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Mineiro sovina! – Capítulo X

 

Atentado contra cliente.
A indiferença com que fora tratado por Onofre diante de uma porção de testemunhas, à porta da agência de Banco do Brasil, deixou Jerônimo deveras injuriado. Esperara uma reação violenta, palavras ásperas, que lhe ensejassem eventualmente motive para chamar em seu socorro os capangas espalhados nas redondezas. Um Onofre, aparentemente inofensivo, frustrara seu propósito. Voltou para casa remoendo a humilhação, planejando vingança. Não queria engolir esse angú com farinha. Quando estava próximo de casa, um dos capangas sugeriu que fizessem uma tocaia ao vizinho. Nem que fosse apenas para dar-lhe um susto, deixar as marcas de balas em seu couro.
Jerônimo não respondeu de imediato. Não convinha envolver os seus empregados numa ação dessa natureza. Mesmo os mais novos contratados haviam sido vistos com ele. Se fossem pegos, acabariam denunciando o mandante e não tinha necesidade alguma de responder a outro processo. Um só já era suficiente. Mas a ideia de dar um susto no coronelote lhe agradou. Lembrou de uma dupla de “justiceiros” residente na vila próxima. Pouco depois de haver chegado no meio da tarde, chamou dois outros empregados e ordenou que o acompanhassem. Os que havia levado para a cidade estavam ausentes, cuidando de outros afazeres. Embarcou em sua caminhonete, tendo os cois ao seu lado, foi até a residência da dupla.
Encontrou os dois numa birosca da esquina, tomando uma cachacinha. Ordenou aos que o acompanhavam permanecerem na caminhonete, até receberem alguma ordem. Sentou-se numa mesa do canto, pediu uma garrafa de caninha da boa, pondo-se a bebericar um “martelinho”. Num momento fez um sinal discrete a um dos dois que for a procurar e sem demor eles se aproximaram. Convidou-os a sentar e ofereceu um trago. O dono do estabelecimento trouxe os copos e os encheu. Depois deixou-os sozinhos, pois tinham assunto sério a tratar.
Sem muitos rodeios falou o que desejava que fizessem. Forneceu os detalhes da vítima, seus hábitos, lugares onde costumava ir. Costumeiramene andava desacompanhado o que deveria tornar o trabalho mais fácil de ser executado. Diante do exposto, o trabalho foi considerado fácil e o preço acertado. Jerônimo fez o pagamento de metade adiantado. A outra metade pagaria com o serviço concluido. A finalidade era apenas dar um susto no coronel. Poderiam lhe dar um tiro, mas não letal. De preferência que lhe quebrasse uma perna, talvez o joelho. Uma boa surra também, mas havia o risco de eles serem reconhecidos e assim complicassem o caso. Melhor mesmo um tiro, aparentemente casual, preferencialmente sem se deixare ver.
Se quisessem disparar bastantes vezes para dar a impressão de um grande tiroteio, poderiam ficar à vontade. Habitualmente o coronel saia todas as sextas feiras para levar a mulher e a filha no comércio da cidade fazer as compras necessárias. Sugeriu que fizessem o serviço nessa ocasião.
– Pode ficar sossegado chefe. Vamos dar um susto no seu “amigo” de que ele não vai esquecer tão cedo.
– Espero o resultado.
Levantou, pagou a cachaça, deixando os dois com o que sobrara. A garrafa ia pela metade, permitindo prever que em pouco tempo não sobraria nada. Foi até a porta e chamou os dois empregados. Poderiam tomar um trago, antes de voltar para casa. Deixá-los ali, sem terem direito a um trago sequer, os faria ficarem frustrados. Precisaria de todos os homens ao seu lado, sem insatisfação alguma. Depois de tomarem uma segunda dose, a noite começara a cair, eles embarcaram no veículo empreendendo a viagem de retorno. Apesar da curiosidade, os dois não indagaram o que o patrão viera fazer. Quanto menos soubessem, melhor seria, em caso de alguma coisa em andamento sair errada. Levavam a sério o ditado “o que o ouvido não ouve, a boca não fala”.
Estavam na terça feira e, a partir dessa data, Jerônimo ficou torcendo para chegar sexta-feira. Disfarçou como pode sua ansiedade para não permitir a ninguém desconfiar de suas inenções. O mesmo capanga que sugerira, tornou a perguntar e els lhe falou:
– E vosmece pensa que vou arrumar encrenca, logo agora que está chegando o dia da audiência, sobre a questão da divisa? Deixa passar que depois damo um susto no velho.
– Pode contar c’a gente, para o que for preciso.
– É bom saber, Chico.
Nessa expectativa os dias passaram. Os “justiceiros” contratados vistoriaram a fazenda de Onofre, chegaram até próximo da casa, escondidos no meio do cafezal, observaram atentamente, imaginando um modo de fazer o serviço encomendado. Ali nas proximidades da casa seria perigoso, pois teriam que percorrer boa distância até a estrada. Observaram que o coronel saia para percorrer sua propriedade, mas sempre acompanhado de pelo menos três dos empregados. Isso não estava de acordo com a informação do contratante. Teriam que buscar um meio de chegar perto, durante a ida a cidade na sexta-feira.
Pontualmente às 8h30min do dia marcado, o veículo de Onofre saiu pela alameda de acesso, precedido por um jipe com três empregados e mais outro fechava o cortejo. Tudo estava ficando mais complicado do que o previsto. Pelo visto alguém alertara a pretensa vítima, fazendo-a tomar precauções com que não contavam. Mesmo assim seguiram de longe em uma caminhonete, suficientemente possante para permitir uma evasão rápida em caso de necessidade. Carregavam carabinas caliber 38, podendo assim atirar de maior distância. O pequeno comboio parou diante de um supermercado. Dois dos empregados acompanharam a família ao interior e os outros ficaram esperando ao lado dos jipes. Seus olhos estavam sempre atentos aos arredores e à porta do estabelecimento.
Os dois ficaram frustrados. Não seria ali que poderiam realizar o serviço. Precisariam encontrar um lugar mais propício. Uma tentativa de cumprir o contrato ali, no estacionamento do supermercado, poriam em risco outras pessoas e não tencionavam atingir mais ninguém. Apenas o coronel era seu alvo. Se ao menos o contratante tivesse falado que poderiam atingir qualquer membro da família, seria mais fácil. Mas fora taxativo nesse particular.
Após uma hora no interior do mercado, a família saiu, um funcionário levou as compras até a caminhonete do coronel. Este deu uma pequena gorjeta ao rapaz e embarcou. Dali foram até o centro, parando diante de uma loja de roupas. Provavelmente tinham intenção de adquirir alguma roupa para as damas. Novamente tudo se repetiu. Houve apenas um momento em que teriam podido atingir o alvo, mas estavam em movimento e perderam a oportunidade.
Perto da hora do almoço o grupo iniciou o caminho de volta. Eles decidiram se adiantar até uma curva que tinha ao lado um penhasco bem elevado. Dali tentariam usar suas carabinas para cumprir o combinado. Chegaram, esconderam a caminhonete em local suficientemente distante e seguiram até o local. Tinham que ser rápidos pois logo o grupo estaria passando por ali. Chegaram, escolheram um bom lugar para se ocultar, que oferecesse boa visibilidade da estrada. Dariam alguns tiros, tendo a preocupação de atingir o coronel e mais ninguém. Isso feito, retornariam depressa ao local do veículo e empreenderiam fuga. Havia uma estrada secundária que permitia chegar à vila dando uma boa volta. Isso os tiraria da cena do ataque.
Não tardou e os veículos apontaram ao longe. Pouco antes da curva escolhida, uma pequena reta permitia escolher o momento certo de atirar. Depois de atingir o alvo, os demais tiros poderiam atingir as rodas, o radiador e mesmo o chão. Não importava onde pegassem, queriam fazer bastante barulho. Quando tiveram o alvo na mira, atiraram e repetiram a operação diversas vezes. Assim como havia começado o tiroteio cessou e os dois sairam rapidamente do local.
Na estrada, o coronel havia sido atingido na coxa direita, pois vinha sentado ao volante. O projétil atravessou o parabrisas estilhaçando-o e ferindo o coronel. Os demais projéteis atingiram os pneus, o radiador, o capô e um vidro traseiro. Mesmo ferido Onofre conseguiu parar o veículo. Vinha reduzindo a velocidade devido à proximidade da curva, o que facilitou a parade, evitando uma possível colisão ou a saída da estrada. Os empregados saltaram e se protegeram atrás dos veículos, pondo-se a revidar, mas os atacantes já haviam ido embora. Verificaram o estado dos veículos, constatando que apenas um dos jipes tivera o radiador perfurado, vazando o líquido refrigerador.
Um dos empregados assumiu o volante do carro do coronel e este foi levado rapidamente ao hospital na cidade, depois de davem meia volta. Enquanto ocorria o atendimento do ferido, o chefe dos empregados foi até a delegacia de polícia. Não tardou e uma equipe de agentes se fez presente, tomando os depoimentos prévios. Depois o grupo todo foi até a delegacia formalizar a queixa. O delegado determinou que uma equipe de policiais seguisse até o local do ataque, onde o jipe danificado ficara aos cuidados de dois dos empregados. Dois empregados iam com eles, enquanto os outros dois levaram a familia para um hotel. O veículo precisava ter o parabrisas substituido, o que demoraria algum tempo. O ferido descansaria até o momento em que pudesse retornar para casa.  
Não existia em princípio nenhuma pista, apenas o fato de os tiros terem partido do alto do penhasco. Os policiais subiram por um trilho existente e encontraram as cápsulas dos tiros, jogadas no local. Os agressores não haviam tomado a precaução de coletar esses vestígios, que serviriam de provas em eventuais perícias de armas encontradas. Encontraram os sinais por onde o(s) agressor(es) havia(m) fugido e seguiram até o lugar em que o carro ficara. Uma marca de pneus patinando no chão seco mostrava a pressa com que haviam saído dali. Um deles portava uma camera fotográfica e tirou umas fotos dos rastos deixados na beira da estrada. O tipo de pneu serviria para incriminar quem praticara o atentado.
Depois de coletar todas as informações, suspeitas e indícios os policiais retornaram para a delegacia. Os empregados usaram o segundo jipe para rebocar o outro até a cidade. Precisavam trocar o radiador, pois o outro ficaram bastante avariado. Quando o sol estava perto do horizonte, o grupo ainda receoso, iniciou o retorno para casa. Por precaução um carro da polícia os precedeu até ao patio da fazenda. Chegaram sem novidade e a equipe de policiais retornou à cidade. Tinham em mãos um caso típico de uma ação de vingança ou execução. Os dados para elucidar o crime eram vagos. O indicio mais forte, era a desconfiança em relação ao vizinho. Mas isso não permitia nenhuma conclusão. Antes de retornar, o mais antigo dos agentes sugeriu que passassem pela fazenda do vizinho. Certamente ele não estaria esperando uma visita a essa hora.
Foram até lá e ao chegarem encontraram uma caminhonete parada diante da casa principal da propriedade. O policial das fotografias passou perto do veículo estacionado e teve a curiosidade de focalizar sua lantern nos pneus. Sua surpresa foi grande ao ver a forma dos pneus. Conferia com a marca vista na estrada. Chamou o chefe e lhe mostrou sua observação. Olharam detidamente e depois chegaram perto da casa. Nesse momento dois homens saiam e se encaminhavam para a caminhonete. O policial teve um lamapejo e falou:
– Voces dois podem me responder uma pergunta?
– Sim senhor! – falou o mais alto.
– Onde vocês estavam hoje por volta do meio dia?
– Nós estávamos em casa, na Vila Santa Rita. Por quê?
– Por acaso não estavam na estrada, naquela curva perto de Sete Lagoas, onde tem um penhasco?
– Nem sei onde fica essa curva, doutor.
– A gente nunca vai a Sete Lagoas. Trabalhamos na vila mesmo.
– Me mostre os documentos pessoais e do carro.
– Mas que é isso agora?
– Se não tem o que temer, por que não pode mostrar?
– Isso é abuso. Nós não fizemos nada.
– Apenas uma verificação de rotina, amigo.
Os outros agentes ficaram estratégicamente posicionados. Jerônimo chegara à varanda e observava a cena. Quando viu os homens apresentarem os documentos, gelou. Se os policiais ligassem os dois ao atentado, estaria perdido. Pensou em algo a fazer e optou por retroceder para o interior da casa. Aparentemente não havia sido visto. Ficaria espiando pela fresta da janela para ver o que aconteceria. Os documentos foram observados, anotados os nomes e número dos mesmos. Foi quando chegou o momento de examinar os documentos do veículo que ficou evidente que se tratava dos agressores. O documento constava em nome de um conhecido infrator, frequentemente envolvido em atos de desordem e violência.
– Por quê estão com esse carro? Trabalham para o dono?
– Nós pegamos emprestado.
– Muito conveniente isso. Esse nome é bem conhecido nosso. Estamos invetigando um crime e esse carro tem o mesmo tipo de pneu das marcas encontradas perto do lugar. Para piorar estão no patio de uma pessoa suspeita.  
– Não temo nada a ver com essa encrenca. Viemos tratar de um serviço com o dono da fazenda.
– E que serviço é esse? Não seria fazer uma tocaia ao Coronel Onofre?
Ao ouvir isso um deles olhou significativamente para o outro. Vendo o olhar, o agente deu voz de prisão aos dois e ordenou aos auxiliares que os algemassem. Foram colocados no banco traseiro do veículo sob a guarda dos dois policiais. O agente que comandava foi até a varanda, chamando:
– Ó de casa!
Jerônimo chegou à porta e perguntou:
– O que se passa? O senhor é de onde?
Mostrando a sua credencial, falou:
– Sou o detective Arthur da Silva e estou procurando suspeitos de um atentado contra o coronel Onofre, seu vizinho. Esses dois homens que sairam agora mesmo de sua casa estão sendo levados à delegacia para interrogatório. O senhor tem alguma coisa a ver com o caso?
– Mas de onde lhe vem essa idéia, policial?
– Eu apenas estou perguntando. O carro que os dois estão usando é de um bandido conhecido, tem pneus iguais às marcas deixadas na estrada perto do lugar do atentado e demonstraram sinais de medo quando os questionei agora pouco.
– Eles vieram aqui em busca de trabalho e eu não estou precisando.
– Fique de sobre-aviso, senhor Jerônimo. O senhor é suspeito de ser o mandante do atentado. Dependendo do resultado das investigações, vamos lhe chamar e é bom não se ausentar nas próximas semanas.
– Essa agora! Tenho minhas pinimbas com o vizinho, mas não sou bandido. Tenho nada com isso.
– Vamos averiguar. Se não tiver nada a ver mesmo, nada tem a temer. Boa noite, senhor Jerônimo.
Desceu da varanda e foi até o carro, ordenando a partida. Um dos policiais dirigiu a caminhonete que estava em mãos dos detidos. Foram direto para a delegacia, sem se demorarem. Levavam a suspeita de que o fazendeiro faria alguma coisa para resgatar os dois. O comandante do grupo estava convicto da culpabilidade dos dois. Todavia chegaram à delegacia sem problemas. Mal sabiam que pouco atrás havia chegado o carro de Jerônimo, que se dirigiu direto à casa do advogado. Expôs rapidamente o caso, omitindo a questão de seu envolviemnto. Pediu que fosse impetrado um habeas corpus o mais rápido possível. Ficou sabendo que dificilmente esse mandado seria conseguido antes do almoço de sábado. O juiz de plantão para atender essas emergências era o mesmo encarregado da ação de Onofre contra Jerônimo. Era capaz de associar uma coisa e outra e a situação se complicaria.
– Eu falei ao senhor! Não tome nenhuma attitude precipitada! Mas parece que quer saber mais do que eu.
– Não tenho nada a ver com isso. São meus conhecidos e vim para ajudar. Eles são inocentes.
– Tem certeza disso?
– Não posso jurar, mas eles estavam lá em casa pedindo trabalho e nisso os policiais chegaram. Cismaram com eles e os trouxeram para a delegacia.
– Se não tem o que temer, mais tardar amanhã meio dia estão na rua. Se tiverem a ver com o atentado, o caldo entorna seu Jerônimo.
– Providencia logo esse mandado. Eu pago o que precisarr. Peça para o delegado estabelecer a fiança!
– Vou tentar, mas não garanto nada. Acho bom o senhor ficar aqui, bem quieto e esperar minha volta. Nem pense em aparecer na delegacia, pois isso irá implicá-lo no caso.
– Não perca tempo doutor. Eles precisam sair daquela delegacia o quanto antes.
O advogado percebeu que o cliente estava envolvido até o pescoço na questão. Do contrário não estaria tão nervosa. Como isso iria lhe render bons honorários, foi fazer o que precisava. Antes ligou para o juiz para saber se poderia ser atendido antes do amanhecer e ficou sabendo que o meritíssimo estava em uma festga e voltaria mais tarde. Não era bom palpate incomodar tarde da noite. O homem ficava uma arara quando isso acontecia. O jeito era ir até a delegacia tentar convencer o delegado a soltar a dupla. O quanto antes pudesse fazer isso, aumentaria a chance de não fazerem eles cantar até o que não sabiam. Conhecia bem a habilidade dos invertigadores vindos recentemente. Eram capazes de fazer um defunto falar, quanto mais dois vivinhos da silva.
Deixou Jerônimo sentado em seu gabinete doméstico, diante de um litro de whisky e café numa térmica. Ele que servisse o que quisesse, pois a conta seria salgada depois. Sem hesitar dirigiu-se resolutamente à delegacia para avistar os detidos. Ao chegar ali, verificou que a repartição estava movimentada. Isso era visível pela presença do carro do delegado em pessoa. Teria que tomar cuidado com as palavras para não arrumar encrencas para seu lado. Frequentemente precisava da boa vontade das autoridades e uma palavra errada, dita no momento indevido, podia causar um grande estragon nesse relacionamento.
Chegou ao balcão da recepção e perguntou ao agente que ali estava de plantão:
– O Delegado Demétrio está aí?
– Está sim, doutor. Qual é o problema que o traz aqui?
– Fui avisado que dois clientes meus estão detidos e vim assistir aos depoimentos deles.
– Aguarde um momento por favor.
Levantou o telefone, discou um número e logo falou com alguém, certamente em outra sala.
– Doutor Delegado!
– Fala, Douglas.
– Está aqui o doutor Estevão. Ele quer falar com os detidos!
– Mande ele aguardar. Estamos terminando com eles dentro de cinco minutos.
– Certo, chefe. Vou avisar.
Desligou o aparelho e voltou-se para o doutor Estevão, dizendo:
– O Delegado já vail he receber. Espere um minute. Quer um café?
– Obrigado. Não quero tomar café a essa hora. Me dá dor de cabeça.
– Sente-se um pouco.
Estevão fez menção de ir para a área interna da delegacia, sendo impedido pelo policial.
– O senhor não pode entrar antes de receber autorização para isso. Faça o favor de sentar-se.
– Mas eu tenho pressa de falar com os meus clientes.
– Quem foi mesmo que lhe contratou, doutor Estevão?
– Eles mesmos.
– Se eles foram detidos na fazenda do seu Jerônimo e vieram diretamente para cá. Como eles puderam lhe avisar?
– Acontece que eu sou advogado do fazendeiro e ele me avisou por telefone. Vim atender a eles, pois tenho outras causas em que autuo a favor deles.
– Entendo, doutor.
Sentou-se e fez de conta que lia uma revista aberta sobre a mesa, mas os olhos vigiavam o advogado. Era melhor que ele se mantivesse quieto ali, salvo se quisesse arrumar encrenca. Enquanto isso, o delegado separara os dois detidos, colocando ambos sob os cuidados de interrogadores diferentes. Em dado momento um outro agente entrou numa sala dizendo:
– Pode confessar, amigo. Seu parceiro já deu todo o serviço.
– O quê? Aquele desgraçado abriu a boca.
Sem dizer mais nada o agente saiu e foi dizer ao delegado:
– A artimanha acaba de funcionar. O pássaro cantou legal. Foi dizer que o parceiro havia dado o serviço, ele ficou revoltado e perguntou se o outro tinha aberto o bico.
– Quer dizer que encontramos os dois mais depressa do que poderíamos imaginar. E pelo visto aquele fazendeiro está envolvido nisso.
– É o que iremos ver. Agora os colegas podem apertar bem e logo saberemos toda a verdade.
Em poucos minutos os dois interrogadores vieram, quase ao mesmo tempo, com largo sorriso no rosto. Tinham em mãos a confissão complete dos dois, apenas cada um dizia que for a apenas servir de motorista. O colega fora fazer a tocaia.
– Notável isso. Depois que a casa cai eles tentam incriminar um ao outro. Não se faz mais bandido como antigamente.
– É Doutor. Na hora do pega para capar, salve-se quem  puder.
– Vamos tomar o depoimento deles para não voltarem atrás. Tem um advogado aí na porta para falar com eles. Deve ter alguém no comando. Aposto meu soldo que isso é obra do fazendeiro onde eles foram encontrados.
– Eles não disseram ainda, mas dá para deduzir sem problema.
– Aperta um pouco e tira o resto do suco. Enquanto isso eu vou conversar com o advogado. Dou uma trovada nele até vocês terminarem o serviço.
Chamaram um escrivão e foram tomar os depoimentos. O delegado saiu até a portaria e fingiu surpresa com a presença do advogado.
– Boa noite, doutor Estevão! Tudo bem? E que lhe posso ser útil?
– Eu vim conversar com dois clientes meus que estão detidos. Preciso encaminhar um habeas corpus logo cedo e tenho que saber detalhes para elaborar o documento.
– Só um momento. Estamos remanejando uns pássaros aí dentro e logo lhe coloco diante dos seus clientes. Enquanto isso, venha até minha sala e conversamos um pouco.
Não tendo alternative, doutor Estevão entrou e sentou na poltrona diante da escrivaninha que o delegado lhe apontou. O assento parecia ter espinhos e não conseguia parar quieto. Ouviu o delegado dizer:
– O que o deixa tão inquieto doutor?
– Estou com uma dor incômoda na coluna e isso me faz procurar uma posição melhor.
– Sei como é isso.
– Preciso procurar um médico na semana que vem. Isso está me deixando maluco. Pior que tenho uma montanha de processos para atender e não sobra tempo para cuidar da saúde.
– Mas se não se cuidar, vai chegar uma hora em que não terá mais condições de levantar. Tem que se tratar. 
Nisso o agente veio até a porta e faz sinal ao delegado. Os depoimentos estavam tomados e devidamente assinados pelos dois detidos. Agora haviam sido colocados na mesma sala e tinham se lançado olhares furiosos mutuamente. Sinal de que se sentiam traídos pelo companheiro.
O advogado foi levado à presença dos dois e passaram a conversar sigilosamente. Ao ouvir a troca de acusações entre eles viu que chegara tarde. Nada mais poderia fazer. Tanto os dois como o fazendeiro estavam mais enrolados que novelo de linha. Determinou aos dois que não falassem mais nada sem a sua presença. O estragon feito já era grande o suficiente. Não precisariam dizer mais uma palavra para complicar. Falou-lhes que teriam que aguardar para ver se conseguiria encontrar uma maneira de eles responderem ao processo em liberdade. Não sabiam ainda que o coronel Onofre nada sofrera além de uma perfuração dos músculos da perna e já estava em casa. Se ele tivesse ido a óbito, o problema ficaria muito maior. O envolvimento de Jerônimo com o atentado, complicava tudo. O processo do litígio da divisa estava para ser julgado e provavelmente o delegado informaria ao juiz sobre o caso, quando desse entrada no habeas corpus. A chance de êxito era minima.
Voltou para casa e comunicou ao cliente tudo o que havia ocorrido. Determinou que ele voltasse para casa e não andasse por aí, sem ser chamado. Qualquer coisa seria motivo para sua prisão. Se o procurassem em casa, deveria ficar oculto, deixando o automóvel em algum lugar for a de vista. Enquanto isso tentaria manobrar, mexer os pauzinhos, para conseguir livrá-lo da cadeia antes do julgamento. Mandaria notícias assim que pudesse.
Jerônimo obedeceu e voltou para casa. Ia se recriminando pela sua imbecilidade em se deixar levar pelos sentimentos de vingança. Se tivesse mantido a cabeça fria, estaria agora perto de infligir uma derrota ao vizinho, como o doutor Estevão lhe garantira.
Agora não restava alternativa. Teria que aceitar que estava em dificuldades e não agravar mais a situação.

