Arquivo mensais:Janeiro 2015

Orquídeas na rua!

 

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Moitas de Dendobrium e no meio a variedade nativa

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No centro da imagem, próximo da borda superior, cacho da flor.

 

 

Orquídeas na rua!

Há alguns anos, enquanto cultivava uma porção de orquídeas em casa, amarrei algumas mudas em árvores plantadas no passeio. Para minha surpresa, não ocorreu o furto, coisa comum acontecer, infelizmente. No sábado estava no pátio em frente de casa e minha esposa me mostrou que uma das mudas estava florida. Como fica perto de casa, fomos até lá. Encontrei um lindo cacho de flores com pétalas vermelhas. O labelo tem detalhes em amarelo. Outra curiosidade é a posição do labelo. Ele fica virado para cima, ao contrário da maioria das outras espécies. A planta é nativa do Paraná. Está fortemente enraizada na casca de um Ipê amarelo, por sinal uma muda criada por mim há cerca de quinze anos.

Minha esposa colheu uma florzinha que trouxemos para casa, onde a fixei em um grampo de roupa e fotografei de vários ângulos. Na manhã seguinte, fui até a planta e a fotografei inteira, junto com outras mudas de Olho de boneca que também já vem florescendo há vários anos. A planta é de certo modo semelhante a uma variedade de orquídea “bambuzinho”, apenas o cacho de flores é diferente. As pétalas medem menos de dois centímetros de comprimento e menos de um cm de largura. A fotografia mostra a comparação da flor com o tamanho do prendedor de roupa. Mesmo assim, é uma flor muito bonita, como aliás é comum das orquídeas em geral.

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O prendedor de roupa é muito maior que a flor.

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Minha mão e a flor. Vejam a diferença.

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A grande quantidade de árvores existentes em Curitiba, permitiria a existência de grande variedade dessas plantas enfeitando nossas ruas. Uma variedade nativa da região é a gomesa. Suas floradas são abundantes, pois crescem em múltiplos bulbos, formando grandes touceiras. Havia em uma rua, distante cerca de 1,5 km de minha casa, uma moita enorme e, em nossas caminhadas, esperávamos a época da florada para apreciar a beleza natural, em uma das árvores da rua. Qual não foi nossa surpresa em uma ocasião dessas, ao olhar para o local em busca da grande variedade de flores, encontramos apenas alguns bulbos remanescentes. O resto havia sido levado por algum vândalo. Ficamos muito tristes.

Não teria havido nenhum problema se ele tivesse retirado uma das inúmeras mudas nascidas ao redor da planta mãe, duas até. Teria tido a alegria de acompanhar o desenvolvimento e depois a floração. Assim, arrancando a planta inteira, é muito provável que tenha perdido grande parte dos bulbos, além de retirar a planta de seu lugar de nascimento, pois o vento levou com certeza a minúscula semente para ali e ela germinou. Como ficaria bacana se as nossas árvores estivessem todas servindo de suporte para belas plantas. Elas não são parasitas, são parceiras. Usam as árvores apenas como suporte ou substrato. Retiram a água e nutrientes do ar, por isso seu crescimento é tão lento. Há variedades que demoram 7(sete) anos da germinação da semente, até a primeira florada, isso se não acontecer nenhum transtorno.

Essa é a parte fascinante do cultivo de orquídeas. Depois que elas atingem a floração, a beleza que nos presenteiam demora em alguns casos, vários meses para perder o viço.

 

Décio Adams

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XIII

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Garrafas de aguardente com “martelinho” ao lado

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Vitrine de bebidas em bar

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Coleção de rótulos de cachaça.

  1. Coleção de cachaças cresce.

 

 

O marceneiro terminou a primeira parte do armário. Os elogios ao efeito produzido foram unânimes. As garrafas existentes foram colocadas inicialmente espaçadas. Caberiam muitas no mesmo espaço, mas por enquanto iriam ficar assim. Na medida em que mais outras se juntassem ao acervo, iriam sendo preenchidos os espaços vazios. Quando estava terminando de colocar as últimas e depois observar o efeito causado, Manoel sentiu ao seu lado a presença de um cliente. O mesmo se mantivera mudo até aquele instante, mas logo disse:

– Está ficando bonita sua coleção. Quando eu falar com os meus vendedores do interior nordestino, vou pedir para eles trazer algumas espécies que só existem por lá. Conheço todas elas do tempo em que eu viajava na região.

– Mas sabe a diferença delas pelo gosto, ao sentir o sabor? – perguntou Francisco.

– Eu faço uma aposta que você abre uma garrafa, sem eu ver, serve um copinho e me entrega. Fico de olhos fechados. Tomo um bom gole e digo a marca, safra e, em alguns casos, até o nome do fabricante.

– Pode ser, mas é um pouco difícil de acreditar, seu Toshyro, – tornou Francisco.

– Quer fazer uma experiência?

– Vamos encontrar uma que tenha duas garrafas e abrimos uma delas. Acho que tem uma lá do nordeste mesmo. Um amigo trouxe uma e depois o outro trouxe mais uma. Dá para nós sanarmos as dúvidas, – falou Manoel.

– Mas isso tem que valer uma aposta!

– Vamos ver se alguém topa apostar quando houver mais gente no estabelecimento. Ainda é muito cedo. Isso vai ser uma farra.

– Não tem problema, seu Manoel. Pode esperar que seus clientes venham. Hoje eu não tenho pressa. Minha família foi para o interior e não preciso voltar tão cedo para casa.

– Vou colocar a pinga para gelar.

– Não faça isso. Gelada ela não mostra seu verdadeiro “espírito”. Tem que ser tomada na temperatura ambiente.

– Ainda mais isso. Mas geladinha ela não desce mais suave?

– Cachaça, se for boa, não arde, nem nada. Mesma coisa que wisky. Gelado ele não tem o sabor. Os verdadeiros bebedores tomam ele na temperature ambiente.

– Será que os alemães também tomam cerveja sem gelar?

– Exatamente. Lá o clima é em si mais frio e por isso eles não precisam gelar. Bebem na temperatura ambiente, até mesmo o chopp. Nos dias muito quentes êles colocam em resfriamento leve para não ficar môrno.

– Faz sentido. O vinho, por exemplo do Porto, se bebe sem gelar. O único que se bebe gelado é o branco, champanha, espumante. O tinto é tomado na temperatura em que sai da adega. Por isso que é guardado nas adegas  que são sempre os porões das casas.

– Enquanto esperamos o povo chegar, que tal jogarmos uma partidinha de sinuca, seu Manoel? Deixe seu ajudante cuidar do bar e vamos nos divertir um pouco.

– Uma boa ideia, seu Toshyro.

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Aguardente Espalha Gripe, de Alcântara

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Aguardente de cana Bafo de Onça (Essa é braba)

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Aguardente NAXOXOTA

 

Manoel pegou um par de fichas na gaveta do caixa e foram para uma das mesas. Jogaram para se divertir. Depois de perder a primeira para Manoel, Toshyro provocou:

– A próxima vale uma garrafa de vinho do bom. Se for para perder ou ganhar, tem que valer alguma coisa.

– Vamos a isso, então amigo. Uma garrafa de Vinho do Porto. Pega lá Francisco. Uma daquelas que guardo onde tu sabes.

