Fantástico mundo Novo! – Capítulo V – Começo do aprendizado.

  1. Começo do aprendizado.

 

O primeiro dia da nova semana, amanheceu com a aldeia coberta de um denso nevoeiro. Era comum nessa época do ano, devido à proximidade com o oceano, a chuva recente, ocorrer esse fenômeno. Porém, pouco depois os raios solares como que perfuraram a névoa e ela foi dissipada. O céu apareceu azul e sem nuvens. Apenas um ou outro “floco de algodão” parecia flutuar no firmamento, como se algum coletor distraído tivesse esquecido de recolhe-los junto ao resto da colheita. Os discípulos matutinos, chegaram, curiosos e um pouco receosos também, para o início das lições. Boa parte estava sem material para escrita, pois o comerciante que se encarregara, era esperado a qualquer momento. As fortes chuvas de dois dias antes, haviam causado o atraso.

A ampla sala estava limpa, cheirando a madeira nova trabalhada, sinal evidente da passagem do marceneiro por ali. Ainda restavam algumas peças por fazer, mas estas seriam trazidas na medida em que ficassem prontas. O essencial estava ali. Mestre Zósteles, sempre sorridente e afetuoso, convidou todos a entrar e tomar assento. Se apresentou sem perda de tempo, fazendo um brevíssimo resumo de sua vida e suas peregrinações. Omitiu propositalmente os eventos dolorosos, por serem de nenhum interesse dos iniciantes, pelo menos nesse momento. Terminada sua explanação, começou por querer conhecer um a um os presentes. Eles levantavam ficando de pé, em sinal de respeito, mas o mestre carinhosamente os instava a permanecerem sentados. Haveria tempo para ficarem de pé. Queria saber o nome, o nome do pai, da mãe, quantos irmãos tinha, a idade.

Assim passou-se um bom tempo. Ao término das apresentações, abriu espaço para que fossem feitas perguntas, sobre qualquer assunto de interesse pessoal ou do grupo. Houve vários que queriam saber detalhes sobre a Grécia, país de origem do mestre. Outro quis informações sobre a forma de vida no Egito, na China, Mesopotâmia, Pérsia, Babilônia. Eram tantos lugares, apenas presentes em tênues recordações nas mentes infanto-juvenis, que remontavam a algum episódio narrado por algum viajante, vindo por terra ou por mar. A todos o mestre esclarecia, com informações sucintas. Não havia como tratar de modo minucioso cada assunto. Satisfeita a curiosidade inicial, ele indagou dos presentes qual seria a língua que preferida para começar a aprender. O mestre, por sorte, dominava a língua local e sua escrita. Era uma variante do idioma oficial no reino da Índia. Foi essa a escolha da maioria. Seria mais útil conhecer a escrita e leitura da língua de sua própria terra. Depois seria mais fácil aprender outras que fosse possível dominar.

Pedindo ajuda à um adolescente, de seus 16 anos aproximadamente, Zósteles estendeu um pergaminho retirado de um longo estojo. Ali havia a representação em tamanho grande o suficiente para ser visto por todos, a coleção dos símbolos empregados pelo idioma que iriam aprender a ler e escrever. Eles o falavam, com algumas incorreções, mas desconheciam a maior parte dos detalhes, as minúcias da escrita e consequente leitura. Começou por perguntar se alguém conhecia esses símbolos. Um menino, com aparência de pertencer à uma família mais abastada, falou:

– Eu estive por dois meses numa escola na capital e aprendi os símbolos. Mas fiquei doente e tive que voltar para casa.

– Vamos ver se você lembra como se usam esses símbolos.

Apontou para o primeiro e o menino disse o nome do símbolo. O mestre explicou seu uso e a razão disso, ou seja, por que ele fora adotado. A situação se repetiu para o segundo e terceiro. Antes de continuar, o mestre pediu a Minck que repetisse a pronúncia dos três símbolos. Minck, um pouco hesitante, conseguiu reproduzir os sons correspondentes. Uma menina foi perguntada sobre a origem dos mesmos e ela conseguiu repetir os dois primeiros e teve dificuldades no terceiro. Minck foi em seu socorro e completou a explicação.

