Arquivo da categoria: Sem categoria

Gaúcho de São Borja! – Capítulo III

  1. Margarida Maria Vargas.

 

 

Antes de Fulgêncio tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra quando a menina contava com algumas semanas de vida. Dessa forma, ela muito pouco, praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família, era parte dela como os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava conta da pequena Margarida tal qual fosse uma joia rara.

É fácil entender que a menina cresceu com algumas regalias nem sempre disponíveis na infância. Mesmo assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer diferença porventura existente em qualquer situação.

Em uma dessas ocasiões, Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto em Francisco. Mesmo assim, respondeu com a maior delicadeza deixando-a encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz. Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele seria daquele jeito.

As conversas entre eles foram ficando mais frequentes. Com o tempo passando, não tardou a ter início o desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que, de início a incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não lhes conhecia o significado. Ao perceber as mudanças, Balbina tentou explicar com seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.

A mãe Carlota, andara bastante ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase completamente de que tinha uma filha, em vias de se transformar em menina moça. Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas.

Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se, ter filhos e, portanto, ter sua própria família. Inicialmente sentiu-se encantada com as novidades que aprendera.

Essas informações foram penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, que iniciava a transição para a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente. De repente uma figura se destacou e ela sentiu o jovem corpo estremecer. Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos, convidando-a para dançar. Um devaneio prolongado levou-a ao momento em que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos. Via-se caminhando para o altar da pequena capela nos domínios da fazenda. Lá estava à sua espera Francisco, vestindo um traje muito bonito, perfeitamente barbeado, com o bigode bem aparado. Um peão idoso a levava pelo braço, em substituição ao pai que perdera tão criança.

Espantou os sonhos e voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a intumescer, ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente doente. Apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um resfriado leve, mas nem febre tivera, que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca conhecera.

Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de transformação, da menina que fora, em mulher, estava quase completo. Sua altura era média, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados. O rosto ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas. Chegou o dia em que faria sua estreia nos fandangos realizados na fazenda e propriedades vizinhas. A mãe, agora em situação financeira estabilizada, fez questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação de um grupo musical da cidade, especializado em músicas típicas. O galpão estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão batido.

O baile começou e, em dado momento, Margarida e mais cinco mocinhas das redondezas, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes” dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo, embora convincente e firme, fez com que aceitasse.

Estava de roupa nova, especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de baile de quinze anos. Mas, deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a filha casada. Era jovem e tinha muito que aprender sobre prendas domésticas. Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário saber fazer. Só assim saberia comandar as empregadas que viesse a ter no futuro.

O baile terminou depois de muitas danças, sendo que, em diversas ocasiões, Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido ao calor e ao esforço das seguidas vezes que dançara, tanto com Francisco, como os outros rapazes que a haviam convidado. O cansaço era tanto que mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene noturna. Caiu na cama, praticamente dormindo.

Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o rosto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz como genro? Tinha elevada estima por ele, mas, daí a tornar-se membro da família, era uma grande distância. Estava divagando. Daria tempo ao tempo. No momento oportuno, conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava cegamente na lucidez das decisões maternas.

Seria tarefa da mãe decidir essa questão? Não era a ela que cabia tomar a decisão final nesse assunto? Bem, estava cansada. Deixaria para pensar no dia seguinte ou depois de alguns dias. Por ora, precisava recuperar as energias despendidas no baile que fora deveras divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse nas redondezas. Havia muito que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua vida. Estava no limiar de sua existência. Por que se preocupar já com casamento? Filhos? Família? Não que isso estivesse fora de suas cogitações, mas não para o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.

Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e trabalhosa estavam visíveis em suas juntas deformadas, seu rosto enrugado. Somente os olhos vivos, atentos e perspicazes, não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”, era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez, no entanto, perguntas. Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando Balbina cada vez mais curiosa.

Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira, onde Francisco estava supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como quem não quer nada, e ficou observando em silêncio. Num momento de relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em Margarida e lhe disse sorridente:

  •  Bom dia senhorita!
  •  Bom dia, Francisco!
  •  Como vai minha prenda?
  •  Eu vou bem e você?
  •  Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
  •  Estou precisando tomar um pouco de sol, ou vou ficar branquela igual leite.
  •  Mas não carece de tomar sol demais, senhorita. Nós também vamos parar logo. O sol está muito forte e os animais ficam muito cansados.
  •  Vou sentar ali naquele banco para observar.

