à aventura, descobertas novas, espírito científico, serve de guia para a coragem e o conselho.

Agora o quinto traz o conselho. Tem como resultado o impulso social, cooperação e harmonia comunitária, o instinto gregário.

Em sexto está adoração. É o impulso que leva à vida religiosa, a busca de Deus pelo homem.

Por último, o número sete, traz sabedoria. Coordena e articula o trabalho com os outros. É a finalidade dos outros ajudantes.

Com o tempo os humanos adquirem a mente autônoma, sob a orientação dos espíritos ajudantes, criados pela Ministra Divina, também conhecida como Espírito Materno, intimamente unida ao Filho Criador, Mikael. Quando isso acontece, o ser humano se torna capaz de tomar decisões por si, empreender aventuras, fazer novas descobertas, acumular conhecimentos, alcançar a sabedoria. A ação dos espíritos ajudantes termina e o ser humano passa para o círculo dos Espírito Materno. Ao se procriarem, os pais desempenham a tarefa dos espíritos ajudantes. Quando os filhos alcançam a idade de cinco anos, o Pai do Universo concede a “fagulha” e o novo humano está equipado com os meios de avançar por sua própria vontade.

– Mas a gente precisa de mestres para ensinar as coisas como ler e escrever.

– Cada um seria capaz de aprender por sua conta. Mas o auxílio dos mestres mais idosos, acelera o processo de aprendizagem. E o homem passa o resto da vida mortal no planeta de origem aprendendo. Ao morrer, se tiver optado por seguir o caminho indicado pela “fagulha” divina, irá para uma outra esfera. Lá ele é despertado para uma nova etapa. Depois de terminar essa nova etapa, adormece e será despertado em outra esfera. Assim sucessivamente até completar o ciclo. São inúmeras etapas. Só avança quem for aprovado no aprendizado a que for submetido no decorrer dessa etapa.

– E aqueles que não quiserem seguir o caminho indicado?

– Estes serão julgados e no final serão destinados à destruição. Deixarão de existir.

– Eu pensava que os maus iriam para um lugar de sofrimento, como fogo que não apaga. Pelo menos é o que dizem os mais velhos.

– A punição é mais drástica. Eles são levados à não existência, o que parece ser mais severo. A condenação ao fogo, poderia tornar-se amena com o tempo, na medida em que se acostumasse com a situação.

– Também acho que deve ser bem terrível ser fadado à destruição. Num momento se existe e logo depois não existe mais. Isso é difícil de compreender.

– Há grande número de indivíduos que se negam a aceitar a orientação divina. Quem recusa seguir o caminho da evolução, não tem para onde ir. É melhor deixar de existir. Talvez seja permitido retornar em uma nova existência, a partir do começo, mas não sei dizer se isso corresponde à verdade.

– Poxa amigo! Você hoje me ensinou uma porção de coisas. Vou me esforçar por recordar tudo.

– A “fagulha” ajudará na recordação. Lembre-se de mim e começará a lembrar uma por uma, todas as coisas que falei. Agora acho que está em tempo de voltar para casa. O Soberano está esperando para me mandar em outra missão e você precisa ir dormir. Sua mãe está esperando.

– Acho que sim. Eu perdi a noção do tempo. Enquanto ouvia você falar, a Luz subiu um bocado no céu. Quando vou te ver outra vez?

– Vai demorar um pouco mais. Não sei bem, mas a missão que vou encarar, é mais distante e demorada. Acho que em uma semana vou poder voltar. Enquanto isso aproveite para aprender o máximo com o mestre filósofo. Durma bem e descanse. A semana vai ser longa e cansativa. Até a volta, amigo.

– Obrigado pelos ensinamentos.

O ser celestial retornou à sua estrela e seguiu seu destino. Uma nova missão o esperava num planeta mais distante. A viagem era mais demorada e o trabalho mais difícil. Minck retornou a casa, onde a mãe estava ansiosa por vê-lo retornar. Demorara bastante e ela o repreendeu, dizendo:

– É perigoso ficar até tarde fora de casa. Pode ser atacado por um animal selvagem, alguma serpente, ou mesmo um salteador.

– Os “anjos” me protegem, mãe. Eles não me deixam sofrer nada de mal.

– Que os deuses ouçam suas palavras e realmente o protejam dos perigos.

– Me abençoa, mãe. Quero ir dormir.

