Fantástico mundo novo! – Volume III – Recomeço em Orient, Cap. 02- Explorando o território.

    1. Explorando o território

     

    Na manhã seguinte, depois de um sono agitado, que chegou a preocupar Edith, Mink levantou resoluto. Mesmo sem descansar direito, cuidou da preparação de uma expedição exploratória na região ao sul do local onde estavam sediados. Reuniu os líderes e lhes apresentou sua decisão. Os dez logo perceberam que ali havia o dedo de Arki. O anjo deixara de estar presente durante semanas, mas a atitude de Mink era típica de um dia depois da visita do amigo celeste. Suas ideias estavam mais claras e definidas. Parecia estar sintonizado com o anjo e isso lhe modificava o comportamento. As decisões eram tomadas facilmente. Dois dentre eles, se prontificaram a providenciar o necessário para a expedição. Era um casal, embora não formassem família, sempre que possível, atuavam juntos. Tinham entre eles uma estranha sintonia.

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Selecionaram pessoas aptas a enfrentar situações adversas, bem como entendidos nos diversos assuntos, especialmente minerais biológicos e botânicos. Alguns dos mais hábeis lutadores, para enfrentar alguma emergência que poderia ocorrer. Iriam em busca de informações sobre o planeta, que agora habitavam. Dois dos intermediários também acompanhariam o grupo. Quando tudo estava pronto, uma pequena tropa de sessenta pessoas estava disposta a caminhar, acampar onde fosse possível, defender-se de eventuais ataques de animais, enfim, fazer frente a qualquer surpresa. Marcaram a partida para o dia seguinte pela manhã. Os preparativos haviam consumido dois dias. Toda população ficou sabendo da iniciativa do líder Mink. Mais gente queria participar, mas seria complicado deslocar um contingente muito grande. As questões de logística, tanto no aspecto de alimentação, como transporte de pessoas, eram limitantes. Era necessário fazer o percurso a pé. Nenhum meio de transporte estava disponível.

    Antes de partir, Mink despediu-se de Edith e dos filhos, bem como dos familiares de ambos. Os filhos bem que teriam apreciado acompanhar o pai, mas isso poderia representar transtornos inadequados. O objetivo era explorar uma região desconhecida e era impossível saber o que estava à espera. A incursão tinha uma duração imprevisível. Poderia ser breve, como havia a possibilidade de se estender por mais dias. Tudo dependia do que fosse encontrado na região. Os primeiros quilômetros foram percorridos depressa. Todos estavam ansiosos por chegar à parte ainda desconhecida. Para facilitar, tomaram o caminho da costa. Fariam incursões ao interior, em pontos onde houvesse indicações de haver algo importante a pesquisar. Sabiam que, nessa primeira incursão, não iriam descobrir todos os detalhes. Apenas teriam uma ideia geral do relevo, tipo de solo e vegetação. Os especialistas eram encarregados de coletar amostras de tudo que fosse de interesse. Ao final teriam informações gerais, que poderiam ser aprofundadas mais tarde.

    Caminharam aproximadamente uma hora e meia, encontrando um rio, de águas transparentes, desaguando no oceano, em meio a um pequeno delta, que apresentava duas ilhas maiores e mais algumas pequenas. Observando a vegetação ribeirinha e o que era possível enxergar da posição, viram que havia ali um vale, bastante amplo, com densa vegetação em ambas as margens. Árvores de boa altura, dando impressão de se tratar de madeiras de boa qualidade. A época era de ainda haver flores e elas estavam espalhadas por toda parte. Suas cores eram vivas e o perfume bastante diverso. Os cheiros variavam de tons suaves e inebriantes, até aos fortes e penetrantes. Isso significava alguma coisa a respeito das propriedades das plantas, seus teores de determinadas substâncias e qualidades nutricionais das sementes, ou a resistência e durabilidade mecânica de sua madeira. Colheram sementes que seriam levadas para exames mais detidos e experimentação na sede. Os intermediários indicavam aos botânicos quais eram as plantas de alto teor tóxico, evitando assim que ocorressem acidentes indesejáveis.

    Mink confabulou com os seus acompanhantes e decidiram percorrer a margem do rio, em busca de um ponto onde pudessem passar para a outra margem. Se isso não fosse possível, construiriam uma jangada para alcançar o intento. A pouco mais de dois quilômetros do delta, encontraram um pequeno afluente. Havia uma curva para direita e logo depois existia uma cachoeira. O afluente se juntava ao rio em torno de um quilômetro acima da cachoeira. Pouco além dela, existia uma porção de pedras que emergiam da água, aparentando ser possível realizar a travessia. O afluente descia de uma pequena encosta, permitindo deduzir que sua porção anterior ficava em um vale mais elevado. Antes de tentar colocar todo grupo na água, Mink sugeriu à equipe de pescadores que verificassem a segurança do local para atravessar.

    Sem demora cinco integrantes do grupo iniciaram sua missão. Havia bom número de pedras e era preciso verificar quais ofereciam segurança. Nos pontos em que havia uma distância maior, mediram a profundidade usando varas cortadas na margem, verificando que a água era pouco profunda. O que preocupava era a intensidade da correnteza. Seria necessário prover alguma forma de apoio aos que carregavam os mantimentos, evitando que sofressem quedas. Não tinham intenção de pôr em risco a vida dos companheiros, nem das provisões que carregavam. Enquanto o grupo percorria as pedras, determinando o caminho mais seguro, os demais observavam os arredores; o tipo de solo da encosta e sua vegetação. Coletavam amostras de folhas, sementes e até cascas. Pássaros cantavam ou voavam assustados com a presença daqueles seres estranhos em seus domínios. Alguns animais terrestres, de pequeno porte, denotavam sua presença ao sair correndo, deixando atrás de si um rasto de ruídos.

