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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XVII.

 

Fernando Collor de Melo

Fernando collor por Ubirajara DettimarAbr – Agência BrasilPalácio do Planalto view source. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – httpcommons.wikimedia.orgwikiFileFernando_collor.jpg#mediaviewerFileFernando_collor.jpg

 

  1. Aguardente falsificada.
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“Promulgação-Constituição-1988” por Agência Brasil – http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2013-10-04/constituicao-de-1988-completa-25-anos#. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Promulga%C3%A7%C3%A3o-Constitui%C3%A7%C3%A3o-1988.jpg#mediaviewer/File:Promulga%C3%A7%C3%A3o-Constitui%C3%A7%C3%A3o-1988.jpg

 

A família estava reunida. Os meninos, apesar da pouca idade, tinham com relação à pequena irmã sentimentos de proteção e cuidados. Quanto estavam em casa, nos momentos de folguedos no patio com os cães, dando uma volta vez ou outra pelo bar, sempre lembravam de correr até o quarto ver se a pequena estava bem e dormindo. Em muitos momentos davam com ela deitada no colo da mãe, mamando a valer. Depois de ela estar farta, sempre sobrava um pouco de leite. Eduarda, depois de deixar a filha acomodada, coletava o leite e o guardava devidamente acondicionado na geladeira. Uma enfermeira vinha a cada dois dias coletar o que sobrara.

Os pequenos e frágeis corpos de bebês em estado de carêcia, cujas mães não tinham leite, outros que haviam ficado órfãos ou abandonados, estavam aguardando pelo produto. Isso deixava os meninos e a mãe gratificados. Sabiam que alguma criança, que provavelmente nunca viriam a conhecer, estava sendo beneficiada com esse gesto. Na medida em que Isaura crescia, o volume que mamava crescia e com o tempo a quantidade que a mãe produzia diminuiu, até que cessou completamente as doações. Mesmo assim, nesses meses havia saciado a fome de vários bebês, aos quais considerava um pouco seus filhos. Os garotos também falavam deles, como se fossem seus irmãos. Irmãos desconhecidos. Talvez viessem a encontrá-los no futuro, se no entanto saber que o leite de sua mãe havia alimentado ao outro. Não havia importância. O bem que se faz, não importa a quem atinge.

Nesses anos todos, com intervalos maiores ou menores, sempre havia quem trouxesse novos exemplares de garrafas de cachaça, das mais variadas procedências. E cada vez vinha o desafio ao japanês especialista, Toshyro. Com o tempo ele começou a ter alguma dificuldade em identificar os tipos cuja produção havia sido iniciada depois de ele passar a trabalhar fixo em São Paulo. Mesmo assim ainda era capaz de identificar a região da procedência. Em determinado dia, quase ao final de 1989, chegou um viajante da região nordeste, mais precisamente Paraiba. Era uma marca desconhecida nas terras do sul e tinha por marca o ponposo título “Quebra Macho”.

Quando foi o dia de fazer o teste, Manoel notou um odor diferente na bebida. Ao apresentar o copo ao testador, falou:

– Vai devagar amigo, estou achando que essa bebida tem algo errado.

– Isso nós já vamos ver, – falou Toshyro.

Pegou no copo, aproximou das narinas e sentiu o odor. Sua experiência em anos de trabalho com química, logo lhe trouxe à lembrança o cheiro típico de metanol. Se cometesse a temeridade de ingerir essa bebida, poderia passar muito mal e até mesmo, perder a vida. O metanol é tóxico para o organismo humano. Olhou para Manoel e falou:

– Amigo, não beber isso. Aí tem metanol e isso pode me matar. Infelizmente vamos ter que denunciar o fabricante dessa bebida, pois se ele vender isso para a população, irá causar uma verdadeira calamidade.

O portador das garrafas estava ali presente e se apresentou logo. Lembrou imediatamente que o fabricante ouvira ele contar da habilidade de Toshyro e propusera dar de presente as duas garrafas. Bem que notara um sorriso maroto em seu rosto ao lhe entregar as garrafas. Na hora pensara que era questão apenas de orgulho do produto que fazia. Nem lhe havia passado pela cabeça uma tentativa de causar uma provável tragédia. Ele mesmo havia bebido da bebida no estabelecimento e nada acongtecera. Fez questão de cheirar a bebida e imediatamente constatou ter havido má intenção na manobra. Ele mesmo se prontificou a acompanhar Manoel e Toshyro à delegacia oferecer denúncia. Um rumor de desagrado se espalhou pelo bar. Depois dessa experiência, Manoel anunciou que não haveria mais desafios, nem testes de bebidas. Por muito pouco o amigo e compadre não ficara intoxicado.

O que valera nessa situação era a longa experiência com bebidas das mais diversas procedências e marcas. Mais ainda, o olfato e paladar apurado de Toshyro haviam identificado o elemento tóxico misturado. Ninguém mais tinha vontade de ver os já tradicionais gestos do japonês antes de anunciar o nome e safra da bebida que experimentara. Haviam sido raras as ocasiões em que não acertara totalemnte o resultado. Depois de ficar exposto a um risco tal, ele não iria querer mais se expor, tampouco os apreciadores dos desafios, quereriam vê-lo expor-se ao risco de vida.

Assim a coleção de Manoel estacionou, ficando por longos períodos sem receber novos acréscimos. Também os armários que mandara fazer estavam praticamente lotados, existindo poucos espaços para colocar mais alguma garrafa.

O grupo de jogadores que organizara o primeiro campeonato, estava agora organizado em uma associação. Tinham se filiado à federação Paulista, mas tinham em seu estatuto uma abertura para os aficionados de Pebolim, bem como futebol de botão. Todos os anos eram realizados campeonatos regionais. Os melhores jogadores participavam de competições a nível de região metropolitana bem como estadual. Havia também os que viajavam para outros estados e inclusive para o exterior. Um ou outro troféu vindo dessas contendas eram exibidos com orgulho.

