Arquivo mensais:agosto 2014

Escapando da enchente por um triz

Enchente no rio Uruguai

No dia 25 de junho pela manhã, por volta das 7 h 30 min. iniciamos a viagem partindo da casa de Carlos Afonso Schmitt em Três de Maio, RS, com destino a Cascavel, PR. Havia chovido a noite toda e sabíamos que o rio Uruguai na véspera estava em torno de três a quatro metros acima do nível normal. Imaginamos que ele não iria subir tão rapidamente. A distância não é muito grande, mas a estrada um tanto difícil, com trechos bastante sinuosos, íngremes declives e uma chuva ininterrupta, retardaram nosso progresso. Ao chegarmos em Barra do Guarita, cidadezinha gaúcha às margens do rio, foi assim como mostram as fotografias abaixo. 

Parados para efetuar o pagamento da tarifa da balsa.

Mal enxergávamos o rio, ficando a outra margem encoberta por nevoeiro.

Pequenos barcos levando passageiros fazendo a travessia do rio. Segundo informações nessa posição ele estava em torno de 8/9 m acima do nível. Subira pois bastante desde a véspera. Houve uma demora razoável na espera, pois a balsa precisou encostar um pouco mais acima, para dentro do rio Guarita, pois um ônibus vinha do outro lado. Só então ela pode manobrar e encostar no ponto em que esperávamos. Enquanto isso, constantemente podíamos ver troncos, galhos, detritos diversos flutuando sobre a água e descendo com a correnteza. Confesso que senti um pouco de receio, mas confiei em Deus e no conhecimento que os responsáveis pela operação do meio de travessia dispõe sobre o rio e seu comportamento em situações semelhantes. Me entretive, ora observando a água escorrendo na beira da estrada de acesso, ora a quantidade inimaginável de detritos que passavam o tempo inteiro descendo sobre a água do rio. 
Olhando a água da chuva correndo enquanto esperamos.
Troncos, galhos e detritos diversos sendo levados pelo rio.

 Foi preciso manobrar para permitir a passagem do ônibus que veio da outra margem. Desembarcou mais acima, porém precisava passar exatamente onde nos encontrávamos. Enquanto isso a balsa manobrava para se posicionar, pronta para nosso embarque. Havia a nossa frente outros dois veículos pequenos e outros atrás. Esperamos o desembarque dos demais e depois foi o momento de nos colocarmos sobre o gigante de aço que nos levaria para o outro lado daquela correnteza que se afigurava ameaçadora diante de nós. Subimos e nos posicionamos todos do lado direito da embarcação, pois não havia veículos suficientes para lotar. Era necessário garantir o equilíbrio, uma vez que a corrente vinha pelo lado direito. Dessa maneira seria evitado um possível risco de tombamento do conjunto. Todos posicionados o potente motor roncou e iniciamos a manobra de afastar da margem e depois iniciar a travessia. 

Enquanto isso os detritos continuavam seu constante movimento, como se a água do rio fosse uma gigantesca esteira rolante, transportando tudo para um lugar determinado. No início a margem oposta estava bastante encoberta pelo nevoeiro. 

Encontro das águas do Uruguai com Guarita.

O possante motor nos levou, a principio lentamente, e depois conseguindo desenvolver uma velocidade considerável. Lá fora a chuva continuava rolando, os detritos sobre a água estava por todos os lados. Aos poucos a margem oposta foi ficando meios difusa, permitindo enxergar mais detalhes do casario ali existente. Não demorou muito tempo e estávamos alcançando a outra margem. Com certeza a espera até o embarque foi bem mais longa que o tempo gasto na travessia.

Pequenos barcos continuavam levando pessoas que chegavam de um e outro lado à pé, para a margem oposta.

O que impressiona nesses momentos é a majestosidade das águas rolando indômitas, sem se importar com nada que encontram em seu caminho. Não fossem a tecnologia moderna de propulsão seria completamente impossível a travessia num momento desses.
                                               

Outra vista da margem oposta.
Visão de casas e pequenas indústrias na margem oposta.

 Aos poucos a margem oposta se aproximou e em poucos minutos estávamos a poucos metros do lado catarinense, na cidade de Itapiranga. A experiência de anos de trabalho nesse ofício levou o responsável pela manobra de atracamento a executar essa tarefa com maestria. O pequeno gigante de aço, encostou suavemente na margem do rio. Fez-se a amarração antes de liberar os veículos para descer.