Francisco, em alguns minutos, terminou o serviço com o gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os dedos à guisa de um pente. Colocou de volta o chapéu e veio sentar-se próximo à Margarida, depois de lhe pedir licença. As mãos e o rosto ainda estavam molhados.

  •  Nem precisa pedir licença, Francisco. Você é da família.
  •  Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu lugar e não quero faltar-lhe com o respeito.
  •  Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente, converse comigo. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina. Elas quase não me deixam respirar.
  •  Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
  •  Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
  •  Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com meu trabalho.
  •  Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina chamando. Até logo.
  •  Inté, senhorita.

Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa, onde, de fato, o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo sentar-se para a refeição.

  •  Onde foi que você esteve, Margarida? – Perguntou Carlota.
  •  Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de bezerros.
  •  Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá Carlota.
  •  Nem fale uma coisa dessas Siá Balbina. Eu ainda sou criança.
  •  Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.

Dali em diante ocuparam o tempo em saborear a refeição que estava muito bem preparada. Depois foram até seus aposentos para alguns minutos de repouso e mais tarde retomaram os afazeres rotineiros.

Fantástico Mundo Novo – Volume III- Recomeço em Orient. Capítulo V – Colônias recebem denominação.

05. Colônias recebem denominação.

 

Durante as reuniões mantidas com a equipe administrativa central, nos dias subsequentes ao retorno, Mink sentiu falta de uma denominação para as várias colônias. Sempre era necessário citar os nomes dos membros e nem sempre todos tinham em mente todos os nomes.  Isso criava algumas dificuldades de comunicação, quando se tratava de um ou outra colônia. Em dado momento pediu um instante de silêncio e propôs:

  •  Devemos providenciar um nome para cada colônia, bem como uma denominação para a colônia aqui de perto do lago. Isso tornará mais fácil nossas comunicações e evitará enganos de encaminhamentos de algumas decisões.
  •  E como iremos fazer essa escolha de nomes? Vamos assumir esse encargo, ou pediremos que o povo escolha o nome? – Perguntou o ministro Gamal.
  •  Creio que seria conveniente deixar essa escolha a critério do povo, – sugeriu Cassiel intervindo.

Continue lendo

A gloria humana é fugaz!

Em busca da glória fugaz!

Estamos vivendo em nossa pátria, há uma semana, os Jogos Olímpicos! Evento que começou lá longe, na década passada, com empenho do então presidente da república Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, confirmado em anos posteriores e culminando com a realizaão dos jogos, durante um período de pouco mais de duas semanas. Estamos praticamente pela metade. Milhares de atletas, de todos os cantos do mundo, em grupos grandes de centenas de pessoas, outros pequenos com poucos integrantes, todos na busca do brilho passageiro da medalha de ouro, ou então prata ou bronze, que servem de consolação. 

Continue lendo

Comemorando a sobrevivência – parte 2.

Novamente o mês de agosto.

Hoje, dia 11 de agosto de 2016, é outra data que preciso comemorar. Completo exatamente 18 anos de “sobrevida” à uma cirurgia de implantação de prótese total de artéria aorta. Dei entrada no centro cirúrgido do Hospital Sâo Lucas, velho conhecido da época de nascimento dos filhos, entre 7 e 8 horas da manhã. A cirurgia, prevista para durar em torno de 5 horas a no máximo 6, acabou demorando 9h30 min, seguida de duas horas e meia de recuperação, antes de ir para UTI. A prótese que fora prevista para ser somente o Y, onde a artéria se bifurca transformando-se nas duas femurais, foi preciso ser substituida por uma que vai do arco aórtico até o início das femurais, abaixo da virilha. Entre substituição e demora extra do procedimento, transcorreu um dia inteiro (12 horas), até que finalmente eu emergisse da sala de cirurgia.

Continue lendo

Comemorando a sobrevivência. – parte 1.

Faz cinco anos!

 

Há exatamente cinco anos, domingo, dia 07 de agosto de 2011, esse momento da minha vida foi decisivo. Estava próximo do momento crucial da morte, em consequência de um acidente sofrido na véspera, dia 06/08, pouco depois das 19 horas. Depois de superar uma crise suprema, retornei para continuar por mais algum tempo nesse mundo. Outras crises semelhantes seguiram-se, antes de superar definitivamente aquela fase.