Agora foi a vez de repetirem em conjunto os três símbolos, o que soou um pouco estranho, demonstrando que nem todos haviam dominado ainda com perfeição. Isso só o tempo traria. O menino que havia tido um pouco mais de um mês de lições, continuou com os próximos quatro símbolos e foi dada a explanação a respeito. O processo de repetir os sons e as explicações seguiu. Depois foram repetidos os sete símbolos já vistos. Isso já permitia formar pequenas palavras. Nesse momento o mestre pegou em outros estojos pergaminhos menores, onde estas palavras estavam grafadas. Mostrou como a junção dos símbolos formava as palavras e as palavras juntas formavam frases. Quando todos estavam começando a ficar entusiasmados, infelizmente era chegada a hora de encerrar por esse dia.

Foram feitas recomendações sobre a aquisição do material necessário. Haviam avisado no decorrer da manhã sobre a chegada do comerciante com o material encomendado. Poderiam assim adquirir seu material e no dia seguinte começariam a tentativa de traçar os primeiros símbolos. Antes de despedi-los ainda lhes mostrou outro pergaminho com os símbolos do alfabeto grego. Rapidamente falou os nomes das letras, deixando a todos curiosos sobre a maneira de usar um número relativamente pequeno de símbolos para escrever todas as palavras da língua. Haviam visto uma lista bem mais ampla de símbolos na língua nativa. Isso seria assunto para o futuro. O tempo se encarregaria de esclarecer todas essas dúvidas.

Zósteles voltou para a casa dos hospedeiros, tendo ao lado o inseparável Minck. Ele estava entusiasmado com as lições. Parecia ter ganho um brinquedo novo. Estava palrador como nunca. O mestre estava encantado com o discípulo. Suspeitava estar diante de uma mente excepcional, muito arguta e perspicaz. Seria uma grata tarefa forjar aquele espírito jovem e acompanhar sua evolução no decorrer do tempo. Havia visto outros exemplos dessa natureza, inclusive aquele que se voltara contra o mestre e seguira caminho diverso, causando todo seu desgosto. Viera dar com os costados nessa aldeia nos confins do sul da Ásia. Devia ser o seu carma, segundo o ensinamento dos indianos e chineses. Era o destino, em conformidade com as crenças de sua terra natal e sua convicção, pelo menos por hora.

Encontraram a família reunida para a refeição do meio dia. Todos quiseram saber como havia corrido o primeiro dia de lição e lhes foi satisfeita a curiosidade. A refeição foi feita em silêncio, pois ninguém dispunha de muito tempo. O porto estava movimentado, com uma fila de veículos trazendo mercadorias para serem descarregadas. Dois pequenos navios haviam adentrado a baia durante o dia de descanso e tinham mercadorias para descarregar, bem como outras para serem carregadas. Sock organizara três turmas de trabalhadores. Sumok, Banik e Kulik comandavam cada uma das turmas respectivamente, enquanto ele, Sock, supervisionava o todo. Ora estava ocupado determinando o local de colocação das mercadorias, ora orientando a melhor maneira de depositar, visando a maior praticidade no momento de remover para carregar em outro transporte. O trabalho fluía harmoniosamente, deixando os comandantes dos navios e também os mercadores admirados. Nunca haviam visto tamanha eficiência.

Após o almoço, algum tempo de descanso e logo estavam todos voltando para seus afazeres. Xing acompanhou alegremente o mestre para as lições da tarde, já que Song e Minck haviam participado pela manhã. O mestre caminhava lépido e fagueiro. A retomada de uma atividade que lhe dava alegria e prazer, parecia rejuvenescer seu corpo já um pouco cansado pelo peso dos anos. Diante da porta da sala, um grupo de mais de vinte pupilos aguardavam a sua chegada. Foi saudado calorosamente com um:

– Salve mestre! – Dito, quase em uníssono, por todas as vozes juvenis.

– Salve, meus jovens! Sejam todos bem-vindos!