Vista de rebocadores ancorados. 

 Em pouco tempo iríamos estar em solo do estado de Santa Catarina. O movimento de desembarque foi realizado com todo cuidado, pois nessas operações o embarque e desembarque são cruciais. É aí que ocorrem a maior parte dos acidentes com balsas e veículos. Nas condições presentes esse risco fica evidentemente ampliado.

Segundos antes de iniciar o desembarque.
Momento do desembarque.
Vista do meio do rio.
Iniciando a viagem em território catarinense.

Descemos, paramos em um posto de combustíveis e nos servimos das instalações sanitárias de que estávamos necessitados. Alguns minutos depois, iniciávamos a viagem rumo a Cascavel nosso destino naquele dia. Paramos para almoçar num restaurante à beira da estrada alguns quilômetros à frente. Lá fora continuava a chover sem parar e assim continuou até depois de ultrapassarmos São José do Cedro, por volta de 14 h, mais ou menos. 

Na continuação a viagem foi dificultada por verdadeiros blocos de neblina que nos envolviam subitamente e dali a pouso saíamos deles. Isso obrigava a manter uma velocidade limitada, sem contar com os problemas da estrada. Defeitos no asfalto e falta de sinalização em grandes trechos. O que estava previsto para durar em torno de umas 6, talvez 7 horas, demorou cerca de 11/12 horas, pois chegamos à casa da irmã de minha esposa, já noite fechada em Cascavel. 

Parei para pensar sobre isso depois quando vi o nível que o rio Uruguai havia atingido no máximo e percebi havermos deixado o território riograndense no momento exato. No lugar onde ficamos esperando a balsa, as águas do rio ultrapassaram esse ponto, cobrindo inclusive as instalações do posto de combustíveis onde paramos em Itapiranga. O que é digno de notar é que chegamos em nosso destino, após uma viagem bastante cansativa, com o tempo seco, sem sequer uma nuvem no céu. O resto da viagem é caso de outro dia ser contado. 

Meu professor de português.

Carlos Afonso assando carne para o almoço ao chegarmos a casa.

Carlos Afonso Schmitt

Meu professor de português na segunda série do ginásio/1963

No dia 24 de junho, aproveitando minha passagem pela região em visita a familiares, visitei meu estimado mestre, que não via há mais de cinquenta anos. Um problema no mapa do GPS nos fez errar o caminho, causando um consequente atraso em nossa chegada à sua residência. 

         Antes de mais detalhes, cabe recordar como o conheci. Era 1963, eu era um dos alunos internos do Seminário São José de Cerro Largo. Carlos Afonso concluíra em 1962 os estudos de filosofia no Seminário Maior de Viamão, RS. Passou um ano lecionando no Seminário Menor, visando avaliar sua vocação para o sacerdócio, para depois seguir com os estudos de teologia. Seria nosso professor de português. 

          No sábado pela manhã, após a primeira semana de aulas, ele nos surpreendeu com um teste surpresa. Chegou, mandou retirar uma folha dupla do caderno em formato brochura e ditou ou escreveu no quadro uma porção de questões relativas ao conteúdo da primeira série que havíamos cursado no ano anterior. Inicialmente ficamos espantados, mas nos tranquilizou que queria saber em que pé nos encontrávamos relativamente ao domínio da matéria passada. As questões foram respondidas do jeito que foi possível e as fisionomias dos integrantes da turma ao sair da sala demonstravam bem o estado de ânimo em que nos encontrávamos. 

          Na segunda ou terça-feira seguinte, ele trouxe os tais testes corrigidos. Chamou um a um pelo nome, fazendo a entrega dos mesmos. As cabeças iam se abaixando, dando a impressão de quererem sumir dali. Olhares curiosos para os lados tentando sondar o estado de espírito dos colegas e nenhuma palavra. Cada um estava ensimesmado, imaginando a consequência do verdadeiro desastre que significava o resultado. Ao terminar a devolução, parou diante da turma, no meio da sala e falou:

       – Eu só não vou levar em conta os resultados desse teste, se vocês concordarem com o que vou propor. 
   
        Ninguém ousou dizer palavra. Ficamos pendentes do veredito que dali a instantes seria pronunciado pelo professor. Olhou por um momento longo para todos, um a um, depois continuou:

        – Este teste deixou evidente que vocês não sabem nada do conteúdo da primeira série. Para reparar esse problema, vamos recuperar o que deveriam ter aprendido no ano passado e também aprender o que corresponde a esse ano. Ou então vou lançar as notas desse teste na primeira nota mensal. Vocês aceitam?