    Todos os participantes da expedição eram adultos e estavam preparados para assistir a tudo, mantendo a calma e não se expor a riscos sem necessidade. Embora a largura do rio não fosse grande, demorou algum tempo para ouvir-se o grito dos desbravadores que haviam ido na frente. No retorno eles ficaram postados sobre as pedras onde deveriam passar e um deles chegou até perto da margem. Repassou as instruções a serem seguidas, para passar em segurança. Os intermediários seguiram os passos dos humanos, ignorando suas aptidões supra-humanas. Somente em casos extremos tinham permissão de fazer uso de sua natureza diferente. Naquele momento eram apenas guias e orientadores, destinados a evitar problemas aos colonizadores em seu começo.

    A travessia correu sem maiores dificuldades. Todos eram vigorosos e se auxiliavam mutuamente, tornando as coisas mais fáceis. Ao chegarem ao outro lado, observaram que o solo era ligeiramente diferente. Acima da cachoeira a margem oposta do rio era formada por um amplo terreno, quase plano. A vegetação era semelhante, porém havia ali espécies de plantas de pequena altura, bastante diversas. Explorariam a parte mais plana no primeiro momento. Era perceptível que, algumas elevações existiam mais para o sul. Com certeza seria possível deixar uma faixa segura de floresta na beira do rio, evitando problemas que ocorriam frequentemente na Terra em muitos lugares. O desmatamento total da margem, dava lugar a um intenso processo de erosão, sujando a água e inutilizando o solo. Isso deveria ser evitado. Os agrônomos deveriam ficar atentos a esses problemas.

    Um pequeno grupo, munido de ferramentas semelhantes a foices, abria caminho, aproveitando os pontos em que a vegetação era menos densa. Assim, avançaram aproximadamente três quilômetros floresta a dentro. Encontraram pequenos cursos d’água, originados de nascentes. A água era clara e se mostrou potável. Havia um sabor ligeiramente diverso do que estavam habituados, devido a presença de algum elemento químico no solo por onde ela era filtrada, antes de aflorar na superfície. Encontraram um local próprio para acampar. Havia uma pequena elevação e sob uma rocha que se projetava para fora, poderiam se abrigar, sendo necessário apenas fazer fogo para preparar os alimentos e se aquecer nas horas noturnas. Enquanto os especialistas em armar acampamento se encarregavam dessa tarefa, os outros aproveitaram as últimas horas do dia para explorar os arredores. Antes de escurecer, haviam reunido um significativo volume de amostras de diversos tipos e formas. O cansaço do dia era intenso, mas a excitação das novidades era forte. Comeram com apetite e, antes de deitarem para dormir, foi estabelecida uma escala de vigilância. Não queriam ser surpreendidos por algum animal selvagem. Não lhes conheciam os hábitos, tampouco sua periculosidade.

    Mink reuniu-se com os líderes dos vários grupos, para ouvir deles as impressões que cada um tinha colhido naquele primeiro dia. Começou pelo agrônomo, que apresentou sua impressão sobre as possibilidades de ali implantar uma florescente colônia agrícola. Era possível manter ótima reserva de florestas, além de cultivar uma extensa área. Do alto da rocha onde se abrigavam, podia-se ver a área de floresta que se estendia até onde a vista alcançava. A presença do rio era assinalada por uma falha na vegetação. Sem dúvida, ali seria um vale de grande produtividade. Os demais ainda não tinham muito que dizer, pois, em terreno plano, nas margens de rios, seria possível encontrar apenas ouro, algumas pedras preciosas trazidas pela água no decorrer das eras. Minérios seriam encontrados somente em lugares mais montanhosos. Quem estava animado, eram os construtores. Haviam observado, ao longo do caminho, grande diversidade de troncos altos e retilíneos. Se a madeira fosse de boa qualidade, coisa que parecia quase certa, devido à forma e vigor dos troncos. Teriam matéria prima em abundância para executar as construções. Buscavam a espécie de madeira utilizada nas edificações do acampamento e do pavilhão de reuniões, que aparentava aliar leveza com ótima resistência mecânica. Vinham estudando os detalhes construtivos, identificando os pormenores que pareciam aumentar em muito a robustez das estruturas. Haviam observado que a madeira utilizada não era de somente um tipo. Provavelmente a combinação de diferentes características resultava na alta resistência estrutural.

    Os metalurgistas pensavam na abundância de lenha disponível para alimentar as fornalhas da fundição dos metais, bem como sua posterior transformação em utensílios e ferramentas, tão necessários. Não viam a hora de começar o trabalho realmente sério nesse sentido. Ainda estavam em fase de construção e instalação da fundição. Depois seria a vez de preparar os malhos e as bigornas, além de instalar ar forjas para aquecer as peças metálicas. Mesmo assim, viviam contentes. Sabiam o que procuravam e o que provavelmente seria encontrado. Em suas mentes imaginavam o que seria possível fazer com os metais que encontrariam. Na jazida que estava sendo explorada inicialmente, existia um composto ferroso, semelhante ao existente na terra. Apenas o minério vinha com mistura de outras substâncias, que lhe conferiam algumas características peculiares. Era mais dúctil e menos rígido. Isso requeria desenvolver as ligas adequadas às necessidades de uso. O tempo se encarregaria de mostrar o caminho. Os dois intermediários apenas ouviam os relatos e observavam, a perspicácia demonstrada por vários dos especialistas.

