Fantástico mundo novo! – Capítulo IX – Discussão de mudanças.

  • Discussão de mudanças.

 

Diante da volta dos emissários e a tradução do material coletado por Mestre Zósteles, foi possível iniciar a realização de reuniões mais frequentes dos legisladores. Era hora de se debruçarem sobre as leis alheias, estudar, analisar o que era viável aplicar e o que deveria ser modificado. A maior dificuldade era a questão de um bom número dos membros do corpo legislativo não saber ler nem escrever. Até esse momento as normas eram elaboradas verbalmente, votadas e a aplicação se tornava automática. Agik tinha em mente algo mais sólido, redigido, depois votado pela população. Só depois entraria em vigor.

Surgiu então um conflito de interesses. Os membros que sabia ler e escrever propuseram encarregarem-se de adaptar e complementar as leis, ficando os demais a espera, participando apenas no momento da votação. Essa situação não foi aceita pelos que ficariam excluidos. Tinham direito, na qualidade de legisladores eleitos, de participar ativamente. Mas como se faria isso, se eram incapazes de ler e escrever? Passaram a primeira sessão debatendo a forma de contornar a questão. Para não prolongar a sessão além do conveniente, Agik, que presidia essas reuniões, propos estudar uma solução. Se houvesse, entre os discípulos de Zósteles, alguns que já pudessem ajudar os pais ou mesmo conhecidos na tarefa de interpretar os símbolos gráficos, eles poderiam ser convidados a participar.

Novamente houve oposição de parte dos aptos a ler e escrever. Significaria colocar crianças e adolescentes participando das disscussões, o que poderia ser prejudicial ao seu desenvolvimento harmonioso. Para dirimir a questão, Agir se encarregou de indagar ao mestre, se haveria inconveniente na participação de jovens nos debates. Ficaram formadas duas correntes antagônicas, de modo que, sairam da reunião separados. Havia que estivesse disposto a chegar às vias de fato, se lhe fosse vedada a participação. Com muita calma os colegas conseguiram apaziguar os ânimos. Tinham em mente construir uma cidade, onde hoje era uma simples aldeia. Queriam desenvolver uma sociedade mais justa e harmônica, onde todos se sentissem parte de tudo. O egoísmo e parcialidade deveriam ser colocados de lado.

Nos próximos dias o clima foi de ebulição. Os familiares e amigos daqueles que sabiam ler e escrever, puseram-se a favor dos mesmos. Os demais, ficaram no campo oposto. Em várias ocasiões foi preciso que os mais moderados interviessem, para evitar agressões e tumultos nas ruas. Enquanto isso, Agik fez uma visita ao filósofo. Era noite em que não tinha reunião de filosofia. Assim puderam palestrar serenamente. Diante do questionamento do atual líder comunitário, Zósteles suregiu que alguns alunos, principalmente os que já tinham mais idade, servissem de intérpretes dos iletrados. A questão seria assim, minimizada. Os meninos ou meninas, que ele poderia indicar, começariam cedo a participar da vida política da comunidade. Isso poderia ser positivo no sentido de despertar em suas mentes os pendores para essa atividade.

O que estava em jogo, segundo a opinião do Mestre, eram apenas vaidades pessoais, com o que Agik concordou. Uns se julgavam situados em um patamar acima dos outros e estes não aceitavam tal condição. Com certeza, haveria momentos de tensão durante os debates, mas sabiam sobejamente, que não se pode fazer uso dos ovos na alimentação, sem quebrá-los. As disputas prometiam ser acirradas, mas, se bem conduzidas, levariam a um resultado mais profícuo. Quanto mais ricos fossem os debates no processo de elaboração, melhores seriam as leis que obteriam. Não ignoravam que seriam necessárias correções de rumo no futuro. Nada que é feito pelo homem pode ser considerado definitivo. A vida é um processo dinâmico. O que hoje é bom, amanhã poderá precisar sofrer ajustes. Zósteles se predispos a participar, na qualidade de consultor.

Em meio à semana, chegou à aldeia um geômetra e um engenheiro, especialista em projetos urbanos. O primeiro vinha de uma localidade ao norte da Índia, enquanto o segundo era originário do reino da Babilônia. Ambos haviam sentido, em certo momento, o impulto de sair a peregrinar pelo mundo. Alguns dias antes, haviam se encontrado casualmente. A conincidência de seus sentimentos os induzira a prosseguir unidos em sua caminhada. Ali estavam e se colocavam à disposição das autoridades locais para contribuir em que fosse possível. Sentiam que seu perambular chegara ao fim. Não sabiam nem como, nem por que. Simplesmente, algo lhes dizia que seu destino era aquela aldeia, aparentemente insignificante. Anos de experiência, vividos em diversas situações, lhes diziam que era ali que deveriam por seus conhecimentos para funcionar.

O surgimento de mais duas figuras estranhas, inclusive usando trajes bastante diversos dos locais, causou alguma curiosidade de parte do povo. Nem tanto, uma vez que pessoas vindas de outras regiões eram algo bem corriqueiro, devido ao comércio no porto. A grande diferença era o fato de não estarem acompanhados de uma verdadeira caravana de veículos de transporte, ou animais de carga, coisa indispensável aos comerciantes. Procuraram por hospedagem e encontraram uma estalagem existente nas proximidades do porto. Suas bolsas não estavam repletas de moedas, porém dispunham do suficiente para custear sua estadia por algum tempo. Esperavam encontrar quem necessitasse de seus préstimos em pouco tempo, aliás, sabiam por intuição, que isso era fato líquido e certo.

A novidade logo se espalhou pelas proximidades, chegou ao porto e na região de comércio. Alguém se encarregou de levar a notícia até o filósofo Zósteles, bem como ao Samurai Iagushi. Quem não poderia deixar de saber era Agik. Tão entusiasmado ficou que se dirigiu pessoalmente à  estalagem para confirmar. Parecia que os deuses estavam lhe enviando as pessoas certas no momento propício. Se iriam começar um trabalho de melhoria na aldeia, com certeza um geômetra com seus conhecimentos e mais ainda um engenheiro urbanista, seriam de imensa utilidade. Ao chegar pediu ao dono da estalagem pelos novos hóspedes e este lhe pediu para esperar um instante. Eles logo viriam para tomar uma caneca de chá com ele. Havia-os convidade e apenas estavam se livrando do pó da viagem, além de acomodar seus pertences no aposento que lhes havia sido destinado.

