Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VII

 

Jornal do período pós renúncia de Janio Quadros.

 

7.  Trabalho 

duro, economizando.
Manoel começara a controlar seus gastos desde a chegada ao solo brasileiro. Mesmo nos momentos mais difíceis, evitava gastar além de um determinado valor. Uma parcela, por menor que fosse, era colocada mensalmente em uma conta bancária. Ao se demitir do porto levara uma boa economia para São Paulo, pensando em conseguir se manter, caso fosse necessário, por até um ano ou mais. O momento econômico do país, mesmo com algumas dificuldades em determinados setores, era favorável. A indústria crescia a taxas consideradas elevadas e ele era uma peça dentro dessa indústria. Terminou 1958 em plena atividade como metalúrgico. O saldo de sua conta poupança só fizera crescere durante o ano que demorara para concluir o curso que se propusera.
Com a bicicleta que compraro, passou a percorrer os quase 3 km da pousada até a indústria pedalando. Notou sem demora que isso ajudava a melhorar sua disposição durante o dia, além de economizar o custo das passagens de ônibus. Isso ajudava a reforçar o montante que economizava mensalmente. O salário também havia crescido sensívelmente e assim viu sua poupança crescer rapidamente. Impávido assistiu alguns amigos e colegas aventurar-se na comprá de um “Fusca”, carro agora produzido no Brasil pela Volkswagen. Era sem dúvida o veículo que rapidamente se tornou popular. Levava a vantagem de ser pequeno, econômico, manutenção baixa, além de um custo inicial de menor monta.
Sentiu o verme da cobiça roer suas entranhas, imaginando que poderia passear de carro, visitar outras cidades nos finais de semana e feriados, nas férias. Mesmo com o surgimento das facilidades de crédito para financiar, em até 24 meses, resistiu. Não era uma necessidade de primeira ordem. Haveria tempo para ter seu automóvel. Tinha seu projeto de vida estabelecido há anos e se manteria fiel a ele. Quando fosse dono de seu próprio negócio, teria como adquirir um carro, do tipo que quisesse e na hora que desejasse. Sua bicicleta por ora fazia o serviço principal e para as distâncias maiores havia os ônibus e trens à disposição.
Uma vez por mês passava um domingo na pensão de dona Marinês, revendo alguns hóspedes antigos que ali permaneciam, a própria dona. Passou a simpatizar com o time do Corintians e vez por outra assistia uma partida. Sempre escolhia um lugar sossegado para ficar e assistir sem se meter em confusão. À exceção da prisão no porto por ocasião da comissão de negociação, até o momento não se metera em confusão. Já estava há vários anos no país e cada vez sentia-se mais seguro. De Ancede vinham notícias de que seus irmãos haviam conseguido, mesmo com sacrifício, concluir seus estudos alcançando posições que lhes garantiam razoável nível de vida. Isso ajudada a deixá-lo despreocupado com relação ao sustento dos pais. Sempre indagava se havia alguma necessidade, pois poderia ajudar em caso de emergência.
Os anos passaram, Manoel fez no SENAI mais dois cursos. Um na área de estamparia e outro de usinagem fina. Este último lhe trouxe na própria empresa a mudança de nível, com o consequente aumento da remuneração. Conquistara algo importanto que ouvira um professor chamar de “empregabilidade”. Em situação de emergência, teria como habilitação para se candidatar a mais de um tipo de emprego, aumentando suas chances de não ficar desempregado no caso da ocorrência de qualquer anormalidade no atual.
Ao final de cada ano fazia o balanço de suas economias. Em deterrminado dia ouviu falar de gente aplicando dinheiro na bolsa de valores. Havia que falava maravilhas. Era fácil de ganhar dinheiro rapidamente, chegando a dobrar o capital no decurso de alguns meses. Sentiu-se tentado. A cautela o aconselhava a ir devagar. Perguntou a todos os conhecidos e as respostas foram as mais variadas. Desde quem desse total razão a quem louvasse o investimento em ações, até outros que falavam da possibilidade de perda do capital, ou boa parte dele. Sentiu vontade de saber detalhes sobre o funcionamento dessa forma de investir.
Comprou jornais e revistas de economia, lendo as páginas que tratavam do assunto. Em questão de um ano, pouco mais, estava completamente enfronhado no Sistema de funcionamento do mercado de ações. Eram na verdade papéis representativos do capital de empresas denominadas Sociedades Anônimas. Qualquer um que dispusesse de dinheiro para investir poderia comprar ações. O aumento da procura, devido ao crescimento de uma empresa, prometendo assim pagar polpudos dividendos, fazia o valor desses papéis crescer. Quem possuisse um determinado número de ações, compradas a preços mais baixos, vendendo-as, obtinha um lucro significativo.
Ficou sabendo que havia quem especulasse e até mesmo usasse de artifícios para provocar quedas, podendo assim comprar ações a preços menores. Depois com tudo voltando ao normal, seriamvendidas com um lucro significativo. Percebeu com facilidade que, quem não estivesse atento, poderia perder muito dinheiro. Começou a ouvir falar, leu a respeito de empresas especializadas em investimentos em ações. Mediante uma comissão sobre o valor aplicado, se encarregavam de gerenciar os investimentos de seus clientes. Imaginou como poderia confiar em uma empresa privada ao ponto de lhe entregar o dinheiro tão árduamente ganho e economizado. E se usassem de frauds para alegar que não houvera lucro e sim prejuizo? Seria preciso um estudo muito detalhado antes de embarcar nessa viagem. Ainda era cedo para pensar nisso.