         Não se ouviu uma única palavra, nem murmúrio. Apenas alguns olhares furtivos de um lado e outro. Quem ousaria se opor ao que ele estava propondo? Quem queria ter na primeira nota mensal de Português um 1,5 ou algo parecido? Isso significaria certamente uma candidatura à exames finais, quem sabe uma segunda época. Adotando a máxima do “quem cala consente”, ele tomou nosso silêncio como anuência ao proposto e sem demora iniciou seu trabalho. Se queria vencer o conteúdo dos dois anos em um apenas, não havia tempo a perder. Exigiu que adquiríssemos dois cadernos para redação. Religiosamente havia um tema semanal para as mesmas. Na última aula, no sábado pela manhã, ele recolhia um caderno e devolvia o outro com a anterior corrigida. Tínhamos que reescrever as frases e palavras erradas, as expressões menos elaboradas, na forma que ele sugerira. Novo tema era passado para elaborar nova redação. 

        Foi um verdadeiro sufoco nas primeiras semanas, até que entrássemos no ritmo que a situação exigia. Houve algumas resistências mas não havia opção. Era literalmente “pegar ou largar”. A maioria pegou, obrigando os recalcitrantes a fazer o mesmo. No final do ano o prometido estava plenamente cumprido. Aprendemos até versificação, os diferentes tipos e formas de rima, os variados gêneros de poesia. Leitura, dicção, vocabulário, enfim um verdadeiro curso de todos os conhecimentos básicos da língua portuguesa. Recordo até hoje que, ao encerrar o ano, vi estampada no meu boletim uma média de 8,9 pontos em português. Comparado aos 10 pontos do ano anterior deveria me sentir diminuído. Entretanto ocorreu exatamente o oposto. Eu estava tão feliz e satisfeito com essa média que saí exultante. Ela traduzia claramente o sentimento que ia em meu íntimo. Não era, nem jamais seria perfeito em nada, menos ainda em língua portuguesa. Mas custara esforço, sacrifício e dedicação, tornando-se para mim motivo de verdadeiro orgulho. Terminado o ano, nos separamos e nunca mais nos vimos até esse dia em que o visitei em sua morada na cidade de Três de Maio, RS.
Carlos Afonso em seu gabinete de trabalho.

 Carlos Afonso

segurando em suas mãos um exemplar de cada um dos meus livros de contos. As capas são iguais no aspecto artístico, apenas diferem no título por um detalhe do acréscimo de uma palavrinha …Dois ao final. São ao todo trinta e seis contos que relatam situações divertidas da época da colonização italiana, alemã, polonesa e outras etnias no estado do Rio Grande do Sul. Existem entremeados um pequeno número de casos ocorridos em outras paragens brasileiras. 
Carlos Afonso com os exemplares dos meus livros de contos.

        Durante anos procurei localizar Carlos Afonso, porém meus esforços foram em vão. Estava quase desistindo da busca quando me ocorreu lembrar de sua cidade natal, Alecrim, RS. Isso no dia 31 de dezembro de 2013. Imediatamente acessei o site do Google e digitei no buscador o nome da cidade. Eis que salta aos olhos o link do site da prefeitura municipal. Por ali obtive o telefone para falar com um vereador, que é sobrinho de Carlos Afonso. Foi assim que no final do dia eu estava de posse do telefone e endereço que tanto eu buscara inutilmente até aquele momento. 

Carlos, a esposa Carmen e eu, no sofá da sala do casal. 

 Naquele dia não consegui contato, pois se encontrava viajando. Esperei o dia 02/01/2014 e liguei, ansioso. Eis que ao atender do outro lado, era ele pessoalmente. Conversamos por alguns minutos, informei-lhe de que estava em Cândido Godói, em mãos de uma amiga um exemplar do meu primeiro livro, dedicado a ele. Combinamos a forma de fazer o livro chegar às suas mãos e nos despedimos, sem esquecer de trocar os endereços eletrônicos para podermos nos comunicar dali por diante. 

         Posteriormente enviei uma versão digital dos originais de meu primeiro romance A saga da família Cruz, pedindo-lhe que o lesse e escrevesse o prefácio. Ele o fez com alegria, sentindo-se honrado com o fato de eu, seu aluno de tantos anos passados, estar iniciando a carreira de escritor e lhe pedir um prefácio para um dos meus trabalhos. 