Logo Francisco colocou sobre um suporte uma garrafa de vinho, bastante envelhecido, em uma vasilha bojuda, com um lado achatado, dando-lhe uma forma típica. Toshyro observou atentamente e viu que era da safra de 1974, portanto já estava com 11 anos nesse momento. Deveria ser algo especial. Nem perguntou o quanto custaria se viesse a perder o jogo. Os dois se empenharam ao máximo e chegaram ao ponto em que cada um dispunha apenas de uma bola para ser derrubada, além da bola oito. Um grupo de torcida se formara ao redor e ficaram sabendo da aposta feita. Aquele jogo valia a garrafa de vinho exposta alia o lado.

Todos fizeram questão de olhar e cobiçar o líquido escuro que havia em seu interior. Estaria reservada ao vencedor daquele jogo. Por último Toshyro derrubou sua bola e ficou pela única. Depois de duas jogadas de cada lado, finalamente a bola oito caiu na caçapa e Toshyro saiu vencedor. Recebeu das mãos de Manoel a garrafa de vinho, sopesou-a e falou:

– Vinho bom é para ser bebido, não apenas para ser olhado. Francisco, traz lá um saca-rolhas e alguns copos. Não vai dar para ninguém se embriagar, mas para sentir o sabor desse vinho de onze anos. Obrigado, Manoel.

A garrafa foi aberta e um pouco do conteúdo foi vertido em diversas taças, que foram distribuidas aos presentes. Tendo nas mãos o recipiente com o líquido de cor forte, exalando um aroma inigualável, elevaram um brinde:

– À prosperidade do nosso amigo Manoel e sua família, – disse Toshyro.

As taças tilintaram e todos beberam um pequeno gole, saboreando o excelente vinho. Depois mais um gole e logo as taças estavam vazias. Todos lamentaram não haver mais. Perguntaram a Manoel qual era o preço e desistiram de pedir, pois representava um valor elevado para suas disponibilidades. Era peferível jogar algumass partidas de pebolim, sinuca e tomar uma ou duas cervejas. Ficaria mais em conta do que uma única garrafa de vinho.

Logo se espalhou que o japonês ali presente, que dividira com eles tão generosamente o vinho ganho no jogo, era especialista em cachaça. Dizia-se capaz de identificar pelo sabor a marca, procedência e safra do produto. Começaram a questionar entre si se isso seria capaz. Surgiram promessas de apostas entre eles até que chegou o momento de tornar o assunto sério:

– Amigos! – disse Manoel. – Temos alguém aqui que se diz capaz de identificar cachaça pelo sabor. Até mesmo pode ser capaz de dizer o nome do fabricante em alguns casos. Ele topa fazer uma demonstração, mas precisa valer uma aposta.

Era a deixa para organizarem as apostas. Havia quem apostasse a favor, outros contra e logo havia uma soma relativamente alta de dinheiro reunida em uma caixa de papelão. Os valores apostados haviam sido anotados, ficaria uma porcentagem para o estabelecimento, outra para o especialista, e uma outra para os ganhadores.

Cachaça Atrás do Saco.

Tome ATRÁS DO SACO

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Cachaça Na bunda (Cuidado)

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Aguardente de cana KIPRESENTE

 

Tudo acertado, Manoel pediu para Toshyro sentar-se de costas para o balcão, enquanto ele iria abrir a garrafa de bebida que já estava colocada em local escondido atrás do balcão. Abriu e serviu uma dose num copo, o vulgo “martelinho”. Levou para a mesa onde o experimentador estava e colocou a bebida ali. Ao ouvir o ruido do copo na mesa, Toshyro abriu os olhos que mantivera fechados, como que se concentrando. Pegou o copo, olhou o líquido contra a luz para ver sua transparência, levou-o aos lábios, sorveu um gole. Levou o líquido para a parte posterior da língua e lhe sentiu o sabor. O aroma ele já percebera ao aproximar o copo do rosto.

Sentiu por instantes o paladar da bebida, engoliu e estalou a língua, como quem aprova o que bebeu.

– E então, seu Toshyro! Qual é a marca da cachaça que o senhor bebeu?

Depois de pensar alguns instantes, fazendo suspense, ele declinou a marca, o local onde é fabricada, a safra e o nome do alambique. Todos quiseram saber de Manoel se o que for a dito conferia com o que estava escrito no rótulo. Manoel pôs-se a ler. A medida que lia, primeiramente a marca, depois o fabricante, a safra por último. Estava exatamente igual ao que for a dito por Toshyro. Manoel fez a divisão do dinheiro e havia quem ainda duvidasse. Olhos indagadores se dirigiram para Manoel e este falou:

– Meus amigos, nem eu acreditava que isso seria possível. Tanto que apostei contra e perdi. Podem ver aqui minhã aposta.

E mostrou o seu nome com a anotação ao lado dizendo que o homem não seria capaz de fazer o que dizia.

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Foi a partir daí que começaram a surgir desafios os mais diversos, sempre na identificação de cachaças produzidas em lugares remotos. Já traziam sempre duas garrafas. Uma era para ficar no acervo da coleção do bar e outra para ser experimentada pelo japonês especialista. Quase todas as semanas vinha alguém com duas ou mais garrafas de cachaça, provenientes de distintos lugares. Cada visita de Toshyro, culminava com um desafio e uma rodada de apostas. Houve quem propusesse fazer uma sequência maior de apostas, mas Manoel não permitiu. Isso iria caracterizar a realização de jogos de azar no bar. Seria caracterizada a transgressão das normas legais e isso geraria dissabores depois.

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Aguardente de Pendão, FRUTA RARA

 

Importante era manter as coisas dentro de limites sem exageros. Não estava caçando confusão naquela altura dos acontecimentos. Os sábados eram em geral o momento de receber as novas variedades de aguardente. Algumas vinham mesmo de grotas bem distantes, de modo a sequer terem um rótulo bem impresso, colorido e tal. Era um papel branco, com o nome da bebida, local, fabricante e data. Diziam os portadores ser de ótima qualidade, apesar da aparência um tanto rústica. Manoel colocava uma garrafa na vitrine, guardando a outra. A cada sessão de apostas uma delas era aberta para testar o paladar de Toshyro.

Houve até um concorrente que se apresentou, dizendo ser capaz de dizer até o dia da fabricação. Isso foi considerado exagero, pois essa informação não era possível confirmar. Não vinha impressa nos rótulos. Na primeira tentative ele errou feio e foi vaiado. Depois entrou na brincadeira, pois havia pensado tratar-se de uma espécie de concurso. As novas que iam sendo colocadas na vitrine, eram vistas por Toshyro. Ao vere le evocava de sua memória as informações e descrevia o sabor que a bebida apresentava. Mais teor alcoólico, mais ácida, menos ácida, maior teor de açúcar e outros detalhes. Depois, quando chegava a hora de experimentar dela sem saber da orígem, vinha a sua memória o que dissera na descrição. E logo declinava nome, orígem, ano de fabricação e fabricante. A cada semana havia uma nova garrafa para ser experimentada.

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Aguardente de cana TÁ NA HORA

 

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Aguardente CURA VEADO

 

 

O mes de agosto passara, setembro ia a meio. Os enjôos de Eduarda estavam cessando. O começo da gestação sempre é mais intenso nessas sensações. Em algumas semanas seria realizado o primeiro exame de ultrassom. O ginecologista estava acompanhando o desenvolvimento e tudo estava dentro da normalidade. Iria pedir o exame na próxima consulta. Talvez já fosse possível determinar o sexo da criança, saber outros detalhes relativos ao desenvolvimento. Os futuros pais estavam cada dia mais entusiasmados. O quarto em que iria dormir o bebê, estava sendo decorado aguardando a chegada. Tudo is sendo feito com calma, pois ainda faltava tempo suficiente para isso.