Voltando ao dia anterior, o tempo estava ameno, nem frio nem quente, saí de casa, levemene agasalhado, em minha moto Suzuky Intruder 125. Ia para casa de meu filho Anselmo Daniel Adams, que ficava a distância de aproximadamente 10 km. A pouco mais de dois km de casa, pilkotando sem pressa, fui surpreendido por um farol forte no rosto, bem no começo de leve curva, ao final da rua Vicente Cicarino, no exato lugar do cruzamento dessa com a ferrovia. Um automóvel Ford K, invadiu minha pista e não houve tempo para desviar. O resultado foi uma colisão, de acordo com o laudo policial, um abalroamento lateral. A velocidade relativamente baixa (+_ 40 km/h), me projetou pouco para frente, a pouco mais de um metro do trilho ferroviário.

Continue lendo

Livre Arbítrio!

Livre arbítrio, imagem da internet 2

Duas ou mais opções. A escolha é sua.

O que quer dizer “livre arbítrio”?

Vamos por partes. O que é livre?

Quem está livre, não está impedido de fazer nada, não está preso, amarrado ou oprimido. Pode decidir o que deseja fazer.

arbítrio o que é?

Arbítrio tem a mesma raiz de árbitro, sinônimo de juiz. Aquele que decide, julga, diz quem está ou não com razão, o que é certo ou errado.

Continue lendo

Fantástico Mundo Novo- Vol. III – Recomeço em Orient, Cap. VII – Conquista do espaço segue.

  1. Conquista do espaço segue.

 

Os componentes da equipe de tripulantes, dividiam-se em dois grupos. Dois permaneciam na nave, enquanto os outros quatro saiam em expedições de exploração pelas regiões mais próximas. Levavam dispositivos elétricos, capazes de disparar descargas, cujo efeito seria de paralisar e pôr fora de ação algum animal agressivo. Sabia-se muito pouco e a cada instante deparavam-se com exemplares representantes da fauna ou flora de Luxor. Havia flores e também frutos. As árvores não eram exageradamente altas, pelo menos na região onde haviam pousado. Afastavam-se até distâncias consideradas seguras, para o caso de ser preciso retornar depressa. Andavam sempre carregados de equipamentos diversos, fazendo imagens, capturando espécimes de vários tipos de animais. As plantas, com suas folhas estranhas, tinham um brilho próprio. Deveria ser causado por alguma substância contida nelas.

Continue lendo

Fantástico mundo novo – Volume III – Reinício em Oriente, Cap. VII-Aceleração geral.

  1. Aceleração geral.

 

O rápido progresso científico proporcionado pela verdadeira “queima” de etapas, quando os registros da antiga civilização foram decifrados e seus significados compreendidos, chegou a causar uma perturbação ameaçadora no equilíbrio de todo planeta Orient. No entanto, a chegada do Melquisedeque, em uma outorga extraordinária, teve o poder de restabelecer o equilíbrio. Os pequenos grupos remanescentes das antigas dissidências religiosas, aos poucos foram perdendo força e significado, levando à gradual redução de seu número de adeptos. Muitos deram liberdade aos filhos para seguir o caminho de sua própria escolha e eles optaram por seguir o que lhes pareceu mais condizente. Aderiram ao culto da Trindade do Paraiso. Outros, mesmo já adultos de certa idade, decidiram mudar de opção, aprendendo a doutrina da religião da revelação. Desse modo alcançou-se um estado de quase uniformidade religiosa, embora existissem pequenas diferenças de uma região para outra, mas a crença básica era idêntica.

Continue lendo

Fantástico Mundo Novo – Volume III – Capítulo VI – Vinte anos mais tarde.

  1. Vinte anos depois.

 

Os novos moradores de Orient, prosseguiram em sua faina de ocupar o território, desenvolver atividades agrícolas e industriais, num ritmo acelerado. Pareciam ter pressa em progredir. Por toda parte se viam sorrisos, gente cantando e se cumprimentando alegremente. As colônias, em questão de poucos anos, dobraram a população. Famílias numerosas, com oito a dez filhos em média, havendo até algumas com maior número de membros, especialmente aquelas compostas de homens com duas esposas. Os jovens casavam-se ao atingir a idade adulta. Os rapazes com 18 anos e as moças com 15, formando suas famílias. Os primeiros anos transcorreram com a produção, destinada principalmente à alimentação das pessoas e animais. Quando completaram vinte anos de vida no planeta, já existia uma geração inteira de nativos Orientianos. Os novos casamentos ocorriam entre homens e mulheres, mal saídos da puberdade, mas já nascidos em Orient. Alguns dos mais idosos haviam encerrado sua jornada na carne, sendo os primeiros ocupantes de pequenos cemitérios. Os mortos por doenças e acidentes ainda eram em pequeno número.

