Comemorando a sobrevivência. – parte 1.

Faz cinco anos!

 

Há exatamente cinco anos, domingo, dia 07 de agosto de 2011, esse momento da minha vida foi decisivo. Estava próximo do momento crucial da morte, em consequência de um acidente sofrido na véspera, dia 06/08, pouco depois das 19 horas. Depois de superar uma crise suprema, retornei para continuar por mais algum tempo nesse mundo. Outras crises semelhantes seguiram-se, antes de superar definitivamente aquela fase.

Voltando ao dia anterior, o tempo estava ameno, nem frio nem quente, saí de casa, levemene agasalhado, em minha moto Suzuky Intruder 125. Ia para casa de meu filho Anselmo Daniel Adams, que ficava a distância de aproximadamente 10 km. A pouco mais de dois km de casa, pilkotando sem pressa, fui surpreendido por um farol forte no rosto, bem no começo de leve curva, ao final da rua Vicente Cicarino, no exato lugar do cruzamento dessa com a ferrovia. Um automóvel Ford K, invadiu minha pista e não houve tempo para desviar. O resultado foi uma colisão, de acordo com o laudo policial, um abalroamento lateral. A velocidade relativamente baixa (+_ 40 km/h), me projetou pouco para frente, a pouco mais de um metro do trilho ferroviário.

Uma alma caridosa, enfermeira de nome Fernanda, interrompeu seu caminho para o trabalho, vindo em meu socorro. Entreguei-lhe o aparelho celular, dizendo:

  • Ligue para o primeiro nome da agenda. É meu filho. (Anselmo que eu ia visitar).

Depois de estabelecer os contatos, avisar os socorristas do SIATE, polícia de trânsito e SAMU, aguardou a chegada do meu filho e lhe passou as informações necessárias.

O notável é que, por mais quebrados que estejamos depois de um acidente, o que menos sentimos é dor. Uma fratura exposta no fêmur da perna esquerda, rompera as artérias e produzia uma forte hemorragia. O SIATE chegou prontamente e ininiou o atendimento de urgência, sendo que logo chegou também uma viatura do SAMU, trazendo um profissional médico. Havia urgência na minha remoção para unidade hospitalar, tendo em vista a forte hemorragia. Quando cheguei ao Hospital Evangélico, dei entrada em estado de choque povolêmico. Bastariam alguns minutos mais e teria sucumbido por falta de sangue.

Os próximos dias foram de momentos alternados de consciência e inconsciência. O ortopedista responsável por mim, fazia planos de reconstrução da minha junta do joelho, que estava partida em várias partes. Dizia ele que não havia possibilidade de recuperação dos movimentos normais, apenas eu teria uma perna “dura”. Assim passaram-se 19 dias, enquanto minha parte inferior da perna esquerda entrava em decomposição. Quando o mau cheiro se tornou insuportável, minha família, encabeçada pela esposa Rita Conti Adams, exigiu do médico responsável pela UTI uma medida para salvar minha vida. Estava a ponto de ser tomado por um processo de gangrena que me levaria a morte inexorável. Dessa forma, depois de 19 dias, no dia 25 de agosto, foi realizada a cirurgia de amputação, eliminando a possibilidade de instalação de quadro geral de septicemia.

Alguns dias depois da amputação, tive alta da UTI, mas em condições inadequadas. Tanto que, menos de dois dias depois, retornava à UTI com quadro geral de infecção, sangramento intestinal. Foi preciso convocar o infectologista chefe do hospital para tomar conta da situação. Depois de dois dias de combate duro, a crise infecciosa foi dominada, porém começou a preocupação para investigar as razões do sangramento intestinal. A preparação para exames de Endoscopia e Colonoscopia, representou um período de 4 (quatro) dias de jejum absoluto de alimento e água. Depois da primeira noite de tratamento para limpeza do aparelho digestivo, a endoscopia foi fácil de fazer e acusou a parte superior (esôfago e estômago) sem alterações capazes de produzir qualquer forma de sangramento.