– Seja abençoado meu filho. Durma bem.

Ela deu um beijo na sua face e recebeu outro em retribuição. Em instantes ele estava deitado, pensando nas palavras de Arki. O interessante era o fato de as palavras do anjo, refluírem de sua mente como se estivessem ali gravadas em uma pedra. Ele seria capaz de repetir palavra por palavra o que o amigo dissera. Pensando em tudo isso, adormeceu e sonhou com ajudantes espirituais, com orientadores, com a Ministra Divina e uma multidão de seres angélicos. Todos tinham suas tarefas. Eram diligentes na execução de seu trabalho e não interferiam com o dos outros. Pareciam formar uma grande engrenagem, muito bem ajustada e sincronizada. Viu as inúmeras esferas celestes girando no espaço, cada um em seu movimento próprio, mantido em rigoroso controle por forças invisíveis. Era uma coisa maravilhosa. Quanto mais longe olhava, os mundos se sucediam em sequência interminável.

Bem longe, era possível ver um intervalo e do outro lado havia novas esferas girando, mas em movimentos próprios. Deveriam ser os tais Super Universos de que Arki falara. Nesse momento acordou e ficou sem saber ao certo se tivera um sonho ou se aquilo era uma continuação das palavras do amigo. Estava deitado em seu leito e não via o amigo há algum tempo. Fora um sonho, que se ajustava perfeitamente com aquilo que ouvira no alto do penhasco. Na tentativa de entender o que acontecera, adormeceu novamente e agora foi um sono sem sonhos. Acordou ouvindo a mãe e as irmãs já despertas, preparando o desjejum. Foi até o exterior, onde caia uma chuva mansa. O céu estava cor de chumbo e prometia um dia inteiro de chuva. Era excelente, pois havia dias que não caia uma gota de água. Mais um pouco e começaria a faltar água. Alguns poços na vizinhança já estavam com pouca água. Com a chuva que caia, o risco de seca estaria temporariamente afastado.

Lavou-se rapidamente e voltou para dentro. A temperatura caíra bastante, levando o menino a se manter perto do fogo para se aquecer. Os irmãos e o pai logo também levantaram. Alguns bocejos eram vistos, até que todos tivessem lavado o rosto. Os agasalhos mais reforçados foram retirados do lugar em que eram guardados. Para enfrentar a chuva, era necessário se proteger. Sock olhou para os filhos e disse:

– Acho que temos sorte se não aparecer nenhum navio hoje para descarregar. O pouco que falta para terminar o do Capitão Streck, não vai demorar. Basta uma viagem de cada trabalhador e teremos terminado. Não será necessário nos molharmos muito.

– Creio que depois devemos aproveitar para organizar melhor as mercadorias que estão no depósito. Se as colocarmos bem arrumadas, ficará mais fácil fazer a carga nos navios ou mesmo nas carroças dos mercadores.

– Você tem razão, Sumok. Vou falar com o chefe do porto sobre isso. Aproveitamos o tempo chuvoso que ficaria ocioso e teremos mais facilidade em fazer o trabalho depois. Acho que ele vai concordar. Mesmo que o pagamento aos trabalhadores seja menor do que num dia de trabalho na carga e descarga.

– Trabalhamos agora e economizamos esforço depois, – disse Kulik.

– Venham comer. Está pronto. Não vou tirar do fogo para não esfriar.

– Saudações a todos, – falou Zósteles que acabava de levantar.

O dia antecedente fora logo e cansativo. A idade, um pouco avançada, cobrava seu tributo. Isso recomendava dar tempo ao corpo para o descanso requerido. Foi saudado igualmente por todos e ele Minck se dispôs a trazer-lhe a vasilha com água para se lavar. Ele esperou e depois agradeceu ao pequeno discípulo. Serviu-se também de alimento para suprir o estômago de alimento, depois das longas horas de sono. Fez-se silêncio apenas interrompido pelo ruído da deglutição, audível por todos os lados.  Enquanto isso a chuva caia firme lá fora. Parecia que havia uma cascata despejando água sobre a aldeia. Terminado o desjejum, os homens se prepararam para chegar ao porto, tentando enganar as gotas de chuva.

Zósteles falou:

– Se esperarem um pouco, vou com vocês. Quero conhecer o porto, conversar com os homens, nos momentos de descanso. Vai ser bom para eles e também para mim. Poderei aprender um pouco sobre a vida deles.