    Durante a vigília, alguns pares de olhos brilharam na escuridão, iluminados pelo fogo das fogueiras. Nenhum animal ousou se aproximar o bastante para ser visualizado em detalhes. Insetos, perturbados em seu habitat, voavam de um lado para outro. Estranhavam a presença humana e o fogo. Era algo diferente do habitual. O amanhecer se mostrou ruidoso. Pássaros cantavam desde os primeiros alvores de luz lançados por Espectron, antes de surgir no horizonte. Quando se fez dia claro, algumas espécies semelhantes às borboletas saíram da imobilidade e voaram pelo ar, pousando em folhas, troncos e flores, úmidos de orvalho. Depois de saciar a fome, após as longas horas de descanso noturno, o grupo apagou o fogo e se preparou para prosseguir. Não queriam deixar atrás de si um foco de incêndio, capaz de causar grandes danos à natureza, tão rica, porém tão frágil, quando atacada pela voracidade das chamas.

    Os botânicos e agrônomos haviam recolhido suas amostras. Sacos feitos de couro serviam para acomoda-las, envoltas em pedaços de tecido que traziam. Teriam muito que pesquisar, analisar e registrar. Caminharam por mais algum tempo. Subiram uma leve encosta, que terminava num platô, onde havia uma clareira. Um bom lugar para descansar e fazer a refeição do meio do dia. Alguns frutos haviam sido colhidos, sob orientação dos intermediários. Poderiam consumir esses alimentos sem receio. Eram espécies que costumavam ser cultivadas pelo povo que ali habitava no passado. O sabor era agridoce e muito agradável. Deixavam uma prolongada sensação de prazer na boca depois de serem mastigados. Mais informações úteis para o futuro. Sem esquecer de guardar sementes para plantar. Cada fragmento de informação era precioso. A parte melhor dessas frutas era a sensação de saciedade que ficava por um período prolongado, devido à sua riqueza em nutrientes na forma de fibras, de digestão lenta e proveitosa.

    Um leve declive surgiu mais à frente. Pouco depois, encontraram novamente um pequeno curso d’água, cujo leito deveria levar a outros maiores, para depois se juntar ao rio maior. Mink estava pensando em um nome para o rio que havia ficado para trás. Decidiu colocar a questão aos demais integrantes do grupo, na hora do descanso noturno. Estava tão empolgado com tudo que via, que praticamente não se lembrava de nada. No primeiro momento ficou preocupado. Como pudera olvidar, quase por completo, da esposa e filhos, em tão pouco tempo? Em meio a esses pensamentos surgiu em sua mente a lembrança. Não os esquecera, apenas estivera ocupado demais com coisas diversas. O cansaço físico da caminhada vinha fazendo um bem imenso ao corpo e, principalmente, à mente. Estava começando a raciocinar com mais clareza. Tinham a eternidade pela frente.  Não realizariam Orient em Estágio de Luz e Vida, no decorrer de suas curtas vidas na carne. Muitíssimas gerações os seguiriam, até chegar à realização desse objetivo.

    Sentiu, nesse momento, que Arki estava ali ao seu lado. Pelo menos se comunicava, de alguma forma, com ele, infundindo-lhe coragem e confiança. Tinha a impressão de poder tocar no amigo, tão intensamente sentia sua presença. Porém nada mais aconteceu de anormal. Ao meio da tarde, depois de subirem por um aclive mais acentuado, alcançaram uma depressão no alto, onde existia um lago. Não era de grande extensão, pois era visível a outra margem a partir do ponto em que estavam. Era hora de procurar lugar para acampar. Os pescadores se animaram. Ali teriam oportunidade de testar suas habilidades pesqueiras. Se conseguissem capturar alguns peixes, teriam alimento diferente para aquele dia e talvez nos seguintes. A variedade é sempre bem-vinda. Leva a sentir vontade de comer novamente os outros alimentos, depois de algumas refeições. A natureza, nesse ponto, era sábia. Dessa forma se encarregava de prover ao organismo os nutrientes variados de que necessita.

    Traziam em seus pertences utensílios para a pesca e em pouco tempo estavam lançando suas redes em lugares mais profundos, próximos à margem. A água límpida permitia ver alguns espécimes nadando no fundo e próximos à superfície. Sem temer nada, estavam ali buscando o próprio alimento. O primeiro lançamento de uma rede, trouxe uma boa variedade de peixes, bem como espécies aquáticas impróprias para alimentação. Eram semelhantes a aranhas, porém de tamanhos avantajados. Ao serem retirados da água, começavam logo a perder a vitalidade. Não tinham aptidão para vida na atmosfera. Com precaução, foram colocados de volta na água. Seria inadequado predar espécies inaproveitáveis. Um especialista em vida animal, separou um de cada variedade para poder estuda-lo mais detalhadamente. Se possível secar suas carcaças para estudos mais intensos em companhia dos colegas que haviam ficado no acampamento sede.

    Ficou até tarde, à luz de tochas, analisando com os colegas os detalhes do corpo dos bichos, agora mortos. Pareciam ser uma espécie de caranguejo, porém não dispunham de nenhuma carne. Não pertenciam também à família dos camarões ou lagostas. Eram uma espécie de aranha, apta a viver na água. Bem estranho esse detalhe. Depois de analisar e anotar em pergaminhos suas observações, fez um esboço rústico do formato de cada bicho. Se os cadáveres não resistissem até o retorno à base, teria como explicar aos colegas as características básicas dos seres. Serviriam, esses desenhos, para estabelecer semelhanças ou mesmo identificar as espécies futuramente. Em mais duas tentativas de lançar as redes, haviam sido capturados peixes em quantidade suficiente para a refeição noturna, bem como suprir suas necessidades do dia seguinte.