Vista noturna do exterior da casa de Carlos Afonso.

Outra vista do exterior da casa.

        Durante os anos que perdemos contato, Carlos Afonso concluiu primeiramente os estudo de teologia e foi ordenado sacerdote. Exerceu essa atividade por cerca de 20 anos, quando chegou a conclusão que queria viver outras experiências e pediu licença ao bispo, que encaminhou a solicitação ao Papa, sendo lhe concedida permissão para se casar. 


        Casou-se pela primeira vez e teve dois filhos. Nesse meio tempo foi professor e se especializou no que hoje é sua ocupação. Um desentendimento provocou a separação do casal, causando profunda depressão em Carlos Afonso. Descobriu ter contraído câncer de próstata. Foi operado e se recuperou completamente. 

        Algum tempo depois encontrou com uma antiga paroquiana, viúva há algum tempo.
Seu nome é Carmen Bourscheidt. Iniciaram um relacionamento, resultando em nova união que perdura até hoje. Juntos terminaram de educar e formar os quatro filhos que ambos tinham. Os dois, um casal, dele e duas filhas dela. Há questão de dois anos trocaram a residência em Santa Rosa por outra em Três de Maio. Ela exerce a atividade de massoterapia. 

Jardim da casa de Carlos Afonso.

       Os dois espaços de trabalho estão instalados na própria residência. Uma outra atividade que Carlos Afonso associa com a terapia holística é o uso de florais. Ele prepara em sua casa as receitas para cada paciente de acordo com as necessidades. Durante nossa permanência na casa, houve atendimento de vários clientes, especialmente por parte de Carmen. Veja abaixo as fotografias de seu ambiente de trabalho, um armário com objetos relativos às atividades dos dois. 
Armário com frascos de florais, exemplares de livros e outros objetos. 

O mesmo armário sob outro ângulo.

Local de realização das sessões de massagem de Carmen.








Foi um encontro altamente satisfatório para ambos. Carlos Afonso talvez não imaginasse alguns meses atrás que iria me rever, muito menos como escritor, por ele elogiado. Ao grande amigo, mestre e exemplo, obrigado por tudo que fez por mim no passado, continuando a servir de modelo a ser imitado nos dias de hoje.

Curitiba, 11/08/2014.

Décio Adams

Salvador das Missões, RS

Minha terra natal!

Prefeitura muncipal

Outro ângulo do edifício da prefeitura

Prefeitura Municipal.

Neste prédio, existente desde meus anos de infância, hoje funciona a prefeitura municipal de Salvador das Missões. Ao tempo de meu nascimento, fazia parte do município de São Luiz Gonzaga. Posteriormente era parte do território de Cerro Largo. Hoje é município. Fiquei gratamente impressionado com a limpeza e aparentes cuidados com o perímetro urbano. O obelisco situado no centro do cruzamento fica exatamente no encontro de duas antigas estradas. A que inicialmente era conhecida como Linha São Salvador e a outra que servia de ligação com a sede do município e outros municípios existentes até Porto Xavier, às margens do Rio Uruguai, divisa com a Argentina. Havia visto a localidade pela última vez na primeira metade da década de 60 do século XX, quando estudava no Seminário São José em Cerro Largo. Em mais de uma ocasião fomos acolhidos por um morador de sobrenome Heinzmann. Voltei ali em 2004, numa passagem rápida, junto com meus pais em uma visita aos parentes que residem na região. 

Praça ao lado da Prefeitura e nosso carro estacionado

Portaria de acesso e brasão municipal

Vista frontal da igreja.
Igreja em que fui batizado.

Lembro dessa  igreja do tempo de criança. A única coisa que foi modificada é a calçada de acesso frontal e uma bonita arborização com ciprestes, cuidadosamente cultivados. A data do meu batismo foi 23/01/1949, com exatamente um mês de idade, pois nasci no dia 23/12/1948. A casa em que meus pais moravam na época do meus nascimento, não existe mais, nem o moinho em que meu pai, auxiliado pela mamãe, labutava quase diuturnamente ganhando o suado dinheiro para alimentar a família. Cabe dizer que ocorria um acréscimo de mais um membro a cada 18/20 meses em média. Essa casa ficava localizada cerca de 1000 metros na direção sul de onde hoje está instalada a prefeitura. A distância total de casa até a igreja variava entre 1500 e 2000 metros. 