Na qualidade de ocupante de uma posição importante, Agik foi incluido no convite e poderiam palestrar. O dono da estalagem intuira que as duas figuras seriam bem-vindas, em face das novidades em curso na aldeia. Parecia ter adivinhado que o líder comunitário não se faria esperar. Só não previra que seria tão imediata a reação. Mandou à responsável pela preparaçao do chá que providenciasse mais uma caneca para o novo membro do grupo. Em pouco os dois personagens emergiram do aposento e se apresentaram. Foram por sua vez apresentados ao líder comunitário. A rapidez dos acontecimentos os deixou um pouco perplexos, mas logo lhes foi explicado o motivo. Na aldeia fora deflagrado um movimento de modernização geral e isso tornava a chegada deles algo providencial.

Tal notícia o deixou convictos de que, realmente, haviam sido conduzidos por uma força superior para ali. Teriam, a perceber  pelo que ouviam, utilidade imediata. Seus conhecimentos iriam servir como uma luva feita sob medida para uma mão. Nesse momento, já sentado diante dos recem chegados, Agik desejou que a providência poderia lhe enviar também um especialista em leis e organização política. Talvez estivesse a pedir demais. A aldeia, em poucas semanas estava recebendo quatro pessoas, vindas de longe, trazendo suas habilidades para contribuir com o bem comum. Não deveria ser tão ambicioso. Com um pouco de esforço e dedicação chegariam a um conjunto de leis e regulamentos capaz de satisfazer as necessidades mais urgentes. O resto seria questão de tempo. Importante mesmo, era dar os primeiros passos.

A própria população, na medida em que tomasse contato com esses processos, começaria a encontrar soluções, ideias e contribuições para aperfeiçoar o conjunto. Nesse momento nem estava se preocupando com as inevitáveis disputas que etavampairando no horizonte, entre os “letrados” e os “iletrados”. O surgimento dos dois grupos fora  algo quase imediato. O que antes nunca fizera diferença, a partir do momento que se dera início ao processo de elaboração das leis e normas, se cristalizara em uma espécie de divisão da comunidade. Caberia às lideranças moderadas encontrar formas de conciliar as divergências. Sabia que, contando com as pessoas certas, conseguiriam chegar a bom termo.

Foi acordado desse devaneio, por um serviçal que trazia o serviço de chá. Um bule fumegante, de onde emanava um aroma suave de chá, cuja composição era difícil de decifrar. As canecas de cerâmica, um pouco rústicas, foram servidas, colocando-se diante de cada presente um recipiente com mel silvestra, para o caso de querer adoçar a bebida. Agik preferiu o seu aonatural, bem como o estalajadeiro. Já os dois estrangeiros, fizeram uso de pequenas quantidades do mel. Eram ambos apreciadores do produto das abelhas e conheciam suas propriedades benéficas para a saúde.

Depois de sorverem um primeiro gole da bebida, iniciou-se a conversação propriamente dita, uma vez que até ali haviam trocado apenas amabilidades. Agik quis saber de suas procedências e indagou discretamente sobre suas credenciasis. Queria saber se eram realmente o que diziam ser. Afinal apresentar-se em uma pequena aldeia como um geômmetra ou engenheiro urbanista, poderia bem não passar de uma artimanha, para obter regalias em troca de não ter nada a oferecer em troca. Tomou, todavia, o cuidado de não ferir suscetibilidades. Fez suas indagações de modo indireto, levando-os a relatar seus feitos anteriores. A Babilônia era conhecida no mundo por suas obras urbanísticas, realizadas em período pouco distante. Eram conhecidos por todos os famosos “jardins suspensos”, o que, por si só, era uma façanha de engenharia fabulosa. Mesmo não tendo participado diretamente dessa obra, deveria ter “bebido” da fonte que permitira a edificação de semelhante trabalho de engenharia.

O geômetra, vinha de uma região menos notábilizada, mas não precisou de muito tempo para deixar a todos convictos de seus conhecimentos. Bastaram algumas ilustrações bastante simples, mostrando as características básicas das figuras geométricas mais comuns. Esses conehcimentos serviriam no planejamento urbano futuro, com o surgimento de novas áreas residenciais e comerciais, complementando-se o trabalho de ambos. O engenheiro entraria com as técnicas construtivas, enquanto e geômetra contribuiria com a aplicação das formas geométricas, numa combinação harmoniosa do conjunto. Havia a parte antiga, onde era evidente que residia alguma dificuldade. Toda aldeia surge, de modo desordenado, sem planejamento, resultando em edificações desalinhadas, ruas estreitas e irregulares. Era possivel haver necessidade de algumas medidas um pouco mais severas para conseguir dar uma forma mais ajustada ao que existia no momento.

A maior dificuldade seria convencer os proprietários das edificações feitas de modo inadequado, em posição que causria dificuldades de uma largura uniforme das ruas. Mas seria deixado ao cargo dos especialistas sugerir tais ajustes. No momento era importante saber da disposição dos dois homens se eles estariam dispostos a colocar suas habilidades ao serviço da coletividade. Num primeiro momento era difícil prever um nível de remuneração, uma vez que estava tudo por fazer e não existia sequer um sistema de arrecadação eficiente na comunidade. As contribuições eram feitas de modo bastante irregular, sem uniformidade. Isso dificultava qualquer planejamento de gastos, por não existir previsão da disponibilidade de recursos no futuro imediato. Só era possível pensar no que fazer, depois de dispor do recurso.

Tanto um quanto outro, relataram como haviam vindo parar ali e deixaram clara sua disposição de contribuir com sua ciência. Num primeiro momento, apenas precisariam garantir a própria subsistência, pois os recursos que traziam eram parcos. Dariam para algum tempo, mas acabariam se esgotando logo e estariam na rua da amargura, caso não encontrassem ocupação remunerada, por mais reduzidos que fossem os estipêndios recebidos.

Agik considerou que não haveria dificuldades nesse aspecto. Temera que eles estipulassem um nivel de remuneração fora das possibilidades, o que inviabilizaria a utilização dos seus préstimos. Dessa forma, estabeleceu-se uma agradável camaradagem entre as quatro pessoas  e foi servida uma segunda caneca de chá, a partir de um segundo bule fumegante. Como haveria necessidade de aprovação de tudo pela assembléia do povo, ficou combinado que os dois, numa atividade prévia, iriam percorrer a aldeia e os arredores, para formarem uma ideia preliminar do que pdoeria ser feito. Inclusive a previsão de futuros locais de edificação. Esperava-se que houvesse crescimento populacional com alguma migração de novos membros vindos de outras localidades, movidos pelo aumento do comércio portuário.

