Perguntas e respostas com Mark Zuckerberg.(Crítica dos cientistas)

Perguntas e respostas com Mark Zuckerberg

poder do cérebro

Poder do cérebro.

O Facebook poderia um dia ser Brainbook?

Mark Zuckerberg disse em um recente programa de perguntas e respostas que ele prevê as pessoas enviando pensamentos e experiências umas às outras tão facilmente como hoje enviam textos ou E-mails. Os neurocientistas dizem que essa fantasiosa ideia de comunicação cérebro-cérebro ainda tem um longo caminho a percorrer.

Na terça-feira, dia 30 de junho, em resposta a uma pergunta sobre futuro do Facebook durante um programa de perguntas e respostas com usuários, o CEO Zuckerberg respondeu: “Um dia, eu acredito, nós vamos ser capazes de enviar pensamentos inteiros uns aos outros diretamente usando tecnologia. Você vai apenas ser capaz de pensar em alguma coisa e seus amigos serão capazes de experimentá-la também imediatamente, se você quiser. Esta seria a tecnologia de comunicação final. Nós costumávamos partilhar apenas textos e agora vamos postar principalmente fotos. No futuro vídeos serão ainda mais importantes que fotos. Depois disso, experiências imersivas com VR (realidade virtual) vão se tornar a norma. Depois teremos o poder de compartilhar nossa experiência sensorial e emocional completa com pessoas sempre que quisermos.

Ele está se referindo a uma forma avançada de comunicação cérebro-cérebro em que as pessoas pudessem se conectar, semelhante a um fone de ouvido VR, talvez um tipo de conexão física com o próprio cérebro. O cérebro transmite informações entre os neurônios por meio de uma combinação de sinais eletroquímicos e é possível vê-los hoje por meio da ressonância magnética funcional (fMRI), eletroencefalograma e eletrodos implantados. Teoricamente é possível codificar esses sinais em pedaços, tal como fazemos com os sinais de telefone digitais e enviá-los para outra pessoa para decodificação e “playback” em outro cérebro.

 

Lendo a mente.

 

Do ponto de vista puramente técnico, é possível “ler” a atividade do cérebro de uma pessoa e ter uma noção de que essa pessoa está pensando, disse Christopher James, professor de engenharia biomédica da Universidade de Warwickschire, no Reino Unido. A ressonância magnética funcional, os eletrodos ligados ao couro cabeludo, ou implantes de eletrodos no cérebro podem trabalhar para revelar algo sobre a atividade do cérebro em tempo real. Mas agora a única maneira de obter a precisão necessária para pegar pensamentos e sentimentos é com os eletrodos implantados. Tecnologias de imagem e eletrodos montados no couro cabeludo não podem resolver áreas pequenas o suficiente para saber o que está acontecendo no nível celular. Eletrodos colocados no couro cabeludo só podem detectar sinais relativamente “loud” (fortes) que recebem através do crânio.

A leitura dos sinais é apenas metade da batalha. Decodificá-los é outra questão. Não há uma área única do cérebro que governa os pensamentos de determinado tipo; a forma como uma pessoa experimenta pensamentos envolve muitas partes do cérebro em funcionamento simultâneo. Pegar todos os sinais que compõem um pensamento em um cérebro real, exigiria que implantar eletrodos em lotes de diferentes áreas.

“Nós teríamos que escutar em muitos locais. Alguns deles profundos. Se nós soubéssemos minuciosamente onde colocar os eletrodos, pode haver um pedaço onde iriam um monte deles”, disse James a Ciência Viva. “Então precisaríamos fazer sentido desses impulsos”, acrescentou, referindo-se aos sinais elétricos captados pelos eletrodos.

Com o poder de computação existente, os cientistas hoje disponíveis, provavelmente poderiam obter um sentido para o complexo padrão de sinais elétricos, ou seja, se eles soubessem exatamente o que esses sinais significam. No entanto, isso está longe de ser claro. Os pensamentos de uma pessoa são mais do que a simples soma das tensões e correntes. Quais os impulsos que vêm primeiro, em que padrão e qual deve ser a intensidade deles ainda é um mistério.

James observou que a estimulação cerebral profunda, que é utilizada para tratar a doença de Parkinson e epilepsia, envolve o envio de sinais simples para partes específicas do cérebro. Mesmo um tratamento tão simples não ajuda a todos os pacientes e ninguém sabe porquê. E os pensamentos são um fenômeno muito mais complexo do que o tratamento de Parkinson, disse ele. Qualquer conceito de comunicação cérebro-cérebro é que ninguém sabe o que realmente é um pensamento. Como reconhecer um pensamento no cérebro se você não pode defini-lo? Se você substituir ‘pensamento’ por ‘intenção”, ou ‘intenção de agir’, então poderíamos ser capazes de progredir. Mas não há coleta de provas para podermos reconhecer na atividade cerebral. Isso é muito rudimentar neste momento”.

Passos para a visão de Zuckerberg. 