Os avós estavam aguardando ansiosos pelas novidades. A cada visita que faziam, traziam alguma roupinha, um cobertor, um brinquedo, qualquer bugiganga, contanto que servisse para ser usado de alguma forma pelo neto. Os tios e tias, do lado materno, igualmente estavam querendo saber sempre como andava a irmã caçula. Todos eram casados e tinham seus filhos. Tinham sempre alguma coisa a sugerir, conselhos a dar, simpatias para isso, ou aquilo. Havia momentos em que Eduarda preferia ficar sozinha em sua casa, de tanto que enchiam seus ouvidos com coisas diversas, muitas vezes contraditórias. Se fosse dar ouvidos a tudo que lhe diziam, ficaria maluca. Era melhor seguir a orientação do médico e sua intuição.

Os tios, residentes em Portugal, haviam sido informados e aguardavam o nascimento. A avó estava bastante doente, mas torcia para ter vida até ver ao menos uma fotografia do primeiro neto do filho mais novo. Enquanto isso Eduarda tratava de dominar os segredos da cozinha do bar. No futuro esperava assumir o comando desse setor. Arminda já estava um pouco idosa e por vezes mostrava sinais de cansaço. Poderia a qualquer dia oferecer uma surpresa. Prevendo isso, ela tratou de marcar consultas com medicos para examinar a cozinheira. Foi detectado que ela sofria de diabetes e não sabia disso, de modo que o nível de açúcar no sangue era elevado.

Os exames determinaram também níveis de cholesterol acima do normal. Dessa forma ela precisou se submeter a um regime bastante rigoroso, além de usar medicação adequada. Três vezes por semana, Eduarda levava a funcionária para uma academia, onde as duas participavam de ginástica, um pouco de musculação, caminhadas na esteira, bicicleta ergométrica. Dessa forma em algum tempo estavam em forma razoável. Eduarda aos poucos precisou reduzir a carga de exercícios, para não prejudicar seu estado de gestante.

Com os exercícios e a medicação adequada, o estado geral de Arminda melhorou muito. Não mais sentia tonturas, o cansaço constante pareceu desaparecer. Isso alegrou deveras a boa senhora. Gostava muito de seu trabalho e não gostaria de deixar os patrões em apuros, logo agora que estavam esperando o nascimento do primeiro filho. Tinha sentiment de imensa gratidão por Eduarda, bem como por Manoel que apoiava todas as decisões da esposa. Tinha sob seu comando duas jovens, uma há mais tempo e a outra recentemente contratada. Estavam ainda em fase de aprendizado, mas eram providas de boa vontade.

Infelizmente a mais antiga, não tinha a menor inclinação para a cozinha. Raramente tinha uma iniciativa própria. Era necessário mandae fazer tudo. Executava o que era mandada fazer e nada mais. Até mesmo lavar a louça que se acumulava na pia durante o processo de preparo das refeições. Arminda era adepta de manter o lugar de trabalho o mais limpo e desimpedido possível. A pia cheia de louça usada não se coadunava com esse princípio. A que fora contratada mais recentemente apresentava mais iniciativa. Sempre se dispunha a lavar a louça, retirar o excesso de lixo acumulado nos recipients coletores, varrer o chão e passar pano úmido com detergente para manter tudo limpo. Chegava por vezes ao exagero.

O ventre de Eduarda começou a crescere e no bar, a coleção de garrafas em exposição ia aumentando semanalmente. Por vezes eram várias na mesma semana, outras vezes passavam-se duas ou três semanas sem nenhum acréscimo. O momento da degustação de uma nova variedade e as apostas consequentes passou a ser um momento aguardado com certa apreensão. Havia quem torcesse por ver o dia em que Toshyro se visse na necessidade de declarar sua ignorância diante de uma variedade que houvesse surgido mais recentemente.

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Cachaça PELADINHA

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Cachaça BALANÇA…MAS NÃO CAI!

 

O grupo de pessoas interessadas em ver crescer a coleção estava empenhado em esquadrinhar todos os recantos do país, na busca de variedades de cachaça. Houve situações em que, mesmo não sendo capaz de identificar o nome, surgido em época posterior às suas viagens pelo interior nordestino especialmente, mas, seu paladar era capaz de identificar a região de onde vinha. As características do solo davam à cana de que é feita a aguardente, traços específicos. Desse modo era possível saber de que estado, bem como da microregião onde era produzida e isso invariavelmente era capaz de declinar. Acrescentava ser provavelmente uma variedade que nunca bebera em suas viagens. O rótulo comprovava suas palavras.

O paladar apurado do descendente nipônico tornou-se uma lenda no bairro e aos poucos se espalhou pelas redondezas. Em diversas ocasiões ele foi convidade a participar de entrevistas, programas de variedades e comemorações regionalistas. Isso em princípio não lhe dava nada além da satisfação de participar, porém com o tempo, as solicitações se tornaram em tal número que precisou recusar alguns convites. Assim surgiu a oferta de pagamento de cachet pelas apresentações e pouco depois ele estava com a agenda quase lotada de compromissos. Sua renda elevou-se bem além do que recebia como salário. Precisou tomar cuidado para não misturar as duas coisas. A aposentadoria estava próxima e não desejava ser demitido nesse momento.

A preservação de sua vida profissional, até ali toda ela desenvolvida na mesma empresa, era fato primordial em suas preocupações. O que viesse por acréscimo era bem-vindo, desde que não interferisse com o a atividade na empresa. Uma filha se encarregou de organizar a agenda de seus compromissos, negociar os caches e pequenas viagens. Nessas ocasiões tinha chance de ampliar suas experiências na degustação de novas variedades de bebidas que surgiam constantemente. Transformou-se numa espécie de ícone, ligado estreitamente ao estabelecimento de Manoel, lugar onde surgira a transformação do hobi em uma atividade além disso. Virtualmente se transformara numa segunda profissão.

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Especial aguardente de cana CONSOLA CORNO

 

Consultava regularmente o médico, pois não poderia correr o risco de exagerar no consumo de bebidas. Poderia tornar-se alcoólatra e assim por tudo que conquistara até ali a perder.

Voltemos ao nosso casal de “futuros” pais. No mês de outubro finalmente foi solicitado o exame de ultrassonografia. Manoel, morrendo de curiosidade, foi junto. Queria ver o(a) filho(a), mesmo sendo ainda uma pequena massa, um tanto disforme. Pelas palavras do médico, ja deveria ter agora a forma de um pequeno bonequinho, um pouco imperfeito, mas já com a maior parte das partes formadas. Dali para frente iria crescere e distender o abdomen da mãe até o dia do parto. Com a solicitação em mãos, embora pudesse fazer o exame pelo INPS, Manoel fez questão de pagar um laboratório particular. Não queria esperar na fila para saber como estava o feto.