O ano de 1990 assistiu à posse de Fernando Collor de Melo como Presidente da República, depois de ser eleito em votação popular livre ao final de 1989. Era o primeiro a assumir o cargo por meio de eleição livre, depois de Jânio Quadros ser eleito em 1960. Foi mais um período conturbado na política nacional. O começo foi um choque econômico com congelamento de preços, além de bloqueio dos saldos bancários. O resultado foi um descontentamento generalizado, especulações e atos ilicitos de toda ordem. Não tardaram a aparecer denúncias de cometimento de desvios administrativos do Presidente e seus asessores imediatos. As denúncias se agravaram e resultaram na renúncia em outubro de 1992, depois da aprovação do impeachment pelo congresso.

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Caras Pintadas em manifestação pelo impeachment de Collor.

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ItamarFranco

“ItamarFranco” por Antônio Cruz/ABr – Agência Brasil. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:ItamarFranco.jpg#mediaviewer/File:ItamarFranco.jpg

 

Itamar Franco, seu vice, assumiu e enfrentou a borrasca que se seguiu. A moeda que voltara a se chamar cruzeiro, estava cada vez mais desvalorizada, alcançando cifras astronômicas de taxas inflacionárias além dos 40% mensais. A economia estava completamente desarticulada. Os executivos das empresas, grandes ou pequenas, faziam malabarismos de diferentes ordens para manter seus empreendimentos em funcionamento. No ano de 1994, mais precisamente no mês de fevereiro, foi editado o Plano Real. Nesse plano estavam presentes diversos elementos destinados a por um freio definitivo na hiperinflação que assolava o país.

Foi criada a URV (Unidade Real de Valor) com prazo fixado para nova conversão de moeda, dessa vez denominada Real. Fernando Henrique Cardoso, era o ministro da Fazenda, sendo depois indicado para concorrer à presidência. Em seu lugar assumiu Rubens Ricúpero. O que se pode dizer é que o plano foi bem sucedido, pois após 21 anos, ainda temos a mesma moeda em vigor e um razoável equilíbrio na economia.

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“FHC 15 anos real” por Antonio Cruz/Abr – Agência Brasil. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:FHC_15_anos_real.jpg#mediaviewer/File:FHC_15_anos_real.jpg

 

Os filhos de Manoel e Eduarda cresceram, estudaram e formaram-se em cursos superiores. Depois de terem atingido suas metas e ocupado cargos públicos concursados nas áreas de sua formação, sugeriram aos pais que deveriam descansar.

O bar foi vendido e a família foi morar em um conjunto habitacional, condomínio fechado. As longas noites de insônia durante os anos difíceis, haviam deixado um saldo positivo suficiente para garantir aos pais uma vida menos agitada. Os dois, Manoel e Eduarda, empreenderam em 2012 uma longa viagem por diversos países. Voltaram para casa e após alguns meses fizeram nova viagem, dessa vez pela América do Sul. Passaram algumas semanas em Bariloche, onde tentaram aprender a esquiar. Alguns tombos depois, conseguiram algumas descidas das rampas menos íngremes. Valeu pela diversão. Os dois voltaram vivamente entusiasmados e traziam em sua bagagem farto estoque de imagens e vídeos.

Tudo foi devidamente editado e arquivado em meios magnéticos para conservação. As mais notáveis mereceram cópias em papel fotográfico para constar de álbuns, serem enviadas para amigos e dadas aos filhos.

A família segue até hoje vivendo em harmonia, apesar da idade avançada de Manoel, próximo dos 80 anos. Os netos começaram a nascer e com isso a alegria dos avós ficou mais complete. Tinham agora uma razão para viver e ocupar os seus dias ociosos.

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XVI

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José Sarney, presidente da república de 1986/1990. http://agenciabrasil.ebc.com.br/ultimasfotos?

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Ministro Bresser Pereira, arquiteto do plano econômico que leva seu nome, destinado a salvar o fracassado plano cruzado.

 

  1. Planos econômicos, nasce a filha.

 

Os primeiros meses do Plano Cruzado, lançado em 27 de fevereiro daquele ano, foram de muita euforia, confiança e esperança. Em todas as grandes cidades principalmente, formaram-se grupos de senhoras entituladas “Fiscais do Sarney”. Percorriam em grupos, especialmente os supermercados e outros estabelecimentos, conferindo se os preços dos produtos estavam sendo mantidos nos valores da semana ou dias anteriores. Num primeiro momento essa estratégia funcionou, mas a grande maioria dos comerciantes foi à loucura. Os fornecedores começavam a cobrar ágio para entregar os produtos. Impossibilitados de repassar esse custo aos consumidores, não tardou para que seus estoques ficassem defasados, começando a faltar produtos.

As entregas eram feitas, dentro dos preços tabelados, até um determinado limite. Para obter mais, era necessário pagar a “caixinha”. Alguns optaram por criar um departamento paralelo, onde vendiam a quem se dispunha a pagar um preço mais alto, contanto que recebessem a mercadoria. Enquanto isso as gondolas e prateleiras começaram a ficar vazias, defasadas. Alguns produtos simplesmente sumiram, enquanto outros estavam em quantidades limitadas. Eram estabelecidas cotas por freguês. Em pouco tempo, a emissão desenfreada de papel moeda, trazendo como consequência a desvalorização da moeda nacional frente ao poderoso Dollar, geraram uma preferência pela exportação, onde o lucro era elevado. O mercado interno ficou desabastecido de leite, carne e outros produtos.

Houve episódios tentando implanter um “confisco” de bois gordos no pasto. Os produtores os mantinham a espera de preço mais vantajoso. Ocorreram algumas compras “compulsórias” que depois geraram processos judiciais. No final, estabeleceu-se um comércio com características de paralelo. Os estoques reguladores do governo de carne, eram liberados para venda a preços tabelados. Isso gerou filas enormes nos estabelecimentos que anunciavam o recebimento dessa carne. Lembro de ficar por mais de seis horas na fila, na loja do Supermercado Pão de Açúcar, hoje Extra, na Av. Presidente Kennery, em Curitiba. O objetivo era comprar um pedaço de costela para fazer um churrasco em comemoração do aniversário de meu cunhado. Ao chegar minha vez, não tive tempo sequer de olhar, se a carne era adequada, para a finalidade. Era pegar ou largar. Não foi um churrasco dos melhores, posso garantir.