Santinho de campanha de Jânio Quadros.  Seu símbolo a vassoura.


Em 1960 foi inaugurada a nova capital do país Brasília. As eleições apontaram Jânio Quadros como preferido dos eleitores para a presidência em substituição a Juscelino Kubitscheck, tendo como vice João Goulart, pertencente ao partido oposto PTB. O governo de Jânio durou pouco e ele renunciou no dia 25 de Agosto de 1961. Foram menos de seis meses de governo. Estabeleceu-se um clima de agitação no país inteiro, uma vez que as forças armadas se opunham à posse de João Goulart, vulgo Jango, tido como comunista. Por sinal estava em visita à China naqueles dias. Com a instauração do regime parlamentarista, aprovado às pressas no congresso nacional, Jango tomou posse. Seu primeiro ministro foi Rainieri Mazili.

O país desacostumado com o novo regime não conseguiu deslanchar. As oposições eram enormes, intrigas, perturbações diversas, por fim em começo de 1963 foi realizado um plebiscito em que o povo optou pelo retorno ao presidencialismo. Jango deixou de ser mera figura decorativa. No âmbito das empresas da nascente indústria nacional, ocorreram manifestações de reivindicações diversas. Benefícios adicionais, problemas de periculosidade, insalubridade e evidentemente reajustes salariais condizentes com a época, quando crassava o flagelo da inflação. Isso corroia o poder aquisitivo dos trabalhadores, impedindo a realização de uma poupança forte.