O próprio porto deveria sofrer ampliações, para poder atender a uma demanda de maior volume de cargas. Havia espaço para se projetar um ancoradouro mais amplo, de modo a permitir que mais de um navio estivessem em processo de carga e descarga ao mesmo tempo. Embora o engenheiro não fosse especializado em questões portuárias, seus conhecimentos eram suficientes para desenvolver um projeto capaz de atender às necessidades.

No meio da conversação, ocorreu que eles foram informados da vinda recente de duas figuras destacadas para a comunidade. Um filósofo, em plena atividade no ensino das artes de leitura e escrita, bem como sessões de debates filosóficos, entusiasmando a comunidade. O outro era um samurai, que abandonara seu país de orígem e desenvolvia ali um trabalho de treinamento de luta com o uso das mãos. Os dois se entreolharam significativamente e, mesmo sem dizer uma palavra, compreenderam que alguma coisa importante estava em curso. Os deuses estavam conspirando para o progresso daquela aldeia. Um seleto grupo de pessoas, de diferentes aptidões, estava sendo gradativamente reunido. Parecia haver um plano superior em curso. Sentiram-se gratificados com o fato de fazerem parte de tal plano.

Tendo ainda outras obrigações a dar atenção, Agik pediu licença aos dois cientistas e voltou para o porto. Levava, de parte do estalajadeiro, a promessa de que as primeiras semanas de hospedagem seriam graciosamente oferecidas por ele. O crescimento da aldeia, esperava ele, lhe compensaria sobejamente no futuro. Os dois lhe afiançaram que, depois de uma noite de descanso, fariam uma verificação minuciosa de tudo que pudesse ser observado inicialmente e lhe fariam uma visita no porto, levando-lhe as primeiras impressões. Dessa forma Agik caminhou em seu retorno, sentindo-se mais leve. Seu plano estava começando a tomar forma. Muito trabalho havia a ser feito, mas sabia que no final chegaria a conclusão de que valera à pena.

No caminho encontrou diversos comerciantes e outros membfros da comunidade. Todos indagavam das novidades que haviam se espalhado igual fogo em palha seca. Ele lhes respondeu de modo educado, mas sem entrar em pormenores, uma vez que tudo ainda estava nos primeiros contatos. Nada fora definido, nada estava acertado. Não era possível fazer afirmações definitivas, sob risco de causar decepções futuras. Preferiu, por isso, manter alguma reserva, sem no entanto faltar com a verdade. O povo merecia seu respeito e tinha direito de saber do que acontecia, mesmo que não fosse nos mínimos detalhes. Desvencilhado dos curiosos, caminhou resolutamente para o seu local de trabalho, em tempo de atender aos últimso compromissos do dia.

Os navios ancorados estavam quase prontos para zarpar, faltando pouco para completar seus carregamentos. Os mercadores que traziam mercadorias, estavam atendidos e o encarregado da tesouraria, havia feito os acertos com eles, pagando ou recebendo as diferenças entre as mercadorias que haviam trazido e o que levavam em seu retorno. Os trabalhadores estavam concluindo o dia de trabalho, sendo que Sock e seus subordinados no comando apresentaram o relatório do dia. Não houvera alterações importante, salvo as coisas comuns do dia a dia. Precisou responder a algumas indagações a respeito das novidades que haviam se espalhado entre os carregadores da mesma forma que uma onda produzida em um pondo da superfície se estende a todos cantos.

Contou resumidamente quem eram as figuras destacadas que haviam chegado à aldeia e em que iriam ajudar na transformação dela em uma florescente cidade. Dessa forma, as conversações daquela noite nas casas de praticamente toda aldeia, giraram em torno do engenheiro e do geômetra que haviam chegado naquela tarde, pouco depois do meio dia. Havia os entusiastas que previam transformações grandiosas e sonhavam com um clima de prosperidade inaudita. Por outro lado os inevitáveis pessimistas, vendo sempre núvens escuras no horizonte. Antepunham inúmeros problemas ao andamento dos trabalhos, viam dificuldades em tudo. Esse clima fermentou e alimentou as conversas entre vizinhos e colegas de trabalho no dia seguinte.

Um pequeno grupo de curiosos se formou atrás das duas figuras, um pouco distoantes que passaram a caminhar pela aldeia. Paravam em cada ponto, avaliavam, trocavam impressões e anotavam em pequenas tábuas suas observações. Morriam de curiosidade, mas no começo, ninguém se atreveu a perguntar o que estavam fazendo. Evidenemente tinham suas suposições, uma vez que suas especialidades e provaveis atividades haviam sido amplamente difundidas na véspera e na noite anterior. Mesmo nas trocas de informações matinais, quem não esstava ao par do que havia, ficara sabendo, ao menos por alto. Os dois se detiveram mais demoradamente nos pontos em que a aldeia apresentava mais problemas no aspecto do arruamento. As casas construidas de qualquer forma, sem o devido cuidade com a previsão de um eventual alargamento da via pública, alguns detritos lançados indevidamente no chao, contribuindo para a proliferação de insetos.

Começou a circular uma versão bastante distorcida do que a dupla estava a fazer. Como quem conta um conto, aumenta um ponto, cada vez que a informação era repassada, recebia um acréscimo ou distorção, levando-a a chegar totalmente fora da realidade. Inclusive, as mesmas pessoas, ouviam contar várias versões, aparentemente de mesma orígem, mas de conteúdo completamente diverso. O resultado foi uma pequena celeuma. Gente indignada com informações estapafúrdias, se dirigiu ao porto, buscando tirar a limpo as informações com o líder Agik. Este, por sua vez, pode-se dizer, caiu das núvens diante das afirmações totalmente infundadas que estavam correndo. Vendo que, a continuar fermentando na forma atual, a situação poderia degenerar em tumultos e mesmo comprometer a segurança das pessoas que estavam prestando serviços e não fazendo nada de anormal, tomou uma decisão sem demora. Mandou preparar uma convocação extraordinária da população para a noite daquele dia. Era urgente esclarecer tudo, para evitar problemas.