    Cuidaram de assar os de maior porte, enquanto os menores foram preparados cozidos em vasilhas que traziam. Tinham um variado cardápio baseado em peixes, porém em grande parte, eram acostumados aos que vinham do mar. Estes eram de água doce e o sabor era bem diferente. Uma carne suave e branca, com algumas espinhas, como também as outras variedades tinham. Todos se fartaram de comer peixe, acompanhado de frutas e pão, feito com farinha obtida pela trituração de grãos encontrados no planeta. Era consumido com parcimônia, pois os grãos ainda eram objeto raro. Eram provenientes da coleta do que a natureza produzira espontaneamente. Somente depois de cultivo intensivo haveria quantidade suficiente para uso mais intenso e diário.

    Dessa vez foi preciso dormir ao ar livre, apenas protegidos por pequenas tendas. Por sorte, o ar da noite era tépido. Soprava um leve vento sul, vindo da região onde as temperaturas eram mais elevadas. Orient era circundado por dois satélites e nessa noite, os dois apareciam no céu, refletindo a luz de Espectron, deixando o planeta com uma iluminação bem forte. O maior, com órbita mais longa, era Selington e iluminava o céu em ciclos de 49dias. O outro, Single, percorria sua órbita a cada 21 dias. Os pontos mais remotos do céu eram coalhados de pontos luminosos, estrelas, planetas e nebulosas. Mink, deitado em seu leito improvisado, olhava inquisidoramente para o infinito, tentando vislumbrar a estrela tão sua conhecida. Mas nada aconteceu. Adormeceu e sonhou.

    Em seu sonho viu grandes cidades, em pleno desenvolvimento, em vários pontos da superfície de Orient. Na viagem feita nos dias da infância, na companhia de Arki e Zósteles, vira a distribuição das terras no planeta e agora essa imagem era evocada no sonho. Portos movimentados na costa dos oceanos, grandes áreas de cultivo, florestas preservadas. Pontos de extração mineral, necessário para a indústria. Vias de transporte modernas, jamais imaginadas em pensamento. Num momento o sonho saltou para uma cena que esperava jamais presenciar. Dois grupos, com armas poderosas, combatendo entre si. Acordou preocupado. Será que nem toda preocupação com a não utilização de armas, seria capaz de banir para sempre o recurso da guerra? Aos poucos, seu coração serenou, lembrando que tudo fora apenas um sonho. Poderia ser apenas isso. Um sonho ruim.

    Demorou a dormir novamente e, ao levantar, tinha o cenho carregado. Os mais próximos perceberam e indagaram o que havia acontecido. Ele apenas respondeu que tivera um pesadelo. Não deveriam se preocupar. Seria necessário insistir mais firmemente na confiança, na fé das pessoas. A vivência da fraternidade deveria ser estimulada ao extremo, para conjurar qualquer possibilidade de surgirem conflitos que levassem às guerras. Nunca vivera em meio a uma, mas lera o suficiente nos pergaminhos do velho mestre Zósteles, onde havia relatos de lutas sangrentas, grande parte das vezes, fratricidas. Vidas preciosas e importantes eram sacrificadas em honra de falsos conceitos de supremacia de um ou outro grupo. O diálogo e a conciliação eram tão mais fáceis de implementar. Bastava desarmar os ânimos e ouvir o que os outros tinham a dizer.

    Isso tudo não significava ser subserviente, submisso e servir de escravo aos outros. Era importante ter dignidade e falar de igual para igual. Nenhum ser humano era merecedor de considerar-se superior aos demais. Até mesmo os mais bem aquinhoados com dotes físicos e intelectuais, tinham a contrapartida de serem responsáveis, na devida proporção, pela preservação da paz e harmonia. Durante a jornada da manhã Mink ficou meditando sobre tudo isso. Por várias vezes teve sua atenção despertada por observações de seus acompanhantes para plantas notáveis, árvores gigantescas, rochas de interesse, pequenos cursos d’água que lançavam seu conteúdo no lago. Haviam deixado o acampamento e carregavam apenas o necessário. Isso permitia caminhar mais depressa. Um pequeno grupo de cinco pessoas ficara no acampamento, empenhados em secar e assim preservar os exemplares de seres aquáticos, inclusive peixes.

    Um dos afluentes do lago era volumoso bastante para merecer uma exploração mais detalhada. Não dispondo ali de meios para atravessar, decidiram seguir pela margem até um ponto, de onde poderiam voltar ao acampamento antes do anoitecer. O lago era rodeado desse lado de elevações bastante significativas. As rochas encontradas permitiam deduzir a existência de minerais diversos em quantidades que permitissem a extração. Seria importante situar na região uma pequena colônia de exploradores, encarregados de percorrer todos os pontos daquelas montanhas e vales. Retornaram e encontraram os cinco satisfeitos com o resultado de seu trabalho. Além de conseguirem um bom nível de secagem dos exemplares, haviam capturado outras variedades de peixes, moluscos e espécies de insetos aquáticos. Isso enriqueceria seu conhecimento da fauna aquática e também terrestre do planeta. Quanto mais informações coletassem, melhor seria.

    O fogo estava aceso, as tendas haviam sido reforçadas e tornadas mais seguras e confortáveis. A carne para o jantar estava preparada, esperando pelo fogo para ser assada. As descobertas importantes daquele dia haviam desanuviado a mente de Mink. Havia tantas coisas a debater, opiniões a ouvir, sugestões a analisar, que não sobrou lugar para pensamentos lúgubres. Quando as cenas do sonho se insinuaram no pensamento, ele as colocou deliberadamente nas mãos do Pai Universal. Sua vontade devia prevalecer. Por mais que fizesse, não dispunha de poder, sequer do direito, de impor aos outros suas ideias e vontades. Era tão frágil e sujeito aos erros de julgamento, quanto os demais. Contava com um amparo especial dos seres supra-humanos, mas eles não interferiam sem uma razão altamente justificada.