A porta foi aberta e logo todos estavam sentados aguardando. Alguns traziam o material já adquirido e outros não haviam tido tempo de fazer a aquisição. No geral, as atividades da tarde, foram semelhantes às do período da manhã. O início dos traçados dos símbolos, ficaria para o a tarde seguinte. Todos ficaram admirados com as inúmeras peripécias que o mestre havia vivido em sua longe peregrinação por diversos países. Conhecera e aprendera vários idiomas, a ponto de saber hoje ensinar a eles sua própria língua na forma escrita e ler. Ao término do turno, saíram igual uma alegre revoada de pássaros que se espalha rapidamente em todas as direções. Havia quem ainda tivesse curiosidades por satisfazer e o mestre respondeu algumas coisas, deixando o resto para a próxima ocasião. Ainda voltaria para a reunião da noite com os adultos, falar de filosofia. Era sua atividade predileta. Conduzir as discussões sobre as questões essenciais da vida, da morte; falar do destino do homem, suas idiossincrasias, desejos, medos, aspirações, enfim falar da alma humana; tudo isso fazia seu espírito voltar aos anos da juventude quando se empenhara em acalorados debates acerca de diversos assuntos.

No grupo que se reuniu para as sessões de filosofia, havia desde jovens de menos de vinte anos, até homens na casa dos quarenta. Era um grupo bem heterogêneo, tanto na idade quanto no aspecto geral. Havia comerciantes, operários do porto, artesãos e até um agricultor da proximidade.

O mestre começou por esboçar uma noção do que é filosofia, qual é seu objeto de análise. Surgiram perguntas de diversas origens. Algumas pertinentes, outras nem tanto ou mesmo desconectadas do assunto que se pretendia apresentar. Mas ninguém foi constrangido por isso. A todos o mestre esclareceu com palavras amáveis, gerando no ambiente um clima de agradável camaradagem. Nem mesmo as diferenças de idade, habitualmente causadoras de divergências severas, foram capazes de desfazer o bom ambiente. Com sutileza, depois das primeiras noções sobre o que é filosofia, o mestre começou por lhes fazer ver que, muitas vezes quando falavam sobre vários assuntos, na verdade estavam emitindo conceitos filosóficos, mesmo sem o saber. Tentariam começar por colocar ordem nesse aparente caos e sobre um alicerce assim formado, construiriam alguma coisa de bem útil.

Não tardou e houve quem se dispusesse a expor alguma ideia que julgava pertinente. Zósteles ouvia atentamente e perguntava aos demais o que julgavam da questão proposta. Algumas vezes havia objeções veementes, algumas concordâncias, divergências pontuais. Por fim o mestre fez um resumo de tudo, retirando dali uma ideia central, que podia ser enquadrada num conceito filosófico geralmente aceito. Dessa forma, mostrou que as discussões mais acaloradas, se bem conduzidas, podem levar a resultados positivos. Não havia necessidade de desavenças, desde que se soubesse ouvir a opinião alheia, contrapor a própria, submetendo tudo a uma avaliação. Chegava-se a um consenso, aceitável para todas as partes, aparentemente conflitantes. Era esse o verdadeiro espírito da filosofia. Harmonizar posições diversas, opiniões opostas e tirar desse caos aparente, uma conclusão positiva.

Após duas horas e meia, era visível o cansaço de grande parte do grupo, especialmente os que trabalhavam em serviços mais pesados. Praticamente todos eram trabalhadores, apenas divergindo nas atividades. Entre eles podia-se ver de um tudo no tocante às profissões, havendo até mesmo um agricultor. Ao encerrar, o mestre lhes desejou bom descanso e convidou a retornarem dali a dois dias. Três noites por semana bastariam para dar um bom início nos meandros da filosofia, a todos os participantes. Os irmãos de Minck ajudaram a fechar o salão, dispondo-se depois a acompanhar o mestre até em casa. Todos haviam, desde a manhã até à noite, trazido sua contribuição para a manutenção do mestre. Alguns, dispondo de maior renda, haviam contribuído mais generosamente, além do mínimo estipulado inicialmente. Com isso Zósteles trazia numa pequena bolsa, uma quantidade de moedas significativa. Tinha agora com que pagar sua hospedagem ou mesmo pagar pela moradia em uma pequena casa. Decidiria isso com calma.