 

Mineiro sovina! – Capítulo IX.

 

Entrega das intimações
Três semanas depois de encaminhados os processos, foi marcada a audiência para eventual conciliação ou julgamento da matéria. Em havendo evidências para o proferimento de sentença, o Meritíssimo Juiz da vara cível proferiria a sentença, da qual caberia recurso, para produção de novas provas de ambas as partes litigantes. Não havendo recurso, a sentença seria executada e o processo arquivado como concluido. As intimações às partes e testemunhas foram emitidas, havendo um prazo entra a data de intimação e a realização da audiência, visando permitir à parte demandada constituir sua defesa, arrolar testemunhas e provas em seu favor.
A entrega das intimações precise ser realizada em mãos pelo oficial de justiça. Como ambas as partes residiam na mesma redondeza, um mesmo oficial foi encarregado da entrega de todas as intimações. Chegou primeiramenete na casa de Onofre, onde não encontrou dificuldade em realizer sua tarefa. Ao contrário, o mesmo ficou contente em saber o dia em que seria feita justiça em seu favor, disso tinha certeza. Depositava no doutor José Silvério uma confiança quase cega. Faria o possível e o impossível para ganhar essa causa em seu favor.
Quando chegou na propriedade de Jerônimo de Alcântara, a situação ficou complicada. Ao ver o veículo com placa oficial o proprietário ficou de cabelo em pé. Ouvira murmúrios de que o vizinho havia contratado advogado para questionar seu direito ao uso da água da vertente, próxima da divisa. Sempre desconfiara de que aquela demarcação realizada anos antes, no tempo de seu pai, quando ele era criança, não for a feita com lisura. Quando teve oportunidade contratou um agrimensor que fez, sem avisar o vizinho, uma nova demarcação e agora a vertente estavam em seus domínios.
Acolheu o oficial com a carra amarrada, esperando para ver o que viria. Ao saber do que se tratava, ficou furioso. Deu um berro e imediatamente um par de capangas surgiu ao seu lado, perguntando o que acontecia e ele lhes dissect:
– Botem para correr esse oficialzinho de justiça. Não vou assinar intimação alguma e quero ver quem vai me obrigar.
– Senhor, não precise de violência. Nós vamos embora e o senhor receberá de outra forma essa intimação.
Deu meia volta, embarcou no jipe e voltaram para a cidade. Alguns dias depois, duas viaturas da polícia militar, transportando um contingente de oito soldados e um sargento, escoltaram a viatura do oficial de justiça ao patio da fazenda de Jerônimo. Os policiais ficaram aguardando, mantendo as armas ao alcance das mãos, enquanto o oficial fazia a entrega da intimação. Diante dessa demonstração de força, Jerônimo manteve a custo a raiva, e assinou a intimação. Havia nesse interim procurado um advogado que lhe aconselhara receber por bem a intimação, do contrário iria responder por mais um ato delituoso. Desacato à autoridade, por ter usado a intimidação diante do oficial de justiça. Tinha que cuidar para não complicar mais o que parecia não ser tão simples como ele pensare que fosse.
Depois de assinar a intimação, o sargento desceu da viatura e chegou perto, dizendo:
– Senhor Jerônimo, eu trago uma ordem de prisão contra sua pessoa, emitida pelo Exmo. Juiz da vara cívil, por desacato a autoridade do oficial de justiça no dia em que veio lhe entregar a intimação que agora o senhor recebeu. O senhor me acompanha por bem, ou vou ter que usar a força?
Olhou ao redor e ali estavam os soldados com as mãos prontas para empunhar as armas em defesa de seu chefe.
– Eu vou, mas no meu automóvel.
– Alguém vai levar seu automóvel e o senhor nos acompanha na viatura. Quando o Juiz lhe liberar vai voltar com quem lhe for buscar.
– Mas sargento…
– Nada de mas, senhor Jerônimo! Nem meio mas! Ou prefere ser algemado agora mesmo?
– Casimiro, pega aqui as chaves e os documentos do auto. Venha atrás da gente para me buscar. Aliás já passa logo no doutor Paulo e peça para ele providenciar minha soltura.
– Pois não patrão. Vou levar o Chico comigo para não ir sozinho.
– Mas não siga muito perto das viaturas. Mantenha pelo menos cem metros de distância, – falou o sargento.
Todos embarcaram, fizeram a volta e rumaram para a cidade. Em poucos minutos era possível ver, seguindo atrás dos veículos oficiais, a caminhonete de Jerônimo, indo em sentido da cidade. Quem passava pela estrada ficava achando estranha a presença de Jerônimo do veículo policial e os empregados dirigindo sua caminhonete. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de Onofre e este se rachou de dar risada. Ficara sabendo que o vizinho botara para correr o oficial de justiça na primeira vez e agora estava levando o que merecia. Aprenderia a respeitar autoridade.
Chegaram ao forum e levaram Jerônimo direto para a ante-sala do gabinete do juiz. Foi anunciada a sua presença e logo o magistrado mandou que o fizessem entrar. Era um homem bem menos arrogante e altivo que estava ali. Mantinha-se de cabeça baixa esperando o veredito do juiz. Este folheou uma pequena pasta e, puxando os óculos sobre a ponta do nariz, encarou o homem a sua frente e falou:
– Então esse é o homem que não recebe intimação das mãos do oficial de justiça? Chama os capangas e manda por para correr a autoridade! Que tal fazer isso agora, aqui na minha frente, senhor Jerônimo! Vamos, comece.
Diante do mutismo do homem, o juiz tornou a falar:
– Engraçado, parece que o gato comeu sua língua agora, ou a perdeu na estrada! Eu devia lhe botar na cadeia por trinta dias pelo menos, seu Jerônimo. Mas como tem pouco mais que isso para providenciar sua defesa no processo de litígio de divisas e outras pendengas, vou fixar sua fiança. Providencia um advogado para trazer o dinheiro e depois o libero. Levem ele para a sala de detenção provisória até que o advogado venha livrá-lo dessa enrascada.
– Meu advogado daqui a pouco estará aqui. Pode fixar a fiança que e providencio o dinheiro.
– Já vou fazer isso, mas não quero lhe ver mais na minha frente antes do dia da audiência. Agora pode ir e se controle, ou mando lhe aplicar um corretivo.
Em questão de meia hora o advogado, doutor Paulo de Andrade, chegou e recebeu das mãos do juiz a fiança estipulada. Foi falar com Jerônimo e lhe disse:
– Fique calmo e vamos logo providenciar esse dinheiro. O senhor escapou liso. Esse juiz é severo e não gosta de ser desobedecido. Onde foi que estava com a cabeça ao botar para correr o oficial de justiça?
– Nem eu sei direito, doutor! Me deu uma raiva naquele dia e não me controle. Quando vi já tinha feito.
– Isso poderia ter custado bem mais caro, seu Jerônimo.
– Posso fazer um cheque para retirar no banco antes que feche?
– Faça logo pois não demora para fechar o expediente.
O cheque foi preenchido, sendo acresdido do honorário do advogado. Ele tivera que interromper uma entrevista importante para atender a emergência do cliente. Não faria isso sem cobrar seu trabalho.
Quando o dinheiro da fiança chegou às mãos do juiz, feito o recibo, imediatamente foi dada a ordem de soltura do detido. Os capangas aguardavam do lado de fora com a caminhonete para levar o patrão para casa. Estavam assustados, pois nunca haviam passado por uma situação dessas. O mais perto que haviam chegado de um juiz era alguns quilômetros de distância. Hoje tinham ficado a espera diante do forum, vendo entrar e sair grupos de policiais, viaturas adentrando o patio, homens de terno e gravata chegando e saindo. Queriam rapidamente sair dali e voltar a sentir-se em seu elemento, bem longe daquele lugar.
Jerônimo não estava para muita conversa. Apenas respondeu com monossílabos às perguntas dos capangas que logo notaram e se mantiveram em silêncio. Não era aconselhável perturbar o patrão quando estava enfezado. Os dias seguintes foram de intensa movimentação na propriedade de Jerônimo. Foram frequentes visitas ao advogado, levando testemunhas, documentos solicitados pelo advogado, para preparar adequadamente a defesa. O tempo era escasso, pois a teimosia do acusado, consumira preciosos dias que teriam sido importantes na preparação da defesa.
Nesse meio tempo, Antônio B. Lemos visitou, em companhia de José Silvério, a fazenda de Onofre, para fazer o levantamento detalhado de todos os quadros de Isabel. Ao todo catalogou 112 peças, incluindo os que estavam na casa, enfeitando as paredes. Foi preciso identificar cada um com um nome e foi Isabel que teve a tarefa de fazer a escolha dos nomes. Muitos eram óbvios devido ao objeto retratado, outros ao contrário, exigiam uma denominação diferenciada para evitar a repetição de nomes. Fez uso de indices numéricos para tal. Cada um recebia, junto ao nome, a data de conclusão. Dessa forma formou-se um acervo bem seleto. Nada havia a excluir, mesmo os produzidos logo no início da atividade. Permitiam traçar a trajetória evolutiva da artista.
Com um catálogo de fotografias detalhadas em mãos, Antônio procurou os proprietários da galeria e negociou o evento. Conseguiu uma semana livre em um prazo de 90 dias. Levou Isabel para assinar o contrato com a galeria e patrocinadores. Foi estabelecido um valor mínimo para cada peça a ser exposta e feito o mapa da exposição. Ao entrar o visitante encontraria os trabalhos de início da carreira e aos poucos vinham os de datas mais recentes, até o dia mais próximo da data do evento. Instada por Antônio ela levou uma tela inacabada e cada dia dava algumas pinceladas dando a impressão de um trabalho em construção. Dessa forma era comum os visitants encontrarem a pintora com o avental, pincéis e tintas em punho, dando algumas pinceladas.
Enquanto aguardavam a realização do evento, eram feitos contatos com outras galerias, principalmente da capital e muitos machand’s confirmaram a presença para conhecer a nova artista. Alguns expoentes do mundo artístico confirmaram presença na noite de inauguração, o que viria abrilhantar a noite. Nos dias subsequentes haveria horários de visitação no período da manhã, tarde e começo da noite.
As semanas passaram rapidamente e o dia da audiência se aproximava. Num dia desses, Onofre se viu frente a frente com o vizinho Jerônimo, aos air de uma agência do Banco do Brasil. Onofre ia passar sem dizer palavra. O vizinho o interpelou:
– Está imaginando que vai ganhar a causa, coronel? Pode esquecer. Meu advogado vai dar uma surra no seu, aquele molecote, filho do dono da mercearia e vai arancar de você uma boa indenização.
– Tem certeza?
– Se tenho! São favas contadas. Depois vou dar uma festa em comemoração, paga com seu dinheiro, coronel de meia pataca.
– Veremos, Jerônimo. Tenho mais o que fazer. Passar bem vizinho.
O que Jerônimo não sabia é que Onofre, com o mapa e laudo da demarcação feita anteriormente, fora ao cartório e registrara o documento. Dessa forma ele passara a fazer parte da documentação da propriedade e nele estava claramente especificada a localização da vertente motivadora da discórdia. O doutor Paulo, recebendo um mapa inverso, datado de época mais recente, mas sem o devido registro, tinha absoluta certeza de que a causa estava ganha. Disso resultava a certeza de Jerônimo quanto ao resultado do julgamento que resolveria a questão.
Antes de empreender o retorno, Onofre passou no escritório e contou a José Silvério o encontro que tivera com o seu desafeto. Foi aconselhado a não revidar nenhuma provocação. Até mesmo os seus empregados deveriam reagir a eventuais agressões provenientes de empregados de Jerônimo. Qualquer ato impensado viria prejudicar o resultado do processo. Seria preciso manter a serenidade, mesmo a custa de muito esforço. Havia a possibilidade de ser contratado algum pistoleiro para executar alguma forma de vingança, antes ou depois do julgamento. Era recomendavel não sair sozinho da propriedade e nem percorrer sem acompanhante os seus domínios. Infelizmente ainda não era possível confiar inteiramente nos trâmites da justiça. Uma bala perdida, disparada de tocaia era capaz de causar muito mal e depois não haveria sentença que desse resultado.