Primeiros atos do governo militar.
Mais um Ato Institucional editado


Nas frequentes assembléias realizadas no âmbito da indústria, em locais públicos por convocação dos sindicatos, Manoel se mantinha em posição de aparente neutralidade. Embora concordasse com os motivos das manifestações, trazia vivoss na mente os maus momentos que passara na prisão na cidade do Porto. Não tinha intenção alguma de passaar por nada semelhante. Os colegas o instavam a tornar-se membro da diretoria do sindicado e ele sempre declinava dos convites. Poderiam contar com ele em tudo, menos em manifestações envolvendo qualquer forma de violência, ou como integrante de mesa diretiva dos sindicatos. Aceitara em Santos participar da comissão de negociação e logo na primeira reunião fora parar na cadeia.
É certo que não ficou lá por muito tempo. Nem chegou a depor e já haviam sido liberados pela pressão dos colegas reunidos diante da delegacia de polícia. Na mesma época em que aqui ocorriam disturbios diversos, em Portugal, sua terra natal, também existiam movimentos quase que constantes, visando interromper o longo período salazarista. Vez ou outra tinha ocasião de ver algum programa de televisão, ainda incipiente. Nessas ocasiões era possível ver os oponentes do regime em ação, sendo presos, interrogados e colocados na prisão. Dava graças a Deus por não estar por lá, pois não saberia se teria o sangue frio suficiente para suportar. Rezava diariamente pela proteção de seus familiares.
Ele aqui tratava de se manter distante de confusão. Conseguira tornar sua situação de residente permanente no país e até cédula de identidade, título de eleitor havia tirado. Era agora um cidadão brasileiro como outros que aqui haviam nascido. Havia frequentes passeatas dos trabalhadores, mas pouco organizadas, por falta de uma direção central. Algumas tentativas de criar uma espécie de Central Sindical não dera em nada, apesar dos esforços de alguns batalhadores intrépidos. Em mais de uma ocasião Manoel sentiu vontade de se integrar nos movimentos sindicais. Somente a lembrança dos maus tratos sofridos em Portugal o mantinham em sua neutralidade.
No dia 31 de março de 1964, ocorreu um movimento dos militares, em reação a algumas decisões de Jango, levando esse a renunciar. Depois viajou para o Uruguai onde pediu asilo politico. Os generais comandantes formaram uma junta governamental, depois indicaram um presidente. Muitos integrantes dos partidos de esquerda acabaram se exilando em vários países, outros tiveram seus mandatos cassados, perderam os direitos politicos. A promessa inicial era por “ordem na casa” e devolver o poder aos civis. Na prática esse estado de coisas se estendeu por mais de vinte anos. Apenas em 1985 foi eleito um presidente civil, Tancredo Neves, tendo por vice José Sarney.
Voltando ao nosso personagem, notamos que, depois da tomada do poder pelos militares, ele se tornou ainda mais retraido no tocante a movimentos sindicais e manifestações públicas. Não esquecia que, apesar de ser agora cidadão brasileiro, não deixava de ter orígem portuguesa e isso poderia depor contra sua permanência no país. Continuava constantemente a fazer suas economias, procurou estudar a fundo o funcionamento do mercado de ações. Em dado momento, depois de o clima politico ter se acomodado a um nível aceitável, experimentou fazer um pequeno investimento no mercado. Procurou o gerente da Caixa Econômica e pediu orientações. Não tendo as informações, encaminhou o cliente ao departamento apropriado e lá ele pode estreiar sua atividade de acionista.
Para começar comprou um lote de ações da Petrobrás e outro do Banco do Brasil. Nada muito vultoso, mas eram os papéis que no momento estavam tendo maior procura. Isso ocorreu ao final de 1966. Quando começou o ano de 1967, ocorreu a publicação dos balanços e depois a distribuição de dividendos, além de bonificações na forma de novas ações, representando aumentos de capital. Com isso, a procura ficou menor que a oferta e os valores cairam, levando Manoel a ficar momentaneamente desesperado. Perdera em poucos dias praticamente 25% do seu capital. O gerente da Caixa o tranquilizou:
– Isso é consequência das novas ações postas no mercado. Logo elas voltamo a subir e você vai ver. Seu ganho vai dobrar em pouco tempo.

Forças de segurança em ação na rua.
Generais do começo do regime militar.