Em todas as casas da aldeia, havia alguém que participava das lições de leitura e escrita ou de filosofia. Desse modo, era comum, ao chegar em qualquer lugar, o objeto da conversação ser o mestre Zósteles. Sua grande bonomia, sua serenidade no trato com as pessoas, quer fossem de nível mais humilde, quer abastados. Não fazia distinção, granjeando com isso a admiração de todos. Tornava-se, por assim dizer, uma unanimidade entre os moradores da aldeia. A semana transcorreu na maior animação entre os discípulos. Mais inscrições para as lições diurnas ocorreram, ao ponto de ser necessário recusar mais alguém. Os lugares estavam todos ocupados. Isso gerou alguma frustração em quem deixou de ser aceito. O mestre ficou entristecido, mas era impossível colocar mais discípulos nas salas.

Minck reparou na angústia do amigo e mestre. Começou a pensar numa forma de ajudar, mas nada lhe ocorria. Sentiu em certo momento a sensação de que algo viria resolver a questão. Não saberia dizer como, mas sentia isso. Lembrou das palavras de Arki sobre os ajudantes espirituais e seus nomes, advindos das aptidões espirituais a serem incutidas nas mentes primitivas dos seres humanos. A intuição era quem lhe dizia para confiar e aguardar o momento certo. Continuou indo às lições de manhã e à tarde, gastava parte do tempo exercitando o que havia aprendido. Sua dedicação era tanta que logo conseguia traçar todos os símbolos que compunham a escrita da língua nativa.

Ao final da semana, no momento em que Zósteles retornava das lições vespertinas, ele lhe apresentou seus últimos exercícios. O mestre ficou surpreso. O menino conseguira dominar sozinho mais da metade do conjunto de símbolos e os combinava formando as palavras. As palavras eram juntadas formando frases inteiras, ainda simples, mas o fato era extremamente relevante. Nesse momento ele teve uma ideia. Se existisse uma sala ao lado daquela em que ministrava as lições, poderia manter ali uma outra turma. Nela Minck poderia ministrar as lições básicas, com sua supervisão. Dessa forma poderiam dar atendimento a mais gente. Para isso deveria saber se ele concordaria com isso. Fez diversas perguntas, sugeriu alguns exercícios mais complexos e o menino em pouco tempo apresentou as respostas com acerto total. Era de ficar pasmado. Com algumas orientações Minck se transformaria num pequeno mestre.

Esperaria mais um pouco, antes de fazer a sugestão. Estava fazendo uma semana que Arki viera da última vez. Minck lembrou e ficou apreensivo em ver o amigo vindo das estrelas. Antes do jantar indagou algumas coisas ao mestre. Ele lhe explicou sem demora tudo que estava ao seu alcance. Quando a refeição noturna terminou, foi a vez de sentar e conversar. Sock e os filhos tinham uma porção de novidades a contar sobre o trabalho e Zósteles estava cheio de fatos interessantes a relatar sobre os discípulos. A mais notável era relativa ao filho caçula, Minck. Quando o procurou com o olhar, verificou que ele havia sumido. Muhn falou:

– Isso é comum acontecer. Frequentemente ele sai à noite e vai observar as estrelas. Conversa com elas, diz que elas piscam para ele, lhe mandam mensagens.

– Interessante isso. Ele é excepcional na rapidez com que aprende tudo. Em menos de uma semana dominou toda a escrita na língua local.

– Ele passa a tarde toda fazendo exercícios. Começou traçando os símbolos, depois começou a combinar uns com os outros formando palavras. Por fim começou a escrever frases. – Falou Muhn orgulhosa.

Continuaram narrando os acontecimentos da semana, até que o sono bateu. Um a um começaram a pedir licença e ir deitar-se para descansar. Por fim Sock e Zósteles fizeram o mesmo. Muhn começou a fazer limpeza desnecessária, uma vez que estava tudo limpo. Mas isso lhe dava ocupação até que o filho voltasse. Sentia vontade de ir procurar o filho, mas nem sabia onde procurar. Teria que esperar pela sua volta.