O que ninguém havia lembrado era o fato de que até ali eu passara, nada mais nada menos, do que 30 (trinta) dias com o aparelho digestivo completamente parado. Toda massa ali existente foi sendo sucessivamente sugada e ressecada. Quando foi feito procedimento de limpeza com medicamentos, não houve, mesmo em quatro dias sucessivos, meio de deixar o aparelho digestivo em condições de fazer o exame de colonoscopia. Não havendo repetição do sangramento, o médico da UTI suspendeu o processo e liberou a alimentação. Menos de uma semana depois eu estava me livrando da traqueostomia conseguia voltar a falar, me alimentar normalmente. No dia seguinte, após 48 dias de UTI, sai definitivamente para um quarto. Estava pele e ossos, mas era preciso passar alguns dias internado.

Finalmente no dia 12 de outubro, dia das crianças e Nossa Senhora Aparecida, tive alta e voltei para casa. Ainda foram precisos mais de trinta dias até conseguir um nível de normalidade em todas minhas funções físicas. Enquanto isso o coto da amputação ia reduzindo o tamanho da ferida, fechando em poucos dias.

Fatos pitorescos.

Apesar de ser um momento de dor e sofrimento, ocorreram alguns fatos que se poderia classificar como pitorescos, ou até hilários.

  •  Ensinando matemática. Nos período em que ainda estava oscilando entre consciência e inconsciência, antes da amputação, em dado momento havia duas enfermeiras dispensando seus cuidados a mim. Enquanto isso falavam sobre uma questão matemática básica. Imaginavam que eu estava fora de mim e estranharam quando lhes dei a resposta à sua dúvida. Ali estava eu, no fundo de um drama de vida, balançando entre viver e morrer, usando minhas aptidões de professor de matemática. 
  • Pleonasmo.  Em outro momento havia duas jovens executando suas atividades em torno de minha cama e discutiam sobre o uso de palavras sinônimas na mesma frase. Não lembravam do nome da figura gramatical que denomina a situação. Mesmo enfraquecido, um pouco “grogue”, soube lhes dizer que se tratava de um “pleonasmo”.
  • Defunto trocado. Depois de amputado, na fase mais aguda da infecção que seguiu à tentativa de alta da UTI, em determinado dia, o pastor responsável pela comunicação dos casos de morte à família, ligou para minha esposa em seu trabalho, pedindo que comparecesse ao hospital. Sendo um chamado fora do habitual, ela suspeitou que se trataria da comunicação de minha morte. Chegando ao hospital, seguiu-se o ritual de praxe, “infelizmente ele não resistiu e a senhora vai ter que fazer o reconhecimento do corpo”. Diante do fato, ela disse: Então vamos até lá para ver e resolver essa questão. Enquanto isso ela fazia conjeturas sobre o melhor modo de informar aos filhos. Ao chegar ao necrotério, havia ali sobre uma bancada um corpo, coberto com um pano. O estranho era que o corpo ostentava seus dois pés, coisa que eu já não tinha mais. Vendo isso, Rita falou: “Este marido não é meu! Ele tem dois pés e meu marido foi amputado”. Estavam presentes, além do pastor, um funcionário do necrotério e um representante da funerária de plantão. Quando foram verificar na lista dos doentes em situação crítica, verificaram que o morto era de nome “Délcio” e daí a confusão. Aliviada da notícia, ela subiu para a UTI, mesmo sem ser hora de visita e foi verificar se eu realmente estava ali. Logo na chegada, viu por um vidro bem grande, que eu estava ali. Estranhei um pouco sua presença ali fora de hora, mas não estava em condições de indagar nada.

  Dali ela desceu e foi para a portaria esperar pelo filho, que logo viria para a visita noturna. Foi preciso explicar sua chegada antecipada em detalhes, pois ele estava abalado com todos os acontecimentos.

Curitiba, 07 de julho de 2016

Décio Adams

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