– Espere que vou lhe providenciar um agasalho para se proteger da chuva. Tem um aqui que fica na reserva para essas ocasiões.

– Eu também vou junto. Posso acompanhar o Senhor e mostrar tudo. Afinal, conheço o porto inteiro.

– Não irá fazer falta à sua mãe aqui?

– Aqui eu acho que só iria atrapalhar a mãe e as irmãs. Muita gente na casa durante os afazeres de limpeza e preparação da refeição, não ajuda em nada.

– Você tem uma justificativa pronta para tudo, hein!

– Não é isso mãe? Eu posso acompanhar o Senhor Zósteles, não posso?

– Pode sim, filho. Vai servir de guia ao mestre. Mas não esqueça seu agasalho.

– É para já.

Logo estavam todos prontos e dispostos para enfrentar a chuva, que estava nesse momento dando um pequeno alívio. Caia apenas um chuvisco. Se a caminhada fosse longa, acabaria molhando também. Se andassem depressa, chegariam em razoáveis condições. Conseguiram adentrar o prédio do depósito, onde um numeroso grupo de trabalhadores estava à espera. Depois de abrir o local onde se encontrava a mercadoria que faltava carregar, colocaram uma espécie de armação, feita de madeira e coberta de um tipo de esteiras, impermeabilizadas com resina. Assim ficou formado um corredor por onde poderiam levar as mercadorias até o navio. Não era mercadoria que suportasse ser exposta à água da chuva. Era preciso proteger ao máximo. Quando tudo estava pronto, iniciaram o transporte das mercadorias. Em pouco mais de uma hora estava tudo a bordo e o Capitão Streck agradeceu. Ainda deu uma recompensa destinada aos trabalhadores, além do ganho normal pelo trabalho.

O trabalho todo havia sido feito em tempo recorde. O chefe Sock, soubera organizar de tal forma as tarefas, que tornava tudo mais fácil. Dessa maneira, o processo de descarga e posterior carga, ficou diminuído em muito. Em muitos portos que visitava regularmente, os trabalhos eram morosos, os trabalhadores relapsos e ainda por cima exigiam remuneração extra, por qualquer coisa. Isso tornava tudo mais caro. Com a eficiência demonstrada, ele fez recomendações ao chefe do porto, elogiando a equipe de trabalho. Valia a pena manter esse espírito, pois isso iria trazer muitos comandantes para o porto, transformando-o em um entreposto comercial importante. Ele seria, dali por diante, cliente assíduo. Era preferível esperar um pouco para ter acesso ao cais, mas depois o serviço ser executado de forma rápida e eficiente.

Os trabalhadores, ao receberem a gratificação, ficaram contentes. Sentiram-se recompensados pelo esforço que haviam despendido e orgulhosos por serem elogiados pelo Capitão publicamente. Zósteles havia visitado uma parte das instalações e chegou perto no momento que se encerrava aquele serviço. Conversou com alguns trabalhadores, trocando impressões, acolhendo sua alegria com palavras de estímulo. Tinha por hábito sempre usar palavras positivas ao dialogar com as pessoas. Isso ajudava os interlocutores a terem seu espírito guindado a um nível de energia mais alto. O trabalho e mesmo as dificuldades do dia a dia se tornavam menos difíceis de enfrentar. Sempre granjeava a simpatia de grande parte das pessoas com quem entrava em contato.

Sock havia falado com o chefe do porto e este concordara com a sugestão de organizar de maneira mais prática a disposição das mercadorias existentes no depósito. Isso daria resultados no momento de colocar os produtos nos veículos que os levariam para o interior, ou nos navios que os levariam para outros portos, onde serviriam para o consumo por gente que jamais iriam conhecer. Mas sabiam dar valor a um produto de qualidade. Certamente os compradores que esperavam nos portos do mundo afora, tinham a mesma apreciação pela qualidade. Uma mercadoria bem armazenada, garantia uma melhor conservação, bem como evitava deterioração por acontecimentos fortuitos e evitáveis. Isso no fim significava lucro maior com menor volume de perdas.