No dia 20 de outubro ele levou a esposa, acompanhada da mãe, ao local da realização do exame. O preço ali era um pouco mais elevado, mas os equipamentos eram de última geração, permitindo observação de mais detalhes. Quando chegou a vez, entraram na sala de exames os três. Eduarda foi acomodada na mesa apropriada, seu ventre já levemente protuberante foi exposto. Um gel foi passado e iniciou-se o exame. Num monitor, semelhante a um pequeno televisor, já colorido nessa época, apareceu a imagem do que existia dentro da cavidade do baixo ventre de Eduarda. Começaram vendo a formação das pernas, abdomen, o minúsculo coração já batendo acelerado, os braços e a cabeça.

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Realizando exame de ultrassom

 

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Imagens durante a gravidez.

 

Ao mover o sensor, depois de colocar mais um pouco de gel, o médico operador do aparelho detectou algo novo. Ao lado da cabeça do que aparentemente era uma menina, surgiu outra forma igual. Parou por um momento, olhando para os pais e a avó, antes de falar:

– Vocês tem casos de gêmeos na família?

Os três ficaram paralisados. O que significavam aquelas palavras? Em lugar de uma criança, havia duas ali dentro? Talvez isso explicasse o crescimento um pouco exagerado do abdomen nas últimas semanas. Quem primeiro recuperou a fala foi Eduarda:

– Eu vou ser mãe de gêmeos?

– É o que está parecendo, mamãe! Veja aqui a cabeça que mostrei antes. Aqui ao lado aparece outra, em posição oposta, mas encostada. Vamos ver o resto do corpinho.

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Nesse momento Manoel e a sogra se olharaam de modo significativo, mas sem dizer palavra. Não havia em suas lembranças casos de gravidez gemelar nas respectivas famílias. Mas a natureza é cheia de surpresas e logo estavam vendo a imagem do segundo feto. Praticamente do mesmo tamanho e os cordões umbilicais se ligavam à parede uterina em um mesmo ponto.

– São gêmeos univitelíneos. Serão do mesmo sexo e aparentemente são meninos. Ainda não dá para ver muito claramente. Daqui a um ou dois meses vai ficar mais definido e se poderá observar direito.

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Imagem intra-uterina

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Mamãe pronta para fazer ultra-som.

 

Manoel segurou a mão da esposa carirnhosamente, fez um carinho em seu rosto e lágrimas de emoção rolaram de seus olhos. Sua querida Eduarda estava lhe preparando uma gratíssima surpresa. Em lugar de um, seriam dois filhos gêmeos. A alegria seria em dôbro, junto com as preocupações também, é lógico. Isso fazia parte do pacote. Não havia escolhas a fazer. A natureza determinava algumas coisas e cabia aos seres humanos aceitar essas incertezas. Depois de mais alguns minutos o exame foi dado por terminado.

Uma enfermeira ajudou Eduarda a remover o gel que ficara espalhado na pele de seu ventre e tornar a se vestir. Depois que sentou, recebeu um abraço carinhoso de sua mãe e depois do marido. Sairam para a sala de espera e, se aguardassem alguns minutos, receberiam o laudo do exame, junto com uma imagem impressa, para ser levada ao ginecologista. Assim ele teria as informações necessárias para melhor conduzir o tratamento pré-natal. Ainda mais agora, sabendo que se tratava de gêmeos.

Ao chegarem à sala de espera, os demais pacientes que ali aguardavam a vez, logo ficaram sabendo da novidade. Era impossível manter segredo sobre um fato tão relevante. A maravilha da tecnologia moderna permitia esse pequeno milagre. O que antigamente era descoberto apenas no dia do parto geralmente, hoje era revelado com antecedência. Assim várias providências podiam ser tomadas para uma acolhida mais condizente aos novos membros da família. Tanto a avó quando os pais estavam falantes. Quem menos falava era Eduarda, ocupada em apalpar o próprio ventre em busca de sinais da presença dos dois fetos. Tivera alguns dias antes um sonho em que caminhava com duas crianças no parquet, as não associara isso com a possibilidade de estar grávida de gêmeos.

Seus olhos estavam marejados de lágrimas, enquanto seu rosto estava sorridente. A emoção que a invadia era indescritível. Queria poder traduzir a todos os presentes o que sentia, mas as palavras lhe faltaram. Preferiu ficar quieta, deixando que seu semblante falasse da imensa alegria que ia em seu íntimo. Logo houve quem falasse que gêmeos eram em geral muito pequenos ao nascerem, não raro precisando de cuidados muito especiais. Frequentemente nasciam antes do tempo, tornando a sobrevivência mais complicada. Tudo isso havia sido desmentido pelo médico que realizara o exame. Havia dito:

– Posso lhes afirmar que são duas crianças em igualdade de condições. O desenvolvimento está excelente para o estágio, não há sinal de atraso. Pode-se notar que os corações batem no mesmo rítmo, dentro do limite normal para essa fase. Não poderiam estar em melhor condição. Muitas gestações de um único feto, nesse estágio estão bem menos desenvolvidas e mesmo assim chegam a bom termo. Podem ir em paz. Se preparem para cuidar desses dois que, em alguns meses, vão estar em seus braços. Vão precisarr de braços e mãos fortes para aguentar.

Por isso, as palavras dos profetas apocalípticos, sempre prontos a prever problemas e catástrofes, não fizeram nenhum efeito. Quando a enfermeira trouxe o laudo que deveriam levar ao ginecologista, Manoel fez questão de ler rapidamente para ver o teor e depois falou:

– Escutem o que diz o médico que fez o exame. Vou ler o que ele escreveu aqui no laudo. – começou a ler, deixando todos quietos. Ao terminar, correu o olhar pelo ambiente e parecia dizer. Não venham trazer más vibrações. Aqui está tudo bem e nada vai mudar isso. Estamos nas mãos de Deus.

Os três se levantaram, disseram adeus aos demais e sairam. Várias vozes se elevaram desejando muita sorte e felicidade, ao que eles agradeceram. Ao chegarem na casa dos sogros, onde a mãe ficaria, desembarcaram e foram contar a novidade aos demais membros da família ali presentes. Em questão de minutos o telefone se encarregou de transmitir a notícia para os mais diversos recantos da capital e mesmo alguns lugares mais distantes. Satisfeita a curiosidade, Manoel convidou Eduarda a retornar com ele para casa. O anoitecer se aproximava e teria o que fazer. Já ficara for a várias horas e seria importante estar presente no começo da noite.

Ao entrarem em casa, antes de subirem as escadas, Manoel gritou para o interior do Bar:

– Se alegrem com a gente. Vamos ter dois meninos em lugar de um.

Depois foi até a cozinha e deu o recado à Arminda, junto com as duas ajudantes. A velha senhora não esperou e veio dar um abraço na patroa ali no corredor, ao pé da escada. Desejou-lhe muita felicidade, muita calma e que fizesse muito repouso. Não era bom esforço nessas condições. Eduarda prometeu se cuidare e depois subiu até sua moradia. Manoel a acompanhou e ajudou a se acomodar em casa. Depois desceu para assumir sua posição no estabelecimento. Logo os fregueses começariam a aumentar em número e sua presença era imprescindível.

Os empregados vieram indagar os detalhes da novidade. Cada um tinha alguma coisa a comentar. Era um conhecido que tivera gêmeos, houvera algumas dificuldades, mas no final correra tudo bem. O outro sabia de um parente distante que perdere uma das crianças e assim correu a conversa. Manoel havia trazido consigo o laudo e mostdrou a todos. Poderiam ficar tranquilos que não haveria problema algum com os filhos que Eduarda carregava no ventre. Iriam nascer fortes e saudáveis. Batia no peito e nos braços, apontando que teriam a musculatura do pai, a constituição física seria forte.