Outro produto que faltou, foi leite. Nos meses de inverno quando o nível de produção habitualmente cai, ficou racionado. O tal leite de caixinha UHT ainda não existia. Era tudo o tal “barriga mole”. Havia os tipos A, B e C. O tipo C era o mais vendido e levantei de madrugada algumas vezes para ir enfrentar a fila no Supermercado Musamar aqui perto de casa. Depois, levando os dois litros conseguidos, corria até o outro Supermercado Gasparin. Com sorte, ali conseguia mais dois litros. Levava para casa e ia trabalhar. Essa situação se explica pelo fato de ter três crianças pequenas e não poder ir todos os dias enfrentar a fila. Esse problema se estendeu pelo ano de 1987 praticamente inteiro.

Depois dessa digressão, voltemos ao nosso amigo Manoel, que tinha, nesse context um estabelecimento comercial para administrar. Nos começo era tudo uma maravilha. Aos poucos porém, os produtores, comerciantes, enfim a massa produtora e distribuidora, forçou a barra abrindo brechas no arcabouço do plano aparentemente bem arquitetado. A inflação ressurgiu com mais furia e logo foi preciso recorrer ás aplicações

financeiras como o “ower night” e outras para manter o poder aquisitovo dos recursos em caixa. Não havia vantagem em pagar contas adiantado, pois o dinheiro aplicado até a data do vencimento era mais vantajoso.

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Calculadora, instrumento constante nas mãos dos gerentes de valores econômicos nos anos1986/90

 

Diante dessa circunstância Manoel, lembrou a experiência adquirida anos antes com as aplicações na bolsa de valores. Bastou atualizar suas informações e logo tinha em mãos um esquema para, se não ganhar dinheiro, ao menos conservar o poder aquisitivo daquele que conseguia angariar. Os refrigerantes, a cerveja, as demais bebidas, além dos insumos para cozinha, subiam de preço diariamente. Era preciso gastar horas percorrendo os depósitos do mercado municipal, Ceasa e outros independents, a busca de alguma oferta. Não era vantagem elevar os preços das refeições, pois o povo estava ficando com as finanças cada vez mais comprimidas. A quem lhe pedia orientações, Manoel explicava como fazia para se manter à tona, no mar revolt da economia nacional do momento.

Para quem não estava acostumado com esse meio, poderia ser um campo de armadilhas, levando à perda de dinheiro, em lugar de trazer ganhos. Em diversar ocasiões passaram longo tempo trocando ideias ele e Toshyro. O casal vinha com relative frequência ver os afilhados. Era para eles uma honra fazerem parte do círculo mais íntimo da vida dos compadres. Nessas ocasiões os dois conversavam sobre os rumos que a economia estava tomando. Enquanto isso as mulheres conversavam sobre amenidades, cuidavam das crianças, cada vez mais viçosas.

O descontrole dos gastos governamentais, congelamento de preços e câmbio por um ano, sem flexibilidade para questões de sazonalidade, foram os fatores que fizeram o Plano Cruzado naufragar. Já ao final de 1986, antes das eleições para deputados, senadores e governadores, a situação estava caótica. Visando obtenção de maioria parlamentar, o PMDB, partido de José Sarney, pressionou pela manutenção das regras, até passar o pleito. Conquistada ampla maioria, que iria se encarregar da Assembléia Nacional Constituinte, a situação explodiu, chegando às raias da revolução popular. A inflação retornou com vigor, o câmbio congelado fizera um estrago imenso nas reservas cambiais do país, tudo culminou com a troca do ministro da fazenda por Bresser Pereira. Novo plano foi editado, com algumas mudanças, mas insuficientes para por a economia no caminho da estabilidade. Em Janeiro de 1988 Bresser Pereira demitiu-se, assumindo no seu lugar Mailson da Nóbrega.

Enquanto a nova constituição era discutida e finalmente aprovada ao final do ano, a economia alcançava níveis estratosféricos de inflação. Em janeiro de 1989, Mailson da Nóbrega orquestrou novo plano, denominado Plano Verão. Todos esses planos pecavam por não atacar as verdadeiras causas da inflação, isto é, os gastos públicos descontrolados. Em poucos meses o deficit público atingia níveis alarmantes com relação ao PIB. Alterações nas formas de remuneração das cadernetas de poupança geraram perdas enormes aos poupadores, vindo posteriormente a serem questionadas na justiça e o governo obrigado a arcar com os custos dessas correções injustas na visão dos juízes.

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Cédula de cinquenta cruzados novos, nova reforma econômica no Brasil.

 

Em meio a esse ambiente conturbado, Manoel conseguiu a custo manter um certo equilíbrio em suas contas, não sem passar noites mal dormidas, horas preciosas de sono consumidas em planejar seus investimentos para não sair perdendo. Enquanto isso os meninos cresciam e ele cada dia ficava mais consciente da importância de construir um patrimônio suficientemente sólido para garantir o futuro da prole. Em 1989, próximo da eleição que conduziria Fernando Collor de Melo à presidência, Eduarda sentiu novamente os sintomas de gravidez. Não perdeu tempo e consultou o médico para saber se estava tudo em ordem. Ainda estava bem no começo e em alguns dias poderia fazer os testes e confirmar se realmente estava grávida ou se era apenas algum sintoma fortuito.

As semanas passaram e cada vez mais ela ficava certa de não se enganar. Era de hábito muito regulada no seu ciclo menstrual, de modo que, um atraso poderia ser logo visto como uma gestação em início, quase que com certeza. No começo de fevereiro, os exames confirmaram o que seus pressentimentos e sensações haviam informado logo no começo de janeiro. O nascimento deveria ocorrer no começo de outubro, pouco antes das eleições presidenciais. A movimentação política já começava a agitar os meios de comunicação, por toda parte encontros, debates, convenções e acordos eram celebrados. Aquela eleição prometia trazer à primeira linha figuras até ali um pouco obscuras do cenário politico.