Os trabalhadores estavam sentados nos cantos, em grupos conversando, contentes com um pouco de descanso, devido à chuva. O intervalo durou pouco. Logo a voz de Sock convocou a todos para ouvirem o que iria propor. As mercadorias no depósito estavam mal acomodadas. Isso muitas vezes causava atrasos, tempo desperdiçado procurando volumes dispersos no meio de outros produtos. Se estivessem separadas por espécie, variedade e mesmo quantidades nos fardos ou sacos. Um pouco a contragosto, o grupo em minutos estava em plena atividade. Ao chegar a hora de almoçar, já haviam feito uma parte do trabalho. Logo se tornava visível o resultado e todos começaram a dar razão. O que faziam nesse momento, significaria economia de tempo em dias vindouros.  Reconhecendo a habilidade do chefe, todos se empenhavam ao máximo para executar com diligência as tarefas propostas.

O trabalho foi interrompido para a refeição do meio dia. Muitos traziam a refeição em suas matulas e sentavam-se por ali mesmo para comer. Havia um local para isso, o que evitava que ficassem resíduos nos depósitos, atraindo insetos e mesmo ratos ou outro tipo de bichos. Antecipando-se aos homens, Muhn e as filhas chegaram com os alimentos preparados com um pouco de antecedência. Assim evitavam o deslocamento dos homens até em casa. Até Zósteles participou da refeição. Uns poucos que moravam nas proximidades foram até suas casas almoçar. Logo começaram a voltar. Apenas dois deixaram de voltar. Sock anotou quem preferira ficar em casa, em lugar de voltar ao trabalho.

O dia seguinte seria de descanso semanal. Esses seriam os primeiros na lista de eventuais dispensas do serviço, se houvesse necessidade. Zósteles observou a atuação de Sock no comando do trabalho. Ficou admirado com sua habilidade. Era notável como um homem, sem nada de instrução, era capaz de tanto senso de orientação para eficiência do trabalho de sua equipe. Isso era um ponto a favor do chefe. Ser capaz de exercer a liderança, sem usar de truculência. Sua voz soava firme, mas inspirava confiança, estímulo aos comandados, levando-os a se empenharem ao máximo. Isso tornava tudo mais fácil. Sem perda de esforço, o trabalho ia sendo executado em perfeita ordem e sincronismo. As pilhas de fardos e sacos, colocados de forma pouco prática, iam se modificando à medida que o tempo passava. Ao final do dia, o depósito estava irreconhecível. Até mesmo os trabalhadores reconheceram. O espaço havia sido otimizado, sendo que agora seria possível colocar ali em depósito muito mais mercadorias.

Ao ver o resultado, o chefe do porto ficou pasmado. No primeiro momento ficou preocupado. Onde haviam sido colocadas as mercadorias que ali estavam pela manhã? Parecia que uma grande parcela havia desaparecido. Indagou com o olhar o chefe dos trabalhadores, que lhe disse:

– Não está faltando um fardo, nem saco. Apenas a colocação em ordem e separado por tipo e espécie, ajudou a aproveitar melhor o espaço. Por isso sobrou tudo isso agora.

– Mal posso acreditar no que vejo. Juro, quando vi o depósito metade vazio, tive impressão de ter sido roubado.

– Podemos contar tudo e verificar que não falta um único grão, nenhuma peça de nada.

– Eu já vi, Sock. Você fez um trabalho maravilhoso.

– Eu apenas orientei. Quem fez tudo foram os trabalhadores. Deve agradecer a eles.

– Irão receber o pagamento do dia de modo integral. Isso vale por uma carga de navio pequeno. Muito bem feito. Podem passar no balcão para receberem seus pagamentos.

Ao terminar de fazer o pagamento, o chefe verificou que dois estavam ausentes. Sock informou que eles não haviam retornado depois do almoço. Iria verificar o motivo e informaria ao chefe. Não tinha intenção de fazer intriga entre os trabalhadores e o chefe. Dizer que haviam faltado sem motivo, poderia gerar descontentamento. Somente faria isso depois de conversar pessoalmente com os dois. Poderia ter acontecido algo em suas casas, levando-os a não retornar. O dia seguinte era de descanso e poderia ir até suas casas verificar, com a justificativa de estar preocupado com seu bem-estar. Assim não criaria ressentimentos desnecessários e cumpria seu papel de chefe imparcial. Ser firme, porém humano era seu lema.