Naqueles anos já era uma localidade com relativa prosperidade, havendo um comerciante bem posto financeiramente, uma serraria, uma ferraria onde conheci a primeira bigorna elétrica. Peça que hoje se encontra no museu municipal, segundo me informou o Secretário da Educação, na ocasião em que lá estive, no dia 20/06/2014. Havia também um cortume, uma selaria onde se fabricavam diversos artigos de couro; uma marcenaria que produzia esquadrias e móveis variados. Meus pais mudaram-se dali em 1958, indo morar na Linha Paranaguá, onde residiam os demais irmãos de minha mãe. Na mesma região também residiam os irmãos de meu pai, embora um pouco mais distantes.

No outro lado da rua, bem em frente da atual prefeitura, ficava uma padaria, tendo anexo uma espécie de bar e uma cancha de bolão. Meu pai era, nos primeiros anos, frequentador assíduo do mesmo, tendo sido ganhador de diversos prêmios em competições locais. Ao olhar hoje, fica difícil reconhecer algumas coisas, pois o tempo, além de modificar tudo, também deixa em nossa memória uma imagem diferente do que nos deparamos hoje, depois de 50 anos de ausência. 

A estrada de acesso aos municípios vizinhos e grandes centros é asfaltada atualmente, sendo paralela à antiga estrada principal, distando entre si em média algo em torno de 2000 m. O que me faz lembrar especialmente de minha terra natal é que naquele tempo já era servida por uma rede de energia elétrica, proveniente de uma pequena usina hidrelétrica, acionada pelas águas do Rio Ijuí, numa localidade mais abaixo, próxima à sua desembocadura no Rio Uruguai. Era um benefício inexistente na quase totalidade dos municípios e localidades próximas. Esse melhoramento chegou à localidade onde vivi meus anos de infância muitos anos mais tarde. 

Segundo informações que obtive, o município não é um lugar de grande prosperidade, porém me deu a impressão de ser uma comunidade tranquila. Os habitantes levam uma vida serena, sem grandes agitações. Isso pode significar muito para quem sabe apreciar esses predicados do lugar em que vive.

A poucos quilômetros da sede, existe a Vila Santa Catarina, distrito de Salvador, onde se encontra instalada uma escola municipal da qual meu bisavô Pedro Dewes foi o primeiro professor no período de 1899/1913, fato esse que pode ser verificado no site da prefeitura, no setor ligado à secretaria de educação. Ao saber dessa informação, ocorrida alguns anos atrás, descobri onde está a origem de minha profissão de professor. A escola a que me refiro é denominada Escola Municipal Afonso Rodrigues, em homenagem a um dos três mártires de Caaró, na época da atividade jesuíta na região junto aos indígenas. Seus companheiros, igualmente mortos na mesma ocasião, foram Roque Gonzales e outro cujo nome no momento me foge à memória. 

Belos ciprestes enfeitam o pátio da igreja.

Outra vista da igreja.

Em pé diante da porta da igreja. 

Vista mais aproximada

Adicionar legenda

Minha esposa comigo diante da porta da igreja

Mais uma vista da igreja

Voltando a essa igreja após mais de cinquenta anos
Desejo ao povo que habita hoje a terra em que nasci muita tranquilidade, prosperidade para assegurar uma vida tranquila e em harmonia entre todos os cidadãos. 

Seminário São José

Vista frontal do prédio do Seminário e capela ao lado.

Gruta em pedras localizada ao lado da capela

Vista frontal da capela






Neste lugar vivi quatro                           
                      anos de minha adolescência.