O movimento da noite começou firme e logo estavam ocupados em atender aos fregueses. O assunto ficou praticamnete esquecido, salvo em alguns momentos era trazido à baila, mas logo o trabalho impedia a continuidade da conversa. Na hora do jantar, Eduarda desceu para ocupar temporáriamente o caixa, enquanto Manoel sentava na cozinha e se alimentava. Comera pouco no almoço, nervosa com a perspectiva do exame e nada ingerira no resto da tarde. Estava com muita fome e ele ficou contente em poder disport de tempo para sentar e comer, sem precisarr intercalar garfadas de comida com receber pagamentos e dar troco. A hora de comer era sagrada, mas nem sempre podia se dar ao luxo de ter esses momentos a sua disposição. Eram, como dizia um amigo, os cavacos do ofício. Não se pode fazer uma omelete, sem quebrar os ovos para tal.

Sempre que Eduarda podia, fazia esse revezamento com o marido. Era também a oportunidade de travar conhecimento com alguns fregueses. Gostava de conversar com eles, ouvir suas opiniões e também dar conselhos por vezes. A vida é feita de convivência. Seu pai sempre dissera em seu tempo de infância e adolescência:

– É conversando que a gente se entende.

 

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Acima vários rótulos de cachaças, das mais diversas procedências. Imagens coletadas na internet. Há vários sites em que é possível visualizar essas e muitas outras. Apenas uma pequena amostra da grande variedade que existe.

 

 

Inaugurando!

Bom dia amigos leitores!

Acabo de dar o pontapé inicial no meu blog, agora em domínio próprio. Depois vou importar os posts feitos ao longo dos últimos meses e disponibilizar todos eles aqui nesse espaço. Haverá diferentes categorias, mas tudo junto num mesmo lugar. Não haverá vários endereços para visitar. Bastará navegar no site e encontrar o post desejado, mesmo os mais antigos. Apenas um pouco de paciência, pois isso demora um pouco e ainda estou começando a dominar a ferramenta e, como diz o ditado, cavalo velho aprende truque novo, apenas demora um bocadinho mais que os jovens. kkkkkkkkk.

Vai valer a pena trazer tudo para um lugar só, gerenciar e configurar a meu gosto. Sugestões de leitores também seráo bem-vindas sem dúvida. Aguardem que vamos ter novidades para mostrar logo mais. É só o tempo de assimilar a mudança e começar a tocar o barco. Depois acaba virando rotina e entra tudo no trilho, começa a fluir como um rio em seu leito milenar.

Curitiba, 06 de janeiro de 2015

Décio Adams.

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XII

12. Toshiro Sakaguti entra em cena.
            Ao voltar para casa Manoel encontrou Eduarda em companhia da mãe que for a chamada para auxiliar na separação dos presentes. Cumprimentou a sogra e olhou para a grande quantidade de coisas que via dispostas em uma aparente desordem. Quase que imediatamente foi informado da razão dessa separação. Não fazia sentido ficar guardando, talvez por anos, alguns utensílios e equipamentos. Principalmente eletroportáteis. Além de se tornarem obsoletos, havia a questão do transcurso do período de garantia. Melhor seria fazer a troca por alguma coisa que pudesse ser usada imediatamente, até mesmo na cozinha do bar. Ali a utilização era mais intensa e frequente.
 
            Foi essa sua sugestão para liquidificadores, moedor de carne e principalmente jogos de garfos e facas de mesa. Em dias de maior movimento, por vezes era necessário lavar talheres e mesmo pratos para atender os fregueses. Ali poderiam dispor de boa parte do que haviam ganho em duplicidade. Inclusive panelas, bacias, travessas, sempre seriam úteis no estabelecimento. Eduarda imediatamente viu o acerto de sua decisão em pedir o apoio do marido destinação final dos presentes. Foi separado o que havia de maior qualidade e requinte para ser usado em sua mesa doméstica. Uma boa quantidade foi levado para baixo pelas mãos do ajudante do bar e da garçonete.
 
            Arminda e sua ajudante receberam de bom grado o reforço de material. Estavam para solicitar a Manoel a compra. Agora isso ficava desnecessário. Ele lembrara da necessidade diante do aumento significativo de movimento ocorrido após a inauguração. Naquela noite, enquanto atendia os clientes e dava conta do caixa, Manoel conversou longamente com um deles que, coincidentemente era marceneiro. Ao falar da questão do armário para colocar as garrafas de bebidas exóticas, especialmente aguardente, o cliente se identificou, predispondo-se a fazer um projeto e trazê-lo a aprovação de Manoel. Diante dos olhos de clientes curiosos ele se pôs a medir as paredes, portas e as partes livres para instalação do móvel. Faria uma coisa bem harmoniosa com o prédio, um pouco antigo, além dos demais móveis do estabelecimento.
 
            No mês de dezembro vencera a primeira parcela do dinheiro que ficara para trás da comprá do bar. Tinha feito o pagamento sem problemas. O seu Joaquim escrevera agradecendo e indagando do andamento dos negócios. Ele respondera que estava tudo em ordem e, segundo palavras de Francisco, houvera um aumento sensível do movimento com as alterações introduzidas. Com o retorno do casal, o propositor da ideia de realizar campeonatos de sinuca, pebolim e futebol de botão, retornou com um plano de realização alternada de jogos. Uma comissão organizadora seria montada, as regras elaboradas e submetidas à aprovação dos participantes.
 
            Uma pequena taxa de inscrição seria cobrada para custear as despesas com os troféus, medalhas e alguma outra despesa. Se houvesse sobra seria usado na organização de uma comemoração de encerramento. Todas as partidas disputadas pagariam as taxas normais devidas ao uso das mesas e demais equipamentos. Eduarda sugeriu que incluíssem também as mulheres na disputa. Havia algumas que gostariam certamente de participar. Faltava apenas um convite. Os homens de entreolharam e depois da anuência dos outros interessados ficou estabelecido que haveria abertura para inscrições femininas. Nessa primeira experiência haveria uma competição separada para homens e mulheres. No futuro poderiam fazer duplas de mar
 
            Nas próximas semanas o grupo se reunia várias vezes por semana em uma mesa do canto, depois da refeição noturna e também nos finais de semana. Elaboraram um rascunho do repulamento, fizeram cópias mimeografadas que foram distribuídas para receber críticas e sugestões. Depois de uma semana fizeram uma reunião e debateram as mudanças. As omissões foram incluídas, mudadas algumas regras até ficarem de acordo com a opinião da maioria. Alguém sugeriu a criação do clube de jogadores de sinuca, pebolim e futebol de botão. Manoel sugeriu que se realizasse o campeonato e depois, se corresse de acordo com o esperado, poderiam pensar na criação de uma associação ou clube.
 
            O novo regulamento foi multiplicado, dessa vez em stencil a tinta para ficar mais nítido. Com a divulgação da participação feminina no campeonato, uma porção de esposas dos frequentadores começou a comparecer para jogar algumas partidas. Assim poderiam competir em melhores condições. Muitas tinham aprendido a manejar o taco em mesas particulares, havendo entre elas quem fizesse inveja a muitos marmanjos. As duplas foram formadas, havendo em alguns casos um reserva. Ele seria o jogador substituto do titular em caso de necessidade de se ausentar para atender ao seu trabalho. As inscrições foram feitas, chegando a um total de 40 duplas masculinas e 25 femininas.
 