Com essa informação ele se tranquilizou e ficou acompanhando a evolução. Depois de uns dois meses percebeu uma lenta recuperação dos valores dos papéis. Mais investidores queriam comprar e o preço subiu. Foi bem além do valor em que estavam quando ocorrera a queda. Aos poucos Manoel aprendeu que nesse setor não se podia ter pressa. Investir em ações era para esperar ganhos a longo prazo. Quem quisesse resultados imediatos, tinha que investir suas economias em outrass aplicações. Por isso Manoel continuava a investir cada mês sua parcela na poupança. Quando tinha um excedente e o valor das ações estava mais baixo, adquiria mais alguns lotes. Assim, ao longo de quase dez anos, juntou um bom volume em títulos.
Havia constantemente mulheres interessadas em namorar Manoel. Ele manteve alguns breves relacionamentos, mas nada definitive. As jovens logo falavam em noivado e casamento. Nessa hora ele inventava um motive qualquer e tirava o time de campo. Ainda não tinha alcançado seu objetivo. Casaria apenas depois de se tornar senhor do próprio nariz, tivesse seu próprio negócio. Ao se tornar independente teria as condições necessárias para constituir família, ter filhos, antes não. Foi em 1968 que, durante uma manifestação do sindicato, ele estava participando, mas sem ultrapassar qualquer limite legal. Em dado momento porém, uma tropa de choque cortou o avanço dos manifestantes, cercando-os por todos os lados.
Um grande número de participantes foi levado para cadeia, entre eles Manoel. Durante algumas horas passou diante de seus olhos como um filme, aquele mês passado na cadeia há quase vinte anos. Estava completando 34 anos nessa época. Os detidos iam sendo chamados em grupos e interrogados. Aqueles que pudessem comprovar residência, emprego fixo e não tivessem anotações criminais em seu passado, seriam liberados. Enquanto isso a angústia corroeu o íntimo de Manoel. Quem poderia ser chamado, a quem avisar para tomar providências? Tinha os amigos, colegas, mas nem sabia onde eles estariam. Talvez também tivessem sido detidos, esperando a mesma sorte que ele.
A prisão ocorrera ao anoitecer e somenta às 3 da madrugada ele foi chamado. Tinha em seu poder a identidade de imigrante português, título de eleitor, Carteira de Trabalho e Previdência Social. Casualmente uma carta do irmão que recebera no dia anterior estava em seu bolso. Ali estava o endereço e poderiam verificar com o dono do estabelecimento onde se hospedava sua residência ali há quase dez anos. Na CTPS havia a anotação de seu trabalho, com tudo atualizado. Quando o interrogador o perscrutou, percebeu que ali estava um homem firme, porém amedrontado. Talvez tivesse em seu passado alguma coisa que lhe fizesse associar o ambiente policial com lembranças desagradáveis.
Iniciou-se um longo interrogatório. Apresentou todos os documentos, respondeu a todas as perguntas, verificaram sua ficha criminal e ao final de duas horas, não haviam conseguido associa-lo a nenhuma atividade fora da lei. Era um trabalhador honesto, apenas reclamando de melhores condições de salário, trabalho e outros benefícios. Isso não o tornava um criminoso. Mesmo assim, o intgerrogador, pensando que ele tinha algo no seu passado que conseguira seconder, retomou as mesmas perguntas, refez o mesmo interrogatório, apenas variando as formas. A tudo ele respondeu calmamente, embora sentisse um sour gelado escorre-lhe pelas costas. Pensava na hora de entrar no serviço. Até aquele dia não tivera uma única falta. Seria essa a primeira?
Faltando quinze minutos para as seis horas, finalmente foi liberado e pode pisar a calçada da rua em frente ao local. Respirou profundamente, acalmou o coração de batia descompassado, depois dirigiu-se a um ponto de ônibus. Conseguiu se informar sobre qual deveria tomar para chegar ao trabalho. Usaria o jaleco que estava no armário para não faltar. Antes de entrar, passou por uma padaria nas proximidades, pediu um café bem forte, um par de pães com manteiga, mortadela e queijo. Depois de comer, sentiu-se mais apto a enfrentar o dia de trabalho. Foi para a fábrica e depois que ocupou seu local de trabalho observou que vários colegas haviam faltado. Isso não era normal. Provavelmente estavam ainda as voltas com as autoridades.
Durante o dia, ouviu comentários diversos, relativos ao movimento do dia anterior. Soube que havia diversos colegas presos e seriamente complicados em consequência de ações violentas no decorrer da manifestação. Procurou saber apenas a situação em que eles estavam, em dizer que passara a noite na delegacia. Se não estivessem sabendo, não seria ele que iria contar. Ao ser detido estava inclusive caminhando para se retirar e voltar para a pousada. Não negaria se alguém o tivesse visto no grande grupo de pessoas levadas para a detenção, mas não iria se denunciar gratuitamente.
O chefe de equipe, ao final do expediente pediu um minute para lhes falar sobre o ocorrido na noite anterior. Comunicou oficialmente que ao todo dez funcionários da indústria estavam na detenção até o momento. Um advogado constituido pela empresa estava verificando a situação individual e a possibilidade de fornecer apoio jurídico para libertar os detidos. Era confortador saber que o empregador se preocupava com os trabalhadores ao ponto de fornecer amparo jurídico nessas situações. Imaginara que, se ficasse detido, teria que amargar sua situação, sem esperança de ajuda.

Voltou para seu quarto, tomou um banho prolongado, tentando remover o cheiro de delegacia que parecia estar impregnado em suas roupas. Esfregou a pele vigorosamente para não deixare qualquer vestígio das horas passadas na cadeia. Sabia que isso não ajudaria muito, pois o problema não estava em sua pele, nem em seu corpo, mas sim na mente. O trauma do passado insistia em atribular seu presente. Os companheiros de pousada, conhecidos há vários anos, perguntaram pelo seu paradeiro na noite anterior. Ele deu sorriso maroto dando a entender que fora se divertir. Não tinha importância que pensassem que ele estivera em um lugar de mulheres. Ser homem lhe permitia esses deslizes, sem ser cobrado por isso.

Manifestações de rua antes do golpe militar.
Manifestações de artistas contra censura.