 

Onofre falou que já adotara desde algumas semanas, especialmente quando soubera do episódio do oficial de justiça posto a correr pelo vizinho, a providência de estar sempre acompanhado de pelo menos um de seus tabalhadores. Não convinha se expor sem necessidade. Talvez depois da sentença, com algum tempo para digerir a questão, o vizinho viesse a se tornar menos agressivo e truculento. 

Mineiro sovina! – Capítulo VIII

 

Foto de uma fazenda típica de Minas Gerais.

 

Processo é encaminhado
Naquela noite, antes de adormecer, José passou um longo tempo lembrando do rosto, silhueta, os longos e sedosos cabelos de Isabel. O conjunto era estonteante e ele estava irremediavelmene apaixonado. Fez um propósito firme de fazer o máximo empenho em todas as causas que ficassem sob sua responsabilidade. Alcançaria sucesso e posição de destaque dentro da empresa. Isso o colocaria em posição vantajosa do ponto de vista da opinião de coronel Onofre. Não teria como se opor ao romance, dele José Silvério, com a bela filha. Em especial colocou como questão de honra alcançar uma sentença favorável ao cliente no processo que iria encaminhar no decorrer dessa semana.
      Um ganho de causa, com sentença vantajosa para Onofre, daria ao advogado um trunfo importante na consecução de seu objetivo maior: conquistar as boas graças da filha. Não esqueceria de mandar reveler as fotografias na manhã seguinte, pois queria tê-las em mãos para serem anexadas ao processo como prova documental das transgressões cometidas pelo vizinho de seu cliente. Havia aproveitado para fazer uma sequência de exposições, gastando todo o filme. Assim teria imagens para lembrar do lugar onde a razão de suas aspirações afetivas passava seus dias. Pensando em tudo isso, adormeceu e sonhou com encontros românticos, passeios no cafezal, exposições de arte na capital, sendo a estrela a pintora que conhecera naquele dia.
      A manhã de segunda feira o encontrou a postos no seu gabinete, cuidando de alguns processos prontos para encaminhamento, faltando apenas revisar, evitando alguma falha eventual que passara despercebida. Logo cedo, pediu a secretária para chamar o contínuo. Quando o jovem se apresentou colocou em suas mãos o filme e pediu que o levasse ao laboratório mais próximo para reveler. Insistiu para que pedisse urgência no trabalho, pois havia ali provas importantes para um processo. O rapaz saiu e em questão de meia hora entregou à Roberta o comprovante de entrega do filme para processamento. Ficaria pronto ao final da tarde de quarta feira. Havia pedido que fosse terminado antes, mas não houvera jeito.
      Um pouco contrariado José, pensou um pouco e concluiu que, se deixasse tudo pronto, faltando apenas anexar as imagens, poderia encaminhar o processo na quinta feirra. Com um pouco de sorte dentro de uma semana ou no máximo duas, a data da audiência estaria fixada. As intimações seriam expedidas e entregues, para que ninguém pudesse alegar ignorância do fato.
      Em meio a uma série de processos, uns em fase de instrução, outros coletando documentos e informações, estava agora o processo de Onofre Pires contra Jerônimo de Alcântara. Os nomes das testemunhas do queixoso haviam sido arrolados e identificados, indo fazer parte do processo. Inicialmente teria algumas páginas com a descrição dos fatos relatados e constatados in loco pelo advogado, tendo como prova as fotografias tiradas.
      Pontualmente na tarde de quarta feira os negativos e uma cópia de cada uma das fotografias chegaram às mãos de José Silvério. O processo estava pronto, faltando apenas anexar as imagens. Apressou-se em fazer sua parte e encaminhou à secretária para concluir a montagem do processo. Olhou rapidamente as demais fotografias e depois guardou tudo em sua pasta para ver mais detalhadamente à noite quando estivesse em casa. 
            Antes de fechar o gabinete, teve tempo de revisar o processo, aliás eram dois. No primeiro estaria em julgamento o ato de violação do limite das propriedades e no outro um pedido de indenização pelos danos causados nos cafeeiros pelos animais de Jerônimo. Onofre fazia questão absoluta de ser indenizado até o ultimo centavo. Onde já se viu perder algumas sacas de café por causa das vacas do vizinho. Era causo fora de questão. Mostraria ao turrão do vizinho o quanto doia desrespeitar a propriedade alheia.
            No outro di aos processos, junto com vários outros, seguiu pelas mãos do contínuo, para o cartório do distribuidor público. Dali seriam encaminhados para as respectivas varas de justiça, muito embora não houvesse grande diversidade de juízes. Cada um deles acumulava mais de uma vara. O número de processos a serem julgados não era ainda tão elevado, permitindo aos três magistrados da comarca dar conta da tarefa.
            Nos momentos de relativa folga, José Silvério aproveitava para investigar a questão das pinturas de Isabel. Contatou vários amigos, ligados ao setor artístico para obter informações sobre eventuais especialistas na área de pintura na cidade. Ficou sabendo que existiam alguns, mas entre eles havia dois apenas que tinham algum renome no ramo. Os outros eram mais agenciadores de exposições do que experts em pintura. Pediu a quem lhe deu essas informações o endereço, telefone e alguns detalhes pessoais para poder fazer um contato mais personalizado. Julgou que, se a conversa fosse mais informal, teria meior chance de conseguir que um deles ao menos, se dispusesse a fazer uma avaliação dos quadross de Isabel.
            Se houvesse necessidade aproveitaria o final de semana para fazer uma visita pessoal aos dois. Isso permitiria formar uma opinião melhor sobre a capacidade de cada um. Na sexta feira conseguiu falar, primeiro com um deles e depois com o outro. Expôs a questão e encontrou receptividade de parte de pelo menos um deles, enquanto o outro ficou numa posição de neutralidade. Não se negou, mas não ficou entusiasmado. Sabendo que o interlocutor era membro do escritório de advocacia que os representava em algumas situações legais, predispuseram-se a recebê-lo em sua casa. Seria bom se tivesse uma ou duas amostras para levar. Dependendo da primeira impressão, fariam uma avaliação mais abrangente num momento posterior.
            As visitas ficaram marcadas para sábado à tarde. José aproveitaria a manhã par air até a fazenda e traria dois ou três quadros que Isabel se dispusesse a ceder. Assim teria, já na segunda feirra, uma ideia da opinião que os dois especialistas faziam do trabalho. Ele mesmo os achava encantadores, mas havia que levar em conta o fato de seu envolvimento emocional na questão. Isso altera a percepção da realidade. Não estava predisposto a notar imperfeições, falhas na execução das técnicas de pintura e outros pequenos detalhes.
            Ao chegar em casa na sexta à tarde, conversou com o pai sobre a possibilidade de usar o automóvel no sábado pela manhã. O pai quis saber qual era o objetivo e ele falou de que se tratava, recebendo de volta um olhar interrogador, como que a dizer:
            – Você está ficando apaixonado pela filha de seu cliente. Tome cuidado.
            Ficou com as chaves e documentos do automóvel desde aquele momento. Pretendia sair bem cedo e nesse momento o pai estaria provavelmente envolvido no processo de abrir o mercado. Qualquer coisa seria suficiente para atrasar e sabia da preocupação do seu genitor em ser pontual. Costumava abrir às 7 h 30 min, nem mais nem menos. A noite transcorreu sem novidades e sábado, logo aos primeiros raios de sol, o Ford Corcel GT, iniciava nova viagem até a fazenda de coronel Onofre. José ia alegre, cantarolando canções da bossa nova, Roberto Carlos, Ronie Von, Vanderleia e outros. Assim, quando menos esperava, chegou ao portal de acesso à fazenda. Percorreu a alameda ladeada de cafeeiros, onde agora estava ficando visível o avanço na maturação ocorrido ao longo da semana.






Cafezal florido.
Ladeiras cobertas de cafeeiros.
Cafezal sem fim, cobrindo morros e baixadas.
Montanha ao fundo e plantio nas proximidades.