    Os dois orientadores que acompanhavam a expedição, ouviram as discussões e concordaram com a ideia de estabelecer na região do lago, em posição mais apropriada, uma colônia de exploradores. Futuramente ela poderia se transformar em povoado e mais tarde em cidade. A proximidade com a sede, permitiria estabelecer um sistema de transporte pouco dispendioso do que ali fosse produzido e extraído, até os locais de consumo. O lago parecia uma fonte abundante de pescados, e outros alimentos provenientes da água. Depois de algum tempo de conversa, o sono atingiu a todos. A caminhada, embora sem grandes dificuldades, fora longa e cansativa. Nessa noite, Mink dormiu sem sonhos desagradáveis. Começara a ver tudo com olhos mais esperançosos. Os assessores haviam lhe apontado várias possibilidades de desenvolvimento de atividades na região e isso o encheu de ânimo.

    Na manhã seguinte decidiram manter o acampamento ali e seguir pelo outro lado. Queriam saber se o lago tinha um escoadouro para suas águas, uma vez que era fartamente alimentado por diversos cursos de água menores. Esse poderia significar um caminho apropriado para usar como via de transporte, contanto que não houvesse no caminho outras cachoeiras, como aquela próxima ao delta. Os rios e oceanos eram amplamente usados como caminhos, sem grandes obstáculos para se deslocar de um ponto a outro e transportar os produtos. Era preciso verificar se tal comunicação com o rio maior existia e havia possibilidade de navegação. Os barcos seriam construídos com o passar do tempo.

    Não fazendo a menor ideia de quanto teriam que caminhar até encontrar a possível comunicação do lago com o rio próximo, levaram uma reserva de provisões, bem como recursos para se abrigar em caso de ser preciso passar a noite longe do acampamento. O grupo dos botânicos e agrônomos se dividiu em duas partes. Três deles permaneceram no acampamento, cuidando de secar e preparar as amostras de plantas para levar à sede, onde serviriam de material para estudos. Os demais acompanharam o grosso da expedição. Ao todo permaneceram no local, oito pessoas. Os demais, tendo na frente os agricultores, mais aptos a abrir passagem nos pontos de vegetação mais densa, seguiram a orla do lago, agora no sentido horário. Encontraram grande variedade de plantas dos mesmos tipos já conhecidos, além de uma e outra espécie diferente. O solo nessa região era diferente. Quando o entardecer se aproximava, chegaram perto de um maciço rochoso, elevado próximo à margem do lago. Dava impressão de longe que ali havia possibilidade de haver um escoadouro da água.

    De fato, ao se aproximarem, encontraram um amplo curso d’água que conduzia o excedente do lago para o rio maior que deveria ficar a pouca distância. Ao que se podia perceber, no primeiro olhar, era navegável, pelo menos ali no começo. Para saber maiores detalhes, seria preciso percorrer seu leito e investigar. Mink pensou na falta que faziam ali alguns barcos que havia em abundância na agora distante Kibong. Foi a primeira vez que lembrou do lugar onde nascera. Até aquele momento não tivera tempo de pensar no antigo lar. A aventura que viviam era forte demais para dar lugar a divagações. Deixou a ideia de lado e pensou na forma de descer o rio em segurança. Não tinha a intenção de expor nenhuma vida ao risco desnecessário. Quanto mais segura fosse a empreitada, melhor o resultado esperado. Não tinham barcos e decidiu deixar essa exploração para um momento posterior, quando dispusessem desse recurso.

    Sem perda de tempo encontraram uma gruta em uma elevação próxima. Não era muito grande, mas, não sendo covil de animais selvagens, permitiria ao grupo se abrigar de alguma intempérie inesperada. Limparam uma pequena área para acender o fogo e ali assaram carne que haviam trazido do acampamento principal. Durante a refeição e depois dela, Mink propôs a ideia de fazerem uma espécie de jangada para um grupo empreender a descida do rio, verificando as possibilidades de navegação. Havia entre eles pescadores e também marinheiros, que logo estavam dispostos a participar do grupo. Um dos orientadores (seres intermediários), sugeriu que tal tarefa poderia ser levada a efeito com mais planejamento e maior segurança, depois de estabelecer a colônia de exploração da região.

    A ideia acabou prevalecendo. Ao observarem com mais detalhes na manhã seguinte, viram que o escoadouro começava largo e bem raso, como se fosse o vertedouro de uma represa. Ali saia apenas o excesso de água. Se algum dia ocorresse uma seca, o nível de água do lago baixaria e a parte do rio ficaria seca até o retorno da água ao nível normal. Isso permitiu que passassem para o outro lado e continuassem a caminhar pela orla. Quando divisavam alguma coisa mais interessante, um grupo ia até o local e fazia o reconhecimento. Se fosse importante, todos, ou a maioria, se deslocava até o local.

    Dessa forma caminharam por mais um dia, constatando que o lago era maior do que haviam imaginado à princípio. Foi preciso armar novo acampamento e passar mais uma noite quase ao relento. Haviam visto de onde estavam, o que parecia ser a desembocadura do rio encontrado no primeiro dia. Vários outros menores, mas bastante caudalosos, lançavam suas águas no lago. Mink decidiu, em conformidade com os demais, que na manhã seguinte empreenderiam o caminho de volta. Já se sabia que, para contornar o lago todo, o mínimo que se demoraria caminhando seriam três dias, em marcha firme e sem delongas. As informações prévias coletadas a respeito do local, eram bastante animadoras.