Sentou-se para jantar, mas estava pensativo e novamente quiseram saber o que acontecia. Dessa vez foi preciso ser mais cuidadoso. Falou que estava preocupado com uma dor que sentia no ombro desde uns dias. Teria que procurar um médico para averiguar do que se tratava. Era uma mentira plausível e poderia usar uma visita rotineira ao médico da empresa para conseguir uma pomada qualquer e assim confirmar a história. Não demorou e estava na cama, dormindo. Queria recuperar as horas de sono perdidas na noite anterior. Dormiu mas seu sono foi agitado pelos fantasmas do passado. Via diante de seus olhos ora o interrogador da noite passada, ora voltava aos dias na prisão do Porto. Acordou suado e foi devagar até a sala de refeições onde tomou um copo de água. Voltou para cama e dessa vez dormiu mais serenamente.
Na manhã seguinte estava com o rosto recomposto. Bem cedo estava pedalando sua bicicleta até a fábrica. Ali encontrou dois dos colegas que haviam faltado no dia anterior e lhe contaram que só ao anoitecer haviam conseguido sair da detenção. Haviam sido surpreendidos num momento impróprio da manifestação. Sua atitude havia sido interpretada como hostil às tropas de segurança. Dessa forma fora preciso receber a ajuda do advogado da empresa. O pior de tudo é que havia ficada registrada sua detenção. Isso ficaria constando em sua ficha por muitos anos, se não para o resto da vida. Eles haviam visto que ele também tinha ido participar. Não for a detido?
– Escapei por pouco. Percebi a tropa vindo de longe e sai de fininho. Por isso consegui escapar dessa.
– Sorte sua. Esses caras não brincam. Houve gente que apanhou e está lá até hoje. Os caras do sindicato estão todos em cana até agora. Vão demorar alguns dias a sair.
– Por isso eu não quero saber de participar da diretoria. Me convidaram várias vezes, mas não quero saber.
– Temos que dar apoio a eles. Dão a cara ao tapa pela gente. É preciso pensar em algo para ajudar, – disse outro colega.
– Mas como a gente consegue ajudar?
– Não sei, mas vamos pensar em alguma coisa. Talvez indo até a sede do sindicato a gente consiga saber algo mais.
– Fica onde essa sede?
– Fica na capital. Eu moro perto. Vou ver se dá tempo de passar lá hoje depois do expediente.
– Isso João. Amanhã você conta pra gente o que podemos fazer.
– Eu não quero saber de cadeia. Sei que ali é complicado. Para entrar é fácil. Sair é que são elas.
– Você tem razão, colega. Precisamos ajudar nossos companheiros, sem nos expormos a algum risco.
Nisso o portão foi aberto e todos começaram a entrar apressados. Precisavam passar pelo relógio de ponto, depois vestir os uniformes e ir para o setor de seu trabalho. Sem esquecer uma passada rápida pelo banheiro. Não ir poderia significar a necessidade de deixare o local de trabalho antes da hora e isso refletia no desempenho da produção do dia. Caminharam rapidamente, deixando qualquer conversa para mais tarde, na hora do interval ou depois do almoço. Haveria então um período um pouco maior para trocar ideias.
Em poucos minutos as máquinas começaram a ronronar, produzir ruidos de metal sendo cortado pelas ferramentas, ou desgastado pelas lixas e polidores. O acabamento final era de extrema importância. Manoel estava há quase cinco anos no setor de usinagem fina. Seu objeto de trabalho eram os diversos tipos de engrenagens. Havia diferentes modelos e tamanhos. Cada máquina usava essas peças em tamanhos próprios. Havia a necessidade de todo cuidado para não esquecer os diferentes padrões, medidas e formas. Ele costumava ter um dos índices mais elevados de aproveitamento. Raríssimas vezes ocorria de uma de suas peças ser rejeitada no controle de qualidade. Isso lhe valera algumas gratificações e prêmios por eficiência.

Temera no dia anterior pelo seu rendimento. Tomara cuidado redobrado. Melhor ter uma ou duas peças a menos de produção ao final do dia, do que ter algumas refugadas. A produção um pouco menor era menos prejudicial do que a rejeição de peças defeituosas. Graças a Deus, não havia nenhuma informação de peças rejeitadas em seu escaninho, onde eram deixados os avisos que a empresa usava para comunicações com os empregados. Tudo correra melhor do que poderia ter esperado.

 

Imagem de jornal no início do regime militar.

 

Manifestante portando cartaz de protesto.

Fotografias baixadas de sites da internet relativos à época dos anos 60, governo Jânio, parlamentarismo e regime militar.

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