            Estacionou na mema posição em que deixare o veículo no domingo e desembarcou. Logo se fez ouvir a voz de Onofre, parado na varanda que dizia:
            – Uai, doutor! Mas já de vorta?
            – Bom dia, coronel. Vim lhe comunicar que os processos já foram para as mãos do juiz e vamos aguardar a marcação das datas, expedição das intimações e tal.
            – E os retrato que tirou, ficaram bom?
            – Ficaram perfeitos. Acho que não vai sobrar dúvida quando o juiz pegar nas mãos. Mas só podemos cantar vitória depois da sentença.
            – Qui espero seja favorável!
            – Vai ser favorável, sim coronel.
            – Vem pra dentro. O café tá saindo agorinha mesmo do coador.
            Entraram e logo saboreavam uma ótima xícara de café fumegante. Quando Isabel trouxe o bule e as xícaras, ele aproveitou para dizer:
            – Em primeiro lugar, bom dia senhorita.
            – Bom dia doutor! Como tem passado?
            – Tudo ótimo e trago boas notícias para seus quadros.
            – Sim!
            – Vim ver se pode me emprestar dois ou três que estejam prontos para server de amostra para dois especialistas no assunto. São de Sete Lagoas mesmo.
            – Vamos ter que escolher. Tem uma porção ali no depósito. O difícil é escolher os menos ruins.
            – Não pense assim, senhorita. Pense em escolher os melhores. Pensamento positivo faz bem.
            – Vou ver com a mãe. Ela vai me ajudar a separar uns.
            – Não podem ser muito grandes para caber no carro.
            – Grandes mesmo só pintei os dois que estão na sala da lareira. Os outros são todos pequenos ou médios.
            – Se quiser, posso ajudar na separação. Apesar de não entender muito do assunto, posso ser uma opinião mais isenta.
            – Eu vou lhe chamar, depois que limparmos um pouco o lugar. Com licença, vou falar já com a mãe.
            José lançou um olhar para as paredes da sala de refeições onde se encontravam e percebeu novas nuances nos detalhes dos quadros ali expostos. Estava vendo de outro ângulo e isso lhe fez ver coisas que não percebera no domingo anterior. Estavam mais vigorosos os traços. As pinceladas pareciam mais perfeitas do que conseguia lembrar de ter visto antes. Até dava impressão de terem sido retocados desde a primeira vez que os vira.
            – O doutô fico mermo impressionado com os qudro de mia fia. Eu também gosto, apenas não tinha pensado em ser isso um meio de ganhar algum dinheiro.
            – Sou suspeito em falar, mas creio que cada um deles vale bom dinheiro, principalmente no momento em que a autora ficar conhecida no meio artístico.
            – Mas isso não vai faze ela viajar mundo, atrás de exposição?
            – E que tem isso, coronel? O mundo está cheio de gente que viaja levando seu trabalho para todos os lugares. É o mundo moderno. Estamos em l977 e o homem já foi até na luz.
            – Voismecê me conte outra, que nessa eu não credito não! Isso é tudo inventação desses americano. Só pra faze inveja nos russo.
            – Mas eles foram mesmo. Tem filme mostrando tudo. Trouxeram até umas pedras de lá.
            – Pedras da lua! Mais essa agora. Já num tem pedra qui chegue aqui na terra, tem que buscar umas na lua.
            – Não é por isso. É para estudo, análise de composição. Ver se lá tem os mesmos minerais que aqui na terra.
            – I pudera ser deferente? Homessa! Materiar é tudo a mesma coisa, num importa de onde vier.
            – Mas é possível existirem diferenças, detalhes não vistos aqui. É preciso investigar.
            Nisso dona Maria Luiza chegou à porta e falou:
            – Bons dias doutor. Que bons ventos o trazem aqui hoje?
            – Bom dia dona Maria. Eu vim dizer ao coronel que os processos estão na mão do juiz. Também vim ver se Isabel quer me emprestar uns dois ou três quadros para levar aos especialistas. Eles queremo ver para fazer uma avaliação prévia.
            – Ela está no depósito lhe esperando. Venha comigo, deixe o Onofre um pouco aí.
            Seguiram por uma porta lateral, passando por uma área coberta e logo à frente encontraram uma porta, onde já havia uma porção de quadros encostados, enquanto Isabel trazia mais dois para colocar ali. José olhou para dentro e viu ali uma quantidade enorme de quadros. Deveriam ser fruto de anos de trabalho incessante. Ficou admirando um a um os que estavam ali a mostra e, para ser sincere, ficou com uma dúvida atroz sobre qual escolher para levar. Cada um trazia novos detalhes. Os motivos eram variados sendo que em todos estava presente o vigor do traço da mão de Isabel. Pareciam traduzir simultaneamente a leveza e a força existente naquelas mãos. Como era necessário escolher, sugeriu alguns, meio a esmo e pediu que Isabel fizesse a seleção final. Por ele levaria todos eles, mas não tinha espaço para tanto e combinara levar no máximo três.
            Feita a separação, fizeram o envolvimento dos mesmos em mantas de lá para poupar de eventuais atritos e choques. Depois levaram até o carro, onde foram colocados no porta malas, tomando precaução para não ficarem encostados em nada que os pudesse danificar. O espaço que sobrou nos lados foi preenchido com acolchoados e assim evitariam o deslizamento uns sobre os outros. Depois de se certificar da imobilização total das obras, o porta malas foi fechado e José despediu-se de coronel Onofre, Isabel e dona Maria Luiza. Queriam que esperasse pelo almoço, mas não haveria tempo. A primeira visita estava marcada para as 14 horas e não queria se atrasar.
            Sem mais demora pegou a estrada e seguiu para casa. Chegou pouco antes da hora do almoço. Deu tempo de mostrar aos pais os trabalhos de Isabel. Ficaram vivamente impressionados com a beleza e imaginaram como ficariam bem uns quadros daqueles na sala de estar, próximo à mesa de jantar e outras dependências. José recolocou tudo no devido lugar e deixou assim. Almoçaram e pouco depois ele se dirigiu ao encontro do primeiro endereço constante em sua agenda. Era relativamente perto e se deparou com uma casa ampla, mas despretensiosa à primeira vista. Só depois de ver os detalhes se percebia a harmonia do conjunto.
            Foi recebido amavelmente por um homem de cabelos grisalhos, ostentando no rosto os sinais da idade. Deveria estar beirando os sessenta anos de idade, mas ainda dono de um admirável vigor físico. Caminhava com desenvoltura e convidou José a entrar. Após a troca de algumas amabilidades, foi o momento de apresentar o trabalho que vinha trazer. Foi até o automóvel e o dono da casa estava ao seu lado, curioso por ver o que dali sairia. Viu com satisfação o cuidado com que os quadros estavam acondicionados, demonstrando a preocupação com a manutenção da integridade física deles.
            José retirou o primeiro quadro e o passou às mãos do dono da casa, que o levou para dentro, colocando-o em um cavalente existente num canto da sala. José chegou com o Segundo que foi colocado em outro cavalete, ao lado do primeiro. Depois foi buscar o último que foi colocado no canto oposto. Enquanto isso o dono da casa ficou observando detidamente o primeiro, depois o segundo e por ultimo do terceiro. Caminhou até ficar a dois passos de cada um e mirou demoradamente os traços firmes, o contraste das cores, a suavidade do conjunto. Fez o mesmo com os outros dois, depois sentou-se na poltrona, em frente de José. Perguntou há quanto tempo a autora pintava e a pergunta foi negativa pois José esquecera de perguntar. No entanto era possível depreender que isso era algo que Isabel fazia desde vários antos precedentes, pois no canto inferior direito, abaixo da assinatura constava a data de conclusão.
            Um deles era de 1971, outro de 1975 e o outro de 1977. Portanto há pelo menos seis ou sete anos ela se dedicava a arte da pintura. Quis saber onde fizera seus estudos e as respostas foram vagas, pois não houvera tempo de entrar em muitos detalhes a respeito da vida de Isabel. O especialista foi bastante objetivo em fazer sua avaliação. Disse:
            – É nítidamente perceptível a evolução da técnica da autora. Temos aí três trabalhos de um intervalo de vários anos e sem dúvida o último é bem mais perfeito que o primeiro. Isso ao contrário do que possa parecer em primeiro momento, é sinal de que ela está cada dia evoluindo, aperfeiçoando a técnica. O traço fica mais definido, a harmonia aumenta. Para encurtar a conversa, ela é uma artista de futuro sem sombra de dúvida.
            – Fico satisfeito com isso. Quer dizer que valeria a pena tentar levar a coleção inteira ou parte dela para uma exposição em uma galeria, primeiramente aqui em Sete Lagoas e depois talvez na capital.
            – Estou disposto a organizer essa exposição. Queria apenas ter acesso ao acervo complete para fazer uma seleção dos melhores trabalhos e mesmo fazer um escalonamento por época. Evidenciar a trajetória evolutiva do artista é importante num primeiro momento. Pelo que me disse, ela é totalmente desconhecida.
            – Sim. Os únicos quadros expostos estão na casa da fazendo do pai, próximo a região dos lagos.
            – Faz ideia de quantos trabalhos ela tem ao todo?
            – Não tive tempo de contar, mas pelo que observei no espaço em que estão guardados, devem ser perto de cem, se não mais.
            – Ufa! Isso é coisa. Como ela nunca tentou uma exposição?
            – Sabe como é. O pai é fazendeiro, daqueles severos ao máximo. Ela é um pouco tímida. Tinha vontade de ser arquiteta, mas o pai só deixou ela cursar magistério. Ela aproveitou e fez o curso de pintura. É onde ela busca compensação da frustração de não poder fazer o que realmente queria.
            – Perdemos uma arquiteta, mas ganhamos uma ótima pintora. Quem pode saber o que é melhor!
            – Vamos combiner o seguinte. Eu falo com ela e inform sobre sua impressão. Talvez o senhor gostaria de escrever algumas linhas dizendo a ela de sua intenção?
            – Só um instante. Já faço isso e o senhor leva a ela minha proposta.
            – Enquanto isso eu torno a acondicionar os quadros no carro.
            – É uma pena, mas eu até gostaria de ficar com um deles pelo menos.
            – Eu agendei com outro especialista e tenho que levar a ele. Não sabia qual seria sua avaliação e por isso não posso deixare de levar. Mas depois eu converso com ela e podemos chegar a um acordo.
            José acomodou os quadros novamente, tomando cuidado para não esquecer de nenhum canto descoberto ou desprotegido. Nisso o homem lhe estendeu um envelope onde estava a folha de papel timbrado transmitindo à Isabel o desejo de organizar uma exposição com seus trabalhos. Agradeceu a atenção e se despediu. Havia cerca de uma hora até o momento marcado para a segunda visita. Essa transcorreu de modo semelhante à primeira, com a diferença de que o novo especialista era sensivelmente mais jovem. Tinha preferência por trabalhos em linha mais modernista, menos conservadora. Gostou dos trabalhos, apenas deixou clara sua predileção por pinturas mais abstratas, naturezas mortas e coisas assim. José agradeceu a atenção e, levando sua preciosa carga, voltou para a casa dos pais.
            O envelope que levava não estava fechado e ele olhou o que o homem escrevera. Em letra bem traçada dizia primeiramente sentir-se encantado em servir de intermediário para encaminhar tão promissora artista ao mundo da pintura. Depois detalhava os passos que deveriam ser seguidos para a realização de tale vento. José mostrou aos pais e à irmã a carta, depois a guardou cuidadosamente. Tinha motivo para nova viagem até a fazenda e faria isso no dia seguinte. Tinha receio de deixar os quadros no carro ou guardados em algum lugar. Eles poderiam sofrer algum dano e não se perdoaria por isso. 
            Por isso, na manhã seguinte refez o caminho e, quase à mesma hora de sábado, chegou à fazenda. Sua volta em tão curto espaço de tempo, causou estranheza, mas ele logo avisou;
            – Venho trazer boas notícias para Isabel.
            – Bom dia, doutor, – disse Maria Luiza.
            – Bom dia, senhora.
            – Isabel! Isabel! – chamou virada para o interior da casa.
            – O que é mãe? – indagou essa chegando à porta.
            – Escuita o que o doutor tem para dizer pra você.
            José pegou o envelope e o estendeu à jovem. As mãos trêmulas pegaram no objeto com respeito, abriram e retiraram uma fina folha de papel, onde leu palavras de elogio e proposta de realizer uma exposição. Estava assinado com um belo Antônio B. Lemos.
            O primeiro impulse foi gritar, mas se conteve e estendeu a folha para a mãe. Esta demorou um pouco a ler, pois era pouco menos que analfabeta e havia muitos anos não lia nada, além de uma ou outra bula de remédio, isso quando a lia. Depois de decifrar a mensagem, olhou firme para a filha e falou:
            – Eu não falei! Um homem entendido ia dar valor ao seu trabalho.
            Nisso Onofre veio saindo do interior e falou:
            – Uai! O doutor tá querendo afundá o trilho da estrada aqui di casa!
            – Quero não, coronel. Vim devolver os quadros de Isabel e trazer a boa notícia para ela.
            – Boa notícia? Qui é qui o senho tá dizendo?
            – Um dos especialistas ficou encantado com os quadros de Isabel. Quer conhecer todos eles, classificar em ordem de data, depois fazer uma exposição. Primeiro em Sete Lagoas e dependendo do resultado, levar para Belo Horizonte.
            – Oi! Nossa fia ficano famosa, muié! Entonce quer dizer que us quadro qui ela pinta tem valor! Mia Nossa Sinhora!
            – Fique contente, coronel. Estamos diante de uma grande artista.
            – Mais hoji sinhor vai almuçá cu a gente! Ah si vai!
            – Pensando bem, não tenho pressa em voltar para casa. Não vai ter problema nenhum em voltar mais tarde.
            – Vamu prosear aqui na varanda enquanto as miué prepara a boia.
            – Vou primeiro descarregar os quadros. Eu trouxe para evitar acontecer algum dano a qualquer um. Ah! Ia esquecendo Isabel. O seu Antônio Lemos queria ficar com um dos seus quadros. Não deixei pois tinha que levar para o outro. E depois isso vocês acertam depois quando forem preparer a exposição.
            – Minha nossa! Imagine um quadro meu, na sala de um especialista em arte!
            – Vai se acostumando, senhorita. Vai ter muito mais que isso no futuro.


Casario de fazenda.
Rocha pura com formato estranho em Minas Gerais.


Mineiro sovina! – Capítulo VII

 

   Tentando conquistar o “sogro”.
 
 
Enquanto coronel Onofre tirava seu cochilo, José Silvério apreciava o panorama a perder de vista dos cafezais, cobrindo encostas e baixadas. Um ou outro ponto de cor diferente, onde havia uma afloração de pedras, um morro mas íngreme e impróprio para o cultivo, quebrando a monotonia da paisagem. Maria Luiza e Isabel se ocuparam em deixare a cozinha arrumada para ser usada a qualquer momento em que fosse preciso. Trabalhavam de modo sincronizado, levando ao término das tarefas em pouco tempo.
Após a conclusão, Maria Luiza foi até o quarto e viu Onofre ressonando suavemente. Deixou-o quieto e veio até a varanda, sentando-se em uma confortável cadeira de balanço que ali estava colocada. Ao ver que o advogado estava ali e também cochilava, pensou em se retirar para não perturbar lhe o descanso. Ao se mover ele acordou e falou:
– Desculpe. Eu não havia percebido que a senhora estava aí, dona Maria Luiza.
– Tem nada não, doutor. Eu já ia me retirar para não lhe incomodar.
– Nada disso, senhora. Será um prazer conversar com a senhora. Eu cochilei um momento, mas não tenho o hábito de dormir após o almoço.
– Eu raras vezes também deito uns minutos. Geralmente aproveito para pegar um trabalho manual. Faço croche, bordado. Costuro um pouco, mas apenas o suficiente para o gasto.
– São atividades que mantem as mãos e mente ocupados.
– Minha filha é mais prendada. Aprendeu na escola na cidade a fazer pinturas. Está agora lá no atelier dela trabalhando no quadro que está quase pronto.
– Ela se formou em quê, senhora?
– Formou-se professor, mas não tem onde exercer a profissão. Só se for lá para a vila, mas é longe. O diploma por enquanto está enfeitando a parede apenas.
– Para as mulheres ainda é restrito o campo de trabalho. São poucas que conseguem ingressar em cursos mais concorridos. Acho que não é falta de capacidade, mas sim, incentive para enfrentar.
– A Isabel queria ser arquiteta, mas para isso ia precisar morar em Belo Horizonte e o pai, muito ciumento, não concordou com isso. Disse que tinha a fazenda para sustentar ela e não ia precisarr se arriscar na cidade grande. Sabe como é. Ele tem jeito à moda antiga. Filha é para a casa, depois casar, ter filhos e cuidar da casa.
– Um dia isso vai mudr. Por enquanto o quê fazer? E ela não se rebelou?
– Encontrou na pintura uma maneira de compensar a frustração. Viu os quadros na sala, na copa?
– Ví sim. São dela?
– Todinhos. Já pintava nos tempos de estudante e agora, todo dia ela pinta um pouco. Vai haver uma hora que não terá mais lugar para por tanto quadro.
– Nunca tentou expor alguns?
– Ela acha que não vale a pena. Diz que não são bons o suficiente para por no mercado de arte.
– Quem tem que julgar isso são as pessoas que vão apreciar. Geralmente quem faz, encontra defeitos em toda parte.
– Não vou lhe levar lá pois ela não gosta que perturbem quando está pintando. Quando sair de lá, pode conversar com ela e pedir para mostrar o que tem pronto.
– Nem pensar em perturbar a concentração dela. Não podemos olhar melhor os que estão da sala de estar e da de refeições? Olhei de relance antes, mas agora fiquei interessado em ver com detalhes.
– Acho que não há problema. Tem no corredor dos quartos também. Sem contar uma pilha guardada no depósito.
– Então ela produz bastante. Pelo visto é a timidez que a impede de expor seu trabalho. Dá licença que vou olhar detalhadamente esses aqui da sala.
Levantaram-se e foram até perto da lareira, onde havia uma paisagem grande, retratando a vista que estivera apreciando pouco antes, apenas num momento diverso. Os grãos de café estavam quase no ponto de colher. Um colorido de doer nos olhos de tão viva a cor. Um pequeno e delicado Isabel, colocado no canto inferior direito, identificava a autoria da pintura. José observou longamente o quadro e ficou encantado. Olhou de perto, de longe e admirou a perfeição do traço, a nitidez das cores que retratavam o vasto cafezal com os frutos maduros.
Na parede oposta outro retratava uma pessoa, de perfil, provavelmente o pai, num ponto diverso, tendo como fundo outro setor dos cafezais, porém totalmente floridos. Formavam uma vista perfeita. Ali estavam as plantas iniciando o ciclo de produção, do outro lado, no ponto de colheita. Os frutos resultantes da floração mostrada aqui. As outras paredes apresentavam pinturas menores, onde os vastos terreiros de secagem do café estavam cobertos de grãos em diferentes fases de secagem. Os trabalhadores na faina de revirar constantemente, tendo em vista a secagem uniforme e impedir a deterioração dos grãos ainda molhados. Eram pinturas dignas de nota.
Na sala de refeições, os motivos eram outros. Um apresentava uma sala com lareira, confortáveis poltronas onde algumas pessoas estavam sentadas palestrando e saboreando uma xícara de café. Até mesmo o vapor desprendido pelo calor do líquido estava representado. Em outra pintura estava a entrada da propriedade. A mesma placa de madeira que o acolhera naquela manhão ao chegar, estava ali pintada com perfeição, tendo como pano de fundo a alameda de cafeeiros, dessa vez com poucas folhas, mostrando que o quadro havia sido feito na época entre a colhaita e nova floração. Estavam admirando os belos trabalhos, quando a própria autora deles apareceu no ambiente. Ficou por instantes em silêncio, vendo o olhar fixo de José sobre um dos quadros e então falou:
– Não há muito que apreciar nesses quadros, doutor. Não passo de uma principiante.
– Pode até ser principiante, não duvido. O que não deixa dúvida é a força de sua arte. Consegue traduzir a alma do que está retratando de modo muito sutil e vibrante.
– Bondade sua. Mamãe sempre quer que eu leve alguns dos meus quadros para um especialista ver e avaliar. Não creio que valha a pena. São fracos demais. Tenho muito que evoluir em minha técnica de pintura.
– Em seu lugar daria ouvidos à sua mãe e levaria uma amostra para avaliação. Depois de ouvir a opinião de alguém especializado poderá ter uma ideia do real valor do seu trabalho.
– Acha mesmo que vale a pena?
– Só tentando para saber. Em geral somos levados por nossa humildade, timidez a subestimar nossos trabalhos. Alguém que tenha uma visão neutra poderá dar uma opinião mais abalizada, apoiada na experiência e conhecimento que tem.
– Em Sete Lagoas tem algum entendido no assunto? Nunca ouvi falar pelo menos.
– Se me autorizar posso fazer uma pesquisa e saber se existe essa pessoa especializada. Faço uma visita e vejo se ela realmene tem conhecimento ou não passa de alguém curioso, aventureiro em busca de ganhos fáceis às custas de gente desavisada.
– Está vendo filha! Não sou apenas eu que acho seus quadros lindos. Dr. José também e el epode verificar se há quem possa fazer a avaliação.
– Se não houver, podemos verificar alguém na capital. O coronel pode custear as despesas para levar o material até lá e fazer a avaliação.
– Não sei se papai vai querrer gastar dinheiro com isso. Ele gosta de ver os quadros aí, mas nunca falou em vender algum deles.
– Do que oceis tão falando? – perguntou coronel Onofre, que acabara de levantar de seu cochilo.
– Os quadros pintados por sua filha, coronel. São muito bons. Eu tinha visto antes e não sabia quem era o pintor.
– O doutor está se prontificando a intermediar com algum entendido em pinturas uma avaliação dos meus trabalhos. Pode ser preciso levar alguns para a capital.
– Uai, sô! Minha fia aparecer nas revistas e jornais, numa exposição de pintura! Sei não.
– Pode acreditar, coronel. Apesar de não ser entendido no assunto, mas posso garantir que não são de jogar fora. Creio que vale a pena verificar o valor que de fato tem.
– Seis cumbina aí. O dinheiro para a viagem eu arrumo. Só tenho uma fia e vou guardar para quem? Se é para o bem dela, num tem problema ninhum.
            – Vou me informar direito e depois aviso do que for averiguado.
            – Eu vou para coizinha fazer um café e server uns biscoitos a mode lanche da tarde, – disse Maria Luiza.  
            – Só se for para arrematar o almoço que ainda está quase inteiro aqui.
            – Vou com a senhora mãe.
            – Nóis vamo pra perto da lareira, que o frio está pegando. Parece que vai chuvê à noite.
            Em instantes estavam as mulheres na cozinha ocupadas com os apetrechos para coar o café e separar os biscoitos, além de outros doces como pé de moleque e paçoca.
            Indo para a sala de estar, sentaram-se confortavelmente diante da lareira que emitia um suave calor no ambiente. Coronel Onofre avivou o fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Não seria necessário muito fogo. Apenas o suficiente para deixare o ambiente agradável. Ficaram alguns minutos em silêncio, antes de José Silvério criar ânimo para trazer à baila o principal motive que o trouxera ali. Não sabia exatamente como iniciar a conversa e optou por tentar cativar o candidato a sogro, com o que julgava ser algo interessante.  
Puxou do bolso um maço de cigarros, retirou-lhe o lacre e fez emergir algumas unidades pela abertura que fizera. Ofereceu um ao coronel, que o aceitou, depois retirou um para si. A seguir pegou uma caixa de fósforos, retirou um palito, riscou e acendeu o cigarro do coronel. Tomou outro palito, fez o mesmo com o seu cigarro. Após algumas tragadas, uma pequena nuvem de fumaça enchia o ambiente e ele atacou.
            – Eu vim aqui, coronel, com mais um objetivo, além de tirar as fotografias da cerca.
– Uai, sô! Qui é mais qui o senhor veio faze, doutor?
– Eu fiquei deveras impressionado com a beleza e delicadeza de sua filha, coronel. Confesso que meu coração dispara cada vez que a vejo e por isso vim lhe pedir a mão dela em namoro. Se ela me aceitar e nos entendermos, em algum tempo poderemos marcar o casamento.
            O coronel pensou por alguns instantes, olhou bem nos olhos do moço e disse:
– O senhor acha que eu sou louco?
            – Não senhor, muito pelo contrário, lhe tenho muita consideração.
– Então vou entregar uma jóia como a minha fia na mão de quem irá fazê-la passar fome! Eu não faria isso nem em sonho.
            – De maneira nenhuma. Sou advogado, estou bem encaminhado na profissão e desejo dar a sua filha a melhor das vidas que estiver ao meu alcance.
            – Vivendo como um perdulário? O senhor não vê que o cigarro é artigo muito caro para ir distribuindo por aí a qualquer um? Dispois, gastar dois paus de fósforos para acender dois cigarros, com tanto fogo ai mesmo na lareira? Não e não. Com minha fia o senhor não se casa. É mior que fique sorteira.
            – Vamos deixar esse assunto para um outro dia. Vou cuidar de alcançar sucesso na profissão e lhe mostrar que sou capaz de dar a senhorita Isabel uma vida digna. Voltaremos a falar no assunto em outra oportunidade.
            – Qui é que le parece o causo da ação contra o muquirana do meu vizinho?
            – Creio que, com as fotos que tirei, poderei instruir muito bem a petição que farei ao juiz. Quando for marcada a audiência, eu lhe avisarei.
– Desculpe o mau jeito. Sou muito observador dos detalhes. E a sua atitude hoje, demonstrou que não tem o devido cuidado com o dinheiro que ganha. Isto pode se tornar um problema com o tempo. Acaba-se gastando mais do que ganha e quando se dá conta, está enterrado em dívidas.
            – Tenha certeza que vou tratar de aprender a lição e espero que o senhor não me poupe de suas observações. Vou me tornar digno de sua confiança e então me confiará a mão de sua filha. Mas isso fica para outra ocasião.
            Nesse momento Isabel entrou trazendo o bule fumegante de café e a mãe Maria Luiza a seguia com uma bandeja onde havia biscoitos, páezinhos de queijo, paçoca e pés de moleque. Tudo foi posto sobre a mesa de centro e Isabel se pôs a server as xícaras luxuosas com o conteúdo do bule. Entregou a cada um a sua e ofereceu o açucareiro para que se servissem. Depois colocou a bandeja com os doces mais perto e pediu que se servissem do que lhes fosse do agrado. Serviu para si mesma uma xícara de café, sentou e se pos a sorver em pequenos goles. Tomava o café sem açúcar. De acordo com suas palavras não queria engordar.
            A conversa correu leve, falando de amenidades, notícias vindas recentemente da capital federal sobre o andamento do governo do General Ernesto Geisel. Pessoalmente coronel Onofre preferia que houvessem colocado no posto mais importante da nação um representante mineiro, mas nesses tempos era melhor manter o bico fechado, para não entrar mosca. Quem se aventurasse a falar demais, poderia enfrentar situações bastante desagradáveis. Isso era algo que não apetecia ao nosso coronel. Prezava sobremaneira sua liberdade, a propriedade e seus bens em geral. Pensava duas, três e mesmo mais vezes antes de dizer o que quer que fosse relacionado ao governo e mesmo qualquer autoridade.
            Após o café, alguns biscoitos, uma segunda xícara e um pé de moleque, José julgou ser hora de bater em retirada. Para uma primeira visita era bastante. Não convinha demorar demais para não dar impressão de ser aproveitador. Deixou combinado com Isabel fazer tudo para saber da existêncie de alguém capaz de fazer a avaliação de seus quadros. Se não pudesse ser em Sete Lagoas, seria na capital Belo Horizonte.
            – Bem coronel, dona Maria Luiza, senhorita Isabel. Já são quatro horas, o tempo passou depressa. Foi um prazer visitar sua propriedade. O almoço foi maravilhoso, seu café Isabel, e seus doces dona Maria, muito bons. Coronel, parabens pela propriedade e pela família. Tudo perfeito. Gostaria de ficar mais um pouco, mas quero chegar cedo em casa e me preparer para a semana de trabalho.
            – A pressa é sua, doutor. Nóis ficamo muito honrado em le receber em nossa casa. A porta está sempre aberta para os amigos.
            – Doutor, obrigada pelos elogios aos meus dotes culinários. Dê um abraço em sua mãe, seu pai e irmãos.
            – Obrigada pelo elogio aos meus trabalhos. Se conseguir um avaliador não sei como poderei lhe agradecer.
            – Imagine! É um prazer server a quem me recebeu tão gentilmente, me serviu café e comida tão bem preparados. Espero ser merecedor de estar aqui em outras oportunidades.
            Levantaram-se e sairam para a varanda. José estendeu a mão a todos, despedindo-se e depois foi até o automóvel. Em pouco estava a caminho de casa. Ia pensativo sobre as palavras do coronel. Não imaginara que o velho fosse ser tão “sovina” a ponto de considerer sua attitude como perdulária. Não era à toa que no resto do país os mineiros eram conhecidos como mão fechada. Os famosos mãos de vaca. Percorreu a distância sem pressa e antes do por do sol estacionava na garagem da casa de seus pais. Ouviu ruido de conversação ao se aproximar da porta da moradia. Uma tia, irmã da mãe e seu marido haviam vindo passear. Moravam num vilarejo a alguns quilômetros de distância. Certamente estariam se despedindo em pouco tempo. Habitualmente não gostavam de andar na estrada em horas da noite.
            Ao entrar foi recebido alegremente. A tia e o tio não o viam há bastante tempo e estavam orgulhosos do progresso que ele vinha obtendo na carreira de advogado. Congratularam-se com ele e lhe desejaram sucesso. Quiseram saber como havia transcorrido a visita que acabava de fazer ao cliente, aparentemente importante. Lhes informou brevemente o que acontecera, omitindo os detalhes que só a ele interessavam evidentemente.