Enviuou comunicações a todos os cantos da vila, mandou anunciar em alta voz a convocação e se preparou para enfrentar aquela dificuldade. Sabia que o povo era facilmente influenciável e que bastaria um boato falso, para gerar confusão, apenas não imaginara que pudesse chegar  às proporções que estava vendo. Ao sair do porto para sua residência, passou pela estlagem, onde encontrou com o engenheiro e o geômetra. Queria saber se ninguém os molestara durante duas observações. Eles lhe informaram que aparentemente não tinham observado nada de extraordinário, apenas um grupo variável de pessoas sempre estava por perto. Alguns ficavam para trás, enquanto outros se reuniam, sempre conversando, mas não lhes dirigindo a palavra. Pareciam temer alguma coisa. Agik deu graças por isso e lhes pediu que permanecessem em segurança na estalagem. Haveria uma reunião naquela noite, onde tentaria esclarecer alguns equívocos que haviam surgido, não se sabe de onde.

A  reunião começou cedo, estando uma pequena multidão reunida, no recinto iluminado por tochas, quando Agik chegou e se postou em posição mais elevada para ser visto e ouvido por todos. Ele não esperava que os dois, o engenheiro e o geômetra estivessem também ali. Haviam trocado suas vestimentas por algo diferente, ficando desapercebidos e haviam vindo ver o que acontecia. Já que tudo parecia se relacionar à sua presença, desejavam dar seu esclarecimento em caso de necessidade. Havia algumas pessoas levantando a voz, gritando coisas desconexas, tornando preciso que Agik fosse enérgico. Levantou também a voz e pediu um momento de atenção, dizendo:

– Meus amigos, eu estou aqui, para esclarecer algumas coisas que, infelizmente, surgiram de não sei onde e alarmaram vocês indevidamente. Não há nada a temer. Aqui ao meu lado estão duas pessoas, de grandes conhecimentos. O geômetra Mentrix e o engenheiro Domitron. Eles parecem ter sido enviados pelos deuses para nós, nesse momento. O que eles estavam fazendo no dia de hoje, era uma avaliação do que é possível fazer para melhorar nossa aldeia, no sentido de evoluir para se transformar numa futura cidade. Com ruas retas, uniformes, pavimentadas e outros serviços. Ninguém está pensando em expulsar ninguém de suas casas, detruir o que vocês tem. O que se pretende é dar a todos um lugar mais agradável para se viver. Esse é o objetivo dos nossos novos colaboradores. Uma vez que eles estão aqui, vou colocar a palavra à disposição para que digam algo sobre suas primeiras impressões.

O engenheiro, que por sorte falava o idioma local, apesar de alguma dificuldade, se prontificou e disse:

– O amigo geômetra e eu estivemos observando a aldeia, para identificar os problemas que precisariam ser corrigidos, se quisermos que ela se transforme em uma cidade. Já temos alguns dados, mas teremos que fazer algumas medições nos próximos dias e esperamos que não se sintam perturbados. Não queremos prejudicar ninguém.  Apenas queremos ajudar a melhorar a vida de vocês.

– E sobre as demolições de casas, o que tem a nos dizer? – gritou um homem postado bem perto.

– Não existe, em princípio, previsão de demolição de nenhuma casa. Se isso se tornar necessário, haverá a tomada de medidas prévias para causar o menor transtorno possível, mas esperamso sinceramente que isso não venha a ocorrrer.

Agik, voltou a tomar a palavra:

– Como podem ver, nada do que foi e espalhado é verdadeiro. Foi apenas uma sucessão de informações distorcidas sendo passadas de boca em boca e acabaram chegando ao final de forma bem diversa do que foi dito inicialmente. E nem o começo era verdadeiro, provavelmente. Portanto, sugiro que voltem todos para suas casas em paz, ordem e calma. Não existem motivos para pânico, ou preocupações.

Um dos membros do corpo legislativo, subiu para junto de Agik e pediu a palavra:

– Eu apoio o nosso líder Agik. Vamos para casa, esperar pelo desenrolar dos acontecimentos. Nada de criar boatos e espalhar notícias falsas. Isso não nos ajuda em nada. Vejam agora, por exemplo. Em lugar de estarmos aqui, poderíamos estar tranquilamente descansando em nossas casas. Digo a todos, sigam em paz e aguardem em ordem, sem causar tumultos para não gerar desordem desnecessária.

O povo, começou a murmurar entre si e se indagarem mutuamente, qual havia sido a origem dos boatos. Ninguém sabia responder, mas ficou evidente que, havia sido dita alguma palavra ou frase, de modo intencional ou mesmo jocoso, mas fora repetido inúmeras vezes, chegando no fim de modo completamente transformado. Não era possível dar crédito aos boatos. Antes de qualquer atitude, era preciso verificar a veracidade das informações que chegavam aos ouvidos. Gradativamente todos retornaram aos lares, levando consigo a certeza de que se estava fazendo o melhor possível para o bem geral. Faltava um dia antes do dia de descanso semanal. Era bem interessante esse costume, na visão dos nvos integrantes da comunidade. Em grande parte do mundo, não existiam essas regalias. O trabalho era em regime contínuo, não existindo um dia destinado ao descanso, como se adotava ali.

A introdução desse hábito remontava à cerca de um século atrás. Os trabalhadores haviam se unido e pressionado, até a aprovação dessa medida. Ninguém aceitaria a eliminação desse dispositivo nas novas legislações que seriam discutidas em breve. Quando Zósteles e Iagushi souberam dos acontecimentos do dia, estavam em atividade nas sessões noturnas em suas especialidades. Ao retornarem para casa, comentaram entre si os fatos. A vinda dos novos especialistas em áreas distintas, era sem dúvida significativa. Seria importante estarem atentos ao que mais viria pela frente. Precisariam travar conhecimento com o engenheiro e o geômetra. Eram também estrangeiros e pareciam trazidos pelo destino para aquela aldeia. Iagushi estava mais impressionado. Estava tentando entender o que estaria havendo. Já Zósteles, por saber dos contatos de Minck com o ser celeste, estava menos surpreso. Não deixou transparecer que sabia alguma coisa não revelada aos demais.