    Surgiu a sugestão de estabelecer a colônia inicial nas proximidades do vertedouro. Havia razões para isso, uma vez que, havendo possibilidade de navegação, ali seria necessário construir um ponto de embarque e desembarque de mercadorias, uma vez que as embarcações não poderiam adentrar o lago. Somente barcos de pequeno calado poderiam transpor o ponto mais raso. Também isso ficou para decisão futura, uma vez que dependeria de outras pessoas opinarem. O grupo ali presente era pequeno e não deveria tomar decisões definitivas, sem antes consultar os representantes de todos os segmentos do povo. A participação de todos os especialistas nas decisões importantes, principalmente em suas áreas, era fundamental. Evitaria futuras discordâncias e críticas desnecessárias. Quem tivesse participado da decisão, teria sua parcela de responsabilidade, no caso de constatar algum erro cometido. Não caberia a ninguém o direito de reclamar, uma vez que participara do processo.

    O dia da volta amanheceu nublado e, em pouco tempo, começou a chover de forma mansa. Pouca diferença fazia ficarem abrigados sob as árvores ou caminhar, pois se molhariam da mesma forma. Decidiram caminhar sem grandes interrupções. Apesar do mau tempo, chegaram ao local da primeira noite com tempo de pescar alguns peixes. A provisão que haviam levado estava no fim e era sempre bom ter peixe fresco para comer. A chuva fazia algumas espécies que viviam nas águas mais fundas, virem para a superfície em busca de alimento. Assim conseguiram capturar alguns espécimes de variedades diferentes. Eram de certo modo semelhantes aos da Terra. Havia os com escamas e também os que tinham couro. Foram observados e feitas anotações sobre o tamanho, forma e cor.

    O cheiro da carne sendo assada, espalhou-se pela redondeza, porém não atraiu nenhum animal silvestre. Aliás, haviam visto alguns exemplares de diversas espécies. Eles deixavam-se observar, aparentando não ter medo, mas, as tentativas de aproximação maior, levavam-nos a colocar uma distância segura entre eles e os intrusos. O instinto de preservação lhes ditava a precaução de manter distância, mesmo de um ser nunca visto antes. Percebiam um cheiro completamente estranho, diferente de tudo que suas narinas até ali haviam identificado. Pareciam seguir à risca a máxima: “O seguro morreu de velho”.

    Para alívio de todos, a chuva que caíra o dia inteiro, amainou ao entardecer. Pouco depois o céu estava azul e as luas, primeiro Single e depois de algum tempo, surgiu Selington, arrancando reflexos prateados da superfície da água do lago. Insetos voavam e algumas espécies de peixes saltavam para abocanhá-los. Isso formava um belo espetáculo para os olhos dos observadores. Alguns insetos haviam desenvolvido defesa contra seus predadores. Deixavam-se abocanhar, mas tinham uma espécie de espinhos, por onde secretavam uma enzima que causava irritação nas mucosas dos peixes. Assim eles os cuspiam para se livrar do incômodo. O inseto incauto, imaginando estar livre de predadores, era capturado por outra espécie que parecia não se importar com o incômodo.

    Esse processo de revoada e consequente caçada pelos peixes, prolongou-se por horas, até que o número de insetos diminuiu consideravelmente. Os sobreviventes buscaram a segurança da vegetação, onde poderiam se proteger dos inimigos vorazes. O grupo descansou mais uma noite e, na manhã seguinte, retornou em passo estugado para o acampamento principal. Os oito que haviam ficado, os receberam com entusiasmo. Tinham temido pela sua segurança, uma vez que os esperavam de retorno, no máximo no segundo dia. Já haviam transcorrido quatro dias desde sua partida. Por outro lado, estavam morrendo de curiosidade sobre tudo que tivessem identificado. Os geômetras e engenheiros esboçaram um rascunho do lago, indicando os principais rios que o alimentavam, bem como o local por onde o excesso de água era descarregado para algum rio mais próximo. Localizaram de modo rudimentar as elevações mais próximas, o tipo de vegetação existente em cada setor.

    Os tipos diferentes de peixes capturados por ocasião da chuva também foram descritos. Os animais selvagens, desde pequenos roedores, até outros bem maiores tiveram suas características anotadas. Havia na floresta animais semelhantes aos que haviam encontrado em estado semidomesticado, ao desembarcarem dos transportadores. Seria possível capturar espécimes deles e domesticá-los, para posterior reprodução, formando rebanhos destinados ao abate para alimentação da população. O que ainda não haviam encontrado era alguma espécie semelhante ao cavalo, com aptidão para servir de montaria e tração. Os orientadores intermediários lhes informaram que essa espécie havia sido extinta junto com os seres humanos, por ocasião do desastre. Não existia aparentemente outra espécie para preencher essa lacuna.

    Isso seria superado. Alguma solução seria encontrada, no devido tempo. Na região em que estavam havia de todas as variedades animais existentes no planeta, salvo os exclusivos dos climas frios das regiões polares. Até o momento não haviam tido ocasião de ver a maioria das espécies. Algumas delas eram típicas das áreas montanhosas, outras das planícies situadas mais no interior das áreas continentais. Estavam dando os primeiros passos no conhecimento de todo um planeta. Em tudo era parecido com Urantia. Tinha diâmetro ligeiramente maior, mas a densidade média equilibrava a massa total, deixando-as praticamente iguais. Apesar dos movimentos geológicos intensos em eras remotas, os cinco continentes mantinham entre si uma estreita ligação por terra. Era possível passar de um a outro, sem depender de navios ou outra espécie de transporte.