Continue lendo

A Galinha dos Ovos de Ouro

A GALINHA DOS OVOS DE OURO
Um certo casal foi a uma granja e comprou uma galinha. Aparentemente era uma galinha como outra qualquer. Tinha bico, penas, pés e um jeito de bobalhona.
Na manhã seguinte, quando a mulher foi ao galinheiro para recolher os ovos, levou um susto enorme. Em frente aos seus olhos, no meio do ninho, havia um ovo muito diferente, era um ovo de ouro!
A mulher pegou o ovo com a mão direita, cheirou-o, lambeu-o, examinou-o detalhadamente e não teve mais duvida, era mesmo um ovo de ouro verdadeiro.
Saiu correndo e foi acordar o marido para contar-lhe a novidade.
– Querido, acorde. Olhe o que eu encontrei no ninho da galinha que compramos ontem.
O marido acordou, olhou o ovo dourado, pegou, mediu, lambeu, pesou e, finalmente, soltou um grito:
– Mulher, isso é ouro puro! Estamos ricos!
Diante do fato, a mulher foi logo dizendo:
– Se estamos ricos com um único ovo, imagine como ficaremos com o resto de ovos que essa galinha traz na barriga. Vamos logo abrir seu corpo para pegarmos logo essa fortuna.
O marido, cego de ambição, não perdeu tempo. Correu até a cozinha, pegou uma faca e decepou a cabeça da galinha.
Ao abrir o corpo, qual não foi sua decepção, dentro dela só havia o que há dentro de todas as galinhas: tripas, coração, moela, rins e sangue.
O ovo de ouro foi logo gasto e os dois continuaram pobres e passaram o resto da vida se acusando:
– Continuamos pobres por sua culpa.
– Não, a culpa é sua que não teve paciência.
– Minha não, foi sua.
.
Moral da história: O excesso de ambição, leva à precipitação e, quem tudo quer tudo perde.
Nicéas Romeo Zanchett
http://gotasdeculturauniversal.blogspot.com.br
http://selecaodehistoriasinfantis.blogspot.com.br

Tomei a liberdade de compartilhar essa fábula, por vir de encontro a uma questão que desejo abordar. Ela remonta ao fabulista grego Esopo e, ao longo do tempo, passou por várias adaptações, porém o seu conteúdo moral e ético continua sendo o mesmo.

Para ilustrar meus pensamentos, vou fazer uma adaptação dessa fábula, numa versão moderna, situando-a nos dias de hoje.

Era uma vez um jovem de nome João. Seus pais eram pobres e lutavam com dificuldades para alimentar os filhos, cultivando um naco de terra que haviam herdade da família. Outros parentes haviam partido para outros lugares em busca de melhores condições de sobrevivência. Um belo dia João decidiu partir também. Despediu-se dos pais e irmãos, indo para São Paulo, onde, depois de vários dias dormindo sob marquises, em vãos de portas de entrada de edifícios, pedindo esmolas na rua, encontrou uma alma generosa que o acolheu. Como ainda era bem jovem, a  bondosa senhora, Maria das Graças, logo se afeiçoou a ele e passou a tratá-lo como seu fosse seu filho, coisa que ela não tivera a graça de ter por suas forças.

Percebendo que o menino era analfabeto, providenciou para que fosse matriculado em um curso de alfabetização, onde sua natural vivacidade e desenvoltura adquiridos na vida rude na roça, logo o destacaram como excelente aprendiz. Em pouco tempo havia dominado a arte da escrita e leitura. Aprendeu os números e logo sabia operar com eles habilmente. A professora recomendou que ele fizesse um exame de suficiência e ingressasse em uma escola de ensino fundamental, o que foi providenciado no momento oportuno.

Os anos passaram e João, ávido leitor, devorava com os olhos todos os livros que encontrava pela frente, desde romances, contos e poesias, até os compêndios de ciências, no começo pouco confusos para sua cabeça ainda despreparada. Mas a curiosidade fora despertada. Demonstrou que queria mais. Queria desvendar os mistérios ocultos naqueles livrões enormes que via nas prateleiras da biblioteca. Foi assim que, terminado o ensino fundamental, ingressou no ensino médio e logo estava às portas da Universidade. Ficou em dúvida. As possibilidades eram tantas, mas terminou optando por engenharia industrial. Submeteu-se aos exames vestibulares e foi aprovado com ótima colocação.