Com alguns percalços, Manoel mantivera o leme de sua economia familiar e pessoal, na direção firme. Sofrera alguns pequenos reveses, coisa alias próprio de quem se envolve no mercado financeiro. No balanço final, saira lucrando. Durante os anos que labutava no seu estabelecimento, conseguira adquirir alguns imóveis que estavam alugados, gerando uma renda extra. Assim conseguia manter sempre um bom nível de vida à família, apesar de em determinados momentos os negócios não estarem produzindo os resultados que obtivera em outros tempos. Nesse rítmo, com o plano Verão, com o surgimento do Cruzado Novo, novos congelamentos e outras medidas, chegou o começo de outubro.

Os exames de ultrassom haviam mostrado tratar-se dessa vez de uma menina e o pai estava eufórico. Não importava ser apenas uma, apesar de no começo ter feito torcida para serem duas. Não poderia reclamar, pois a natureza os agraciara com um par de meninos, que nessa época estavam com pouco mais de três anos de idade. Frequentavam uma escola infantile, onde passavam algumas horas do dia, socializando-se na convivência com outras crianças, desenvolvendo habilidades manuais e fonoaudiológicas. Dessa vez Eduarda não ficara tão grande, mas engordara um pouco mais. Isso levara o médido a temer pelo desenvolvimento de alguma moléstia própria nessas circunstâncias.

Um dia antes do prazo estimado, teve início o processo que culminaria com o nascimento de Isaura Francisca. Uma menina de mais de 3,0 kg, forte e saudável. Os irmãos, já cientes da vinda de uma irmã, estavam ansiosos pelo nascimento. Na hora da ida para a maternidade, eles estavam na escolinha. Ao saírem, não viram a mãe que costumava ir buscá-los na porta. Imediatamente indagaram o que acontecera com a mãe e a tia maternal, lhes explicou que a mamãe for a para o hospital. A irmã tão aguardaded, em algumas horas estaria em seus braços. Se fosse pela vontade dos dois teriam saído dali para ir ao hospital. Achavam que poderiam estar junto da mãe no momento do nascimento.

Foi preciso ser convincente para faze-los entender que isso seria impossível. Tão logo tudo estivesse em ordem, eles seriam levados para ver a mãe e a irmã. O processo do parto se arrastou por algumas horas até próximo da meia noite, do dia 10 de outubro. Os meninos, cansados de esperar, haviam ido dormir. A primeira vez em muito tempo que o faziam sem receber antes um beijo da mãe ou ao menos do pai. Por fim João Antônio falou:

– Não é todo dia que nasce uma irmã da gente, né!

– Melhor nós dormirmos para amanhã ir ver nossa mãe e a irmã que está nascendo.

Deitaram, disseram boa noite à avó que estava com eles, pediram-lhe a benção e dormiram. Mal raiara o dia e estavam os dois em pé, perturbando todo mundo sobre a ida ao hospital. Foram informados que estava tudo bem, a mãe e a irmã esstavam com boa saúde. Em pouco tempo poderiam ir até lá ver as duas. Elas também estavam com saudades cos dois. Eram agora uma família com mais uma integrante. A forma de educação adotada por Eduarda e Manoel, os colocara a par das diferenças entre os sexos e eles ansiavam por ver como seria uma menina recem nascida. Cada um tinha um mimo para dar à irmã, escolhido entre os brinquedos que eles haviam usado quando ainda bem pequenos.

A avó lhes avisou que a pequena ainda não saberia apreciar a diferença entre esses brinquedos. Essa fase inicial era muito mais de contato visual, sonoro e tato. O carinho no rosto, na face em especial, tinha uma força ponderosa de estabelecer relacionamentos com os pequenos e lhes contava como havia sido o próprio comportamento deles não havia tanto tempo. O pai havia ficado na maternidade e chegou pela manhã, sendo logo cercado pelos meninos. Precisou descrever para eles como era a pequena, como estava a mãe, se tudo tinha saido bem, se a mamãe não sofrera.

– Devagar, meus pequenos. Vamos responder uma pergunta de cada vez.

E começou a relatar os detalhes possíveis do nascimento. O tamanho, indicado com as mãos, os cabelos, a cor dos olhos e outros detalhes.

– Eu quero ver ela sem roupa, – disse José Francisco.

– Por que isso, menino?

– Eu quero ver se é diferente mesmo da gente. O papai tem piu-piu que nem a gente e a mamãe tem periquita. Quero ver como é a periquita da minha irmã.

– Isso é coisa que se diga, – falou a avó.

– Eles sabem a diferença entre um homem e uma mulher. Natural querer ver e comprovar a diferença.

A velha senhora saiu e foi cuidar do café da manhã para todos. Nos seus tempos de criança, mesmo quando tivera seus filhos, essas coisas eram diferentes. Hoje estava tudo mudado. As crianças parece que já nascem sabendo das coisas. Também, a televisão falando de tudo e mais um pouco. Era nisso que dava. Tinha suas dúvidas sobre a validade desses procedimentos. Mas, como quem educa os filhos são os pais, eles deveriam saber o que estavam fazendo. A familia tomou café e dali a pouco os dois estavam perturbando o pai para leva-los a ver a irmã. Não restou alternative. Às 10 h estavam na maternidade e recebiam um abraço e um beijo da mãe. Parecia que ela estivera longe por uma longa temporada, não apenas algumas horas.

Não demorou e a pequena Isaura Francisca chegou, trazida por uma enfermeira. Estava no berçário e vinha para mamar, coisa que já começara aprender. Ainda se afogava um pouco, pois a mãe era farta em alimento para a filha. Poderia tranquilamente amamentar mais uma criança. A médica sugerira que usasse um coletor e fizesse a doação do excedente para o banco de leite. Havia sempre uma porção de crianças, filhas de mães com problemas de produção de leite, precisando do precioso alimento para terem um desenvolvimento mais saudável. Bastaria coletar, guardar na geladeira e de dois em dois dias seria feita a coleta.

