Comemorando a sobrevivência – parte 2.

Novamente o mês de agosto.

Hoje, dia 11 de agosto de 2016, é outra data que preciso comemorar. Completo exatamente 18 anos de “sobrevida” à uma cirurgia de implantação de prótese total de artéria aorta. Dei entrada no centro cirúrgido do Hospital Sâo Lucas, velho conhecido da época de nascimento dos filhos, entre 7 e 8 horas da manhã. A cirurgia, prevista para durar em torno de 5 horas a no máximo 6, acabou demorando 9h30 min, seguida de duas horas e meia de recuperação, antes de ir para UTI. A prótese que fora prevista para ser somente o Y, onde a artéria se bifurca transformando-se nas duas femurais, foi preciso ser substituida por uma que vai do arco aórtico até o início das femurais, abaixo da virilha. Entre substituição e demora extra do procedimento, transcorreu um dia inteiro (12 horas), até que finalmente eu emergisse da sala de cirurgia.

Depois de passado o evento, fiquei sabendo que a minha chance de sobreviver ao procedimento, era inferior a 5% e mesmo assim estou aqui, já fazendo “hora extra” por 18 anos. O Pai do céu deve esperar que eu ainda seja capaz de cumprir uma boa jornada. O importante é que também ocorre no mês de agosto. O mais positivo desse ocasião foi que, além de recuperar a chance de viver sem o risco de romper o aneurisma existente no segmento entre as artérias renais e a bifurcação, a semana de hospital, aliada aos dois meses precedentes, durante os quais eu reduzi drasticamente o volume de cigarros consumidos diariamente, me ajudou a parar definitivamente com esse vício tão nefasto.

Mesmo assim, em 30 de maio de 2001, precisei fazer uma intervenção de coração, implantando uma ponte safena e uma mamária. Em 2002, foi a vez de uma endarterectomia carotídea do lado esquerdo, isso no dia 10 de outubro. No ano de 2003, começo de junho, foi a vez da edarterectomia carotídea do lado direito, logo seguida, no mesmo mes de junho, de uma cirurgia de hérnia inguinal. Sou todo remendado.

Voltando ao acidente de 2011, vale lembrar o drama que a gente vive quando é preciso submeter-se a uma traqueostomia. O procedimento nos livra de ficar entubado, com aqueles horrorosos respiradores artificiais, mas nos obriga a tentar a comunicação por gestos, leitura labial, ou então escrita. O mais complicado é se o acidente vitimou também o óculos que se usava. Tentar escrever, enxergando tudo meio embaralhado, não é fácil. Tentei, mas nem sempre fui feliz, pois havia que somar ao problema visual, a posição inadequada, além do estado de fraqueza geral que nos acomete nestes momentos. Não sei da experiência de outras pessoas, mas de minha parte, digo que é uma sensação de desespero. Tentei formar as palavras com a boca bem lentamente, tentei desenhar com o dedo na palma da mão, mas pouco adiantava. Confesso que em muitos momentos me senti vivo, mas vendo o mundo de dentro de uma espécie de casulo, que impedia minha comunicação.

Lembro que me ocorreu naqueles momentos uma ideia. Não sei da viabilidade prática, mas seria de extrema utilidade se todos dispuséssemos um forte treinamento de controle da mente. Boa parte do sofrimento, especialmente no ajuste da respiração com o fluxo de ar/oxigênio que o sistema respirador nos fornece. É comum tentarmos respirar fundo e então nos falta ar, pois o sistema fornece um fluxo uniforme. Se fôssemos treinados mentalmente para essas ocasiões, certamente seria menos angustiante a experiência. Foi o que consegui fazer às duras penas, depois de quase entrar em desespero. Quando finalmente foi removido o dispositivo da traqueo, não reconheci minha voz, que saiu deformada, parecendo uma coisa cavernosa, como se o aparelho fonador estivesse totalmente danificado. Bastaram alguns dias e voltou ao normal. Mesmo assim, até hoje, cinco anos depois, ainda sinto um pouco de pigarro, que se forma no ponto da incisão na traqueia.

O mais triste é tentar comer, com aquele canudo na goela. Mas depois que a parte mais crítica passou, o apetite voltou e, mesmo com dificuldade, dei jeito de comer, ao ponto de, em uma semana, estar for da UTI. Havia feito o propósito de voltar lá visitar os enfermeiros que cuidaram de mim, mas nunca deu certo e acho que nem seria conveniente.

Um fato que me chamou atenção, foi o fato de nos julgarem em estado de inconsciência e pensarem que não escutamos nada. Não sei se eu não estava em tal estado, mas escutei muita coisa, que talvez nem devesse ter ouvido, pois, não sabendo do que se tratava, misturei  tudo e criei uma confusão em minha cabeça, que quase me levou à loucura. Fragmentos de conversa, fatos acontecidos antes, delírios, tudo misturado, formou uma história de horror. Os mesmos fatos e cenas se repetiram inúmeras vezes em meus devaneios, criando um enredo sem pé nem cabeça. Quem sabe, um dia, eu crie ânimo para contar alguma coisa dessa parte.

Estava esquecendo. Em determinado dia, vi adentrar a UTI uma mulher, vestida de modo um tanto espalhafatoso, passando uma descompostura nas enfermeiras. Logo ficou sabido tratar-se da médica chefe da outra UTI existente pouco adiante. Alguns anos mais tarde descobri que ali eu conhecera uma pessoa que usava de sua posição como médica chefe da UTI, para dar uma “ajuda” aos pacientes em estado grave e que exigiam elevado empenho, muita dedidação e recursos. A ajuda que ela dava era para apressar a “passagem” dessa para melhor, desocupando vagas na UTI. Quando a vi sendo conduzida para interrogatório policial na TV, levei um susto. Eu havia estado a distância de no máximo dois metros dessa pessoa. Por sorte, não estava sob sua responsabilidade, pois isto poderia significar que eu estaria morando hoje na cidade dos pés juntos. Escapei de boa. kkkkkkkkk.

Alguns meses depois de ter alta, estando em vias de receber atendimento especializado no CHR (Centro Hospitalar de Reabilitação), ligado à APR, visando a posterior protetização da minha perna esquerda, dei início, como forma de distração, à um trabalho de escrever. Gostei da coisa e hoje tenho alguns livros publicados e outros em vias de publicação.

Curitiba, 11 de agosto de 2016.

Décio Adams

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