         O então Seminário São José, hoje serve de sede a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). O prédio continua essencialmente o mesmo, com poucas alterações. A capela, onde rezei muito. A gruta ao lado, onde passamos muitos momentos de oração ao entardecer. A fachada apenas recebeu o acréscimo de uma estátua de São José, colocada no alto, em frente. A estradinha de acesso, aberta a picareta, pá, enxadão, carrinhos de mão e carretas de duas rodas que puxávamos e empurrávamos para transportar a terra. Foi um verdadeiro trabalho de formiguinhas, que levou meses para ficar terminado. Antes havia apenas uma entrada única, sem muito espaço para manobras. Construímos à mão o contorno da pracinha em forma de aproximadamente um coração. Mas sentíamos um tremendo orgulho do resultado. No comando estava o Pe. Canisio Dapper, que não ficava apenas mandando. Pegava no pesado junto com a gente e sabia nos incentivar, motivar nos momentos de desânimo e cansaço. Vi com meus olhos suas mãos com grandes calos causados pelo uso das ferramentas, às quais suas mãos sacerdotais não estavam afeitas no dia a dia. Isso se deu nos anos de 1961/62/63. Não sei precisar exatamente o período, mas foi nesse tempo.
Foram quatro anos longos, custavam a passar, cheios de atividades. Eram horas aparentemente infindáveis de estudos, aulas, tarefas ditas domésticas como lavar louças, limpar o chão, as privadas, cultivar a horta, capinar o pomar, varrer o pátio. Tudo isso era por nossa conta. Havia um grupo de freiras e também moças que atendiam o serviço de lavar e passar a roupa; outras encarregavam-se da cozinha, preparando nossas refeições. Nós as víamos de relance por uma janela por onde eram passadas as travessas de comidas, passando rapidamente por algum corredor, ou pela manhã na hora da missa, quando iam comungar. Instantes antes de terminar a benção final elas se retiravam rapidamente para seu setor e no resto do tempo praticamente não eram visíveis.
Como disse acima, foram longos anos na época, mas hoje me parecem tão efêmeros e fugazes. Lembro de muitos momentos com saudades. Nos dias em que íamos todos ao campo de futebol do clube local, cujo nome não me lembro, depois nadar numa pequena represa que havia em uma chácara pertencente ao Seminário. Uma vez ao mês havia um passeio dito passeio geral ou grande, quando passávamos o dia inteiro fora. Em uma chácara perto, ou então em alguma propriedade mais distante, quando o percurso era feito em carroceria de caminhão e a alimentação fornecida por algum benfeitor. Em geral nos ofereciam churrasco, outras era a famosa galinhada. Um arroz com frango caipira, muito bem temperado, regado a muito refresco, ou vez ou outra uma sangria, isto é, um pouco de vinho diluído em água e adoçado. Eram dias de intensa alegria. Havia os aficionados da pesca. Quando no local existisse um rio ou tanque lá iam eles com seus anzóis, iscas (minhocas ou massinha de pão). Muita vez voltavam de mãos abanando, outras traziam seus peixes, algum muçum e os limpavam, entregavam na cozinha onde eram fritos e lhes servidos na hora do jantar. Em geral retornávamos cansados, porém prontos a enfrentar mais um período de estudos, trabalhos e sem esquecer as orações nas horas certas, intercaladas com algumas outras extemporâneas.

Outra vista frontal do prédio

Vista frontal da capela com imagem de São José

Minha esposa Rita com a prima Adriane Dewes diante da gruta

Vista diferente de Rita e Adriane diante da gruta

Entrada da capela e novo acesso ao prédio hoje da UFFS
Nesse ambiente tive complementada minha formação básica para a vida, sem deixar de citar o estudo do Latim, e principalmente, um professor de português que tive a graça de encontrar. Seu trabalho foi formidável e recentemente estive em sua casa em Três de Maio. Está hoje com 74 anos, é escritor e terapeuta holístico. Posso afirmar que os anos apenas o tornaram mais experiente, pois suas demais qualidades se aprimoraram com o tempo. É igual ao vinho, quanto mais envelhecido, melhor ele fica. Trata-se de Carlos Afonso Schmitt.
Ali aprendi a conviver em grupo, com colegas de diferentes etnias, como descendentes de poloneses, italianos e outras. Uns provenientes de famílias pobres como eu mesmo, outros de lares mais abastados, dispondo de mais recursos para diversas finalidades. No entanto ali dentro, em regime de internato, não existia distinção, mesmo que alguns quisessem fazer valer sua posição social superior, costumavam ser desestimulados em suas pretensões. Éramos todos membros de uma comunidade e, tirando a parte de estudar, fazer provas, devíamos agir visando o bem comum. Não existiam privilégios dessa ou daquela natureza.
Um imenso pomar provia a maior parte do suprimento de frutas consumidas pelos alunos e também pelos servidores que passavam ali dentro a maior parte de seu tempo. A horta, onde trabalhei por cerca de um ano e meio ou dois, não lembro bem, era constituída de terra fértil, bem adubada e dispunha de água em abundância para irrigação. Assim a disponibilidade de verduras e legumes em geral era farta. Era rara a refeição em que não dispúnhamos de uma travessa de algum tipo de salada, em geral proveniente da horta.
Era comum receber doações de laranjas, melado de cana, batata doce e outros comestíveis de maior duração. Nessas ocasiões era contratado um caminhão, um grupo de alunos designado para fazer o carregamento ia junto e percorríamos um roteiro predeterminado recolhendo as doações que eram reunidas em lugares centralizados para facilitar o acesso. Participei de excursões desse tipo uma ou duas vezes. Eram dias especiais, pois fugíamos à rotina. Geralmente eram indicados alunos mais destacados, que vinham obtendo melhor rendimento nas avaliações, o que permitia deduzir que não lhes faria tanta falta a ausência das aulas de uma tarde. Teriam capacidade de recuperar o tempo perdido depois.
Deixei esse ambiente no mês de abril de 1965, aos 16 anos de idade, indo enfrentar a vida na comunidade. Havia concluído que não era minha vocação o sacerdócio. Provavelmente desde o princípio não a tive, mas com certeza os anos ali vividos foram importantes para minha vida, personalidade e atuação na vida até os dias atuais. 
Minha esposa e eu