 

            Em pouco os tios se despediram para retornar ao lar. Tinham alguns animais domésticos que precisavam ser cuidados antes de escurecer e o sol estava se pondo. 

Mineiro sovina! – Capítulo VI.

 

    Visitando o cliente
Domingo cedo, vestiu uma roupa elegante, sem ser formal. A visita que faria envolvia aspectos profissionais, no entanto deveria guarder uma aura de informalidade. Fez uso de um perfume discrete e marcante que lhe agradava muito. Deu um retoque no penteado, ajeitou a gola da camisa e conferiu o aspecto geral olhando-se de longe no espelho. Passou no mercado para pegar com o pai as chaves do automóvel. Aproveitou para colocar nos bolsos do blazer, um maço de cada uma das melhores marcas de cigarros e algumas caixas de fósforos. Despediu-se do pai e da mãe.
Foi até o automóvel, abriu a porta, colocou a chave na ignição, deu a partida. Aguardou alguns instantes enquanto verificava se estava tudo em ordem, o motor já aquecido, saiu dirigindo devagar, saboreando o sol radioso daquele dia, que para ele era especial. Durante cerca de quarenta e cinco minutos, percorreu estradas secundárias. Cafezais de um lado e outro ou então cercas de pastagens povoadas de animais de raça, criados na região. Em pouco, surgiu à sua frente o portal da propriedade que iria visitar. Não havia portão, mas a entrada era encimada por uma vistosa placa na qual se podia ler, entalhado em uma enorme prancha de madeira de mogno Fazenda Pires, propriedade de Onofre Pires.
Parou por alguns instantes, apreciando a soberba entrada. À sua frente se estendia, em linha reta, uma estrada bem conservada, ladeada de plantações de café em ambas as margens. A próxima safra prometia ser boa. Os cafeeiros estavam vergando os galhos sob o peso das frutas que traziam, ainda verdes, mas não muito distantes de atingir o ponto de maturação. Inspirou profundamente, premiu o acelerador suavemente e fez o Ford Corcel GT rodar em velocidade moderada para o interior da fazenda. Em minutos estava diante da imponente casa, um verdadeiro palacete, onde residia o Cel. Onofre e sua família.            Estacionou à sombra de uma árvore frondosa próxima da casa. Após desligar o motor, abriu a porta e desceu. Imediatamente ouviu a voz forte do coronel, que lhe dizia, parado na ampla varanda que circundava a frente e uma lateral da casa:
– Seja bem vindo, Dr. José. Venha tomar um café, recém coado.
            – Bom dia, coronel Onofre. Que dia lindo está hoje. Bela propriedade o senhor tem aqui. Se o resto for de acordo com o que pude ver até aqui, é uma maravilha. Só posso lhe parabenizar.
            – Bom dia, doutor., – cumprimentou o coronel quando José chegou perto e lhe estendeu a mão. – Ainda não viu nada. O que viu, é apenas uma pequena amostra do que tenho aqui. Vamos entrando, que já mandei servir o café.
Entraram e o coronel lhe indicou uma confortável poltrona, instando-o o a se sentar, enquanto ele mesmo ocupava outra igual, bem à sua frente      .
            – Isabel, minha filha, traga o café. Nosso visitante chegou. Hoje é o dia de folga dos criados, por isso é minha filha que vai nos servir o café.
Foi assim que José ficou a par do nome da filha do coronel. Quando a conhecera no escritório, não se lembrava se havia sido dito o nome da jovem. Importante era o fato de que não se lembrava do nome. Era mais provável que não havia sido pronunciado o nome dela. No mesmo instante adentraram a sala a jovem Isabel, portando a bandeja com as xícaras, açúcar e um fumegante bule de um café que espalhava seu delicioso aroma. Era sinal de que o produto usado era de excelente qualidade. Junto com a jovem, veio sua mãe, uma elegante senhora, sobriamente vestida.
            – Dr. José, esta é minha esposa, Maria Luiza. Isabel, minha, filha o senhor já teve ocasião de conhecer.
José levantou-se e apertou a mão que a senhora lhe estendia, dizendo:
            – Encantado, minha senhora. Bom dia para ti também, Isabel.
            – É um prazer tê-lo em nossa casa, doutor.
            – O prazer é todo meu, em visitar uma propriedade tão aprazível. Sua casa é decorada com muito bom gosto.
            – Boa parte disto se deve à minha filha Isabel. Recentemente fizemos uma remodelação nos móveis. Foi dela a escolha da maior parte dos móveis e dos itens de decoração.
            – O velho Onofre aqui, só era convidado a assinar os cheques para pagar as contas, sem direito a reclamar, – resmungou o coronel em sua poltrona.  
            – Pai, não reclame. Bem que o senhor gostou. Cansei de ouvir o senhor se gabar diante das visitas que recebe. O senhor fala um bocado alto. Mesmo não querendo pode-se escutar o que diz, no último recanto da casa.
            – E qual é a coruja que não gaba o seu toco? Sou igual a todo mundo.
            – Vocês dois não podem deixar as rabugices para outra hora?
            – Creio eles tem o temperamento parecido. E como dois bicudos não conseguem se beijar, fica explicada a pendenga, – disse José, enfiando sua colher na conversa.
            Acabaram todos numa sonora gargalhada.
            – Mas vamos tomar o café, antes que esfrie. O melhor café, depois de frio, fica horrível.
            – Concordo com a senhora, – atalhou José, recebendo a sua xícara das mãos delicadas de Isabel. Sorveram lentamente o líquido de aroma delicioso.
            Ao final, José falou:
– Parabéns, dona Maria Luiza. O seu café é realmente muito bom.
            – Não fui eu que fiz, foi Isabel. Pode crer, ela sabe melhor do que eu fazer um bom café. A quantidade exata do pó, a temperatura ideal da água. Ela é quem detém esses segredos.
            – Não é preciso exagerar mamãe, – replicou a jovem.
– Não é exagero. Tua mãe está com a razão. Ela te ensinou, mas você se tornou melhor do que a professora.
            – De qualquer modo, parabéns a quem fez este café. Até vou aceitar mais uma xícara. Normalmente não tomo muito café, mas este merece uma reprise, com toda certeza.
            – Pode tomar a vontade. Café é o que aqui não falta. E logo vamos ter nova safra e, pelo jeito, das boas. Deve ter visto pelo caminho a carga que tem nos cafeeiros.
            – Pois é mesmo impressionante. Os galhos estão quase quebrando de tão carregados que estão.
            – E esta é a área em que não está mais bonito. Depois iremos ver outras partes onde a carga é mais plena.
            Terminaram de tomar o café e o coronel Onofre convidou:
            – Vamos aproveitar que ainda é cedo, não está muito quente e vamos olhar o lugar que motivou a encrenca. No caminho aproveitamos para ver o cafezal que me enche de orgulho e alegria.
            – Por mim podemos ir, pois do contrário acabo bebendo o restante do bule de café e isto é muito para uma manhã.
            – Venha por aqui. Não quer aproveitar e colocar umas botas? Este seu sapato vai ficar cheio de terra, o que vai tornar difícil caminhar.
            – Se tiver algum par que me sirva.
            – Qual é o número que o senhor calça? Me parece que é do tamanho do meu.
            – Meus sapatos são número quarenta e um.
            – Pois tenho um par sob medida para o senhor.
            Saíram para os fundos da casa, onde, em uma área coberta, havia diversos pares de botas. O coronel Onofre pegou um deles e ofereceu ao convidado. Dr. José descalçou os sapatos e tratou de colocar as botas, que realmente lhe serviram perfeitamente. Enquanto isso, coronel Onofre também calçou o seu par de botas predileto. Colocou um chapéu, oferecendo um ao advogado que aceitou. Saíram e, enquanto caminhavam, o proprietário foi mostrando os detalhes de seus domínios. Passaram por um açude, onde, nas palavras do coronel, nadavam as carpas mais gordas e grandonas de toda a redondeza. Quando tinha vontade de saborear um peixe frito ou assado, era só capturar uma ou duas e estava pronta a festa.
Após meia hora de caminhada, chegaram ao ponto da divisa entre as propriedades, motivo da demanda em andamento. José fez perguntas que achou pertinentes e o coronel respondeu, explicou o que o levara a entrar com o processo. José, que se prevenira com uma pequena câmera fotográfica, bateu algumas fotografias em que ficava patente a ação fraudulenta do vizinho. Elas o auxiliariam na instrução do processo. Nelas ficava evidente que a cerca fora deslocada e também mostravam o local onde o gado do vizinho invadira a propriedade do coronel, causando danos aos cafeeiros. Havia uma meia centena deles que estavam totalmente quebrados. Para sua recuperação era necessário o corte baixo e esperar a brotação nova vir. Só depois voltariam a produzir novamente.
            – Pelas fotografias vai ser mais fácil mostrar o que motiva o pedido de indenização e a volta da cerca ao local original, – disse José ao coronel.
            – Destas coisas o senhor entende mais do que eu. Tenho certeza de que vai saber tirar uns bons cobres do muquirana do meu vizinho. Eu não quero mal a ele, mas tentei conversar e ele me mandou para aquele lugar. Disse que fosse dar queixa ao Bispo, ou então ao Papa. Pode uma coisa dessas? Me causa um prejuízo dos bons e ainda não quer nem conversar! Então vamos conversar na frente do homem da capa preta. Uai! Não é à toa que sou conhecido como coronel Onofre Pires por essas bandas. Sou de ficar no prejuizo não, sô.  
            – Os seus empregados viram os fatos e podem testemunhar em seu favor?
            – Com certeza. Posso levar uns cinco, se for preciso.
            – São mais do que suficientes, – foi a resposta de José.
            Deram mais uma volta para ver outra parte da propriedade e tomaram o rumo da casa. O sol estava ficando quente e a hora do almoço estava se aproximando. Não queriam fazer as mulheres ficar esperando por eles. Se havia algo que Onofre prezava era a pontualidade da hora do almoço. Não lhe agradava chegar atrasado para esta hora.
            Quando Maria Luiza escutou o ruído dos passos na área de serviço e a conversa dos dois homens, chegou à porta e falou:
            – Mais um pouco e eu iria atrás de vocês. O assado está pronto, as saladas temperadasa. É o tempo de se lavarem e virem para a mesa.
            – Já estamos indo, mulher. É só descalçar as botas, jogar um bocado de água no rosto e nas mãos e estamos prontos. Doutor, aqui tem sabonete, toalha e a pia. Quer lavar as mãos e passar uma água no rosto? Use à vontade. 
José lavou as mãos, enxaguou o rosto, depois se enxugou com a toalha que ali havia. Foi secundado por Onofre e em instantes adentravam a sala de refeições, luxuosamente decorada, sem exageros. Uma ampla mesa em mogno, rodeada de oito cadeiras finamente torneadas e envernizadas. Sobre a mesa uma toalha de linho fino, acabada com um barrado de crochet. Os pratos eram de fina porcelana e os talheres em aço inoxidável, encrustados de filigranas de ouro. Onofre indicou a Rodrigo uma cadeira, onde o mesmo se sentou, enquanto ele sentou-se à cabeceira.
Logo entraram Maria Luiza, trazendo um apetitoso assado de pernil suíno, seguida de Isabel com a travessa de salada nas mãos. Acomodaram o que traziam sobre a mesa, retirando-se em busca dos complementos para o almoço. Pão caseiro, uma tigela com farofa, uma jarra com vinho tinto, produzido na fazenda, com as uvas cultivadas em uma encosta pedregosa que havia perto da casa. Aipim cozido ao ponto de estar quase derretendo e também maionese feita pelas mãos de dona Maria Luiza. Após terminarem de por a mesa, as mulheres sentaram-se para almoçar.
            – Vamos nos servir, doutor. Se demorarmos a comida esfria e perde o sabor.
            – É a mesma coisa que a minha mãe sempre diz. Os comensais devem esperar pela comida e não o contrário.
            Atacaram com vontade os pratos e em questão de meia hora, sobravam apenas os restos mortais do que antes fora uma refeição primorosamente preparada, apesar da simplicidade dos pratos.
Com o término da refeição, as mulheres pediram licença e retiraram os pratos, talheres, as travessas e tigelas. Em pouco, puseram no lugar os pratos e talheres para sobremesa, que consistia de um delicioso pudim trazido pelas mãos de Isabel. Serviram-se do pudim, degustaram-no com prazer.
            – Um digno acompanhamento para uma refeição soberba. Parabens dona Maria Luiza e a você também senhorita Isabel. Obrigado pelo almoço.
            – Vamos tomar um cafezinho e depois iremos para a sala de estar. Vou lhe servir um licor, que garanto, o senhor nunca experimentou. É obra das mãos de minha querida Maria Luiza.
            O café foi servido e lentamente saboreado. Quando as xícaras ficaram vazias, dirigiram-se para a sala de estar, onde, a um canto, crepitavam algumas achas de lenha em uma lareira, apresar do clima relativamente quente da época. José Silvério, acomodou-se em uma confortável poltrona, forrada de fino couro, enquanto o Cel. Onofre foi até um barzinho, pegou uma garrafa com o licor, duas taças onde verteu um pouco do conteúdo da garrafa. Entregou uma ao advogado e, com a outra nas mãos, sentou-se em outra poltrona ao lado. Bebericaram lentamente o licor e José teve que admitir. Era de um sabor inimaginável. Dona Maria Luiza tinha verdadeiras mãos de fada. Nunca tinha provado um licor com sabor semelhante.
            – Coronel, sua senhora tem um poder mágico nas mãos. Este licor é algo que eu jamais tinha tido o prazer de experimentar. Faça o favor de lhe dar os parabéns.
            – É herança de família. Ela vem de linhagem residente nessa região há mais de dois sécculos, sempre lidando com gado, depois café e outras atividades.
            – Essa sabedoria precise ser tansmitida de geração em geração para não se perder. Seria bom mesmo escrever a receita e deixare para a posteridade.
            – Isso é lá com elas. Se tiverem vontade de fazer algo assim, tenho nada contra. Fico contente em ter aqui para meu consume. O dinheiro para viver e gastar vem do café. As outras coisas são acessórios.
            – Nem pensaria em questão de ganhos, mas em preserver o sabor que é único.
            – Depois vocês conversam e se elas quiser anotar, muito bem, doutor. Aceita deitar um pouco para uma sesta?
            – Não sou habituado, mas não faça cerimônia, coronel. Se tem o costume, faça sua sesta. Eu por meu turno me acomodo ali na varanda naquela rede. Faz tempo que não deito numa rede e aprecio o verde, o ar puro. O dia hoje está especial.
            – Pois entonce, fique à vontade, que eu vou cochilar um bocadinho. Um instante apenas que já é de hábito.
            – Descanse tranquilamente, coronel.
            – Com licença e esteja à vontade.
            Coronel Onofre foi para o quarto e se acomodou para o cochilo. Um hábito cultivado há muitos anos. José por sua vez foi até a varanda e verificou se não existia nenhum inseto ou coisa estranha na rede, depois deitou-se confortavelmente. Dali podia ver uma ampla área das plantações de café da propriedade de seu cliente. Nunca tivera oportunidade de observer os cafeeiros nessa fase de desenvolvimento. Formavamo um espetáculo belo. O verde escuro das folhas, contrastando com o tom levemente mais claro dos grãos que se destacavam ao longo dos caules de seus galhos.
            Passou um bom tempo ali, meditando sobre a vida bucólica que levavam os proprietários das fazendas de café. Havia a temporada da colheita, antecipada pela manutenção da limpeza, quando a faina era intensa. Mas nos intervalos a vida corria plácida e serena. Muito diversa da agitação urbana, onde desde o clarear do dia ao anoitecer havia sempre gente em constante movimento. Indo, vindo e um corre corre incessante. Até mesmo no período noturno havia movimento, menos intense é claro, mas, nas capitais, certos pontos em determinadas noites eram mais movimentadas que as horas diurnas.