            Haveria também competição individual, com exceção do pebolim, onde sempre é necessário o jogo em dupla. Os inscritos no futebol de botão escolhiam o clube de sua preferência ou, na impossibilidade de fazer isso, inventavam um nome. Era permitido trazer seu próprio jogo de botões, desde que estivessem dentro das dimensões habituais. Assim as cores seriam as escolhidas pelos jogadores. As partidas seriam em turno e returno, todos contra todos. Cada partida valeria três pontos e em caso de empate cada competidor ou equipe ganharia um ponto. Os melhores classificados, metade dos inscritos inicialmente, disputariam uma segunda fase em forma de eliminatória. Dessa forma continuariam até restarem quatro competidores. Um quadrangular final determinaria os primeiros classificados. Para não criar tumulto as partidas de sinuca, pebolim e futebol de botão seriam realizadas em regime alternado.
 
            Isso permitiria a formação de grupos de torcedores e até mesmo a participação da mesma pessoa em mais de uma modalidade. A previsão era concluir as três competições no final do mês de julho. Manoel analisou, junto com a esposa, que isso garantiria um movimento forte durante todos esses meses. Por outro lado haveria atração de novos frequentadores, interessados em participar de futuros campeonatos. Talvez até surgisse uma liga de associações entre os diversos bairros. Seria um intercâmbio interessante, uma diversão sadia e de baixo custo para os participantes. Antes de iniciar as disputas Manoel procurou as autoridades policiais em busca de orientação sobre o aspecto legal diante da lei. O delegado responsável sugeriu a obtenção de um alvará suplementar. Isso garantiria o respaldo diante das autoridades em caso de ocorrer algum distúrbio.
 
            Nesse meio tempo o marceneiro trouxe o rascunho do projeto para confecção do móvel. Explicou detalhadamente, Eduarda deu sugestões de pequenas mudanças, que acabaram por deixar o resultado muito elegante. Discutiram o custo da execução e entraram em acordo de fazer isso em duas etapas. Era viável, sem prejuízo do efeito final. Eram na verdade duas partes que se harmonizavam, sem destoar ao ser instalada primeiro uma e depois complementada com a outra. Dessa maneira, as garrafas que semanalmente se acumulavam, teriam uma destinação adequada. O estabelecimento receberia um adorno complementar, em conformidade com sua atividade.
 
            Com o campeonato em desenvolvimento, o tempo passava quase sem ser percebido. Todos os dias eram de movimento intenso. Os policiais da delegacia próxima costumavam vistoriar o local com relativa frequência, pois os torcedores que assistiam às competições, provocavam um alarido relativamente forte. Havia um limite de horário, devido à existência nas proximidades de residências. Isso impedia que as competições se estendessem até horas mais avançadas. Somente nos finais de semana havia uma tolerância, permitindo avançar um pouco além das 24 horas. Nos dias úteis, o ruído tinha que ser limitado após as 22 horas. Se houvesse reclamações dos moradores, poderia sofrer sanções, inclusive com cancelamento de alvará. Era comum fechar as portas, deixando apenas uma porta lateral aberta. Assim evitava-se o espalhamento do som para a vizinhança. Mesmo assim, era preciso cuidado.
 
            O consumo de bebidas e alimentos no período de realização dos jogos era sempre elevado. Isso refletia no conteúdo da caixa registradora ao final de cada dia. Eduarda estava fazendo as aulas de Auto Escola, para obtenção de sua carta de motorista. O opala de Manoel estava ficando pequeno para as necessidades de transportar as mercadorias necessárias ao abastecimento. Estava pensando seriamente em adquirir uma pequena caminhonete, talvez uma kombi. Ela oferecia a vantagem de ser espaçosa e, ao mesmo tempo, proteger as mercadorias do sol e chuva. Não havia necessidade de que fosse nova, uma vez que seria empregada em percursos curtos. Para viagens dispunha do automóvel.
 
            Procurou nas agências de revenda e encontrou uma com três anos de uso, revisada e com garantia por três meses. A grande vantagem era uma significativa redução no preço inicial. Fez o negócio com uma entrada de 30%, financiando o restante em 24 meses. Os juros eram vantajosos, tornando a aquisição à vista menos atraente. Por sorte havia lugar suficiente na garagem para os dois veículos. Não precisariam deixar nem um nem outro no relento. Em poucos dias Eduarda estaria fazendo o exame no Detran. Se fosse aprovada logo teria a CNH e poderia usar, tanto um quanto o outro veículo, para buscar mercadorias necessárias.
 
            Quando precisasse atender aos pais em alguma emergência poderia se desincumbir do encargo sem problemas. Em momentos de viagem mais longa, poderiam revezar na direção e percorrer maior distância sem se cansarem além do recomendado. Ela estava animada com o aprendizado. Havia pensado em obter sua habilitação, mas não havendo em casa dos pais um veículo, o assunto havia ficado para mais tarde. Não era prioridade no momento. O casal se entendia muito bem em todos os sentidos. Pareciam feitos um para o outro. As divergências de opinião eram resolvidas com diálogo. A diferença de idade, em vez de dificultar o entendimento, parecia favorecer. Eduarda estava amadurecida o suficiente para ter ultrapassado a impetuosidade da juventude, enquanto Manoel for a temperado pelos contratempos da vida. Aprendera com os tropeços do passado.
 
            Em meados de abril, durante a semana santa, deu o ar da graça no bar nosso já conhecido ToshyroSakaguti. Havia conhecido o antigo dono e passara um tempo longo desde sua última passagem por ali. O trabalho o havia mantido longe de alguns prazeres que lhe deveras agradáveis. Um deles era jogar sinuca e quando viu a placa, logo lembrou que antes não havia ali mesas de jogo. Apenas o bar e um restaurante bem limitado. A reforma deixara o local com aparência mais ampla, um visual mais atraente. Entrou e foi assistir aos jogos. Quando quis participar de um jogo ficou sabendo da realização nessa época de jogos do campeonato. No dia seguinte as mesas poderiam ser usadas pelos apreciadores, pois seria dia de jogos de pebolim e futebol de botão.
 
            Procurou pelo novo proprietário e se apresentou. Não lhe passou despercebida a presença de garrafas variadas de cachaça. Várias dentre elas lhe eram conhecidas do tempo em que viajara constantemente a trabalho pela indústria agroquímica. Indagou como haviam vindo parar ali e soube serem presente de frequentadores ao retornar de viagens pelas regiões em que eram comercializadas. Em instantes entabularam animada conversação. Ele estava se aproximando da aposentadoria. Ainda tinha alguns anos pela frente, porém agora não mais tinha necessidadedesde viajar constantemente. Igualmente soube do acidente que resultara na aposentadoria de Manoel. O risco havia sido alto e a sorte for a grande em escapar com vida.
 
            Eduarda veio ficar algum tempo com o marido e conheceu também o novo freguês. Também Toshiro casara com idade mais avançada. Estava com os filhos em idade de iniciar a vida escolar e pre-escolar. Era um homem sempre sorridente e logo combinaram se encontrar em momentos de folga. Toshiro ainda morava no bairro da Liberdade, não longe de onde nascera. A família inteira estava naquela região, convivendo com os demais descendentes de imigrantes nipônicos. Era sem dúvida a maior concentração de imigrantes e seus descendentes de japoneses for a do Japão. Até mesmo os nomes de lojas eram em grande parte com letreiros em estilo japonês. As cores da decoração das ruas, os edifícios eram fortes e alegres, bem no estilo oriental. Combinaram se visitar nos meses vindouros. Toshiro estava fixo em São Paulo, em função burocrática. Tinha sob sua responsabilidade uma grande equipe de trabalho.
 