– Não vai faltar leite para a nossa menina? – quis saber Manoel.

– Meu querido! Ela mama de transbordar e sobra uma quantidade enorme de leite. Se eu não tirar, vou acabar tendo problemas e até corro o risco de secar antes do tempo.

– Deus me livre, querida. Se é assim, vamos doar sim esse leite que sobra.

Os dois pares de olhos curiosos acompanhavam esse diálogo. Queriam saber o que significava aquilo. A mãe iria dar leite para outros bebês? Havia leite de gente em supermercados para comprar?

– Não meus meninos, – falou Eduarda carinhosa. – Mamãe tem leite demais e a Isaura não consegue mamar tudo. Existem crianças que as mães não tem leite, ou tem pouco e precisam de leite. Então a mãe vai ajudar essas crianças. Vocês não acham que devemos ajudar quem precisa?

– Sim mãe. Pode dar o leite que nossa irmã não precisar.

– Estou gostando de ver. Meus dois hominhos estão aprendendo desde pequenos a ser generosos.

– Se não fizesse a doação mãe, teria que jogar fora?

– Iria vasar no começo, molhando a roupa da mamãe. Olhem aqui.

E mostrou a roupa que cobria os seios, de onde a pequena já se fartara e agora dormia placidamente ao lado da mãe. As roupas estavam ficando molhadas do leite que sobrara.

– Meu bem, chame a enfermeira para vir coletar o leite. Está escorrendo e molhando minha camisole.

Manoel saiu e dois minutos depois uma enfermeira munida dos instrumentos apropriados veio coletar a sobra de leite. Colheu quase meio litro. Segundo ela isso daria para alimentar com sobra até três crianças.

– Estão vendo, meus filhos. Três criancinhas vão ter leite para tomar com o que iria escorrer aqui, sujando a roupa da mamãe.

Manoel, sentado em uma poltrona, havia tomado a menina do colo e logo os irmãos estavam ali olhando embevecidos para o pequeno rosto. Até ontem ela estava na barriga da mãe e agora estava ali, no colo do pai. Em alguns meses poderiam brincar com ela, quando aprendesse a sentar-se, mover os braços e pernas. Nesse momento entrou o médico responsável e, vendo a família reunida, falou:

– Que família mais linda, vocês formam. Parece que foi ontem quando nasceram esses dois e olha o tamanho que já tem. Hoje temos mais uma menina, que pelo jeito vai ser também um mulherão.

Pos-se a verificar o estado de Eduarda, constatando estar tudo na mais perfeita ordem. Dessa forma, naquela tarde daria alta para a paciente. Era adepto da teoria de que, quanto menos tempo no hospital, melhor para a mãe e a filha. O ambiente hospitalar era o menos adequado para a permanência por muito tempo. A pequena tinha tamanho e peso além do habitual, sendo perfeitamente capaz de sobreviver em casa em melhores condições, no ambiente familiar, do que no recinto hospitalar. Mandaria apenas fazer alguns exames rotineiros para certificar-se de que tudo estava mesmo bem. Depois disso assinaria a guia de alta hospitalar.

Com isso os meninos ficaram alegres. Levariam a mãe junto com eles para casa. Pensavam que permaneceriam ali até a hora da mãe ir junto. Manoel teve que usar de firmeza para convencer os dois a acompanhá-lo para casa. Teriam que ir para a escolinha e contar aos amiguinhos a novidade. Haviam antes anunciado que iriam ter uma irmã. Agora era hora de anunciar a chegada da mesma. Dessa forma chegaram por volta das 11h e a empregada os colocou para tomarem banho. Depois os ajudou a se vestirem e almoçar. Na hora certa Manoel os levou para a escola. Desceram do carro e correram a contar às mulheres que da portaria, as responsáveis pelo controle do patio e depois as tias, nome dado às professoras. As palavras não saíam com a velodicade suficiente para contar a novidade.

Ao ver os filhos em segurança no recinto da escola, Manoel voltou para casa. Teria algumas providência a tomar, antes de ir para a maternidade buscar a esposa e a filha. Por toda parte, diante de sua pressa, indagavam o que estava acontecendo, ele rapidamente dava a notícia e recebia as congratulações. Muito antes do tempo habitual estava pronto para ir ao hospital. Antes de sair, ligou para lá indagando se a alta estava liberada, sendo informado que estava tudo em ordem. Poderia ir até lá para pegar seus familiares. A sogra quis acompanhar, pois saberia melhor o que fazer para ajudar a filha no momento de sair do hospital.

Às 16h eles estavam saindo da maternidade, rumando depois para casa. Ali um berço todo em cor de rosa, um enxoval especial, aguardava a pequena Isaura. Ela ainda estava dormindo, depois de mamar abundantemente pouco antes de deixar o hospital. A avó a acomodou delicadamente no berço, onde ela dormiu pela primeira vez. Parecia uma pequena flor, no meio de tantas fitas e laços coloridos. Depois de acomodar a família em casa, Manoel saiu novamente para dessa vez buscar os filhos. Deveriam estar ansiosos por chegar em casa. Sabiam que, era quase certo encontrarem ali a mãe, com sua irmã. Foi preciso insister para que não entrassem correndo, fazendo gritaria ao chegar em casa. Poderiam assustar a criança e assim provocar um mal estar, impedindo-a de dormir depois.

As crianças em seus primeiros meses de vida passam mais tempo dormindo do que acordadas. Comparam-se aos gatos, que dormem cerca de 18 horas diárias, ficando acordados por mais ou menos 6 horas. Depois é que ocorre a diferenciação. Com o passar dos anos, os seres humanos começam a dormir menos horas diárias, ficando mais tempo acordados. Eles chegaram e entraram silenciosamente. Chegavam a pisar com cuidado e logo viram a mãe sentada com a pequena no colo. Ela estava acordada. O sono no berço for a curto. Provavelmente os ruidos da casa haviam influido nesse resultado.