Mineiro sovina! – Capítulo V

 

     O primeiro cliente
Na manhã seguinte, estava lá o Dr. José. Ansioso por receber o primeiro cliente importante. O Cel. Onofre veio acompanhado da filha. Quando deitou os olhos na donzela, teve que fazer um grande esforço para manter a calma. Ficou violentamente impressionado com a beleza da jovem. Tinha a pele branca, mas de um branco sedoso. Cabelos negros e longos, quase chegando a cintura, emolduravam o rosto de traços delicados, no qual brilhava um par de olhos verdes como nunca vira. Levava no dedo um anel de formatura do curso de magistério que concluira no ano precedente. Se iria exercer a profissão era outra questão, mas causava boa impressão na época ser professor formada.
Tão logo Roberta anunciou a presença do coronel, José foi pessoalmente até a porta para convidar o cliente a entrar no gabinete.
          Tenha a bondade coronel. Vamos entrando. A senhorita quer acompanhar seu pai? – indagou à filha.
          Vou sim. Papai as vezes tem dificuldades de se expressar e preciso ajudar nos momentos de dificuldades.
          Por favor, sentem-se.
A porta foi fechada e todos se sentaram. Dr. José em sua poltrona giratória atrás da ampla escrivaninha, o coronel e a filha em confortáveis poltronas colocadas lateralmente em frente.
          Em primeiro lugar, coronel, quero desejar boas vindas à nossa empresa de advocacia. Em que podemos servi-lo, coronel?
          Buenos dias, doutor. Estou tendo umas pinimbas com um vizinho.
          Por causa de que o senhor se desentendeu com o vizinho?
          Por mode um zóio d’água, que tem nas minha terra, quase na divisa com as dele.
          E o que aconteceu.
          Em dantes, nos tempo do pai dele, nois fizemo a demarcação e ficou tudo certo. Agora, duns tempo pra cá, ele cismou de que aquela água faz parte as terra dele e mudou a cerca de lugar. Para isso ele cortou mais de cinquenta pé di café meu.
          Mas ao menos tentou negociar com o senhor o uso da água?
          Aquilo negocia! É mais arrogante e teimoso qui mula empacada.
          A demarcação que vocês fizeram no tempo do pai dele está guardada, registrada, tudo como manda a lei?
          Fia! Pega aí na sua pasta o paper e mostra pro doutor.
A moça pegou o document e entregou a Dr. José. O document realmente mostrava claramente a localização da vertente e o lugar da divisa. Era claro que pertencia ao coronel Onofre a água. Isso não impediria um entendimento de uso do recurso hídrico pelo vizinho, mas demandaria concordância de ambas as partes o detalhamento desse uso.
          Pelo que mostra esse documento, a vertente se encontra na sua propriedade. O vizinho não pode fazer a mudança de cerca sem mais nem menos.
          Uai! I eu ia reclamar sem razão! Tivesse vindo cunversá igual gente, nóis ia si intende com certeza. Mas cortá assim cinquenta pé de café produzindo, carregadinho que é coisa linda. Vai ficá sim troco é nunca.
          O senhor tem plena razão, coronel. Nós vamos encaminhar o processo de reintegração de posse da área que ele invadiu de sua propriedade, além de outro pedindo indenização do prejuizo causado.
          Mais num dá pra fazê tudo ni um processo só? Com dois o custo é maio.
          Eu entendo coronel sua preocupação com os custos. Mas faremos uma composição para que o custo não seja nada além do razoável. Por outro lado, se o vizinho for condenado, também terá que arcar com as custas do processo e o senhor não terá despesa alguma.
          Pode cobra em dobro dele e passa metade para mim, só para ensiná esse coisa ruim.
          Existem limites estabelecidos para cobrar honorários e isso não pode ser feito. Mas sua indenização será justa pode ter certeza.
          Qui é qui temo qui faze pra mode entrar com os tais de processos?
          Vamos começar por uma procuração que o senhor vai assinar para que o escritório, representado por mim ou outro advogado possa questionar judicialmente seu vizinho. Também precisamos fazer umas cópias dos documentos. Se o senhor tiver tudo aí, eu peço à secretária para providenciar as cópias e também do modelo da procuração.
Os documentos foram apresentados e um minuto depois eram entregues à Roberta para providenciar as cópias que deveriam ficar anexas ao processo. Dr. José redigiu rapidamente uma declaração que seria datilografada e depois assinada por coronel Onofre, relatando o ocorrido em sua propriedade, motivando a petição judicial contra o vizinho. Enquanto escrevia conversava com o coronel.
Quando Roberta voltou com as cópias, recebeu o rascunho da declaração para ser datilografada. Saiu e foi providenciar o que estava sendo solicitado por seu chefe. José conferiu as cópias, apôs em cada uma delas um carimbo e uma rúbrica atestando a autenticidade das mesmas. Depois devolveu os originais à jovem sentada ali, em silêncio absolute até o presente momento. Ao receber os documentos os seus dedos esbarraram de leve na mão de José. Imediatamente sua tez se tingiu de rubro, tamanha era sua timidez.
Combinaram a forma de cálculo das custas e a época dos pagamentos. Na opinião de José, seria importante poder ver in loco as causas do descontentamento do cliente. Assim poderia formular melhor as petições ao juiz. Sugeriu uma visita à propriedade no dia mais adequado. Levaria uma camera fotográfica para tirar uns instantâneos para colocar anexos ao processo. Uma fotografia era mais eloquente que um desenho, um mapa.
            – Le aguardo lá na fazenda para o almoço de domingo, douto. Mió vim um poco mais cedo, mode nóis oia o lugar antes de cumê. Num fica longe. Se quisé, mando o motorista le apanhá lá pelas oito e meia.
            – Não será necessário. Vou no automóvel do meu pai. Ele quase nunca usa mesmo. Vai ser bom andar com ele, caso contrário vai acabar ficando enferrujado por falta de usar. Pode me esperar que apareço por lá. Já tenho anotado o endereço e conheço bem a região. Fica perto dos lagos.
            – Isso memo. Ficamo cumbinado doutô. Vou pedir pra patroa caprichar na bóia. Ela tem mão boa nos tempero.
            – Vou providenciar a preparação dos processos. Domingo faço as fotografias. Semana que vem revelo, anexo e encaminho. Em um mês ou dois vamos ter a primeira audiência.
            – Ma I demora tanto ansim? Mia nossa Sinhora! Qui coisa mais demorada essa nossa justiça.
            – Infelizmente coronel. Os juízes são poucos e estão sobrecarregados. Por isso a demora. Depois tem uns trâmites que não podem deixar de ser cumpridos; prazos legais e tal.
            – A lei protegendo os safado! Mas qui é qui si vai faze? Prazê em li cunhece, douto.
            – O prazer foi meu, coronel. Até logo senhorita!
            – Até, doutor. Vamos lhe aguardar domingo.
            – Sem dúvida. Não vou faltar.  
            Após a saída dos dois, Roberta comentou:
            – Tem um coração que balançou, aliás está balançando até agora.
            – Por que você diz isso?
            – Não pensa que sou cego. Vi muito bem como ficou quando a moça lhe estendeu a mão. Você quase desmaiou. Acho que ela também percebeu. Mas não disse nada, ela é realmente muito bonita. Demonstra que você tem bom gosto.
– Você andou vendo coisas. Não aconteceu nada demais. O pai dela é um cliente importante.
– Muito conveniente fazer uma visita à fazenda. Ocasião propícia para rever a moça, quem sabe, pedir ao pai para namorar com ela?
– Que imaginação fértil você tem, Roberta. Vai devagar. Quem cuida de minha vida sou eu. Não posso me expor a perder um cliente importante com leviandades.
            – Desculpe a indiscrição. Não é da minha conta cuidar dos seus sentimentos. Devo me ater a realizar o meu trabalho.
– Então vamos a ele. Temos vários processos para terminar. Vou dar entrada neles amanhã cedo no distribuidor.
– Verifiquei sua agenda e devo lembrar que não pode esquecer da audiência amanhã a tarde na vara de família.
            – É mesmo! Preciso ultimar alguns detalhes do processo. Vamos começar por ele agora mesmo. Depois terminaremos a montagem dos outros cinco processos em que estamos trabalhando desde a semana passada.
            Ocupados com o trabalho, não viram o tempo passar e logo estavam voltando para casa. O Dr. José, ainda ficou um pouco mais, estudando a legislação específica aplicada no processo de guarda dos filhos de um casal que havia se desquitado. Não haviam ainda chegado a um acordo aceitável no que tange à guarda dos filhos. Era a sua primeira audiência e queria estar em condições de apresentar uma boa defesa dos argumentos de seu cliente. Este reclamava do não cumprimento dos dias de visita aos filhos que haviam sido estabelecidos por ocasião da homologação do desquite.
            O resto da semana passou rápido, entre audiências, entrevistas com clientes, intermediação de acordos entre partes litigantes, redação de pareceres, estudo de casos semelhantes aos que tinha em mãos no momento. Era necessário estar sempre atualizado com a jurisprudência, as novas leis e decretos que eram promulgadas diariamente. Não tinha quase nenhum tempo para sequer conversar com o pai, a mãe e sua irmã. Teria que organizar suas atividades para fazer frente ao volume de tarefas que surgiam a cada dia.
            Conversou com o pai sobre a utilização do automóvel no domingo, para visitar o cliente fazendeiro. Em nenhum momento, deixou transparecer a paixão à primeira vista pela filha do coronel. Só iria falar a respeito disso com a família, se fosse bem sucedido com o que tinha em mente, no decurso da visita que faria à fazenda. Fizeram uma revisão no veículo, mandaram lavar e polir. Coisas aliás de que ele andava precisando.

Mineiro sovina! – Capítulo IV.