A prima Adriane e eu

Vista mais afastada de frente

Rita e eu diante da gruta
                   
              Havia retornado a esse local em 2004, após praticamente 40 anos de ausência, para uma visita rápida. No dia 20 de junho desse ano, voltei e encontrei boa parte da antiga estrutura preservada. As mesmas pedras da gruta com suas imagens. A capela, o prédio principal, até alguns ciprestes continuam lá, com suas pontas em forma de agulha apontadas para o céu. A pracinha está lá, apenas um pouco mais rebaixada, creio devido à ação do tempo. Talvez meus olhos hoje vejam tudo em uma perspectiva um pouco diferente do que a memória trazia registrada daqueles longos anos passados. 

             

E agora Felipão!

E agora, seu Luiz Felipe Scolari!
Que o assim conhecido Felipão carrega em sua bagagem de treinador de futebol uma boa dose de realizações ninguém duvida. Como também leva alguns fracassos, sendo o maior mais recente, a acachapante derrota de nossa seleção diante da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo 2014. Uma derrota por um placar apertado, na prorrogação, disputa por penalidades máximas, não deixaria de ser derrota, porém a goleada de 7×1, foi de deixar qualquer um com a moral abaixo de barriga de cobra.

Conta entre seus triunfos o título da copa libertadores conquistado no comando do time do Grêmio Portoalegrense na década de noventa. O grande feito mesmo, foi o título de pentacampeão da Seleção nacional em 2006 no Japão. Depois levou o selecionado de Portugal às quartas de final da copa em 2006, coisa que somente outro brasileiro conseguiu em 1966. A estes se somam alguns outros feitos de menor expressão. No futebol inglês não teve sucesso, não sei por que motivos, mas ficou pouco por lá. O Palmeiras de São Paulo sofreu um rebaixamento para a segunda divisão do campeonato brasileiro sob seu comando. Penso que querer alguém que carregue em sua bagagem apenas triunfos, é algo difícil de encontrar, sem contar o risco de, ao primeiro fracasso, não encontrar forças para se reerguer. É voz corrente em meios econômicos e mesmo outros, que o fracasso ensina mais que o triunfo, desde que corretamente analisado, sem descarregar a culpa em bodes expiatórios, isentando a si mesmo de responsabilidades. Portanto, Luiz Felipe Scolari, tem tudo para superar o fracasso com o selecionado nacional e encontrar novamente o caminho das vitórias e conquistas. Espero que ele esteja fazendo, ou já tenha feito a devida análise e anotado as lições embutidas nas recentes derrotas.
O que esperar de Felipão no comando do Grêmio.

            Não escondo de ninguém minha torcida pelo tricolor gaúcho. Foi o time que cativou meu coração quando tomei conhecimento do mundo do futebol de competição por volta dos 12/13 anos, quando saí do interior indo estudar no Seminário, em regime de internato. Não lembro bem o que me fez decidir e sinceramente não me arrependi, apesar das fases de sofrimento por que costumamos passar periodicamente. Coisa essa aliás é bem mais natural do que habitualmente queremos fazer crer.