Zósteles e Minck haviam saído antes, indo verificar como andava a confecção de bancos e mesas para o salão das lições. Pretendiam dar os primeiros passos da escola, no primeiro dia da semana seguinte. Também era importante saber se o material para escrita estaria disponível na casa do comerciante. Com a chuva, era possível que não tivesse tido tempo de voltar. Zósteles disse que não haveria problemas se o primeiro dia tivesse que ser gasto em atividades, sem o uso de material específico. Importante era conhecer os discípulos, conversar com eles um por um, mostrar alguma coisa escrita, os principais símbolos usados pelas diversas línguas. Os sons empregados na formação das palavras. Só isso dava para ocupar uma manhã ou uma tarde sem problema.

O comerciante realmente não voltara ainda, mas, se o dia seguinte fosse de tempo melhor, ele certamente daria um jeito de voltar. Salvo acontecesse algum incidente provocando atraso. O marceneiro arrumara dois ajudantes e estavam em vias de concluir o serviço. Um pouco que faltasse, iriam terminar no dia de descanso mesmo. Não queriam causar nenhum atraso à atividade de tamanha importância. Se antes Minck já era visto com respeito, graças à sua participação nos acontecimentos do porto na última semana, agora que estava sempre acompanhando o filósofo, o mestre que iria ensinar a arte da leitura e escrita, a condescendência aumentara e muito. Aproveitando um intervalo na chuva que continuou caindo praticamente o dia inteiro, o mestre, acompanhado do discípulo voltaram para casa depressa.

Não demorou para Sock e os filhos também voltarem. Teriam no dia seguinte o tempo todo para descansar. Poderiam dormir o quanto quisessem, não haveria horário estabelecido, com exceção das refeições. Muhn era inflexível nesse particular. Ela fazia questão de servir a comida no mesmo horário. Parecia ser um “relógio”, previamente programado para executar as tarefas sem variar, dia após dia. Frequentemente os filhos diziam que não deveria ser tão rígida, mas ela nem escutava. Se não estivessem presentes na hora certa, teriam que se contentar com o que houvesse depois. As sobras, se as houvesse, estavam à disposição dos retardatários. Sock se acostumara à essa intransigência da esposa e não reclamava. Recomendava aos filhos que fossem pontuais. No dia em que tivessem a própria casa, poderiam dispor do tempo livre como bem entendessem. Caberia à esposa aceitar tal coisa ou não. Que fossem diligentes na escolha da mulher com quem iriam dividir a vida no futuro.

O dia do descanso amanheceu ainda com um pouco de chuva, mas não tardou a aparecer um vento vindo do mar, que se encarregou de varrer as nuvens do céu. Pelo meio da manhã o sol deu o ar de sua graça, começando a evaporar as poças d’água que haviam ficado por toda parte, além de gradativamente secar o chão das ruas. Por volta do meio dia, já era possível caminhar sem que o barro grudasse nos pés ou sandálias na rua. A manhã havia transcorrido em alegres palestras dentro de casa. A presença de Zósteles serviu de motivo para ouvir suas narrativas das muitas viagens que fizera. Uma série de peripécias intermináveis era matéria suficiente para muitas horas de conversa.

Cada episódio dava ensejo a novas perguntas e estas evocavam novas lembranças. Dessa forma chegaram ao horário de almoçar, sem sequer perceber. O mestre estava até um tanto rouco de tanto que falara. Almoçaram e decidiram fazer uma excursão pelos arredores da aldeia. Zósteles gostou da ideia. Chegara pela estrada, mas não tivera tempo ainda de conhecer a área que circundava a aldeia. Saíram caminhando a pé, enfrentando o sol que brilhava forte, nas primeiras horas do período vespertino. Visitaram propriedades agrícolas, criações de animais como cabras e porcos. Havia também galinhas, patos e gansos. Pomares bastante grandes eram vistos nas encostas das colinas próximas. Dali saiam vinhos, frutas secas, uvas passas e frutas frescas, vendidas na aldeia, e dali levadas para outros pontos. Havia fartura no campo da região. O solo era fértil, as chuvas caiam bastante regulares.

Voltaram ao anoitecer, trazendo sacolas cheias de frutas frescas, ovos envoltos em palhas para protege-los contra a quebra e até um odre de vinho. Muhn aproveitara o tempo para ir, em companhia das filhas, até a casa de sua irmã, verificar como andavam as coisas na casa dela. Pelo que Sock contara, Sumiang trabalhara dois dias, tendo depois voltado ao mar para pescar. Não sabia como havia se saído na atividade. Era bem mais arriscada e muitas vezes não rendia absolutamente nada. Havia dias em que os peixes pareciam sumir das águas do mar em redor. Quando tinham sorte, traziam o barco repleto até quase naufragar de tanto pescado. Isso fazia a vida oscilar entre altos e baixos constantemente. Se o marido de sua irmã Nhuma se sentia melhor trabalhando no mar, nada havia a fazer. Era livre para escolher seu trabalho. O problema era que, a mulher e os filhos ficavam a mercê das oscilações do abastecimento no lar.