Ao final de alguns anos, tendo aprendido todos os segredos das máquinas, os cálculos necessários, os desenhos das peças, recebeu finalmente seu diploma de engenheiro industrial mecânico. Havia feito diversos estágios, sempre seguidos de elogios efusivos de seus chefes nesses eventos. Os professores viam nele um expoente significativo para contribuir no desenvolvimento industrial do pais. O que ninguém sabia, era que João, secretamente vinha trabalhando há tempo, no desenvolvimento de uma máquina revolucionária. Tinha a característica de ser robusta, o que a tornaria durável, podendo servir ao comprador por longos anos. Por outro lado era versátil e capaz de ser adaptada para várias utilizações, servindo dessa forma para substituir várias máquinas, reduzindo o investimento de seus proprietários. Era uma máquina agro-pastoril. Ela preparava o solo, plantava, colhia e ainda era capaz de proceder ao processamento básico de vários produtos.

Com o projeto pronto e detalhado, conseguir registrar seu invento no INPI e partiu em busca de financiamento para produzir sua máquina. Nesse momento descobriu que havia um tal BNDES, banco oficial de financiamento do desenvolvimento, no território nacional e das empresas do país que executavam obras no exterior. Precisou ser bastante convincente, apresentar referências de seus professores e também dos supervisores de seus estágios, para finalmente conseguir o capital que lhe permitiria começar uma pequena indústria. Quando ela ficou pronta, contratou torneiros, soldadores, pintores, ajustadores, eletricistas e demais profissionais necessários para a produção de seu invento. Com todos reunidos, apresentou seu projeto e lhes fez ver que seriam parte de um trabalho inédito. Se fossem dedicados e trabalhassem com afinco, iriam ter, no futuro participação nos lucros que certamente viriam.

Na primeira oportunidade duas unidades foram levadas a uma exposição, das várias que são realizadas anualmente por todo país. Foram realizadas demonstrações e o resultado foi tão impressionante que, em poucas horas, haviam recebido tantas encomendas que demorariam mais de um ano para entregar. Estabeleceram uma agenda de entregas, receberam pagamentos de entrada como sinal de negócio e voltaram para a indústria. Aos poucos, as máquinas foram ficando prontas e uma a uma iam sendo entregues, na ordem exata em que os pedidos haviam sido recebidos. Os felizes proprietários, em pouco tempo, alardearam pelos quatro cantos as qualidades incomparáveis da máquina, despertando nos outros o desejo de também possuir uma delas.

Os fabricantes das máquinas que eram substituídas pela nova invenção, viram-se em dificuldades e tentaram encontrar formas de desfazer a concorrência. Mas a máquina de João, parecia mesmo ser resistente até a sabotagens. Dessa forma em pouco tempo, o menino pobre que saíra do interior, onde levava vida miserável, transformou-se em industrial próspero. Cumpriu à risca a promessa feita aos colaboradores, dando-lhes uma generosa participação nos lucros, além de seguir à risca todos os preceitos trabalhistas, de modo a proporcionar a todos uma vida digna e próspera. Houve quem quisesse que ele aumentasse a indústria, pegando dinheiro emprestado em um volume elevado, de modo a inundar e dominar todo o mercado. Mas ele não aceitou. Sua resposta era:

 – Daqui para frente vou caminhar com as próprias pernas. Deixe o sol brilhar também para os outros. Eles estiveram no mercado antes de mim.

Alguns anos passaram e a indústria cresceu naturalmente com sua própria produção. Foi necessário contratar gerentes, administradores e outros profissionais  específicos, não ligados diretamente à área de fabricação. Entre eles havia um grupo que chegou com ideias que diziam ser revolucionárias. Um deles, liderando os demais insistia com João:

  • Seu João, os salários e benefícios dos operários são muito altos. Podemos demitir estes que estão trabalhando, contratando outros por menos da metade e reduzir os outros benefícios. Esse dinheiro pode ser economizado e aplicado em outras áreas.
  • Eu comecei com um grupo pequeno, que foi crescendo com treinamento dado pelos mais antigos e a todos prometi dar uma vida digna. Não vou mudar isso.
  • Mas seu João, eles estão ganhando muito mais do que o mercado em geral paga para o mesmo tipo de trabalho. Isso é exagero. Imagine quanto poderemos economizar, investir em outras máquinas, construir indústrias em outros estados, outros países. Podemos nos tornar uma multinacional. Afinal já temos pedidos sendo enviados para várias partes do mundo.
  • Eu já falei e não vou repetir. Nessa história de salários e benefícios, fica como está.