            Vejo duas situações claras na posição de Luiz Felipe no comando do Tricolor. A primeira é que, se ele não superou a frustração com a seleção e vem em busca da reabilitação a qualquer preço, corre o risco de descarregar esse sentimento nos jogadores do time. Isso certamente causaria sentimentos de rebeldia e reações adversas por parte dos atletas, levando a uma sequência de fracassos nas competições nacionais e sul-americanas. Fatos esses que acabariam por colocá-lo em situação difícil diante dos torcedores, atletas e diretores do clube. A torcida o tem em elevada conta, mas não podemos esquecer que torcedor quer ver resultados. Ela vai ao estádio, vibra, canta, faz hola e mais uma variedade de manifestações de apoio ao time. Mas tudo isso tem limite. O resultado seria uma saída prematura e a soma de mais um insucesso na carreira.

            A segunda opção, sem dúvida a que eu torço ser a realidade, um retorno ao clube onde teve sua primeira conquista de peso, o carinho da torcida, a aparente estima dos jogadores e o alto apreço dos diretores por sua pessoa, somados à inegável capacidade de superação e seu carisma pessoal, sejam capazes de criar no plantel existente um sentimento de superação, união em torno de objetivos maiores. Assim poderão encontrar o caminho para a retomada das conquistas gloriosas do passado. O torcedor, os jogadores e diretores sabem que não é só de vitórias que se vive. Sempre haverá dias de “maria cebola” e será preciso parar, analisar, refletir e detectar as falhas, corrigi-las e seguir em frente de cabeça erguida.

Não me iludo em esperar nesse ano um resultado estrondoso. Se conseguirmos conquistar posições honrosas nas competições que estão em andamento, acho que será um grande passo. A conquista eventual de um título seria o supremo deleite, mas penso que isso é sonhar alto demais.
Planejar a longo prazo.

            Parece-me que o Grêmio tem desenvolvido algumas atividades interessantes no que tange às equipes de base, de formação de novos talentos. Isso traz retornos compensadores, pois supre a falta de peças para reposição e complementação do plantel a um custo muito menor do que ir buscar nomes já destacados no mercado nacional ou, pior ainda, internacional. Sem contar que esses, muitas vezes vem e não correspondem às expectativas. Querem ser as “prima donas” sem o empenho necessário a alcançar grandes conquistas, por não terem no sangue o amor ao clube. Vem em busca de maior projeção internacional e também pelos salários geralmente generosos.

            Minha sugestão é que sejam feitos investimentos fortes nas categorias de base, com as cabeças dirigentes de cada categoria funcionando em harmonia, para prover ao time principal de bons valores e ainda gerar eventuais dividendos pela negociação daqueles que forem excedentes, dispostos a irem tentar melhores condições em outros clubes, sejam eles nacionais ou estrangeiros. É minha opinião, mas posso não estar certo, de que Luiz Felipe Scolari, pela sua integridade e conduta moral, é alguém em condições de encabeçar um trabalho desse naipe. Certamente já não lhe faltam recursos financeiros para levar uma vida confortável. Portanto é hora de construir uma reputação capaz de deixar definitivamente seu nome na história, num momento que, como a Copa recente deixou claro, exige profundas mudanças de postura, planejamento e atitudes, se quisermos que o futebol brasileiro volte a brilhar no cenário mundial.

            Desejo de coração ao Tricolor gaúcho e ao seu treinador Luiz Felipe Scolari, um longo período de trabalho árduo, dedicado e fecundo. Isso certamente trará frutos compensadores, não em um mês, nem em seis meses, mas daqui a um, dois, cinco ou mais anos. Precisamos sem dúvida planejar olhando lá na frente. Temos daqui a dois anos as olimpíadas no Rio de Janeiro, uma nova copa do mundo na Rússia em 2018, sem contar as competições nacionais e internacionais. A cada ano há títulos a disputar. Uma infinidade de jogos a realizar. Treinamentos, viagens e vitórias hoje, derrotas amanhã. Tudo isso faz parte do pacote esportivo e precisa ser sempre visto com os olhos atentos para colher, de cada evento, os ensinamentos que ele nos brinda. Cabe saber recolher, separar o joio do trigo e aproveitar o que de útil é possível separar de tudo isso.

            Ao Felipão, um abraço amigo, aos atletas do Grêmio, um voto de confiança e apoio, no sentido de se empenharem, para juntos alcançarmos muitas alegrias nos próximos meses e especialmente nos próximos anos.