Sempre que possível Muhn ajudava a irmã, mas nem sempre havia essa possibilidade. Encontrou o cunhado em casa. Não fora pescar no dia de descanso. Muitos colegas não queriam saber. Pouco lhes importava ficar no mar no dia de descanso. Importante mesmo era trazer para casa o alimento e dinheiro para comprar os demais itens necessários para sustento da família. Conversaram e Sumiang falou no caso do trabalho no porto. Disse que não se habituava ao trabalho rotineiro de carregar infindáveis montanhas de mercadorias de um lado para o outro. Preferia estar no mar, sentir o vento no rosto, os respingos de água salgada na pele. Ali estava em seu elemento.

Muhn olhou-o com os olhos inquisitivos, como que indagando dele de julgava certo deixar a mulher e os filhos em casa â espera de sua volta, para poderem por um bocado de comida na boca, se é que havia o que comer. Ele desviou os olhos, como que dizendo que isso não é de sua conta. Eu sou o homem e aqui mando eu. Cuide de sua vida, que eu cuido da nossa.

Frustrada Muhn permaneceu por mais algum tempo, deixou nas mãos da irmã, algumas moedas sem que Sumiang percebesse. Assim, em caso de necessidade, poderia comprar alguma coisa para matar a fome dos filhos. Se o marido queria teimar, que teimasse, mas ela não suportava a ideia de saber que os sobrinhos passavam necessidade por indolência do pai. Dizer à sua irmã que enquadrasse o marido e exigisse dele mais seriedade no trabalho, não poderia. Temia causar um desentendimento sério entre o casal e isso poderia gerar consequências imprevisíveis. Melhor deixar que o tempo desse jeito na situação. Graças aos deuses estava em condições de fornecer essa pequena ajuda a irmã e seus filhos.

Sock mandara dizer que ele poderia voltar a trabalhar no porto. Compreendia sua relutância em aceitar o novo trabalho, depois de uma vida inteira no mar. Mas teimar em dar murro na ponta de faca, era uma coisa incompreensível. Afinal o que havia de tão humilhante em trabalhar no porto como carregador? Se no final de uma semana levava para casa seu ganho certo, por que tanta relutância em mudar de vida? Mas isso deveria partir do cunhado. Não tinha forças para leva-lo a mudar.

Minck vinha radiante do passeio. Vira de perto os patos, gansos, galinhas, cabras e ovelhas. Comera frutos colhidos das frutíferas, experimentara de tudo um pouco. Vinha com as mãos repletas de várias frutas e mesmo ovos. Um queijo que o pai comprara, bem como um pouco de manteiga, tudo para ser partilhado com a família. Eram produtos frescos, naturais, bem diferentes do que era encontrado no mercado. O que estava ali exposto, sempre era envelhecido, por vezes mofado, até mesmo com algum inseto, tornando pouco apetitoso o produto para ser consumido.

Ao chegarem em casa, a mãe Muhn já estava em casa e recebeu alegremente tudo que os passeadores traziam do campo. Poderia enriquecer as refeições da família durante vários dias. Iria sugerir esse tipo de passeio com maior frequência. Ela mesma gostaria de ir junto. Há muitos anos não punha os pés numa propriedade rural. Ver um animal vivo, pastando ou comendo em seu local de criação, era bom. Fazia lembrar que tudo vem da natureza.

Apesar do cansaço da caminhada, todos estavam felizes. O mestre Zósteles vinha cantando músicas em línguas estrangeiras. Pela expressão estampada em seu rosto, devia ser uma canção divertida. Ao terminar foi preciso traduzir as palavras que compunham a canção. Ele fez-lhes a vontade, com a diferença que na língua local, ocorria a perda da musicalidade da letra. Isso sempre ocorria, graças à sonoridade própria de cada língua. Iriam dormir cedo para enfrentar a semana seguinte, trazendo suas lutas, dificuldades e também vitórias.

Décio Adams

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