 

Enfim advogado.
Quando a carteira de advogado chegou, José Silvério fez questão de ir até o gabinete do diretor geral do escritório apresentar o documento.
– Parabéns! Isso é muito bom. O número de clientes tem aumentado consideravelmente. Estava na hora de ter mais um integrante na equipe. Que possa assumir causas, defender réus e por aí afora.
            – Estou a disposição para o que der e vier. Creio que já adquiri experiência durante estes meses que aqui trabalho. Pode contar comigo.
– Vamos providenciar um gabinete para você. Hoje mesmo me reúno com os outros sócios para tratar disso. Já tenho uma ideia para isso. Tem uma peça ali no final do corredor, que está sendo ocupada como depósito. Vamos remover tudo de lá, reformar, mobiliar adequadamente e teremos onde instalar o novo associado.
– Fico agradecido. Vou me esforçar ao máximo para corresponder à sua confiança.   
            – Tenho certeza que vai ser um bom profissional. Já o conheço desde quando ainda usava calças curtas, no mercado do seu pai. Bons tempos aqueles, você não acha?
–  Com toda certeza, mas a vida segue seu curso. Agora vou para minha mesa. Um bocado de processos espera para serem analisado e elaborados os pareceres. Vou deixar a minha pauta limpa, antes de assumir novas funções.
            – Vai e faça o que tem para fazer.
Foi até a sua mesa, pondo-se a trabalhar com afinco mantendo um sorriso permanente no rosto. Não demorou e os outros funcionários notaram a euforia. Alguém comentou com a vizinha de mesa e esta resolveu perguntar:
            – José, você viu passarinho verde na vinda para cá?
            – Por que a pergunta, Roberta?
            – É que está com o rosto radiante. Dá para notar de longe. Até parece que arrumou namorada.
–  Não é nada disso, Roberta. É que hoje encontrei, na caixa de correio, um envelope que me trouxe minha carteira da OAB. Agora sou advogado de verdade, não mais apenas bacharel em direito.
            – Vamos ter que tratar você por Dr. José. Que chique. Você merece, se esforça e cumpre com suas obrigações como ninguém. Vai ser bom trabalhar perto de você. Onde vai ser o seu gabinete?
– O Dr. Arlindo vai resolver isso hoje com os outros sócios. Hão de arranjar algum lugar para me instalar. Vou ter que escolher uma secretária. Você aceita o posto, Roberta?
– Quanta honra. Se precisar, pode contar comigo, Dr. José Silvério.
            – Menos cerimônia, somos antes de mais nada amigos. Apenas muda a minha posição dentro do escritório, o resto permanece na mesma.
– Vai ser um bom chefe, tenho certeza.
Todos se aproximaram para cumprimentar o novo membro da associação de advogados. Até ali haviam sido praticamente colegas, com a diferença de que sabiam ser ele candidato a ocupar um gabinete na organização. Nas semanas seguintes a citada peça do prédio, que servia de depósito, foi esvaziada e um frenético processo de reforma teve lugar. Em duas semanas a reforma estava feita, uma ampla janela fora instalada. Vieram móveis novos, no estilo dos demais gabinetes. Quando tudo ficou pronto, foi oferecido a todos os integrantes da organização um coquetel de inauguração do novo gabinete, onde iria atuar o mais novo membro do já famoso escritório de advocacia.
Na manhã seguinte, José Silvério da Silva, entrou pela primeira vez em seu gabinete, ainda rescendendo a tinta, móveis novos e o sol iluminando o ambiente pela ampla janela. Sentiu-se realizado até aquele momento. Mas esperava muito mais da vida. Tinha objetivos elevados e iria atingir os que fosse possível, reformular os demais e estabelecer novos na medida que as coisas fossem seguindo seu ritmo próprio.
Não tentaria atropelar os fatos. Considerava que tinha a vida pela frente e a seu dispor os instrumentos para realizar seus sonhos. Logo chegou Roberta que confirmara a aceitação de seu convite para ocupar o lugar de secretária. A experiência dela na função era de grande valia.
Atendeu alguns telefonemas de clientes que haviam sido colocados sob sua responsabilidade, bem como alguns novos que tinham questões pendentes de processos judiciais e estavam sendo encaminhados para seus cuidados. Evidentemente, qualquer causa de maior envergadura, contaria sempre com o apoio dos colegas mais experientes. Mesmo em caso de dúvidas, poderia recorrer aos conselhos dos mais antigos na organização.

            Naquela tarde lhe foi passada uma causa que envolvia querelas entre fazendeiros vizinhos no tocante às divisas entre suas terras, cercas deslocadas e animais provocando danos no cafezal de um dos envolvidos. Tivera oportunidade de trocar algumas palavras com o Cel. Onofre Pires, cafeicultor da região. Ele viria no dia seguinte às nove horas, trazer documentos, relatórios e dados para promover uma ação indenizatória contra o vizinho.

Mineiro sovina! – Capítulo III

 
 
As entrevistas prosseguem.
            Nos próximos três dias, a rotina seguiu, apenas houve um dia em que compareceu a dois encontros pela manhã e dois à tarde. Os estilos e tamanhos dos escritórios variavam de conformidade do gosto do(s) dono(s), e se ajustavam à disponibilidade financeira também. Entre as propostas havia de tudo. Desde as que lhe propunham algo pouco acima de um trabalho escravo e sem perspectivas de crescimento. Havia também quem propusesse algo que estava evidente ficara acima das possibilidades. Ficou na dúvida na motivação que determinara isso, mas por prudência separou as duas que lhe pareceram for a da realidade. Igualmente descartou imediatamente as que não mereceriam o esforço de serem analisadas. Feito isso restaram seis. Cinco eram praticamente equivalentes, e uma delas trazia em si um diferencial significativo.
            Fez uma análise criteriosa das outras cinco, deixando essa para o fim. Estabeleceu um paralelo entre elas e verificou que, salvo ligeiras variações, as propostas eram basicamente iguais. Qualquer uma delas não seria de modo algum desprezível para qualquer candidato a trabalho, recém formado bacharel como era seu caso. Por fim dedicou-se a estudar detalhadamente a última que sobrou. O que ela trazia de diferente das demais não era no tocante aos valores de ganhos em sim, mas na parte que se referia às perspectivas de crescimento dentro da hierarquia da empresa. Era deveras tentador imaginar que, se tudo corresse bem, em alguns anos estaria ocupando uma sala ampla, tendo sob suas ordens auxiliares, comandando uma pequena equipe de advogados iniciantes. Poderia estar defendendo causas na cidade como nas vizinhas, bem como na capital Belo Horizonte.
            Depois de anotar detalhadamente as vantagens de cada proposta, foi sentar-se com os pais e a irmã após o jantar e lhes apresentou suas conclusões. Queria saber a opinião de todos e eles lhe disseram o que pensavam. Em linhas gerais as opiniões eram condizentes com as próprias observações, apenas ligeiras divergências, que vistas do ponto de vista de cada um pareciam mais ou menos relevantes. Todavia, a proposta mais tentadora era realmente aquela que do princípio lhe parecera a melhor. Houve unanimidade na indicação dela como a melhor opção. Era no entanto necessário cuidado na assinatura do contrato de trabalho, para não cair em uma armadilha, algo bastante comum em situações análogas.
            Depois de uma intense troca de ideias e opiniões, sugestões diversas, José Silvério decidiu que escreveria uma carta educada a cada escritório, agradecendo a proposta recebida e deixando em aberto a possibilidade de futuramente voltar a fazer contato. Havia encontrado outra colocação que lhe parecera mais vantajosa e aceitara. Era importante manter-se em bons termos com os colegas de categoria. Iriam se defrontar nos tribunais, acusando, defendendo esse ou aquele cliente. Qualquer animosidade gratuitamente granjeada poderia ser nociva nessas ocasiões.
            Dedicou a manhã seguinte à redação das respectivas cartas, sobrescreveu cada envelope caprichosamente, fechou e selou. Após o almoço depositaria cada uma delas no correio e levaria aquela da proposta escolhida em mãos ao escritório. Passara-se uma semana nesse afã de comparecer às entrevistas e analisar as propostas, até tomar sua decisão. Havia deixado combinado um prazo de até sete dias para isso e portanto não estava for a disso. Se tudo corresse como o esperado, em questão de um ou dois dias estaria trabalhando. Começaria a escalada na carreira de advogado, coisa que sempre sonhara desde sua adolescência, depois que tivera oportunidade de assistir a parte de um julgamento. Aquele ritual todo o encantara e ainda lhe causava arrepios cada vez que adentrava a sala de um tribunal. Apesar de ter estado em inúmeras ocasiões presente a novos processos no correr dos anos de faculdade.
            Passada a hora do almoço, colocou em uma pequena valise os envelopes que colocaria no correio, vestiu uma roupa discreta e foi desincumbir-se do que se propusera naquela tarde. Era segunda feira. A agência dos correios não ficava muito longe e em pouco tempo as cartas estavam despachadas, pois já as havia trazido seladas. Depois seguiu até próximo à praça principal, não longe do forum, onde estava instalado o escritório da empresa de advocacia Sete Lagoas Advogados Associados S/C. Ali chegando entregou à recepcionista o envelope e ela, ao reconhecê-lo, falou:
          O doutor Onofre pediu que, se o senhor viesse, aguardasse um pouco pois ele deseja lhe dizer umas poucas palavras.
          Não tem problema. Tenho tempo e posso aguardar o tempo necessário.
          Ele está atendendo um cliente, mas em poucos minutos irá atendê-lo.
Sentou-se em uma confortável poltrona e ali ficou aguardando o momento de falar com o diretor da empresa. Pôs-se a folhear uma revista de direito que se encontrava num suporte apropriado e leu notícias recentes. Eram novidades dos últimos julgamentos e sentenças exarados nos tribunais da região e capital
Passaram-se pouco mais de vinte minutos e uma porta se abriu, dando passagem a um homem com aspecto de empresário bem sucedido, talvez um fazendeiro endinheirado residente na cidade. Quem o acompanhava era o doutor Onofre. Tão logo se despediram, o doutor Onofre o viu e logo o chamou pelo nome.
          Pode entrar doutor José Silvério.
Ele não se fez de rogado. Apenas estranhou o fato de ser chamado logo pelo nome. Pelo visto o entrevistador ficara bem impressionado com o candidato e passara as informações ao chefe ou recomendara descartá-lo. Essa última possibilidade era remota, pois nesse caso o diretor não tomaria a seu cargo fazer essa tarefa pessoalmente. Restaria aguardar e enquanto isso suar frio por um momento até o veredito.
          Sente-se doutor José.
          Obrigado doutor Onofre. (Guardara bem o nome para não esquecer).
          Como tem passado?
          Bastante atarefado em comparecer a várias entrevistas, analisar as propostas e tomar decisão.
          E qual foi sua decisão? Vai trabalhar com a gente?
          Acabo de entregar a carta de aceite à recepcionista. Se quiser posso pegar com ela.
          Deixe que eu mesmo peço para ela trazer.
Levantou o interfone e falou à recepcionista, ordenando que lhe trouxesse a carta que José Silvério deixara em suas mãos. Em segundos a porta se abriu e a funcionária entrou trazendo o envelope, que entregou ao doutor Onofre.
Tomando de um instrumento apropriado, cortou o lado certo e de dentro retirou uma folha de papel, onde estava declarado por José Silvério o aceite da proposta recebida para trabalhar no escritório que Onofre dirigia. Depois de ler atentamente a carta, doutor Onofre falou:
          Seja bem vindo ao nosso grupo. Sua qualificações são as melhores possíveis, suas respostas na entrevista deixaram excelente impressão e além do mais, um de nossos sócios conhece seu pai há muitos anos. Trata-se do doutor Carlos Oliveira. O pai dele é cliente do comércio de seu pai.
          Acho que conheço. Estava cursando direito quando eu ainda estava no secundário.
          É provável que sim e as recomendações dele não poderiam ser melhores.
          Fico contente em que tenham gostado de minhas qualificações e também da minha maneira de encarar a vida.
          Já temos um lugar reservado para seu começo. Como ainda não tem registro da OAB, vai atuar como assistente dos advogados em atividade. Em princípio vai atuar mais diretamente sob as ordens do doutor Carlos Oliveira, mas eventualmente posso requisitar seus préstimos, assim como os outros colegas. Vai ter bastante trabalho. Isso garante pelo menos que não irá se aborrecer.
          Quando devo começar?
          Amanhã é um bom dia. Hoje já está chegando ao fim do dia. Mas esteja aqui amanhã às 8 horas e vamos lhe mostrar o que fazer.
          Obrigado e prometo me esforçar para não decepcionar.
          Tenha uma boa tarde, doutor José.
          Igualmente, doutor Onofre.
Deixou o escritório, deu adeus à secretária e saiu para a rua.
Foi assim que o bacharel em direito, José Silvério da Silva, começou a dar os primeiros passos na profissão de advogado. Enquanto adquiria prática atuando como assistente dos advogados que trabalhavam no escritório, foi se preparando para realizar o exame da OAB. Só depois poderia atuar individualmente, tornando-se responsável por causas. Ter a seu serviço um assistente e secretário, o que não ocorria no começo. Sonhava com o dia em que teria seu próprio gabinete. Uma sala onde teria a seu dispor todos os requisitos de conforto e privacidade para tratar com os clientes que lhe fossem destinados.
Os bons resultados obtidos na universidade lhe valiam o respeito dos patrões e também dos colegas de trabalho. Isso era um grande passo. Teria tempo para galgar os degraus sucessivos da profissão. Não lhe faltava ambição para tanto e nem tampouco capacidade para deslindar os mais complexos meandros do direito processual brasileiro. Por vezes era preciso ser um verdadeiro desvendador de labirintos, para conseguir enxergar claro no cipoal de leis, decretos e normas a serem seguidas. As precedências e mesmo algumas contradições tinham que ser harmonizadas para o bom andamento dos trabalhos.
Os meses correram acelerados, ocupado que estava com sua preparação para a prova da OAB e o trabalho de análise dos processos, redação de pareceres, nem se deu conta e estava às vésperas da realização da prova. No dia marcado, lá estava ele, como nos tempos da universidade, nervoso, as mãos suadas. Estava enfrentando o momento decisivo em sua vida. Sem o registro da OAB não seria um advogado de verdade. Só poderia defender os clientes diante do juiz ou dos jurados, quando tivesse sido aprovado nesta prova. Tinha que manter a calma, por em uso tudo o que havia aprendido e a experiência adquirida durante os meses no escritório.
Aguardou com ansiedade a publicação do resultado. Quando encontrava com outros candidatos que haviam feito a mesma prova, aproveitava para trocar ideias, discutir respostas às questões que considerava mais polêmicas, em especial as que tinham que ser respondidas por escrito. No dia em que soube da publicação do resultado, correu para a primeira banca de jornais e comprou um exemplar onde buscou avidamente a página em que estavam estampados os nomes dos aprovados. Já estava à beira das lágrimas, quando finalmente viu o seu nome estampado na lista dos aprovados. Soltou um grito de alegria, assustando as pessoas que se encontravam ao seu redor. Houve quem lhe indagasse o que significava aquela euforia. Meio atabalhoadamente lhes mostrou o título da matéria e seu nome estampado na lista.
Em seguida encaminhou-se apressadamente para o escritório. Queria compartilhar com os colegas e em especial com os seus contratantes. Agora seria questão de dias para que tivesse em seu cartão de visitas impresso o número de registro na OAB. Seria um advogado em todos os sentidos, não apenas um bacharel em direito. Teria oportunidade de exercer a profissão para a qual tão arduamente se preparara. Gostava do glamour da profissão, mas principalmente, amava a justiça. Iria envidar todos os esforços para que sempre se fizesse o que a lei estabelece e o que o bom senso manda.

 

            Foi parabenizado efusivamente pelo escritório inteiro, a começar pelos sócios e terminando nas faxineiras e serventes. Ligou para o pai, para lhe informar da novidade.  Ao saber da notícia, o Sr. Pedro, não conteve as lágrimas, correu ao encontro da esposa para lhe contar a boa nova. Deixou o estabelecimento por algum tempo aos cuidados dos empregados e foi encontrar com o filho. Precisava dar nele um abraço. Antes de sair pediu à cozinheira a preparação de uma refeição especial para o almoço. Queria comemorar em família, a conquista do filho. 

Mineiro sovina! – Capítulo II

Mineiro sovina!
 
Capítulo II

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.

 

Lago em uma praça em Sete Lagoas.