Dependeria de Arki a determinação do momento para fazer alguma revelação a outros membros da possível equipe do projeto de repovoamento do planeta destruido pela irracionalidade de seus habitantes. O dia seguinte trouxe os dois especialistas em atividades de percorrer as áreas circundantes da aldeia. Buscavam localizar os lugares mais apropriados para realizar novos projetos de povoação, sem ocupar terras agricultáveis, de grande valor para o abastecimento da população com alimentos frescos e de elevado valor nutricional. Também não tinham intenção de destruir áreas de vegetação preservada. Sabiam da importância dessas reservas para manter um bom clima na região. Vários adolescentes se dispuseram a auxiliar os dois em suas perambulações. Conheciam palmo a palmo os arredores, por conta de suas andanças da infancia e adolescência. Assim era mais fácil localizar os pontos mais propícios para serem integrados futuramente na área urbana.

O anoitecer do último dia de trabalho, sempre era comemorado pelos trabalhadores. Por outro lado, na manhã seguinte haveria a nova reunião dos legisladores, dessa vez contando com a assessoria de meninos e meninas indicados por Zósteles, bem como a presença do mesmo, como observador e eventual consultor. Também Mentrix e Domitron iriam assistir a reunião. Muito provavelmente teriam alguma sugestão interessante a apresentar, uma vez que provinham de lugares bastante adiantados na área de organização e legislação. Nenhum auxílio poderia ser menosprezado. Até mesmo por eles se encontrarem na condição de virtuais responsáveis pelos projetos de modificações do que existia e das futuras áreas urbanas, bem como obras em geral.

Minck lembrou que nessa noite Arki prometera fazer nova visita. As duas semanas haviam transcorrido de forma vertiginosa. Teria várias coisas a indagar, ouvir orientações, receber novas instruções. Ao chegar em casaa, após as lições como assistente do Mestre, lavou-se e trocou de roupa. O dia fora quente e o suor deixara o corpo, bem como a roupa com cheiro de suor acentuado. A mãe Muhn, quis saber o que o levara a essa atitude e ele respondeu:

– Eu apenas quero me sentir melhor. Estava me sentindo sujo e malcheiroso.

– Nunca havia visto você fazer isso.

– Estou crescendo mãe e meu tempo de ser apenas uma criança está ficando para trás.

– A que vem essa convicção, assim de repente, meu filho?

– Eu me conscientizei disso. Pude perceber que alguns dos discípulos também estavam assim e não gostei. Depois prestei atenção em mim mesmo, percebendo que estava igual. Decidi me cuidar mais. Os outros não tem que suportar meu cheiro desagradável, ao se aproximarem de mim.

– Isso é bom, meu filho. De fato ninguém gosta de sentir mau cheiro, especialmente quando é cheiro que denuncia falta de higiene.

O pai e os irmãos vieram e também foram se lavar, trocando todos de roupa. Iriam participar na manhã seguinte da reunião. Mesmo não sendo membros do corpo legislativo, iriam assistir os debates. Era importante tomar conhecimento do que estaria sendo proposto em termos de leis e mudanças administrativas. Desse modo, foi preciso retardar um pouco a hora do jantar, para permitir que todos estivessem presentes no momento de iniciar a refeição. As conversas giraram em torno da série de novidades vividas pela comunidade no transcurso da semana. Sentiam-se todos um pouco partícipes dos ventos de mudança que sopravam na aldeia. Minck por sua vez, pensava que tudo aquilo, de alguma forma estava relacionado com o seu envolvimento com o mensageiro celestial Arki. Em pouco tempo estaria lá, no alto do penhasco, para mais um encontro com ele. Em algum momento futuro, teria que revelar o que acontecia, mas teria que aguardar a orientação do amigo, nesse sentido.

Depois da refeição, continuaram a conversar sobre o assunto que ocupara suas mentes antes. Minck permaneceu em silêncio, esgueirou-se aos poucos e saiu. Ao se ver na rua, correu um pouco e logo estava escalando o penhasco. Chegando no alto ele se pôs a perscrutar o céu na direção costumeira e nesse momento viu o forte raio de luz vindo em sua direção. O amigo, pelo que parecia, estava apresssado. Não havia visto as habituais piscadas e o rápido “balé”, que costumavam preceder a vinda do transportador. No mesmo instante, estava ao seu lado o amigo Arki.

– Salve, querido amigo!

– Salve, amigo Arki!

– Sentiu minha falta, nessas duas semanas?

– Senti, mas houve tantos acontecimentos que não tive muito tempo para pensar no caso.

– Me conte as novidades, então.

– Posso começar dizendo que os treinos de lutas com mãos e pés, está sendo bem interessantes. Os emissários mandados em busca de informações das retornaram há uma semana e Mestre Zósteles, com minha ajuda, traduziu tudo, colocando na nossa língua. Houve uma reunião dos legisladores. Queriam deixar os que não sabem ler e escrever de fora das discussões. Eles não aceitaram e eles participarão, tendo ao seu lado um dos discípulos com melhor desempenho para ajudar no entendimento do que está escrito, bem como redigir eventuais propostas. Mestre Zósteles indicou os assistentes e também irá estar presente como observador. Por fim, nos últimos dias chegaram um engenheiro Domitron e um geômetra Mentrix. Vão fazer os projetos de modificações e novoas construções da aldeia. O objetivo é transformar em cidade. Isso tem alguma importância para nosso projeto?

– O que você acha?

– Eu penso que deve ter sim, pois eles parecem ter sido trazidos por uma força especial que os guiou para cá. Se eles formarem discípulos entre os jovens, poderão fazer parte do grupo na reconstrução do planeta. Pelo menos me parece que isso seria importante.

– Muito acertada sua dedução. Para acelerar a reconstrução, quanto mais habilidades pudermos transplantar para lá, mais rapidamente poderão alcançar um estágio de desenvolvimento de bom nível. Se prepare para mais novidades que irão aparecer dentro em breve. Deixe que os dias passem, as mudanças comecem a ser implantadas. Vai se surpreender com o que irá ver.

– Chego a ficar um pouco assustado, amigo. Mas estou começando a me acostumar com a ideia.

– Não esqueça que a politização de um grande número de pessoas, também é importante. No repovoamento logo será necessário debater leis para que as coisas se encaminhem, antes de acontecerem problemas.

– Eu estarei participando e também vários colegas. Isso, creio eu, será fundamental.

– Sem dúvida. Quanto mais pessoas preparadas tivermos, melhor será. Lembre-se que ninguém pode fazer tudo. Há necessidade de dividir, compartilhar as tarefas. Com mais gente apta a fazer as coisas, menos carga sobre os ombros de um só.