No alto do penhasco Minck conversava com Arki. Logo que chegou ao lugar de sempre, o amigo veio ao seu encontro. Parecia estar esperando. Narrou por alto o que estivera fazendo durante a semana. Sua missão era prestar assistência em um planeta onde, o surgimento da vida humana estava prestes a ocorrer. As formas animais já existiam. Os ajudantes espirituais estavam realizando sua tarefa de despertar na espécie humana a mente, que os habilitaria a integrar-se no círculo do Espírito Materno do Universo. O Regente que desempenhava as funções do Soberano, em vida de auto-outorga num outro planeta, o enviara para prestar ajuda na solução de pequenos problemas surgidos no trabalho dos ajudantes. Tivera tempo de desincumbir-se da missão e retornar.

Minck tinha uma montanha de novidades para relatar. Principalmente em relação ao seu progresso na arte da escrita e leitura. Ao dizer que dominara os símbolos sozinho, depois das primeiras orientações do mestre, Arki falou:

– Você está em um nível de sintonia muito à frente de seus colegas. Ao aceitar receber as orientações que estou lhe repassando, sofreu uma transformação em suas aptidões. Por isso você irá aprender tudo com muito mais rapidez que o normal. Não deixe que isso lhe torne orgulhoso, nem se torne prepotente com os demais. Poderá ser de grande utilidade ao seu mestre, ajudando a orientar a aprendizagem de muito mais gente. Ele é somente um e os candidatos à discípulos são muitos.

– Será que irão me aceitar como mestre?

– Você será apenas um auxiliar, permitindo ao mestre atender mais discípulos. Ele irá lhe propor isso logo. Fique à espera do momento certo.

– Eu vou ficar contente se puder ajudar.  É tão bom saber ler. Abre um mundo de oportunidades para a gente. Lamento que não tenhamos muita coisa para ler na aldeia. Queria poder comprar pergaminhos com textos de diferentes lugares.

– Isso acontecerá no momento certo. Tenha paciência, não esqueça. Nada acontece antes da hora.

– E já conseguiu a autorização para levar-me passear nas estrelas?

– A autorização já está concedida. Falta apenas esperar a hora certa. Se quiser poderá levar o seu mestre filósofo no passeio. Ele faz parte dos planos que temos para você, sua família e a maioria das pessoas da aldeia.

– Não vejo a hora de isso acontecer.

– No final da próxima semana trarei o transportador múltiplo e poderemos viajar pelo sistema planetário do Universo Local. Vocês verão coisas de que não poderão falar a ninguém por enquanto. Pode me garantir que saberão manter segredo?

– Eu manterei segredo e o mestre creio que não dirá nada que não deva ser revelado.

– Há um planeta onde os humanos tiveram um avanço ultra- rápido. Estavam indo muito bem, dominando a ciência maravilhosamente, extraindo energia útil de processos complexos de maneira segura. Infelizmente, houve um grupo que se desviou do caminho. Junto com a extração de energia, desenvolveram armas de poder destruidor quase incontrolável. Foram desenvolvidas tentativas prolongadas de evitar o desastre, mas, num momento de irreflexão, um governante ordenou um ataque com essas armas. Os outros revidaram e ocorreu o inevitável. A vida humana no planeta foi destruída totalmente. Apenas os animais existentes nas florestas que ainda existiam, sobreviveram. Isso já faz dois mil anos. Agora a natureza conseguiu se refazer o suficiente para ser possível uma nova tentativa de fazer evoluir nesse planeta uma espécie humana.

– Vão recomeçar tudo do princípio. Virão os portadores da vida.

– Aí entram vocês, amigo. O Regente e o Soberano em comum acordo com a Ministra Divina decidiram desenvolver a experiência, levando para lá um grupo de humanos da terra. Assim ganharemos tempo e poderemos observar como se comporta a espécie levada para outro lugar. Vamos passar por lá em nossa viagem para que vejam como está o planeta nesse momento. Em mais alguns anos estará pronto para recebe-los sem problema.

– Isso será uma aventura. Mas quando formos para lá, pode acontecer que alguns queiram voltar. Isso vai ser possível?

– Ainda é cedo para falar sobre isso. Nem eu sei direito ainda. Mas me parece que não haverá volta para quem for transplantado.

– Isso pode ser um problema. Vamos ter que selecionar muito bem quem for.

– Temos tempo para isso, Minck. Não vai ser imediatamente. Nem será com dia e hora marcado. Só depois de todos estarem conscientes e aceitarem a condição, haverá o transporte.

– Eu desconfio que vou desempenhar um papel importante nessa história. Pode me dizer qual vai ser minha tarefa?

– Eu sabia que iria fazer essa pergunta. Você vai ser o líder desse grupo de pessoas que irão ser levadas para o planeta. Irão repovoar esse lugar. É importante que as pessoas estejam em idade de procriar, isto é, ter filhos, para acelerar o processo.

– Isso significa que os mais velhos não irão?

– Não muitos. É importante que algumas pessoas de mais idade, estejam no grupo. Funcionarão como uma espécie de avós, do mesmo jeito que é aqui na terra. O objetivo é fazer tudo de modo natural. Apenas não começarão do zero, mas do estágio de desenvolvimento que existe aqui na terra.

– Eu posso revelar isso ao mestre Zósteles, o filósofo? Se ele vai junto comigo, deve saber para onde vamos, não é verdade?

– Deverá revelar certamente. Ele será o mais idoso do grupo a ir para o planeta no momento do transporte. Será de vital importância. Por isso é preciso que ele saiba de tudo. Sei que saberão guardar segredo, até o momento adequado.

– Você falou várias vezes no Regente. Ele é um anjo como você ou é um tipo diferente de ser?

– Ele é um tipo de espírito que são conhecidos como Brilhantes Estrelas Matutinas. Foram criados com a finalidade de serem regentes, junto com os Filhos Criadores dos Universos. Costumam ser denominados pelo nome de Gabri. Eles têm um grande número de outros seres espirituais para ajudar no governo do universo.

– Cada dia aprendo mais uma porção de coisas. Imagino que ainda terei que aprender uma grande quantidade de outras até o dia do transporte. Se eu fizer uma pergunta, vai me responder?

– Respondo, sim.

– Meus pais vão para lá, ou ficarão aqui na Terra?

– Eu prometi responder e, mesmo sabendo que isso vai lhe deixar triste, eles não irão. Eles terão morrido quando chegar a hora.

– Vou sentir muita falta deles. Mas acho que vou aguentar isso.

– Não vou lhe contar como eles vão morrer. Isso será segredo até a hora de acontecer. Não deverá sofrer por antecipação. Irá sofrer na hora, como é normal acontecer com todas as pessoas, quando perdem seus pais.

– Algum dos meus irmãos não vai com a gente?

– Seus irmãos irão todos, desde que aceitem as condições é claro.

– Pelo menos vou ter a companhia deles. Isso é ótimo.

– Vocês terão uma tarefa árdua pela frente. Muitas coisas acontecerão para preparar todos os participantes. Fique atento a todos os fatos relevantes que irão surgindo no decorrer do tempo. Todos eles, ou pelo menos a maioria, estarão sendo propiciados por orientação superior visando a êxito da experiência.

– E serei eu que vou estar envolvido nesses acontecimentos?

– Sim. Na qualidade de futuro líder, é importante que seja você a estar sempre envolvido no desencadeamento dos processos que vão, de alguma forma, contribuir na preparação de um grupo suficientemente numeroso de pessoas que farão parte desse experimento.

– Vou ficar atento sempre. Acho que minha percepção aguçada já está funcionando intensamente. No dia que encontrei o mestre Zósteles, senti que alguma coisa me levava para aquele lugar. Isso era uma força superior me guiando.

– E você tinha dúvida? O Todo Poderoso tem meios de fazer as coisas parecerem normais, mesmo quando interfere diretamente.

– É por isso que as pessoas tomam algumas decisões, aparentemente sem razão, ou motivo, que as justifique? Só depois vão perceber que tudo dependia daquela decisão.

– Com toda certeza. O Pai Universal inventou uma coisa que é chamada de “livre arbítrio” e ele respeita essa decisão. Por isso quando ele deseja obter um resultado determinado, guia os fatos para que tudo aconteça de modo natural.

– Entendi. Ninguém fica sabendo que fez algo induzido por alguém. É como se tudo fosse decisão própria. Bem engenhoso isso.