 

Ano novo, vida nova!
            Viajou de volta a terra natal em um avião da Varig, às vésperas do ano novo. Comemorou o início do ano de 1976 junto com a família. O pai convidou os parentes mais próximos e amigos para, junto com o Ano Novo, festejar a graduação do filho no curso de direito. No momento da passagem de ano, muitos fogos espoucaram acima da casa dos Silva, farto sortimento de champagne foi estourado, ficando as taças constantemente cheias. Muitos quitutes de que se encarregara a mãe, junto com duas tias muito próximas, fizeram a alegria dos comensais presentes em acompanhamento ao champanha que rolou farto. A casa estava cheia e demorou bastante até que, um a um começaram a voltar para casa. No dia seguinte haveria almoço em suas casas e ninguém queria estar com cara amassada de noite mal dormida.
            Na noite do dia primeiro de janeiro, José debruçou-se sobre as propostas de trabalho que havia guardado em sua mesa de cabeceira. Eram ao todo 12 convites recebidos. Não iria em princípio menosprezar nenhum, mesmo dos escritórios mais humildes. Não era de bom alvitre ser descortês com ninguém. Era altamente provável encontrar no futuro muitos desses mesmos profissionais como oponentes nas causas em que estivesse atuando. Faria a todos uma visita, ouviria a proposta que tinham a oferecer. Com todas elas em mãos, analisaria uma a uma, selecionaria aquelas que melhor se adequassem às suas expectativas. Depois junto com os pais decidiria pela melhor opção.
Colocou os cartões em ordem e estabeleceu um roteiro que iria percorrer. Teria que tirar uns três dias para completar as visitas, talvez mesmo quarto, pois não fazia ideia de quanto demoraria cada entrevista. Nem se haveria necessidade de aguardar para poder conversar com o encarregado. No Segundo dia do ano, logo cedo passou a mão no telefone e ligou para os números constantes nos cartões de visitas que haviam lhe colocado em mãos. Agendou para aquele dia três entrevistas. Haveria tempo para uma quarta, mas era preferível deixar uma folga no horário. Detestaria chegar atrasado para a entrevista. Ficaria mal visto nesse caso.
Optara por começar pelos endereços mais próximos de casa. Vestiu uma roupa sóbria, porém de corte perfeito, pegou o automóvel do pai que ele não iria usar durante o dia e se dirigiu para o primeiro encontro. Era um escritório modesto, mas bem instalado. Esperou por alguns minutos enquanto o chefe atendia um cliente importante. Foi convidado a entrar no gabinete mobiliado de modo informal e confortável. Em cerca de meia hora saia dali com uma proposta bem interessante em sua maleta. Despediu-se prometendo analisar e dar resposta em no máximo uma semana.
Era hora de ir almoçar. A mãe deveria estar olhando para o relógio a cada dois ou três minutos, imaginando por que ele estaria demorando. Não fazia muito mais de uma hora que saira de casa, mas a segunda entrevista seria apenas às 14 horas, um pouco mais distante que a primeira. Chegou em casa no momento em que a auxiliar de sua mãe nos serviços domésticos terminava de arrumar os pratos e talheres sobre a mesa. Em instantes o pai entrou vindo do Mercado que, por falta de clients nessa hora próxima do almoço, ele fechara um pouco antes.
          Ainda bem que chegaram na hora certa. Não gosto de ver a comida esfriando na mesa ou nas panelas. Requentar depois fica pior ainda.
          Sua mãe resmungona como sempre, – falou Pedro dirigindo-se ao filho.
          Resmungona eu? – indagou Elisa.
          Vocês dois não vão começar a brigar bem agora, ou vão? – disse José.
           É melhor fazer a oração e começar a comer que ganhamos mais, – disse Pedro e começou imediatamente a fazer o sinal da cruz, para depois iniciar a recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.
Ao terminar a oração acrescentou:
          Abençoa senhor esse alimento que vamos tomar, para que fortaleça nosso corpo e mantenha o espírito animado.
A refeição transcorreu sem novidades. Todos estavam ocupados em saborear o excelente almoço preparado por dona Alice, auxiliada pela ajudante, que fazia as refeições com a família. Estava a serviço fazia muito tempo e a consideravam quase como uma filha. A única novidade ficou por conta de Lucia Helena, irmã de José. Chegou alguns minutos depois, pois estava na faculdade de pedagogia, no centro. Suas aulas terminavam na hora do meio dia. Como não ficava longe conseguia chegar ainda em tempo de almoçar com a família. Muito extrovertida e brincalhona, chegou logo provocando o irmão:
          E meu querido irmão já arrumou emprego?
          Calma maninha! Estou fazendo as entrevistas e depois vou decidir onde vou trabalhar.
          Minhas colegas estão curiosas por conhecer você. Eu falei que vou cobrar pedágio para chegar perto.
          Mas minha filha! Onde já se viu uma coisa dessas?
          Vamos aproveitar mãe. Não é todo mundo que tem um irmão bonitão como o meu e ainda por cima advogado recém formado.
          Não vai me colocar em fria, Lucia Helena. Vê lá o que você vai aprontar.
          Nada demais. Estou pensando em fazer uma tabela. Que tal: para olhar de perto CR$ 50,00, para sentir o cheiro CR$ 70,00 e para dar um beijo no rosto R$ 100,00. Do jeito que essa meninada está, arranjo fácil do dinheiro do mês.
          Garanto que nem lembrou de dividir com ele o que arrecadar. Isso é fazer uso indevido da imagem alheia, – falou o pai.
          Depois eu vejo e dou uma gorjeta para ele. Uns 20% acho que está bom.
          Vou ver o que diz a lei sobre isso. Não esqueça que sou bacharel em direito.
          Uai! Eu vou ter todo trabalho, tenho que cobrar, me preocupar para que ninguém fure a file, nem saia sem pagar. Você só vai aparecer, ficar uns minutos e pronto. Vinte está bom. Vá lá 30%.
          Acho bom parar com isso, minha filha. Seu irmão está buscando emprego e não pode aparecer por aí em nenhum escândalo. Imaginou se isso cai na boca dos reporteres de radio e televisão? Um Deus nos acuda.
          Mãe, eu estou apenas brincando. É que eu gosto de provocar meu irmãozinho. Ele é muito sério, sisudo. Até parece um velho carrancudo.
          Também não é para tanto. Apenas procure manter a linha. Se quero ser respeitado como advogado, terei que ter uma certa atitude. Não posso me permitir certas brincadeiras.
          Mas agora falando sério. Já foi a alguma entrevista?
          Acabei de chegar da primeira, pouco antes de você voltar. Se eu demorasse um pouquinho mais ia tropeçar com você na entrada.
          E a secretária, não jogou um olhar para o teu lado?
          Ela é bem passada. Deve ser muito eficiente, pois não tem nada de bonita. Pelo jeito é até casada. O que vem a ser uma vantagem. Não existe o risco de algum dos advogados se envolver com ela ou um cliente ficar caído por ela.
          Falou o profissional super competente. Eu vou descansar um pouco e depois vou para a biblioteca pública procurar um livro para fazer um trabalho. Os da faculdade estão todos emprestados e se eu quiser fazer um trabalho decente, tenho que me virar.
          Essa era a vantagem da Federal em Belo Horizonte. Não havia falta de livros.
          O problema aqui é que tem quem pegue o livro, renova o empréstimo e nunca devolve.
          Mas não tem limite de tempo para ficar com os livros?
          Ter tem, mas as bibliotecárias tem seus apadrinhados(as) e acobertam as renovações indevidas.
          Um caso sério.
          Mas não vamos discutir por isso. Se for caçar encrenca o tempo passa e meu trabalho não sai. Dá licença.
Levantaram-se todos e foram sentar um instante enquanto tomavam um saboroso café recém coado. Em alguns minutos Pedro foi até o banheiro e depois retornou ao Mercado. Estava na hora de comandar os funcionários que estariam abrindo dali a alguns minutos. Alice e a ajudante Rosa trataram de recolher os pratos, talheres e demais utensílios. Rosa foi lavar a louça e Alice, após um retoque na sua maquiagem, uma arrumação de leve no cabelo foi para junto de Pedro. No período da tarde ela se encarregava de ficar no setor de caixa e comando das entregas de compras dos clientes.
José, depois de alguns minutos, preparou-se para ir ao encontro da sua entrevista. Perguntou se Lucia Helena queria uma carona até a Biblioteca o que ela aceitou de bom grado. Percorreram a distância não muito grande até o prédio em estilo moderno que abrigava o acervo de livros, jornais, revistas e demais material impresso à disposição da população para consultas. Despediram-se e José retornou um pouco até o local onde se daria a entrevista logo mais.
Estacionou e conferiu se seu aspecto estava em ordem, olhando no espelho interno do veículo. Tudo estava certo e ele, faltando cerca de 10 minutos, se apresentou na sala de espera do escritório. Era um pouco mais amplo e os móveis denotavam um certo progresso perceptível em detalhes da mobília. Apresentou-se e a secretária, uma loira sobriamente vestida, aparentando em torno de 20 anos, lhe ofereceu um estofado para sentar-se. Indagou se queria uma água, m café ao que ele agradeceu.
          Vou anunciar sua chegada ao Dr. Jorge. Talvez ele possa recebê-lo imediatamente.
          Obrigado.
Ela levantou o telefone e em instantes falava com seu chefe anunciando a presença do jovem advogado para a entrevista:
          O Dr. Jorge já vai lhe atender. Aguarde apenas um minuto.
Passados pouco mais de trinta segundos a porta se abriu e o Dr. Jorge em pessoa estava ali, recortado na porta, contra o fundo do gabinete e convidou José a entrar. Já dentro do gabinete, mais luxuosamente mobiliado que o outro, sentaram-se em confortáveis poltronas e teve lugar uma entrevista bem mais minuciosa que a da manhã. Era perceptível que o Dr. Jorge sabia exatamente o que buscava ao contratar um novo auxiliar. Suas questões eram pertinentes e abordavam questões cruciais em diversos pontos da legislação. Para José isso foi uma alegria. Estudara aprofundadamente os códigos e as leis. Estava muito bem preparado para esse tipo de questionamento. Quando perceberam havia decorrido uma hora aproximadamente.
Dr. Jorge lhe passou sua oferta de trabalho para os meses até a obtenção da sua carteira da OAB. Depois mudaria de nível, pois passaria a atuar primeiro em ações mais simples, para gradativamente subir na escala de importância. José anotou detalhadamente todos os pontos e se despediu, prometendo uma resposta para no máximo uma semana.
Saiu dali mais animado, pois dentro das perspectivas aqui a situação era bem mais vantajosa que no primeiro. Lá ficaria por um ou dois anos, talvez mesmo três, sendo pouco mais do que um contínuo de luxo, sem responsabilidades, sem oportunidades de atuar nem como assistente em ações de qualquer natureza. Encaminhou-se resolutamente para o lugar em que deixara o automóvel e foi para a outra entrevista. Ainda faltavam mais de trinta minutos o que permitia que chegasse sem pressa.
A outra entrevista foi semelhante a anterior e diferiam pouco uma da outra no tocante à proposta de trabalho. Pouco depois de 5 h da tarde estava encerrado seu dia e voltou para casa, não sem antes fazer um giro pela cidade. Nos últimos meses não tivera oportunidade de ver os bairros novos onde estava havendo um frenético vai e vem de veículos transportando material de construção, pedreiros e serventes em atividade por toda parte. Gostava de ver o progresso chegando aos lugares, casas sendo erguidas, telhados colocados, muros rebocados e depois pintados. Depois de satisfazer sua curiosidade, dirigiu-se calmamente para a casa dos pais.
Encontrou o casal atarefado em atender os clientes que passavam no estabelecimento para adquirir o necessário para as emergências, outros fazendo compras maiores para uma quinzena ou mesmo um mês. Sem demora José se pôs a ajudar no que pudesse ser útil. Sentia-se bem ajudando os pais, pois eles haviam passado anos trabalhando duro para que ele pudesse ficar na capital e apenas estudar. Não era longe, mas para ir frequentemente para casa não havia possibilidades. As estradadas ainda eram precárias e a viagem demorava bastante. Isso e os muitos trabalhos de pesquisas, atividades práticas que o curso exigia e oferecia, tornavam o tempo escasso.

Por volta das 19 horas o movimento foi acabando e trataram de fechar o estabelecimento. O dinheiro foi guardado num cofre, as portas bem trancadas, as mercadorias foram repostas para estarem na manhã seguinte prontas à espera dos primeiros clientes que se apresentassem. Era muito desagradável ver clientes procurando produtos e estarem em falta, por falta de reposição. Tudo arrumado, os empregados saíram e foram para suas casas, enquanto a família se recolhia para o descanso noturno.

Antiga estação ferroviária em Sete Lagoas.

 

Igreja lembrando passado.

 

O mineiro sovina! – Capítulo I.

 Hoje começo a publicar os capítulos de novo livro, cuja redação venho protelando há mais de um ano. Estão faltando desenvolver alguns aspectos da trama para lhe dar a forma final. Desejo colher críticas e sugestões para poder aperfeiçoar o trabalho antes que ele vá para o processo de edição e depois publicação como livro, não necessariamente acabado, mas o mais próximo possível do ideal. 

Paisagem da região de Sete Lagoas (Serra do Cipó).

 

Linda vista de uma cachoeira entre montanhas em Sete Lagoas (Serra do Cipó)

 

O mineiro sovina!
 
Capítulo I

 

A formatura.    
José Silvério da Silva, filho de um pequeno comerciante do ramo de alimentos em Sete Lagoas, estado de Minas Gerais, concluiu com brilhantismo o curso de bacharel em direito, pela Universidade Federal de Belo Horizonte. Na cerimônia de colação de grau, o pai, Pedro da Silva, não cabia em si de contentamento. A mãe, dona Elisa Ramos da Silva, vertia lágrimas de alegria em abundância. O sacrifício necessário para permitir ao filho se manter e estudar fora alto. Estavam colhendo os frutos do que haviam plantado ao longo dos anos.
No retorno à cidade natal, José Silvério encontrou uma grande festa. Seu pai queria compartilhar com os amigos, parentes e vizinhos a conquista do filho. Seria sem dúvida um advogado de renome em um future próximo. Por sinal já tinha recebido um convite. O principal associado de um dos maiores escritórios locais de advocacia, pedira para lhe fazer uma visita com vistas ao possível ingresso na sua equipe de trabalho que comandava.
Pedro havia alugado as instalações de um clube para realizar a festa. Houve fartura de comida, bebida e no final, animado por uma orquestra contratada a bom preço, foi realizado um animado baile. Todos os presentes vinham parabenizar José Silvério, augurando-lhe um futuro promissor. No decorrer da festa foi sutilmente convidado a comparecer nos próximos dias a mais de um escritório de direito. Havia os de maior expressão e também os que ainda se encontravam em fase de expansão. Todos queriam ter em seus quadros um bacharel que acabara de se formar na capital do estado com menção honrosa, fato que for a publicado em todos os jornais locais.
            Nos primeiros dias, após o retorno, tratou de visitar os amigos, os avós, os tios, sem deixar de fazer uma visita a todos os escritórios que o haviam convidado. Ouviu as diversas propostas de trabalho, as funções que iria desempenhar, os ganhos iniciais e principalmente as possibilidades de fazer carreira. Iria analisar todas elas e faria sua escolha. Para isso iria levar em conta os aspectos econômicos, bem como as áreas de atuação de sua preferência. Não havia pressa, afinal estavam às vésperas das festas de fim de ano e ninguém iria tomar decisões importantes em litígios durante aqueles dias. Poderia gozar um merecido descanso junto à família. Depois iria mergulhar com todo gás no trabalho, fosse onde fosse recair a sua escolha.
            O pai lhe proporcionou uma estadia de alguns dias no Rio de Janeiro, onde visitou os locais turísticos, aproveitou o sol nas belas praias. Paquerou as belas banhistas, sem no entanto se envolver com nenhuma delas. Os anos de convivência acadêmica na tradicional Belo Horizonte, haviam lhe ensinado alguma coisa no tocante as mulheres. Não deixaria nenhuma aventura leviana por em risco suas aspirações de futuro e havia assimilado muito bem o espírito tradicional mineiro. No primeiro e Segundo ano de sua permanência em Belo Horizonte, envolvera-se em dois casos amorosos. A experiência não for a das melhores. Ao se ver desvencilhado decidiu ir bem menos fundo nessa questão, deixando para mais tarde, quando sua situação profissional estivesse consolidada para pensar em constituir família. Havia tempo suficiente para isso.

            Não deixou de se fazer presente a algumas casas noturnas para se divertir. Previa nos próximos anos com muito trabalho, muitas horas dedicadas aos estudos e análise de processos. Fazia questão de ser um bom profissional e para isso precisaria primeiro conseguir aprovação na prova da OAB, conquistando assim seu registro de advogado. Só então seria um profissional de verdade. Por ora estava habilitado a atuar em alguns cargos públicos em que não precisaria atuar em tribunais, perante juízes. Tinha porém o desejo de ser complete em sua profissão. Era ambicioso e queria também recompensar o sacrifício dos pais durante os longos anos de estudos na capital.

Cachoeira na Serra do Cipó.

 

Cachoeiras em sequência na Serra do Cipó.

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