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XV

  1. Batisando as crianças.
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Modelo de certidão de batismo, usado em paróquias brasileiras.

 

Instalados em sua casa, os pequenos logo se habituaram aos ruidos do lugar. Até Lobo os quis conhecer. Ao sairem de casa, levando os meninos em cadeirinhas do tipo “bebê conforto”, o animal pôs-se a choramingar perto da porta. Parecia implorar para ver os dois. Depois de pensar um pouco, Eduarda se aproximou do lugar em que ele estava e ele ficou louco de faceiro. O medo inicial cedeu e deixaram que ele viesse para perto. Colocaram as cadeirinhas lado a lado, separadas por um pequeno espaço. Foi ali que ele se deitou e olhava ora para um lado, ora para o outro. Dava impressão de dizer:

– Eu vou proteger esses pequenos de qualquer perigo.

Não esboçou nenhum movimento mais brusco que pudesse assustar aos dois, nem sequer tentou lamber-lhes o rosto. Depois de ficar ali por alguns minutos, Manoel o convidou a voltar para o seu cercado. Ele levantou e foi obedientemente. Enquanto isso os meninos continuavam a dormir placidamente. Embarcaram no carro e foram ver os avós. Seria a primeira visita a casa dos velhos. Iriam combinar o batisado que teria lugar no próximo domingo. Teriam que participar do curso de batismo, exigência da diocese, tanto para os pais como os padrinhos.

Haviam escolhido a irmã e um irmão de Eduarda. Para completar haviam convidado Toshyro e Arminda. Assim estava complete o quarteto e iriam participar na tarde daquele sábado do curso. Assim poderiam realizar a cerimônia sem problema. Iriam iniciar a vida dos filhos na Igreja como haviam feito seus pais há tantos anos, perdidos no passado. Eduarda conseguira levar Manoel para a igreja ultimamente. Durante anos ele ficara desleixado. Cada carta que vinha de Ancede, trazia recomendações da mãe para não deixar de rezar, ir a igreja. Prometia ir no próximo domingo, mas alguma coisa acontecia e a promessa ficava para outro dia. Assim o tempo passou.

Agora, com o nascimento dos filhos, saudáveis e fortes, Eduarta tinha mais um argumento para fazer que a acompanhasse no sábado a tarde, ou domingo pela manhã. Até confessor-se ele aceitara. Passara a lembrar da hora dos compromissos na igreja, coisa que antes não era de seu hábito. Dessa forma Eduarda ficou muito satisfeita. Era devote e cumpridora dos preceitos religiosos. No começo aceitara a quase indiferença do marido, mas quando este aderira à prática assídua, se regozijara. Agora com os filhos, seriam não mais dois a comparecerem às cerimônias e sim quatro. Ele tinha trazido na época em que emigrara de Portugal, por insistência da mãe, os comprovantes de batismo, crisma e primeira comunhão. Assim fora fácil tratar dos documentos por ocasião do casamento.

Como eram casados no religioso na mesma igreja onde iriam batizar os filhos tudo estava acertado. No decorrer do curso de batismo, membros ativos da comunidade, especialmente preparados para a finalidade, orientavam quanto aos compromissos de pais e padrinhos. Batisar não era apenas uma cerimônia, um evento social. Ao pedir o batismo para os filhos e afilhados, pais e padrinhos assumiam perante a comunidade eclesial alguns compromissos. Caberia aos padrinhos substituir os pais em caso de morte ou impossibilidade por outro motivo, na educação dos novos membros da igreja.

Foi deixado bem claro. Os “compadres” e “comadres” não se destinavam apenas a beber cerveja juntos por ocasião dos aniversários, ou fazer fofoca tomando café com bolinhos. Toshyro estivera também por longo tempo afastado de artividades religiosas, servindo a ocasião para sacudir um pouco sua indolência nesse sentido. Foi preparado um churrasco para os familiares dos pais e padrinhos, no espaço existente nos fundos do bar. Logo ficou fechado no canil para não perturbar.

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Outro modelo de Cerdidão de Batismo

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Lembrança de batismo

 

Na manhã do próximo domingo, as famílias se reuniram na igreja, junto com outras que também iriam batisar os filhos. A missa transcorreu normalmente e depois teve lugar a cerimônia do batismo, numa capela lateral da matriz. Ali havia a pia batismal, contendo a água, benta por ocasião da missa do galo na noite do sábado da ressurreição. Os pequenos em geral reclamaram da água fria que lhes foi despejada, embora em pequena quantidade, sobre a cabeça. Foi uma sequência de choros fortes de descontentamento. As demais fases como unção com óleo, a pitada de sal na boca, tudo foi completado. Dessa forma, sendo mais de meia dúzia de candidatos ao sacramento, transcorreu quase uma hora até terminar.

Com as certidões na mão, todos se retiraram após o fim da cerimônia. As mães e madrinhas tinham a preocupação adicional de verificar o estado das fraldas de seus pimpolhos. Estavam há bastante tempo ali e poderia ter acontecido algum “acidente” de mau cheiro. Nos últimos minutos da cerimônia for a sentido um leve odor que sugeria algo estranho. Eduarda e as duas madrinhas estavam desconfiadas de que eram as portadoras dos autores da façanha. Quando removeram as camadas de cobertores e roupas que os envolviam, tanto José Francisco, quanto João Antônio, estavam com as fraldas “cheias”. Aquele leve cheiro sentido antes estava ali configurado.

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Velz de batizado, em azul para menino.

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Lembrança/certidão de batismo.

 

Manoel olhou para eles e falou:

– Estes nossos filhos não são lá muito respeitosos com o padre, não achas, querida?

– Não tem nada a ver, meu bem.

– Mas precisavam encher as fraldas logo na hora do batismo? Esses meninos vão dar o que falar.