    Depois de uma refeição farta, muitas histórias e novidades contadas aos que haviam permanecido ali, bem como ouvir deles o que se passara durante a ausência dos demais. Sentados em silêncio e entretidos com os afazeres de preparar os exemplares de animais e plantas para estudos ao voltar, foram surpreendidos com a presença de animais, bem à sua frente. Beberam água e caminharam, aproximando-se do acampamento, observando curiosos. Dava impressão de poder tocá-los, mas, ao perceberem o menor sinal de movimento, afastaram-se rapidamente. Depois, um grupo de animais, semelhantes às tartarugas, saiu do lago e veio para a areia. Cavaram seus ninhos e depositaram ovos ali. O local estava marcado. Se houvesse possibilidade seria interessante assistir à eclosão dos filhotes dentro de algumas semanas. Isso significava que, além da diversidade de peixes presentes no lago, havia ali também uma espécie de seres que se portavam como tartarugas. Eram ligeiramente diferentes na forma.

    O líder do grupo se opusera terminantemente à captura de um ou dois exemplares, para servir de amostra. Dissera que haveria tempo suficiente para isso no futuro. Não teriam como transportar os animais de forma adequada e isso colocaria em risco suas vidas. Convinha começar com a preservação enquanto não houvesse abundância de população das diferentes espécies. Eram conhecedores da ocorrência de extinção de espécies importantes na superfície da Terra, devido à ganância dos homens. Ali cabia a eles cuidar para que tais coisas não se repetissem. Os orientadores intermediários lhes informaram que, na ocasião do desastre humano no planeta, um número significativo de espécies havia sido levado à extinção e outras reduzidas a grupos pequenos de indivíduos. Isso diminuíra a diversidade genética, dificultando uma evolução mais adequada. Algumas inclusive haviam se extinguido no período de recuperação da natureza. Haviam sido incapazes de refazer sua genética antes de sucumbir.

    Com isso, Mink falou aos seus liderados:

    – Temos aí o exemplo do que não devemos jamais fazer. Temos necessidade dos animais, eles existem para nos ajudar a manter o equilíbrio. Cada espécie que é extinta, empobrece o planeta. Lembram da noite de ontem? Os insetos voando sobre a água do lago, à luz de Single e Selington, estavam acasalando visando a reprodução. Mas ao mesmo tempo os peixes os capturavam para lhes servir de alimento. Não haverá superpopulação de insetos e não faltará alimento para os peixes. Os insetos, por sua vez, comem outros insetos ou folhas de plantas. Se existirem em número além do limite, causarão desastres na natureza. Que nos sirva de lição para todo sempre na face de Orient. O respeito a todas as formas de vida é primordial. Cada espécie tem sua finalidade. Se ela for extinta, haverá desequilíbrio e poderá ocasionar a extinção de outras espécies ou superpopulação de alguma, o que é igualmente danoso para todo sistema.

    – Você está certíssimo Mink. Deve conscientizar o seu povo a sempre respeitar a natureza, começando por seu próximo. Os animais lhes são úteis e a natureza os proveu para isso. Mas devem ser tratados com respeito e jamais ser maltratados. O Pai Universal, por meio de Micael, seu filho criador, colocou todas as espécies de animais e plantas nos mundos habitados para o bem dos seres evolucionários. Eles são vossos auxiliares durante a vida na carne.

    O dia fora longo, haviam conversado bastante e alguns já dormitavam, encostados nos lugares em que haviam se assentado. Foi o momento adequado para dizer que deveriam deitar para descansar. O dia seguinte seria de uma dura caminhada até o local em que haviam pernoitado no primeiro dia. Era claro que estariam descendo, mas o fardo que carregariam havia aumentado significativamente. Um imenso carregamento de amostras de plantas, insetos e pequenos animais, estava sendo levado para estudos. Teriam material para analisar e caracterizar por um bom tempo. Assim, as crianças e adolescentes da escola começariam a ter contato com os seres que poderiam encontrar durante sua vida em Orient.

    Quando o dia raiou, Mink estava de pé, conclamando todo grupo a iniciar a marcha de retorno. Seguiriam pelo caminho percorrido na vinda, onde seria menos penoso já que havia os sinais de sua passagem. Por toda parte eram visíveis galhos e arbustos secos que haviam sido cortados ou esmagados durante a passagem na ida. Com relativa facilidade chegaram, antes do entardecer, ao local do pernoite sob a rocha. As marcas de sua estada anterior eram bem visíveis. Em pouco tempo tinham juntado lenha e o fogo foi aceso, servindo de aquecimento bem como cozimento da comida. Como não tinham se detido para nada, não havia grandes novidades naquela noite. O cansaço era forte e bem cedo estavam todos dormindo.

    Logo cedo empreenderam a caminhada que os levou à margem do rio. Para sua surpresa, o nível da água havia subido e as pedras utilizadas na travessia, estavam apenas visíveis, tornando inviável sua utilização para a travessia. Seria preciso encontrar outra solução. Não foi difícil encontrar caminho pela margem, chegando em algum tempo à desembocadura no oceano. Era por volta da hora do almoço. Ali foi encontrado uma espécie de bambu de boa espessura, prestando-se para a confecção de jangadas. Com o empenho de todos, não tardou para que as embarcações ficassem prontas e assim iniciaram a travessia, saindo por fora, avançando um pouco pelo mar e logo estavam navegando perto da praia. Assim seguiram até avistar o ponto em que estavam instalados os abrigos que ocupavam desde a chegada ao planeta.