            Quando o mês de julho estava chegando ao final, os vários grupos de competidores estavam reduzidos a poucos remanescentes. Haviam vencido seus adversários nas diferentes modalidades de competição e iriam disputar os troféus da competição. Eram confeccionados com símbolos das competições em disputa. Além dos três primeiros colocados, haveria também o prêmio do goleador, melhor goleiro, taco de ouro, bola de ouro para os destaques nas diversas habilidades. Os prêmios estavam expostos em um armário envidraçado. Eram cobiçados por muita gene. Um artífice havia se esmeradona elaboração dos mesmos, uma vez que esse tipo de competição não era habitual. Os modelos iriam servir de inspiração para a produção de outras variações posteriores. Isso fizera o custo baixar e permitir que o dinheiro arrecadado cobrisse a despesa.
(http://www.elhombre.com.br/sustentei-minha-familia-apostando-na-sinuca-diz-rui-chapeu/)
            Toshiro lamentou não ter vindo antes para participar da competição. Era bom na sinuca, como também no futebol de botão. Apesar disso era a primeira competição que via ser organizada nos moldes que haviam sido impressos no bairro. Iria se encarregar de difundir a ideia e talvez houvesse futuramente um campeonato a nível da cidade inteira. Quem sabe até mesmo da região metropolitana. Em várias ocasiões veio com a esposa e os filhos para assistir aos jogos finais das competições. Era emocionante ver os melhores jogadores se empenhando ao máximo para derrotar os adversários. Como não poderia haver mais de um primeiro lugar, havia nas regras um critério de desempate, caso assim acontecesse na averiguação final da pontuação. Daí o grande empenho em sair vencedor de qualquer forma.
Rui Chapeu com repórter da época.
 
            Os torcedores formavam verdadeiros grupos organizados, uns vaiando, outros aplaudindo alternadamente  quando era a vez do outro jogar. Nunca havia visto tamanho empenho em vencer uma partida de sinuca, uma disputa de pebolim ou um jogo de futebol de botão. Até jornalistas estavam presentes para registrar os lances mais emocionantes. Cada bola mandada para caçapa, cada gol, era celebrado com muitos vivas e urras. O bar se tornava uma miniatura do Morumbi ou Parque Antártica. Um mini Maracanã, e os atletas eram hábeis no manejo dos tacos ou dos bonecos da mesa de pebolim. Os melhores no manuseio dos botões, colocação dos goleiros, disposição dos defensores eram celebrados.
 
            Por final, ao anoitecer do último domingo de julho, a última partida de sinuca foi encerrada e todos os campeões, vices, terceiros colocados estavam determinados. Também os destaques nas variadas aptidões puderam ser identificados. Foi marcado o próximo domingo, primeiro do mês de agosto, para comemorar o encerramento e fazer a entrega dos troféus. O almoço seria especial e festivo. Os convites estavam prontos para serem vendidos com antecedência. Uma porcentagem ficaria para o grupo organizador, servindo de caixa para iniciar uma entidade encarregada de organizar outras competições similares. Não foi esquecido o lucro normal do estabelecimento que arcaria com o trabalho e despesas com fornecimento dos alimentos e bebidas.
 
Estavam analisando a criação uma associação de sinuca, pebolim e futebol de botão. Um jornalista presente ao evento final informada da existência de uma federação paulista de sinuca e bilhar. Poderiam se filiar depois de registrar o estatuto, cumprir as demais formalidades. Assim as próximas competições poderiam envolver outros salões, congregar maior número de participantes. Se a competição local for a acirrada, era fácil imaginar o efeito causado por uma concorrência com jogadores de outros bairros. O pebolim e futebol de botão ficariam includidos na associação e quando houvesse a formação de federações ou associações a nível metropolitano ou estadual cuidariam da respectiva filiação.
 
Gradativamente Eduarda assumira a parte administrativa da cozinha. Planejamento de novos pratos, estabelecimento de cardápios, análise de custos e formação de preços das refeições. Deixara por conta de Arminda e suas agora duas ajudantes o comando dos trabalhos junto ao fogão. Haviam decidido em comum acordo com Manoel tentar uma gravidez antes do final do primeiro ano de casados. Nem ela, muito menos ele, estavam em idade de protelar indefinidamente tal momento, pois apreciariam serem avós com idade de gozar esses momentos devidamente. Se se tornassem pais quando a idade de ser avós estivesse próxima, dificilemente teriam energias para curtir os netos.
 
O almoço foi longo e concorrido. Todos os convites haviam sido vendidos previamente, ficando muita gente querendo que se desse o famoso jeitinho. Só um, ou dois, e assim o número foi acrescido de pelo menos 20% do previsto inicialmente. Dessa forma os últimos comensais terminaram de almoçar quando já eram 15h do primeiro domingo do mês de agosto. No espaço das mesas de jogo havia sido preparado um pequeno palco para realizar a cerimônia de premiação dos vencedores das diversas modalidades de competição. Na hora da cerimônia, os jogos ficaram suspensos de modo a permitir a quem quisesse assistir a cada lance. Novamente jornalistas diversos estavam presentes, sem esquecer uma equipe de reportagem televisiva para divulgar o final do evento no programa Fantástico da Rede Globo naquela noite.
 
O estabelecimento esteve lotado de clientes a tarde inteira, em grande parte atraídos pelo evento, outros curiosos vindo bisbilhotar o que estava ocorrendo. Nas semanas seguintes os membros da comissão organizadora tiveram encontros com vários líderes de outros bairros, grupos de apreciadores dos jogos. O interesse era organizar competições semelhantes em suas regiões e a experiência serviria de balizador para formas de organização, estabelecimento de regras. O que deveria ser promovido, evitado e proibido. Toda experiência que pudessem levar era valiosa. Ninguém se furtou a compartilhar o aprendizado. Cada um que participara aprendera muito com essa atividade. Até mesmo para levar a outros setores da própria vida, em seus estabelecimentos comerciais de outras naturezas. Havia sempre algo a aproveitar.
 
Na semana depois da entrega dos trofeus, Eduarda presto o exame de motorista. No dia aprazado estava nervosa e apreensiva. O instrutor foi irrepreensível no seu comportamento. Encarou o momento como algo corriqueiro, procurando deixar a aluna em estado de mais uma aula. Dessa forma conseguiu fazer com que ela não hesitasse para por em prática o que aprendera nas horas de aulas práticas e teóricas. O exame psicotécnico e teórico havia sido feito com antecedência. Dessa forma, a aprovação no exame prático significaria a entrega do documento final após alguns dias depois do exame. Apesar de pequenos erros cometidos, ela se manteve dentro do limite estabelecido para determinar a reprovação.
 
Chegou em casa com o rosto sorridente. For a aprovada sem problemas. Em apenas alguns dias teria em mãos o documento tão esperado. Não precisaria esperar por Manoel para usar o carro e em caso de necessidade prestar ajuda a ele mesmo. Era uma complementação de sua cidadania. Sentia ser desse momento em diante um pouco mais cidadã do que havia sido até ali. Deu um abraço no marido, seguido de um beijo carinhoso. Para completar faltaria apenas confirmar o que vinha suspeitando há alguns dias. Sua menstruação estava com alguns dias de atraso, mas aguardava sentir o primeiro enjoo para então dar ao marido a notícia da provável novidade. Queria lhe fazer uma surpresa.
 