– Deixa pra lá seu Manoel, – falou Arminda. – Isso acontece toda hora. Quando é a hora a coisa vai e pronto.

– O Manoel está mangando com vocês. Eles que tratem de se comportar no futuro, principalmente na hora de ir a igreja.

– Vai ser difícil ensinar isso a eles, minha filha.

– É, acho que não vai mesmo. Veja a cara de safado que estão fazendo os dois?

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Vela especial para o batismo.

 

De fato os dois meninos, vendo-se livres das fraldas, cueiros e roupas, começaram a espernear e resmungar alegremente. Pareciam se divertir com sua nudez naquele momento. Logo foram trocados e vestidos novamente. Resmungaram um pouco mas logo se acomodaram. Primeiro um, depois o outro atacaram o “lanche” das dez e meia, que estava ali à disposição. Foi preciso esperarem um pouco para encetar o retorno para casa. Era desconfortável amamentar as crianças andando de carro. Mamaram o suficiente para tapear a forme mais urgente. Depois teriam tempo para completar a refeição.

Ao chegarem em casa, sentiram de longe o cheiro de carne sendo assada. Os irmãos de Eduarda haviam se encarregado do serviço de assar a carne. Dessa forma, não demorou para que a refeição fosse servida. Naquele dia não seriam servidas refeições no restaurante, para não sobrecarregar as cozinheiras. O bar ficaria fechado por um tempo até concluir o almoço dos convidados. Vários presentes foram trazidos pelos padrinhos, tios e amigos convidados. Era um exagero, mas vinha dado de bom coração e seria indelicado recusar. Eles tinham uma variedade enorme de roupas. Provavelmente haveria no final de tudo algumas sem terem sido usadas.

– Guarde o que não usar, para o próximo, minha filha.

– Mãe, eu acabei de ter dois e a senhora vem me falar do próximo? Vamos com calma que isso aqui não é mole.

– Mas as roupinhas não estragam. Eu sempre guardei as que estavam inteiras para usar no próximo. Você mesma, usou muita roupinha de sua irmã e até dos irmãos mais velhos.

– Eu vou querer ter, daqui a uns três ou quatro anos uma menina para completar. Aí já estará de bom tamanho.

– Cuidado! Podem vir mais dois, ou então duas.

– Vire essa boca para lá, dona Arminda.

– Começou com dois, pode muito bem continuar assim.

– Eu até iria ficar contente com duas rapariguinhas, – falou Manoel.

– Ele quer logo duas. Não é ele que carrega, dá de mamar e limpa os traseiros.

– Mas eu ajudo, quando posso.

– É melhor nem falar nosso. Não vale a pena discutir esse assunto, logo hoje, dia do batismo dos meninos.

Os assadores da carne haviam acertado a mão, preparando um assado saboroso, suculento e macio. Eram hábeis no ofício. Poderiam trabalhar como churrasqueiros e não fariam feio. Depois de todos satisfeitos, os ossos, com restos de carne, foram destinados ao cão, Logo. Ele, depois de receber o primeiro osso, se pusera a roer com afinco, arrancando os restos de carne, cartilagens e mesmo pedaços mais macios de osso. Olhando a quantidade de ossos, Manoel decidiu guardar um pouco para lhe dar em outro momento. Se recebesse demais, poderia ficar enjoado ou então deteriorar e fazer mal a ele. Pegou um saco plástico e guardou o excedente, que depois foi posto na geladeira.

As mulheres da família subiram para a moradia, enquanto Manoel e os demais foram para o bar. O movimento estava ficando forte, sendo necessária a presença deles, especialmente Francisco e Manoel. Os meninos, depois de terem se satisfeito, estavam dormindo angelicalmente. Uma chaleira de água foi posta para esquentar, visando a preparação de um bule ce chá. Seria a melhor bebida para depois de uma refeição lauta como for a o almoço, especialmente com muita carne.

Os convidados masculinos ficaram algum tempo entretendo-se na sala de jogos do bar, alguns sairam para atender compromissos diversos. As senhoras ficaram com Eduarda, depois desceram ao encontro dos maridos junto às mesas de jogos, ocorrendo inclusive algumas partidas entre elas, ou duplas mistas, casal contra casal. Ao entardecer se retiraram, deixando o espaço para os habituais frequentadores. Eduarda foi levar os pais para sua casa, deixando os meninos aos cuidados da empregada, pois não pretendia demorar. Os momentos mais significativos da data haviam sido registrados na camera fotográfica e de filmagem por dois amigos de Manoel. Iria mandar cópias para os irmãos e a mãe, que provavelmente ficaria muito satisfeita, vendo os netos gêmeos sendo batisados. Certamente seria um console em seus derradeiros dias.

Na segunda feira Manoel levou os filmes para a revelação. Mandou logo fazer duas cópias de cada, inclusive do filme em super 8. Mandaria para a família e eles poderiam ver como tudo correra. Tinha certeza que a qualquer momento receberia a notícia do falecimento da sua maezinha, pois sabia de seu estado precário de saúde. Agora estava rezando a Nossa Senhora de Fátima e também Aparecida, para dar tempo de fazer chegar até ela as imagens dos netos. Um telegram avisara sobre o ocorrido e recebera resposta avisando que a avó enviava sua benção aos netos. Sinal de que ela ainda estava viva, certamente esperando pelas fotos que iriam substituir os meninos, já que não seria difícil leva-los nesse momento.

Os desafios de Toshyro continuavam a ocorrer, agora com alguns tropeços do especialista, pois haviam surgido novas marcas de aguardente que ele não conhecera no tempo de suas viagens. Nesses casos geralmente conseguia identificar o estado ou a região aproximada de sua orígem. O que por sis ó era algo digno de nota, pois isso implicava em um paladar apuradíssimo, além do conhecimento dos solos das diferentes áreas do país.

Ao final da semana as fotos estavam prontas, os filmes também e sentou-se junto com a esposa para organizar um álbum para conservar com a família, um para cada qual dos meninos e um para enviar a avó em Portugal. Isso feito, preparou uma caixa apropriada para acomodar os objetos e escreveu o endereço cuidadosamente. Na segunda feira trataria de colocar no correio registrado. Deveria chegar tudo o quanto antes.

