Eu parei e você está começando?

Casal do interior

 

Na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, mais precisamente nos municípios vizinhos à Santa Rosa, era habitual os colonos, viajarem de ônibus para a cidade maior, resolver problemas de banco e fazer algumas compras mais importantes. Geralmente o ônibus partia de uma cidadezinha interiorana e percorria um itinerário onde coletava os passageiros que faziam uso de seus serviços. Isso ocorria pela manhã, chegando por volta das nove ou dez horas. Os passageiros tinham algumas horas para resolver suas questões e em torno das quatro ou cinco horas voltavam para embarcar na viagem de regresso. O veículo refazia o mesmo caminho, deixando cada um no seu destino, onde havia embarcado.

Em uma dessas localidades, um casal já com os filhos adultos e um ou dois adolescentes, tinha questões no Banco do Brasil a resolver. O marido, que vou chamar de José, embarcou no ônibus pela manhã e se dirigiu à cidade. Lá chegando, resolveu a questão do contrato de empréstimo agrícola no banco. Depois aproveitou para comprar alguns ítens de que necessitava. Comunmente eram mais baratos na cidade do que no “bolicho” ou mesmo não eram ali encontrados. Com isso, quando se deu conta, estava na hora de correr até a Estação Rodoviária para não perder o ônibus. Se demorasse, ficaria retido na cidade e não pretendia pagar uma noite num hotel, coisa que não estava habituado a fazer.

Caminhou depressa, carregando as compras feitas que haviam ficado um tanto pesadas. Chegou ainda a tempo de comprar sua passagem e embarcar. Não havia nessa época um controle rígido de saída dos ônibus. O motorista conhecia a maioria dos seus passageiros e, antes de partir, fazia uma conferência para verificar se não ficara ninguém para trás.

O senhor José, depois de colocar suas compras no bagageiro do ônibus, que ficava na parte de trás, ou sobre o teto, onde eram amarrados os objetos e cobertos com lona, subiu no veículo, tomando um assendo livre. Logo depois uma mulher, com um bebê no colo, levando uma sacola bastante volumosa, também embarcou. Não era conhecida.  Certamente estava viajando para visitar algum parente no interior. José gentilmente levantou-se e cedeu a ela o lugar ao seu lado, próximo à janela.

Ela agradeceu e sentou-se. Um ou dois minutos depois falou:

– O senhor pode segurar um pouco meu bebê, para que eu possa ir ao banheiro, antes que o ônibus comece a viagem?

– Posso sim, – falou José.

Pegou gentilmente o bebê e lembrou do tempo em que segurara ao colo seus filhos pequenos. Apesar da rudeza de seu trabalho, tinha um carinho epecial com os filhos. Adorava conversar com eles, mesmo que eles não soubessem ainda falar. Pôs-se a falar carinhosamente com a criança, enquanto a mãe se apressava a entrar na rodoviária no rumo do banheiro.

Logo o motorista havia terminado de carregar as bagagens, seu ajudante e cobrador terminou de amarrar a lona sobre o teto. Os dois entraram no veículo, pondo-se a percorrer o corredor, conversando com um, acenando ao outro e perguntando se lembravam de alguém que por acaso estivesse atrasado.

A mãe do bebê ainda não voltara e José resolveu se manifestar:

– A mãe dessa criança deixou ela aqui comigo e foi ao banheiro. Podemos esperar um pouco que ela volte? Não posso levar a criança e deixar ela aqui.

Os dois, motorista e cobrador, desceram e foram à procura da mulher no interior do recinto da rodoviária. Perguntaram aos funcionários dali e não obtiveram nenhuma informação à respeito da mãe do bebê. Tinham a descrição aproximada do aspecto da mulher. Logo uma funcionária da faxina lembrou:

– Eu vi uma mulher com esse tipo que foi ao banheiro e depois saiu por essa porta do lado. Depois não sei para onde foi.

Tornaram a procurar dentro e fora, no meio de uma pequena multidão que estava ali a espera do momento do embarque e nada encontraram. Nem vestígio da tal mulher, mãe do bebê. Depois de alguns minutos, o tempo de partir já estava bastante atrasado e voltaram ao ônibus, dirigindo-se ao seu José:

– Seu José, o senhor conhece essa mulher?

– Nunca havia visto antes. Imaginei que vinha de fora para visitar algum parente na região.

– Infelizmente não podemos esperar mais. Já estamos bastante atrasados. O que o senhor quer fazer? Poderia procurar a polícia e entregar a criança para as autoridades.

José, homem de coração generoso e pai afetuoso, pensou um pouco. Logo havia decidido a questão e falou:

– Deve ter sido Deus que mandou essa criança. Acho que minha mulher vai ajudar a cuidar dela. Se a mãe a abandonou, vai precisar de um lar e não vamos negar isso a ela. Podemos partir.

– O senhor tem certeza de que quer fazer isso, seu José?

– Tenho. Não vou deixar um inocente jogado nas mãos de autoridades, onde talvez não receba o mínimo de carinho e atenção. Ainda é capaz de morrer ou ir viver num orfanato, sem as mínimas condições de vida para uma criança. Vamos embora. Temos ainda guardadas num baú as roupinhas do nosso filho caçula. Irão servir para começar.

O motorista deu partida e os demais passageiros expressaram sua admiração a José por sua generosa atitude. Ao desembarcar, José saiu sobrecarregado. Além de suas compras, ainda tinha que levar o bebê. Como morava pertinho do ponto de embarque, o motorista resolveu deixá-lo mais próximo da casa. Os demais passageiros não se opuseram ao gesto dele.

Quando Margarida, a esposa o viu com o bebê nos braços, parou espantada e exclamou:

– Mas que é isso meu velho? Depois que eu parei de ter filhos, você começou?

Os filhos adolescentes e uma filha, ainda solteira, vieram ver e se encantaram com a possibilidade de ter um bebê em casa. Não se importaram com os incômodos que isso iria lhes trazer. Ele cresceria fazendo companhia aos netos que vinham com frequência passar um dia, principalmente nos domingos ou feriados, na casa dos avós.

O ônibus seguiu seu caminho enquanto José, Margarida e os irmãos adotivos que o bebê ganhara, se ocuparam em dispensar cuidados ao pequeno. As roupinhas foram retiradas do baú, separadas e passadas a ferro, outras foram colocadas para lavar na manhã seguinte. A noite foi um alvoroço, que chegou logo às redondezas, trazendo os vizinhos mais próximos até a casa para ver o que ocorria.

Havia um cartório no vilarejo e José foi até lá fazer o registro do bebê. Era uma menina loira, robusta e saudável. Deram-lhe o nome de Ester, lembrando a figura bíblica. A família era profundamente religiosa. O tempo passou e alguns anos mais tarde pouca gente se lembrava do fato de Ester não ser realmente filha de José e Margarida. Tornou-se uma jovem de rara beleza e índole meiga, porém de personalidade firme. Era resoluta, dedicada as tarefas escolares, o que lhe valeu elogios diversos. Ao atingir a idade apropriada foi colocada em uma escola, com internato, onde aprendeu a ser professora. Ao completar o curso, voltou para o interior, tornando-se atuante na profissão adquirida.

Essa é uma das muitas histórias que eu ouvi contar nos tempos de criança e adolescente. Era contada como verdadeira. Eu apenas criei um texto para transmitir os fatos que devem estar um pouco torcidos com o passar dos longos anos.

Curitiba, 29 de outubro de 2017.

Decio Adams, IWA

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