– Também será importante que as pessoas estejam dispostas a trabalhar. Não bastará apenas saber fazer, dar palpites, mas não fazer nada.

– Aí está uma questão importante a levar em conta na hora de selecionar as pessoas. Antes de convidar alguém a participar, deveremos saber se está disposto a de fato colocar as mãos à obra.

– Quero perguntar uma coisa que ainda não entendi.

– Pode perguntar, amigo.

– Você disse que a vida não termina com a morte. Tem algumas crenças de que a pessoa reencarna, até mesmo na forma de animais, ou nas mesmas castas. Por exemplo, os Samurais japoneses, voltam como samurais. Na Índia, cada um fica sempre na mesma casta. Quem está com a razão?

– Eles estão quase certos. A diferença é que não há volta para a vida mortal. Quem passa para a vida espiritual, começa a percorrer sete estágios, ou seja, passa por sete esferas ascendentes, até chegar à “capital” do Universo local. Passa então por um descanso e depois segue para as próximas etapas, até chegar por último à Ilha do Paraíso. Em cada etapa passa por uma série de aprendizagens. Quando é aprovado em uma etapa, passa para a seguinte. Não progressão, sem que tenha sido aprovado na etapa anterior.

– Quer dizer que, quem é reprovado, precisa refazer a etapa, até conseguir ser aprovado. Ou pode acontecer que, ao ser reprovado, passe pela tal “extinção”?

– A extinção só acontece na passagem da vida mortal para a espiritual. Apenas aquelas pessoas que negam seguir a orientação para o caminho do bem passam por isso. Depois que ingressa no circuito espiritual, não há mais morte, nem extinção. A reprovação apenas atrasa o progresso para as etapas seguintes.

– Significa que vai demorar mais a chegar, mas um dia vai chegar no Paraíso.

– Isso mesmo. Ser reprovado em uma etapa, não é uma punição. O objetivo é permitir você alcance o Paraíso, somente depois de atingir a perfeição. Quando se tiver tornado perfeito como Deus é perfeito.

– Deixe eu ver se minha ideia está certa. Sabe, a tal “fagulha” do Pai Universal, é uma espécie de guia que ajuda a encontrar o caminho da perfeição.

– Deus criou os seres humanos, chamados evolucionários, à sua imagem e semelhança. O que lhes falta apenas é o aperfeiçoamento e é isso que a “fagulha” faz. Guiar no caminho do aperfeiçoamento.

– Acho que só não chega lá, quem não quiser mesmo. Se tiver um pouco de boa vontade, não há como errar. E existe muita gente que não consegue chegar lá?

– Isso varia bastante. De alguns grupos, chegam quase todos. Já de outros, acabam sendo apenas uns poucos a chegar.

– Deve ser triste ver alguém ser condenado à extinçao, não é?

– Eu imagino que sim. Não tive oportunidade de assistir ainda, mas deve ser bem tristte. Você sabia que acontece até de alguns seres espirituais, dotados também de livre arbítrio, se rebelarem contra o criador?

– Isso é possível?

– Nós, os anjos de todos os tipos, também temos livre arbítrio. Aqui mesmo, no sistema em que vocês vivem, do qual a Terra faz parte, sofreu com uma rebelião de anjos. Lúcifer se rebelou e levou com ele uma multidão de outros anjos. Um deles foi Caligástia.

– Ouvi falar que havia um casal que viveu num Jardim e desobedeceu a Deus. Foi expulso de lá e por isso nós sofremos até hoje.

– Isso é verdade. Apenas a história verdadeira é um pouquinho diferente, só não vale a pena explicar os detalhes agora. Talvez mais tarde você consiga entender, com mais facilidade.

– Então esse jardim existiu de verdade? Não é uma história inventada por alguém?

– Essa história não é inventada, pode ter certeza.

– E se eles não tivessem desobedecido, tudo seria diferente?

– Seria. Seria bastante diferente. A humanidade da Terra já teria alcançado um nível de desenvolvimento muito maior.

– Por causa do erro deles, todos sofremos.

– Mas os anjos que permaneceram fiéis, conseguiram fazer um trabalho muito bom e conseguiram fazer a humanidade avançar bastante. Se não fosse isso, tudo teria falhado.

– Quer dizer que a humanidade na Terra teria sido extinta?

– Teria sido extinta. O planeta passaria a ser um lugar sem vida, ou somente com vida animal. Não sei, pois isso quem decide é o criador.

– Precisamos ser gratos a esses anjos que foram fiéis e nos ajudaram. Que bom isso. Poderíamos não existir.

– Verdade. Mas é melhor pensar de modo positivo. Vocês existem e está no bom caminho. Apenas é um pouco mais longo. Um dia vai vir um filho divino, viver entre os homens e consertar o estrago causado pela desobediência de Adão e Eva.

– Adão e Eva, foram o casal desobediente?

– Sim. Eles desobedeceram ao criador. Pensaram que poderiam ser livres para além do limite e se deram mal, levando a humanidade inteira a sofrer por isso. Tiveram a ilusão de se tornar iguais a Deus.

– Se tornar iguais a Deus! Quanta pretensão!

– Vocês são destinados a se tornar iguais a Deus, na perfeição. O que já é uma grande coisa, para um ser mortal, nascido com uma vida simplesmente animal.

– Se eu entendi bem, humildade nunca vai fazer mal a ninguém, não é verdade?

– Assim como humildade não faz mal a ninguém, orgulho e vaidade não fazem bem.

– Eu preciso ir, amigo. Amanhã vou levantar cedo para participar da reunião do corpo legislativo. Preciso estar bem descansado, com a mente limpa.

– Dê sua contribuição para  construir uma bela cidade. Isso servirão de modelo para alcançar o mesmo no futuro, na nova “pátria”, amigo. Voltamos a nos ver daqui a quatro semanas. Vou tirar um mês de férias.

– O que é isso, férias?

– É um tempo de descanso depois de um longo período de trabalho ininterrupto. Um dia isso vai existir entre os homens aqui da Terra, também.

– Bem interessante. Normalmente, só os ricos podem viajar. Quem depende do trabalho, só viaja quando fica sem emprego, mas daí não tem dinheiro para viajar.

– E todos tem direito ao descanso.

– Então, bom descanso, amigo. Até daqui a quatro semanas.