Antes de receber sua CNH, teve a sensação que aguardava. Ao escovar os dentes pela manhã sentiu uma leve ânsia, porém logo passou. Quando estava na cozinha preparando com Arminda a lista de compras necessárias para o final da semana, sentiu recrudescer o enjoo. Dessa vez não conseguiu evitar o vômito, precisando correr rapidamente para o lavabo existente ali perto. A cozinheira, dada sua experiência como mãe de cinco filhos, logo soube o que acontecia. Seguiu a patroa para lhe oferecer apoio se fosse necessário. Ao voltarem do lavabo e Eduarda sentar-se para recompor o ânimo, Manoel entrou ali justamente em busca da lista. Ao ver a esposa sentada e um pouco pálida, ficou alarmado. Diante de seu rosto que exprimia angústia, Arminda falou:
– Não é nada para preocupar. Isso deve passar logo e daqui a nove meses mais ou menos vai aparecer a surpresa.
– O que a senhora está dizendo, dona Arminda?
– Acho que vai gostar da surpresa, seu Manoel. Sua esposa está grávida e vai ter um filho. Essa é a novidade.
– Minha Nossa Senhora de Fátima! Quer dizer que eu vou ser pai? Isto é maravilhoso. Vou hoje mesmo contratar uma empregada para fazer o serviço de casa. Não quero minha mulher trabalhando durante a gravidez. Ela pode se machucar e eu jamais me perdoaria.
– Vai com calma seu Manoel. Gravidez não é doença. Eu mesma trabalhei até quase chegar a hora do parto dos meus filhos. Um pouco de atividade faz mais bem do que mal.
Ele se ajoelhou aos pés da esposa e de mãos postas como se fosse rezar, falou:
– O minhã querida! Tu me fazes o mais feliz dos homens. Deus seja louvado. Vou ligar para sua mãe e dar a noticia.
– Espera meu bem. Vamos dar essa notícia juntos. Hoje à noite, deixamos o Francisco e Arminda cuidando um pouco daqui. Vamos fazer uma visita a eles e contamos a novidade.
– Está bem. Se esta é sua vontade, está ótimo. Não a quero contrariar.
– Também não precisa me tratar como se agora eu fosse de vidro. Continuo sendo sua Eduarda de sempre, meu amor.
 
Terminaram de fazer a lista e os dois saíram juntos para fazer as compras. Manoel estava especialmente falante, parecia uma criança que ganhou brinquedo novo. Era preciso controlar sua loquacidade para não perder tempo com conversações necessárias. Nunca o vira tão falador. Com alguma dificuldade conseguiram voltar a tempo de estarem presentes ao início da hora do almoço. Esse momento era em geral crucial, pois muita gente havia tornado o estabelecimento seu ponto de encontro, o lugar de fazer sua refeição. Outros iam ali adquirir a refeição para levar até a casa e servir à família, toda ocupada em seus trabalhos ou atividades escolares.
 
Os primeiros a saber da novidade em curso foram Francisco, o outro garçom e a garçonete. Manoel não soubera se conter e lhes contara. Estava eufórico e até alguns clientes mais próximos ficaram sabendo do fato. Desse modo em pouco tempo o bairro inteiro estaria sabendo da novidade. Eduarda, mesmo ardendo de vontade de ligar para a mãe e lhe contar, manteve o controle e esperou pela visita daquela noite. Iria contar à sua família pessoalmente, sem usar de meios intermediários.
 
A noite custou a chegar e Manoel viu foi uma Eduarda especialmente radiante, pronta para sair. Foi com satisfação que embarcaram no automóvel para percorrer a distância até a casa dos sogros. Ao seu lado a esposa, recostou languidamente a cabeça em seu ombro e ele dirigiu lentamente. Não queria alterar o prazer de sentir aquele momento. Haviam começado em dois há alguns meses e nesse momento existia um minúsculo conjunto de células em rápido crescimento dentro do corpo de Eduarda. Dali nasceria em alguns meses um novo ser, fruto do amor que sentiam um pelo outro. Demoraram bem mais tempo na viagem, mas a ele pareceu pouco o tempo.
 
Os pais estranharam a visita num dia de semana, um pouco for a do habitual. Mesmo assim aguardaram para saber o que os levara ali naquele momento. Mãe sintonizada com os filhos, logo se liga nas alterações. Dessa forma Manoel ouviu a sogra falar logo depois:
– O que vocês dois estão escondendo?
– Nada minhã sogra.
– Fale minhã filha. Teu marido está querendo me enganar. O que está acontecendo?
– A senhora é adivinha, mãe?
– Vocês não iriam vir aqui sem ter um motivo, na sexta feira á noite, logo quando o movimento no bar é forte. Pode desembuxar.
– Não dá para enganar a senhora. Então lá vai a novidade. Vocês vão ser avós. Senti os primeiros enjoos hoje e minhã menstruação está atrasada.
– Está vendo! Eu sabia que aí tinha coisa.
– Bem, isso quer dizer que vou ser vovô outra vez. O pior vai ser dormir com a avó depois. Hahahahahahaha, falou o pai de Eduarda.
– Sim e eu preciso dormir com o vovô. Também tenho do direito de reclamar.
 
O casal não demorou pois precisariam dar apoio aos servidores. Logo se despediam para retornar e assim chegaram a tempo de socorrer Francisco e os demais. Eduarda subiu para descansar. Os primeiros dias de gestação estavam provocando alterações inesperadas em seu corpo e sentia um leve cansaço, apesar de não ter feito esforço considerável durante o dia. Ao fechar próximo da meia noite, Manoel a encontrou dormindo aconchegada na cama, em posição semelhante a fetal. Parecia querer abraçar o filho ainda minúsculo em seu seio. Deitou-se suavemente e a cobriu com coberta mais adequada. Parecia tão frágil naquela posição e provavelmente sentiria frio de madrugada. Figou um longo momento acordado, pensamentos voltados para o céu, intercedendo pelo desenvolvimento satisfatório do embrião que se formava.
 
Já o imaginava em seus braços, dizendo mamãe, papai e gatinhando pela casa. Depois os primeiros passos, passeios no parque, vendo filmes infantis na televisão. Um munto inteiro diferente de seu tempo de criança. Vivera o auge de seus anos infantis e se aproximara da puberdade enquanto na Europa rugia o furor da guerra. A cada passo temiam um bombardeio, uma agressão inesperada, malgrado a aparente neutralidade do regime nacional. Seu filho, ou filha, iria nascer sob os auspícios de um governo provavelmente civil ou pelo menos próximo disso, depois de longos anos de regime militar. Os ventos democráticos sopravam no país que adotara por pátria, e onde crescer economicamente, tornando-se hoje um pequeno e próspero comerciante.
Queria dar ao ser que iria vir ao mundo, uma condição mais promissora do que tivera em sua meninice. Adotara aqui a devoção a Nossa Senhora Aparecida e prometeu ali naquele momento levar a família ao santuário depois do nascimento se tudo ocorresse a contento. Sabia que Eduarda concordaria, pois era muito devota, inclusive mantinha uma pequena imagem da santa sobre a penteadeira, ao lado de seus artigos de toucador.