Os cientistas têm realizado várias experiências com o envio de pedaços simples de dados a partir de um cérebro para outro. Por exemplo, na Universidade de Washington a equipe demonstrou comunicação entre dois cérebros através do córtex motor. Uma pessoa com eletrodos em sua cabeça enviou sinais cerebrais através da Internet para o córtex motor de uma outra em outra sala. As informações sinalizaram ao cérebro da pessoa que recebeu a mensagem a mover a sua mão e controlar um jogo de vídeo.

Starlabs, em Barcelona, mostrou que é possível enviar um rudimentar sinal palavra através da Internet. Nesse caso, o remetente pensaria em uma palavra e o receptor, teria o córtex visual estimulado por um campo magnético quando o sinal entrou. O receptor veria piscar e interpretaria a palavra.

Na Universidade de Duke cientistas fizeram experiências com impulsos motores entre ratos. Eles ligaram os cérebros de dois ratos. Um rato recebia uma recompensa se batesse uma das duas alavancas quando uma luz se acendia. O outro tinha as alavancas, mas não tinha a luz. O segundo foi capaz de bater a alavanca correta com mais frequência do que a possibilidade, sempre que ao primeiro rato foi dado o sinal para pressionar a alavanca.

Os neurocientistas ainda recriaram clipes de filme por olhar apenas em ondas cerebrais de uma pessoa; esse método de leitura da mente, no entanto, foi limitado a áreas do cérebro ligadas à visualização básica e não as áreas responsáveis pelo pensamento superior.

James observou que em todos estes casos, a informação tem sido muito simples, essencialmente pedaços de uns e zeros. Quando uma pessoa pensa sobre a abertura de uma porta, eles sabem o que é uma porta, o que é um identificador, que a mão precisa chegar à porta e abri-la. Isso tudo acontece antes que a pessoa comece a mover os braços e agarre a maçaneta da porta.

Desafios futuros.

“Mesmo com esses sucessos, ou pelo menos provas de conceito, progredindo para uma tecnologia que poderia transferir pensamentos e sentimentos de uma pessoa para outra, é ainda um longo caminho a percorrer”, disse Andrea Stocco, uma investigadora da Universidade de Washington, que participou da experiência do córtex motor. Muitos cientistas do cérebro pensam que padrões semelhantes de atividade neural devem corresponder aos mesmos pensamentos em pessoas diferentes. Mas, além disso, ninguém pode prever exatamente quais padrões podem estar ligados a determinado conjunto de pensamentos. Até agora os cientistas só podem descobrir esses padrões através da experimentação.

Ele acrescentou que, embora a tecnologia esteja disponível, há impulsos recordes em detalhe a partir do cérebro. Em termos práticos isso coloca a questão de ver que colocar muitos fios em um cérebro é uma atividade bastante arriscada. No momento, não temos a tecnologia para gravar, a partir de células suficientes no cérebro, para decodificar pensamentos complexos”, disse ele.

Outro problema é uma questão ética, disse James. Um experimento envolvendo centenas de eletrodos inseridos em um cérebro não é algo que qualquer instituição seria suscetível de aprovar, mesmo em voluntários. Ele observou que experimentos com eletrodos inseridos tendem a ser feitos em pessoas que já têm algum tipo de problema – epilepsia ou doença de Parkinson. (Na Universidade de Washington e Starlabs o experimento não envolve cirurgia invasiva). Aqueles pacientes já estão com os eletrodos inseridos em seus cérebros. Mesmo assim, os resultados obtidos muitas vezes são brutos.

“É um pouco como ter um estádio de futebol com uma multidão de pessoas e colocar um microfone na porta tentando identificar uma conversa. O máximo que podemos esperar é ouvir a metade deles gritando em uníssono”.

Infelizmente, a única maneira de saber se uma tal interface cérebro-a-cérebro está funcionando, é trabalhar com uma criatura sensível – uma pessoa. Um experimento feito rato-a-rato não pode nos dizer o que ele está sentindo, exceto em formas simples como ver o rato atingir uma alavanca ou outra. Isso não é nada perto da experiência de seres humanos. E é importante porque há uma questão muito real de saber se tal estimulação induz experiências (conhecidas como qualia) nos ratos, irá induzi-las em humanos, disse Giulio Ruffini, CEO da Starlab.

Também está longe de ser claro quais são os efeitos a longo prazo sobre o cérebro; cicatrizes de eletrodos seriam apenas um problema. “O cérebro não gosta de nada com as coisas presas dentro dele”, disse James.

Schwartz acrescentou que impulsos motores são uma coisa. Tem havido alguns sucessos com próteses, por exemplo. Mas isso não é nada como as “experiências ricas” que Zuckerberg descreve. “Não há dados científicos que mostrem que ele pode ser extraído de atividade cerebral”, disse James. “Apesar de muitas reclamações sobre a ativação do cérebro em particular ‘circuitos’, isso é quase tudo fantasia e não tem sido feito de qualquer forma determinística ao produto, uma experiência percebida. Nós simplesmente ainda não fizemos a ciência”.

Stocco, no entanto, foi um pouco otimista sobre a visão de Zuckerberg. “Seu cenário é muito futurista, mas não inatingível”, disse ele, “com os tipos de avanços necessários são pelo menos imagináveis. Nós poderíamos chegar lá, com trabalho e conhecimento adequado.

Fonte: livescience (Ciência Viva)

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