Realmente, três dias depois do despacho, recebeu um telegram avisando da chegada. A avó ficara emocionadíssima com as fotos e mais ainda com o filme exibido em um projector super 8 de propriedade do irmão. Mandava copiosas bençãos ao filho, nora e netos. Estava um pouco melhor de saúde nesses dias. Manoel temeu que fosse um mau sinal, pois é comum pessoas idosas e doentes, apresentarem uma aparente melhora e depois chegarem ao fim repentinamente.

Seus temores se confirmaram na semana seguinte. Num súbito impulse, passou numa agência da Varig, comprou passagem e foi para casa. Avisou Eduarda de sua viagem e preparou uma pequena mala. Não ficaria tempo. Apenas o suficiente para participar do sepultamento e resolver algum pequeno detalhe posterior. No máximo em uma semana estaria novamente em casa. Enviou um telegram avisando de sua chegada e foi para o aeroporto. Pouco depois embarcava, chegando à Lisboa por volta do meio dia seguinte. Um voo curto em avião menor o deixou próximo a Ancede. Assim, pelo meio da tarde chegou a tempo de dar à sua mãe o último adeus.

Os familiares entristecidos com o desenlace da velha senhora, mas ao mesmo tempo alegres com o ótimo estado de saúde do irmão, junto com a família recentemente acrescida de dois membros. Não havia muito que decidir depois do sepultamente. Não havia bens a dividir, com exceção de alguns objetos. A própria falecida se encarregara de destinar a maior parte de suas coisas para filhos, netos, netas, noras. Por último deixara para a nora brasileira um colar de pérolas, recebido do marido por ocasião do noivado. Era portanto algo de valor afetivo principalmente. Para o filho deixara um terço com crucifixo de ouro, trazido da Terra Santa por um padre que conhecera há muitos anos. Os novos netos receberam cada um um porta-retratos de prata, remanescente do tempo de sua juventude. Eram objetos de pouco espaço e não teria problema em transportar.

Visitou os irmãos, sobrinhos e mesmo sobrinhos-netos, pois os mais velhos dos irmãos já eram avós. Depois de seis dias revendo a terra natal, a saudade bateu e empreendeu a viagem de retorno. Não via a hora de ter os filhos nos braços, dar um bejio carinhoso na esposa e lhe fazer um afago. Era uma pessoa como poucas a sua Eduarda. Sabia ser esposa, companheira, amante e principalmente mãe, agora que os filhos haviam nascido. Nem assim descuidava dos outros afazeres. Parecia se desdobrar a cada hora do dia. Chegava a lhe dizer que não deveria se desgastar tanto. Acabaria ficando com estafa e isso não seria bom de modo algum.

Ela sempre lhe respondia que isso lhe dava prazer. O que lhe dava prazer não cansava, portanto, se um dia começasse a se cansar, iria diminuir esse ritmo com certeza. Dois dias depois de partir de Ancede, desembarcava em São Paulo. Tivera que pernoitar em Lisboa, pois não encontrara passagem para o dia em que lá chegara. Aproveitara para conhecer um pouco mais a capital da patria, pois apenas estivera ali de passagem em uma ou duas ocasiões, mesmo assim, há muitos anos passados. Com o tempo escasso, selecionou alguns pontos importantes para conhecer e levar umas fotografias que mostraria à esposa. Mais tarde as apresentaria aos filhos quando tivessem capacidade de entender o significado daquelas imagens.

Durante sua ausência Eduarda tomara conta dos negócios de modo admirável. Deixara um pouco mais aos cuidados da empregada os seus dois pimpolhos, que cresciam igual repolhos viçosos. Havia muitos afazeres envolvendo questões de banco, compras, pagamentos a serem feitos. Mas ela sabia se desincumbir maravilhosamente de tudo isso. Quando o viu desembarcando do taxi na frente do portão, correu ao seu encontro e o abraçou. Os meninos estavam no térreo, deitados em um carrinho duplo, levados pela empregada. Nos momentos de folga Eduarda lhes dedicava mais atenção, pois não queria que eles se ressentissem da ausência maternal. Sabia ser isso algo funcamental para o desenvolvimento de uma personalidade equilibrada e saudável no futuro.

Os objetos deixados em herança foram desembrulhados e entregues a quem pertenciam. Eduarda ficou extasiada com o colar de pérolas. O aspecto permitia ver tratar-se de jóia de grande valor, em especial por ser muito antiga. Mandaria aos cuidados de um joalheiro de confiança para fazer uma revisão geral, limpar e deixar como novo. Depois o usaria em ocasiões especiais. Teria gostado imensamente de ir conhecer a sogra, mas não for a possível. Lembraria sua pessoa a cada vez que tocasse naquele objeto. Os porta-retratos foram preenchidos com uma fotografia em close de cada um dos meninos, ficando depois colocados sobre a cômoda próximo à cabeceira dos berços. Por ora eles dormiam no mesmo, mas logo teriam que passar a usar os dois separados, pois estavam ficando crescidinhos para dormirem juntos.

Eduarda repassou todas as informações financeiras para Manoel, para que ele ficasse ao par de tudo que fizera, das decisões que tomara. Nisso as horas passaram e logo era hora de enfrantar o movimento da noite. Francisco estava visivelmente esgotado, pela sobrecarga dos últimos dias. Estava por merecer um alívio em suas tarefas. Manoel foi ocupar sua posição de sempre, ajudando sempre que possível ao empregado, para lhe tornar o fardo mais leve. Já não era exatamente um jovem. Passara dos 50 anos alguns meses antes. Isso começava a pesar sobre os ombros. Graças a Deus gozava de boa saúde e se alimentava bem. Era moderado na bebia e, sempre que possível, descansava bastante. Era um servidor de grande valia. Uma verdadeira mão direita.

Décio Adams

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