Mas os novos gestores não desistiram. Manipularam, mentiram, maquiaram demonstrativos, caluniaram operários, fizeram intrigas de toda sorte, até que um dia João sentiu-se cansado. Já estava passando dos 40 anos e praticamente nunca tirara um mês de férias. Tanto insistiram com ele para que delegasse as decisões mais gerais aos seus subalternos, ficando somente no comando do que era realmente importante. E João concordou. Indicou um gerente geral, um gerente de fábrica, um administrador financeiro, o encarregado dos recursos humanos e outras funções. Ele iria aproveitar um pouco da vida. Era ainda solteiro e procurou por uma moça com quem pudesse se casar. Tendo-a encontrado, namorou, preparou tudo e casou-se.

Saiu em viagem de lua de mel e passou longo temo viajando. Ao retornar, encontrou uma situação bem diversa do que deixara ao sair. Sua indústria, onde foi para verificar o andamento de tudo, estava semi-paralisada. Os pedidos haviam sido cancelados em grande quantidade, as reclamações e gastos com assistência técnica estavam consumindo as reservas financeiras rapidamente. Uma pequena multidão de empregados fora despedida e acampara na porta de acesso, reivindicando o pagamento dos direitos trabalhistas. Na justiça se amontoavam pilhas de processos pedindo indenizações por danos materiais e morais causados por acidentes ocorridos com as máquinas defeituosas colocadas à venda enquanto ele se afastara do comando direto de tudo. Enfim, para piorar tudo, os velhos empregados que haviam iniciado com ele, ao serem demitidos, buscaram outras indústrias para se empregar.

O longo período de trabalho com a máquina de João, lhes revelara todos os segredos e possíveis aperfeiçoamentos. Dessa forma, em alguns meses surgiram máquinas bastante semelhantes e muito mais avançadas do que a original. Assim os antigos concorrentes se vingavam, colocando no mercado algo aperfeiçoado, com as informações que os operários demitidos haviam levado consigo.

A tentativa de processar por plágio não foi possível, pois haviam sido feito inovações que acrescentavam novas funcionalidades e funcionamento mais refinado. João constatou que sua “galinha dos ovos de ouro”, havia sido substituída por uma que agora botava ovos de barro. Estes se desmanchavam com a primeira chuva. O que o deixou ainda mais triste, foi saber que ao permitir que seu administrador transformasse a empresa em Sociedade Anônima de capital aberto, colocara as ações na bolsa de valores e agora estas estavam em grande quantidade nas mãos de seu maior competidor. Até mesmo uma emissão de novas ações para aumento de capital, havia sido maciçamente adquirida pelo mesmo grupo, ficando ele João, como acionista minoritário, o que lhe tomava até o direito de tomar decisões, visando recuperar o que fora seu. Permitira que matassem sua galinha dos ovos de ouro.

Triste com a situação, aceitou uma oferta do agora acionista majoritário e vendeu o resto da fábrica. Voltou para o interior, onde seus irmãos ainda viviam, e adquiriu um pedaço de terra com o que restava de seu pequeno império desmoronado. Ali se instalou e voltou a trabalhar na terra, lembrando diariamente dos erros que cometera. Deixara-se seduzir pela sereia de ideias tidas como modernas, pisara sobre seus colaboradores, deixando que fossem demitidos, oprimidos e lançados no desemprego. Estava pagando um preço alto pelos seus erros. Para completar a sua desventura, a moça com quem se casara, não aceitou a vida na roça e pediu o divórcio, levando-lhe assim mais uma boa parcela do que salvara de sua outrora fortuna.

Essa é uma tentativa de imitar a fábula de Esopo, da galinha dos ovos de ouro. A sedução da ganância por mais e mais capital, domínio de mercado e opressão dos mais fracos, levou o antes próspero engenheiro, industrial de sucesso ao fracasso estrondoso. Ele se esforça até hoje por esquecer desses tempos, enquanto caleja as mãos, cansa os músculos e ossos na lida na terra, de onde tira o sustento para o corpo, com muito suor.

Curitiba, 28 de maio de 2016.

Décio Adams

[email protected]

[email protected]

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732