    Quando chegaram à aldeia era hora do entardecer e foram recebidos pelos demais membros da liderança e dos familiares de todos os integrantes da expedição. Haviam ficado fora por uma semana e um dia. A curiosidade era enorme e não tardou para que se formasse uma pequena roda em torno de cada membro da expedição. As perguntas choviam de todos os lados, não deixando tempo aos interrogados para responder a nenhuma delas. Mink, vendo aquele estado de coisas, elevou a voz para dizer:

    – Vamos fazer uma reunião à noite no anfiteatro. Ali todos poderão fazer as perguntas que quiserem, faremos um relatório completo de toda expedição. Deixem agora os amigos ter um momento de paz com seus familiares.

    Um pouco a contragosto o povo se retirou, voltando às suas atividades de final de tarde. Assim puderam descansar um pouco, vestir roupas limpas, jantar, antes de se dirigir ao local da reunião. Ninguém quis perder o encontro. Estavam ansiosos por saber de tudo que havia sido descoberto durante a expedição. Os pavilhões ficaram vazios na hora da reunião. Quando todos estavam presentes, os líderes da expedição foram chamados ao palco e, um a um, fizeram o relato de sua competência. As perguntas eram respondidas ao final de cada relato, pois grande parte delas estariam esclarecidas nesse ponto. Ao final de tudo, Mink falou da conveniência de implantar uma colônia avançada para exploração da região do lago e seus arredores. Os voluntários seriam convocados no momento em que os detalhes estivessem sendo ultimados.

    Nemur, que também se fizera presente, recebera dos dois companheiros que haviam acompanhado a expedição, o relato dos acontecimentos. Recebeu a palavra e falou ao povo:

    – Desejamos que essa colônia que será implantada na região do lago, seja a primeira de muitas outras que virão. O planeta que estão habitando tem cinco continentes, mas todos são interligados por faixas de terra. É importante que ocorra a multiplicação de vossa descendência, para que ocupem, em algumas gerações, boa parte desse território. Há uma tarefa gigantesca a espera de vocês. As mulheres devem dedicar sua vida a gerar filhos em quantidade para prover habitantes para tudo isso. Vocês vieram preencher uma lacuna que foi aberta com o desastre da população que aqui viveu. Esperamos que vocês tenham sucesso em sua empreitada. Vossos nomes ficarão para sempre inscritos nos anais de Orient, em Edêntia, capital do sistema de Satânia e Sálvington, capital do Universo Local. O Pai Universal tem cada um de vocês em alta conta e acompanha suas vidas com o máximo de interesse. Ele vos espera de braços abertos na Ilha do Paraíso.

    Mink retomou a palavra e completou:

    – Nemur, em nome do povo que veio comigo, agradeço a orientação que vocês estão nos dispensando. Nossa tarefa seria bem mais difícil sem vocês. Sei que, em algum tempo, irão se retirar, mas ficarão por perto, para nos ajudar em alguma emergência grave. Faremos o melhor ao nosso alcance para corresponder às expectativas que foram depositadas em nossas mãos. Vou convidar todos a se recolher para o descanso merecido. Os mestres trouxeram um vasto material para estudos, que será colocado à disposição das nossas crianças e adolescentes nas escolas. Faremos outras expedições, para lugares mais distantes, com o objetivo de estabelecermos colônias nos outros continentes. E vamos cuidar de nossas crianças com o máximo de dedicação. Elas representam o futuro de Orient, agora nosso mundo. Procuraremos fazer dele um lugar ótimo para deixar às futuras gerações que irão nos suceder. Que eles sintam orgulho de tudo que fizermos agora.

    A comunidade toda saiu do recinto, retornando ao local de sua habitação. Havia um grupo ansioso por partir, sem demora, em busca do local para iniciar a colônia e explorar a região. Ser pioneiro atraia muita gente. Foi preciso lhes dizer que não deveriam se precipitar, para não haver imprevidência. Tudo seria planejado e executado da melhor forma possível, o que evitaria ocorrências desagradáveis com certeza. Mas a chama da aventura fora acesa e queimava no coração de muitos. A ânsia por estar presente aos primeiros eventos colonizadores era cada dia maior.

    Seguiu-se uma intensa atividade preparatória por parte de todos. O mais urgente era construírem embarcações, mesmo pequenas, mas que permitisse navegar ao longo da costa, diminuindo o tempo de viagem de um ponto a outro. Mas, mesmo assim, ainda faltavam os últimos detalhes para iniciar a produção metalúrgica. Até mesmo as menores embarcações, exigiam em sua construção, uso de pregos e outras peças metálicas, para lhes aumentar a solidez. Até a feitura de encaixes, furos para colocação de cavilhas e pinos, exigiam o uso de ferramentas adequadas, coisa que no momento ainda não estava disponível. Os mineradores, tiveram seus turnos abreviados, colocando-se mais gente para trabalhar, acelerando assim a extração do minério.

    Logo as instalações das fundições e posteriormente das forjas estavam sendo providenciadas. Enquanto isso, um grupo considerável sob orientação de um dos dez intermediários, providenciava pranchas, vigas, troncos para mastros, obtidos da madeira mais apropriada para construção de embarcações. Assim, no momento em que as ferramentas, os pregos e demais peças metálicas ficassem disponíveis, poderiam começar a construir as embarcações. Um grupo menor foi enviado ao longo da costa, encarregado de encontrar um caminho mais curto, a partir do oceano, até o lado. Levavam ferramentas remanescentes do antigo museu, mesmo sendo pouco apropriadas, serviam para a finalidade a que se destinavam.

Curitiba, 19 de dezembro de 2015 (Atualizado em 23/08/2016)

Décio Adams

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