Arki deu um aceno, afastou-se um pouco e no mesmo instante o raio de lux encolheu, sumindo na estrela. Arki ficou alguns segundos olhando para a estrela, recebeu dela uma piscadela e depois virou-se começando a descer do penhasco.

Ao entrar em casa, ouviu a mãe, sentada a um canto soltar um suspiro e dizer:

– Eu quase estava indo a sua procura, meu filho. Não fui por não saber  nem por onde começar a procurar.

– Eu estava vendo as estrelas, mamãe. Elas são tão bonitas. Parecem sorrir para a gente.

– Você em alguns momentos parece que vive com a cabeça nas estrelas mesmo. Na maior parte do tempo é tão ajuizado e, de repente, tem um acesso desses, ficar olhando as estrelas. Elas me parecem todas iguais. Algumas um pouco maiores, outras menores e mais nada.

– Um dia eu lhe explico, mamãe. Agora vamos dormir.

Deu um beijo na genitora, recebeu dela outro com um abraço carinhoso. Segui para o aposento e ali deitou-se para dormir. Passou algum tempo acordado e por fim dormiu. Queria levantar cedo e estar pronto para a reunião.

 

Quando a aurora pintou o céu com os primeiros albores da manhã, a mãe e as irmãs mal tinham posto os pés fora da cama, lá estava Minck também, esperando a vez de lavar o rosto, para espantar o resto de sono. Cumprimentou as três e viu Song e Xing bocejar longamente, antes de jogar água fria no rosto, para depois amarrar os longos cabelos em um “rabo de cabalo” para não incomodar. A mãe as seguiu e foram as três para cozinha, preparar o desjejum. Minck lhes seguiu o exemplo, mas antes olhou para o lado do nascente, onde era possível ver o sol lançar os primeiros raios, desenhando no céu longas listras coloridas, que iam se alargando na medida em que se afastavam do horizonte. Pareciam formar um leque. Um espetáculo incrível, pena que não sabia fazer uma pintura e fixar essa imagem para sempre.

Quando o desjejum estava  quase pronto, Sock e os filhos também vieram do leito um a um. Ouviram a mãe dizer:

– Andem depressa. O desjejum já está ficando pronto e se não quiserem comer ele frio, sejam rápidos.

– Nós já vamos, mãe.

Logo estavam todos recebendo suas tijelas de mingau de aveia e uma caneca de chá. Era revigorante, depois de uma longa noite de sono. O desjejum bem quentinho, acompanhado de chá. Um hábito prolongado, mas nunca ficavam enjoados da repetição. Se lhes faltasse aquele alimento, não sabiam como seria o resto do dia. A renião estava marcada para a segunda hora da manhã. Não havia muito tempo a perder, se não quisessem chegar atrasados. Na qualidade de meros observadores, não queriam ficar nos últimos lugares, de onde seriam impedidos de ver qualquer coisa. Até mesmo um aparte que lhes fosse concedido, ficaria impossível de ser apresentado. O tempo que permaneceram à mesa, foi um pouco mais prolongado.

Com recomendações da mãe, que disse:

– Evitem dar opinião, fazer críticas, sem lhes ser dada a palavra. Isso poderá trazer consequências desagradáveis.

– Vamos sentar e apenas escutar, mãe. Se nos perguntarem algo, daremos nossa opinião,  – disse Sumok.

– Exatamente isso, Senhora Muhn.

Sairam todos, inclusive Minck. Este, cioso de sua tarefa como intérprete ao lado de um dos membros do corpo legislativo, ia todo empertigado. No caminho, encontraram outros que também demandavam o mesmo destino. O pátio do porto, de per si deserto nos dias de descanso, estava apinhado de gente, pelo menos nas proximidades da porta de entrada. Constantemente chegavam mais participantes. Cada membro do corpo legislativo, vinha com um pequeno séquito de acompanhantes. Vieram igualmente os quatro “estrangeiros”, para assistir ao evento. Dava mais a impressão tratar-se de uma assembleia popular, que uma reunião legislativa. Os indicados pelo mestre Zósteles, foram chamados para entrarem junto com os legisladores, pois ficariam em outro patamar, separados dos meros assistentes.

Depois foi a vez dos populares terem acesso. Agik mandara preparar o lugar, tendo uma divisória, mais indicativa do que qualquer coisa, delimitando a área destinada aos que apenas iriam assistir. Na área interior, uma mesa um pouco mais longa, tendo ao lado sete cadeiras e à frente um conjunto de bancos com uma espécie de bancada onde podia ser apoiado algum material para escrever ou fazer a leitura. A mesa foi composta por Agik, que dirigia os trabalhos, um secretário, bem como uma espécie de vice-dirigente. As outras quatro cadeiras foram cedidas à Zósteles, Iagushi, Mentrix e Domitron, como convidados especiais. Serviriam para realizar consultas, baseadas em sua experiência de vida, em outras terras.

Iniciados os trabalhos, depois de breve alocução do dirigente, o secretário recebeu a incumbência de ler os documento um a um. Começou pelo que trazia a estrutura organizacional de uma cidade vizinha. Foi interrompido diversas vezes, por componentes do grupo, pedindo esclarecimentos sobre algum termo que ficara obscuro. Os intérpretes eram chamados a lhes explicar com palavras mais simples o significado. Logo houve vozes discordantes, levantando-se e dizendo em altos brados:

– Não podemos concordar com isso. Não vamos implantar um absurdo desses em nossa aldeia.

– Seu imbecil. Não entendeu nada do que está escrito.

E estava formada a balbúrdia. Os vizinhos, sentados ao lado dos brigões, se encarregaram de apaziguas os ânimos. Retomada a leitura, logo houve novas interrupções. Dessa vez foi alguém entre os observadores que se manifestou e Agik lhe chamou atenção dizendo:

– Por favor! Os observadores  não devem fazer uso da palavra, a menos que seja solicitado ou concedida a palavra.

–  Para que estamos aqui, se não podemos participar?

Zósteles e os três companheiros ficaram apenas observando, para ver no que iria dar aquele simulacro de reunião. Era claramente previsível que nada iria resultar dali. Eles simplesmente não estavam preparados para viver o momento importante de que participavam. Na qualidade de observadores especiais, não deviam se manifestar.

– Nós poderíamos fazer a reunião, em recinto fechado, sem abrir espaço para a participação do povo, mas preferimos assim, pois desejamos a apresença de vocês. Mas há necessidade de um mínimo de ordem, para que os trabalhos possam prosseguir.