– Agora vá para casa. Daqui a uma semana venho buscar os dois para nosso passeio. Combinado?

– Combinado. E se o mestre não quiser ir?

– Nesse caso ele não irá. Mas vamos dar um jeito nisso. Deixa com a gente. Ele vai querer ir sim.

– Acho que ele vai confiar em mim.

– É assim que se fala, amigo. Tem que ter autoconfiança.

– Durante a semana não vou ver você?

– Não. Estarei ocupado demais. Eu não paro nunca. Só quando estou de férias.

– Férias? O que é isso?

– Depois de um longo período de trabalho, temos direito a um tempo de descanso. Podemos passear pelos vários mundos que nos estão acessíveis. Conhecer outros lugares, observar, aprender coisas novas.

– E eu pensei que você sabia tudo! Pois é o que parece.

– Todos nós estamos sempre aprendendo alguma coisa. Nunca paramos de aprender.

– Então até daqui a uma semana. Vamos estar aqui esperando.

– O Deus Todo Poderoso abençoará suas ações. Nos vemos aqui em uma semana. Adeus amigo.

O raio luminoso azul nitidamente visível atravessando os céus, recolheu-se à estrelinha e ela deu uma piscadela discreta. Minck desceu e foi dormir, não sem antes beijar a mãe e pedir sua benção.

Deitou-se, escutando o ressonar compassado em todos os aposentos. Ninguém estava acordado naquele momento. O dia de descanso que poderia ser aproveitado para novo passeio, acabou sendo chuvoso e bastante frio. Desse modo foi preciso encontrar distração em casa, ou ir a algum lugar onde se reunissem outras pessoas.  Ali poderiam encontrar diversão. Os irmãos de Minck decidiram ir a um encontro com colegas e amigos. Ele os vira cochichando pelos cantos. Parecia que os dois mais velhos estavam iniciando namoro com moças da aldeia. Tinham idade para formar família e para isso era necessário encontrar uma mulher disposta a exercer o papel de esposa, depois mãe. Havia um espaço onde os jovens se encontravam para travar conhecimento com pessoas do sexo oposto. Geralmente ali começavam os futuros casamentos.

As meninas também iriam. As jovens, geralmente, entabulavam relacionamentos, visando o casamento, com menos idade que os homens. Sock deitou-se para dormir um pouco depois do almoço. Muhn acompanhou as filhas. Eram jovens demais para serem deixadas sozinhas no momento de aceitar ou não a corte de algum rapaz. Restaram Minck e Zósteles. Este falou zombeteiro.

– Sobramos nós dois, Minck. Eu sou muito velho para pensar em casamento e você muito jovem. Ou será que as mulheres não iriam apreciar um filósofo como marido?

– Não sei, Senhor. Eu ainda sou criança. Certamente nenhuma mulher me olharia pensando em me ter como marido. Nem tenho barba ainda.

– E eu já não tenho mais cabelos na cabeça. Estou completamente calvo.

– Acho que podemos conversar à vontade. Preciso lhe falar de um assunto importante.

– Então fale. Sou todo ouvidos.

– Primeiro preciso lhe dizer que deverá guardar segredo do que iremos conversar.

– Seja o que for, eu prometo guardar segredo. Pode confiar em mim.

– Mestre, eu venho encontrando um “anjo” e ele prometeu me levar num passeio pelas estrelas em um tele transportador. Ontem à noite conversei com ele e disse que o passeio vai ser no último dia dessa semana. Quer que o senhor vá comigo. Estamos sendo preparados para repovoar um planeta onde os humanos exageraram no desenvolvimento das ciências e explodiram tudo. Não sobrou ninguém e o Todo Poderoso quer levar a gente para lá e repovoar o planeta. O senhor topa ir junto? Nesse passeio vamos passar pelo planeta que foi meio destruído.

– Como é mesmo o nome desse anjo?

– Eu não tinha falado o nome dele. Eu chamo ele de Arki, que é um apelido. Ele é um de muitos e cada um tem um número. Mas um nome fica melhor.

– Estou achando isso meio estranho. Mas sou um velho muito curioso e não iria perder um passeio pelas estrelas, na companhia de um anjo por nada do mundo. Nem que seja para ficar por lá. Pode contar comigo.

– Eu fico contente que tenha aceitado. Também estou curioso por ver as estrelas lá do céu. Se vamos para esse tal planeta, é bom ver onde vamos nos meter, não acha?

– Isso é verdade. Sei que uma vez ouvi um espertinho dizer que “a curiosidade matou o gato”, mas não perco essa viagem de forma alguma.

– Vamos cuidar muito para que ninguém desconfie. Nem sei quanto tempo vai demorar a viagem. Sei que os transportadores se deslocam numa velocidade incrível. Viajam pelo espaço mais rápido que um raio.

– Eu também tenho uma coisa para dizer a você. Preciso que aceite fazer uma coisa que vou pedir.

– Pode pedir o que quiser. Se eu for capaz de fazer, aceito.

– Você ontem mostrou que conseguiu sozinho aprender a traçar os símbolos, combinar todos eles e formar até frases. Isso me deu uma ideia. Você viu que tive que recusar vários novos discípulos por falta de espaço. Com sua ajuda, podemos ocupar a sala que fica ao lado e atender uma outra turma de discípulos. Você pode me ajudar se você quiser é claro.

– O anjo adivinhou que o senhor ia me pedir isso. Se acha que sou capaz, eu aceito sim. Pode contar comigo. Apenas não sei se os discípulos vão me aceitar como mestre.

– Não será o mestre. Apenas um ajudante. Mas com o tempo vai virar mestre mesmo, tenho certeza. Vou te adiantar as outras línguas, começando pelo grego. Assim poderá aprender a escrever e depois eu ensino a ler nessa língua.

– Vamos lá, mestre. Por falar nisso, eu lembrei de mais umas dúvidas que senti outro dia.

– Pode falar, menino esperto.

Começou ali uma aula extraordinária de leitura e escrita. O mestre estava preparando seu ajudante. Nem imaginavam naquele momento o grau de relacionamento que teriam no futuro. Quando os demais membros da família voltaram de suas excursões, mestre e discípulo ainda continuavam em suas lições. Ninguém desconfiaria de que eles haviam selado um acordo para um passeio pelas estrelas, em companhia do anjo Arki. Mãe e filhas foram para a cozinha preparar o jantar. O dia seguinte seria de trabalho pesado, o que exigia que os homens precisariam estar bem alimentados. Os rapazes voltaram alegres e contavam partes das suas aventuras. Alguns mexericos corriam pela aldeia a respeito de uma ou duas moças, tendo rapazes envolvidos é claro. Nada oficialmente confirmado, mas se onde há fumaça, há fogo, o boato não deveria ter surgido em razão de nada simplesmente.

Muhn ao ouvi-los repetindo os mexericos, disse severa:

– Vocês não deveriam se ater a tais leviandades. Falar mal de alguém, sem ao menos ter certeza do que estão falando, é muito grave. Pode destruir a reputação da pessoa, sem que ela tenha dado motivo algum para isso.

– A sua mãe tem razão, meus filhos. – Era Sock corroborando as palavras da esposa.

– Nós não espalhamos nada por aí, apenas comentamos entre nós, – Falou Kulik.

– Mas falando entre vocês, uma hora alguém ouve e pode acusar depois. Isso não se faz.

– Pode deixar mamãe. Não vamos dizer nada a ninguém.

Zósteles e Minck haviam parado. Até o momento do retorno dos irmãos, havia silêncio e podiam tratar das dúvidas do menino, sem problemas. Agora, a balbúrdia era muito grande. Ainda bem que haviam conseguido sanar as dúvidas existentes. Com a polêmica em torno dos boatos sanada, estabeleceu-se um breve intervalo de silêncio. Logo, porém, ele foi interrompido por novo assunto que surgiu, graças aos primeiros movimentos no sentido de conquistar os favores de duas moças, feitos pelos irmãos mais velhos Sumok e Banik.

O jantar foi servido e todos se ocuparam em comer. Depois, cansados de tanto falar e rir, foram dormir. Lá fora a chuva continuava a cair de mansinho. Dava impressão de que logo iria parar, depois de passar o dia inteiro a chover, quase sem parar.

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