Novamente a leitura recomeçou e não houve interrupção até terminar o documento. Foi o momento de um segundo documento, sobre a questão de impostos. Sem demora um comerciante se fez ouvir, protestando que era um absurdo pagar semelhantes tributos. Sentir-se ia ser roubado com tamanha sangria. Um trabalhador, por sua vez atacou ao comerciante, dizendo-lhe que seria pouco. Quem ganhava mais dinheiro, deveria pagar mais impostos com certeza. Novamente a confusão estava armada. Dessa vez, ameaçava degenerar em coisa mais séria. Depois de muitos gritos e troca de ofensas, novamente o silêncio foi restabelecido e ia-se reiniciar a leitura.

Agora outro comerciante, também quis marcar posição, voltando ao mesmo assunto, gerando nova altercação. Agik, de hábito um homem sereno, pacato, percebeu que daquela forma seria impossível chegar a lugar algum. Mas como fazer, se era urgente que as leis e organização fossem estabelecidas? Olhou longamente para a plateia, sem dizer palavra, mas sua mente funcionava velozmente. Por fim disse:

– Mestre Zósteles, o senhor que chegou aqui primeiro, entre os quatro convidados especiais, poderia nos dar uma opinião, sobre o procedimento que poderíamos adotar? Como poderemos chegar a algum lugar, sem causar tanta confusão? O objetivo não é trocar ofensar entre trabalhadores e comerciantes, entre esse grupo ou aquele. Queremos o bem de nossa aldeia.

O mestre levantou-se e falou:

– Não me atreveria a falar ao povo que me acolheu com calor e amizade, se não me fosse solicitado pelo nobre Senhor Agik, dirigente dessa assembléia de legisladores. Diante do fato de que, não estamos conseguindo avançar e estamos aqui, ouvindo uma série de trocas de palavras ofensivas, vou fazer uma sugestão conciliadora. Creio que os amigos Iagushi, Mentrix e Domitron não se negarão a me prestar sua ajuda. Poderíamos, com a presença do Senhor Agik, além de mais dois ou três entre os legisladores, elaborar um rascunho, baseado no que temos aqui e mais nossas experiencias. De posse desse documento, realizaríamos uma assembléia e votaríamos, artigo por artigo. Os rejeitados, seriam refeitos e aprovados em novo momento, até termos algo aceitável e passível de aplicar. Com certeza não seria nada perfeito e precisaria, periodicamente de ajustes, pequenas modificações, adendos, o que não é anormal. Não existe um sistema de leis perfeito. Sempre teremos motivos para aperfeiçoamentos. Esta seria minha sugestão, senhores.

A palavra voltou para Agik, que disse na sequência:

– Eu julgo que essa sugestão é mais prática, do que ficarmos trocando xingamentos, criando inimizades e talvez mesmo coisas mais graves. Eu proponho que façamos uma votação. Quem concorda levanta a mão. Depois, vou perguntar novamente e quem discorda levanta a mão. Pela contagem dos votos, teremos uma resposta. Primeiro quero saber se essa minha proposição é aceita, isto é, se iremos votar a proposta de Mestre Zósteles, depois votaremos essa proposta.

– Quem concorda em que façamos uma votação, levante a mão.

Foram muitas mãos levantadas, alguns inclusive levantaram as mãos, ocasionando a recomendação:

– Não vale levantar as duas mãos, meus amigos.

Algumas foram abaixadas, porém era uma clara maioria  que aprovava que se fizesse a votação.

– Agora, quem não concorda em que se faça a votação, levante a mão.

Um pequeno grupo, levantou a mão, deixando evidente que a primeira opção era a esmagadora maioria.

– Pronto, a votação da proposta será feita. A maioria escolheu votar a proposição do Mestre. Vou fazer a pergunta, repetindo antes a proposta.

– Mestre Zósteles propõe que os quatro observadores aqui presentes, mais três membros do corpo legislativo, façam um rascunho das leis gerais e específicas, para então votarmos artigo por artigo, pela aprovação ou não. Quem concorda levante a mão.

Novamente a esmagadora maioria levantou a mão.

– Podem baixar as mãos. Agora, quem não concorda com essa proposição, levante a mão.

Uma minoria levantgou a mão e ficou evidente que a proposição era aceita por ampla maiaoria de votos. Teria sido possível, mas pouco prática, a votação por sim ou não, individualmente. Mas haveria um prolongamento inútil da sessão e corriam o risco de sair dali somente ao entardecer. Não era algo conveniente.

– Creio que não existe dúvida sobre o resultado. A maioria optou pela proposição que o amigo, Mestre Zósteles fez. Poderemos assim encerrar nossa reunião de hoje, irmos para casa descansar. Quando o trabalho da comissão estiver pronto, convocaremos nova reunião e iremos votar os artigos individualmente, faremos eventuais correções e mudanças. Creio que dessa forma teremos em pouco tempo uma legislação aceitável para nossa aldeia, com chances de se transformar em cidade em algum tempo.

Domitron pediu a palavra. Foi-lhe concedida e ele falou:

– Cheguei há  menos de uma semana e já me considero cidadão dessa aldeia. Vou contribuir com o melhor que tenho para chegarmos a um documento que seja suficientemente bom para todos. Agradeço a honra de participar dessa comissão.

Soou uma sonora salva de palmas. Logo depois começou a dispersar-se a pequena multidão que ali se reunira. Agik usara sua inteligência ao colocar nas mãos dos estrangeiros uma tarefa que estava vendo, era além das possibilidades da população. Só de pensar em um conflito de proporções ali dentro do recinto, era previsível uma destruição gigantesca. Dessa forma,  tirara as instalações do porto do foco e poderiam trabalhar de forma mais serena na elaboração do documento. Imediatamente combinaram os dias que poderiam dispor para desenvolver a tarefa. Bastaram alguns minutos para ter tudo combinado e então se dirigiram às respectivas casas. Zosteles e Iagushi convidaram Mentrix e Domitron para almoçarem em sua casa. Os dois aceitaram. Era de bom alvitre estreitar o conhecimento entre eles, já que iriam trabalhar longas horas em conjunto. Começariam no segundo dia da semana e prosseguiriam em dias alternados, excluindo o dia de descanso. Pensavam que, em um mês, no máximo dois, teriam condições de submeter uma primeira versão do conjunto de leis que iriam reger os destinos da aldeia pr uma porção de anos.

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *