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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo IX

 

Pátio de embarque aeroporto de Lisboa.

 

 

Aviões taxiando em Lisboa.

 

 

Fachada do aeroporto de Lisboa.

 

9. Mudança total de vida.
            Enquanto aguardava pelo crédito da indenização na conta, Manoel aproveitou para percorrer o bairro da Lapa, Mooca, Bom Retiro e adjacências em busca de algo para comprar. Encontrou vários estabelecimentos à venda. Em alguns casos logo percebia que estariam além de suas possibilidades, outros, embora aparentassem menor valor, os atuais donos pediam valores exorbitantes. Houve um momento em que pensou ser necessário procurar em regiões mais distantes, pois não poderia gastar todo seu capital apenas na compra. Haveria necessidade de dinheiro para algumas reformas, adaptações e para capital de giro.
 
            Decidiu fazer primeiro a viagem à terra natal e depois, com mais tempo, poderia procurar melhor. Dirigiu-se a uma agência de aviação. Iria por esse meio para não gastar tando tempo. Mesmo aposentado, tinha certa pressa em voltar e começar a tratar de seu próprio negócio. Enquanto aguardava o dia do embarque, passou casualmente por uma rua que ainda não havia visitado. Ali deparou-se com um estabelecimento a venda. Em certo momento viu diante de si uma placa que lhe chamou atenção. Lia-se:
           VENDE-SE ESTE ESTABELECIMENTO
 
Tratava-se de um bar, com algumas mesinhas onde eram servidas refeições caseiras. O proprietário, também imigrante da terrinha, já em idade avançada, tinha decidido terminar seus dias junto aos familiares remanescentes em Tras os Montes. Ele  aqui vivia sozinho. Nunca se casara, nem tivera envolvimento sentimental. Com o que tinha guardado no banco e com o valor da venda do bar, poderia custear as despesas para viver uma vida humilde e pacata junto aos irmãos e descendentes, com os quais se correspondia regularmente. Estavam a sua espera havia já algum tempo. Não se cansavam de insistir para que voltasse.
 
Iriam passar as tardes sentados nas praças, quando o tempo permitisse, quando não, ficariam se aquecendo junto à lareira. O que não iriam deixar de fazer, seriam boas caminhadas seguidas de intermináveis partidas de gamão, dominó, trilha e xadrez ou jogando conversa fora. Não queria terminar seus dias aqui, entre amigos, porém estranhos. Estava se sentindo cada vez mais solitário.
 
Manoel pensou um pouco, entrou e foi encontrar o patrício, de nome Joaquim José Lopes. Logo conversavam animadamente sobre negócios e ao final de duas horas haviam combinado o preço e o dia em que iriam a um cartório para formalizar o negócio. A vontade de voltar para a patria fez Joaquim pedir um preço razoável, dentro das possibilidades de Manoel. Isso facilitou a realização da comprá. Para comemorar, Joaquim foi buscar uma garrafa de vinho do Porto, guardada desde longa data. Não faria sentido transportar de volta para Portugal algo tão frágil. A ocasião merecia uma comemoração e nada melhor do que um bom vinho.
 
O excelente vinho acompanhou um prato de queijo e presunto picados, regados a azeite de oliva e orégano. Quando terminaram o vinho, se avizinhava a hora em que Joaquim devia, por enquanto, dar atenção aos seus fregueses. Estes, ao retornarem para casa vindo do trabalho, passavam por ali. Jogar um dedo de prosa fora com algum conhecido, saborear uma cerveja ou então uma branquinha. Depois seguiam seu caminho para casa. Tinham que descansar do dia de trabalho, pois na manhã seguinte a labuta recomeçava.
Avião decolando em Lisboa.

 

Area de check in aeroporto Lisboa.
 
Para Manoel, era imprescindível que os fregueses ficassem contentes, pois logo seria ele que estaria atrás do balcão. Já estava fazendo planos para algumas mudanças, mas isto ficaria para o dia em que estivesse no comando. Por ora apenas haviam acertado os detalhes do negócio. Faltava, no dia seguinte, logo pela manhã, irem ao cartório, formalizar o contrato e registrar os documentos de garantia de uma parte do valor a ser pago com algum prazo. Se fosse pagar o preço à vista, ficaria completamente sem capital de giro e não seria possível tocar o negócio. Era importante reservar um tanto de capital para as mudanças que iria fazer no bar e para garantir o estoque de bebidas e demais mercadorias que iria vender.
 
O representava uma grande vantagem era o fato de que adquirira não apenas o estabelecimento, mas o edifício, incluindo uma ampla moradia no andar superior. Com calma poderia fazer uma reforma em regra e teria onde residir com a future esposa. Voltou para casa assobiando alegremente, em outros momentos cantarolava canções que lhe vinham a memória, evocando os tempos de juventude e adolescência. Antes de ir para o quarto de pensão, passou pela casa de Eduarda e lhe contou as novidades. Queria partilhar com ela sua nova fase, uma vez que, ao que indicavam os acontecimentos, ela seria a companheira de seus dias no futuro.
 
Na manhã seguinte, quando as portas do cartório de registro civil abriram, lá estavam Joaquim e Manoel, ansiosos por terminar com as formalidades e concretizar o negócio. Joaquim estava radiante, pois tivera medo de que demorasse muito para encontrar um comprador para o bar. Manoel por outro lado, estava eufórico com a perspectiva de tornar-se dono de um estabelecimento que, conforme pudera verificar, era bem movimentado. Provavelmente não ficaria milionário, mas esta não era sua intenção. Queria sim ter seu canto para viver com sua cabrocha. Já poderia pedi-la em casamento. Tomou como exemplo o caso de Joaquim, que nunca se casara e levava hoje uma vida solitária e um tanto triste. Queria voltar para Portugal em busca de companhia, alguém com quem compartilhar a solidão.
 
Explicaram ao funcionário do cartório os detalhes do negócio e este, em pouco tempo redigira os termos do contrato, bem como os anexos como Notas Promissórias, integrantes do contrato, para garantir ao vendedor o recebimento dos valores que iriam ficar para trás. Quando tudo ficou pronto, antes de assinarem, dirigiram-se à agência da CEF que ficava perto e fizeram a transferência do dinheiro da conta de Manoel para Joaquim. Com o comprovante de pagamento em mãos, retornaram ao cartório e assinaram os documentos, que ficaram devidamente registrados nos livros do estabelecimento. Saíram dali, cada um com uma cópia do contrato nas mãos e voltaram para casa. Ao se despedirem, combinaram que na segunda feira seguinte iriam iniciar a transferência do estabelecimento.
 
Enquanto isto Manoel iria conversar com o contador, para se inteirar dos aspectos fiscais que o bar envolvia. Tinha necessidade de estar a par de todos os detalhes para não ser tomado de surpresa por alguma coisa de que não tinha conhecimento. Era necessário encaminhar a mudança da razão social para o seu nome. Isto demoraria algum tempo, pois envolvia órgãos públicos, onde geralmente é preciso ter muita paciência, voltar várias vezes para levar mais algum documento que ficara faltando e por aí a fora. Em se tratando de estabelecimento que vendia bebidas e alimentos, bem como a sua intenção de instalar numa área em desuso na parte do fundo mesas de sinuca, futebol de botão, pebolim, havia alguns requisitos que precisariam ser preenchidos para que fosse autorizado o funcionamento. Não queria arrumar confusões com as autoridades. Sua intenção era trabalhar com tudo nos devidos lugares. Licenças, autorizações, atestados e qualquer coisa exigida por lei.
 
            Tratou logo de encontrar um empreiteiro para realizar a reforma. Iria demolir uma parede, para anexar ao salão do bar a área em desuso. Tudo combinado como era de seu gosto, foi dado início à reforma. Quando os trabalhos estavam encaminhados, foi em busca de um fornecedor dos equipamentos que precisava. Não demorou a encontrar uma empresa que lhe alugaria as duas mesas de sinuca, uma de futebol de botão e perolem. Providenciou cadeiras novas, mesinhas para servir bebidas, conseguidas como propaganda da distribuidora de bebidas.
Vista aérea do aeroporto de Lisboa.
Em questão de duas semanas o senhor Joaquim se despediu de Manoel e lhe desejou sucesso com as modificações que estava realizando. Depois tomou um ônibus até o porto de Santos, onde embarcou em um navio de passageiros com destino à Europa. Bem que Manoel lhe havia sugerido viajar de avião. Tinha medo deste bicho que voava. Ele é que não iria arriscar a sua vida naquilo. Era preferível demorar mais alguns dias para chegar, mas não iria por os pés em um avião. Nem amarrado, posto em uma camisa de forças ele iria entrar num troço daqueles. Voasse quem quisesse. Ele iria com o bom e velho navio que era bem mais seguro.
 
Quando as obras ficassem prontas, Manoel estaria voltando de Portugal. Estavam em meados de julho e em dois dias embarcaria para Lisboa. Dali seguiria de trem ou ônibus, o que se apresentasse mais vantajoso. Avisara antes de partir aos familiares de sua próxima chegada. Aqui ficou tudo encaminhado para ficar pronto quando voltasse. O funcionário herdado entrou em férias e voltaria ao trabalho na reinauguração do estabelecimento. Uma cozinheira havia sido contatada para preparar as refeições a serem servidas aos freguêses. Todos eles lamentaram o período em que teriam necessidade de procurar outro lugar para fazer suas refeições. Quem gostou da ideia, foram os fregueses vespertinos e noturnos. Passariam uma temporada sem lugar para ir, mas no retorno haveria à sua disposição os jogos para se entreter.
 
Havia entre os fregueses e vizinhos apreciadores desse tipo de divertimento e antegozavam as horas passadas ali, disputando acaloradas partidas com os companheiros e amigos. Havia quem se preparasse para organizar campeonatos tanto de sinuca como de pebolim. Era ótimo o fato de a venda ter ocorrido entre dois patrícios portuguêses. Assim manteria boa parte das suas características, apreciadas pelos frequentadores.
 
A viagem foi rápida. Quando menos esperava descia no aeropoerto de Lisboa, indo depois buscar sua bagagem. Em pouco tempo estava embarcando em um ônibus que o levou para o Porto. Dali tomou um trem que o deixou em Ancede. Ao chegar, caminhou alegremente para a casa de seus irmãos, onde estava também a mãe. Morava em casas pouco distantes entre si. Em mais de trinta anos, essa era a segunda vez que voltava ali. A última for a poucos anos antes. A mãe ficou preocupada com o fato de ele estar mutilado. Pensou que teria dificuldades no futuro, mas ele lhe afiançou que não tinha com que se preocupar. Estava aposentado e deixara para trás um estabelecimento em reformas, junto com uma ampla moradia. Na volta pediria a namorada Eduarda em casamento e ficariam noivos.
 
Com essas notícias a velha senhora ficou mais serena. Seu estado de saúde era deveras preocupante. Fizera bem em vir visitá-la nesse momento, pois correria o risco de não ter outra ocasião para fazê-lo. Passou um mês visitando todos os lugares de sua infância, conhecidos ainda vivos, antigos colegas, sobrinhos já casados, formados em cursos universitários. Exerciam suas profissões ali mesmo em Ancede ou lugares próximos. A família se encaminhara para uma perspectiva de vida melhor do que nos tempos de sua infância e adolescência. Infelizmente quando se está a passeio, o tempo transcorre mais depressa do que em outras condições.
 
O dia do seu embarque de retorno se avizinhava. Passou dois dias inteiros junto à mãe, como querendo compensar os longos anos de separação. Sabia que, provavelmente essa seria a última vez que se viam. O momento da partida chegou e dos olhos da senhora lágrimas rolaram. Ela também sabia que ali estava se despedindo definitivamente do filho. Era o curso da vida e não poderia ser alterado. Desejou-lhe boa viagem e sucesso em seu empreendimento. Queria ter tido ocasião de lhe conhecer os filhos, mas isso estaria fora das possibilidades. Um sobriho, levou Manoel até Lisboa, aproveitando a necessidade de se deslocar para a capital. Iria participar de um curso de aperfeiçoamento em odontologia e assim poderia dar carona ao tio.
 
Foi uma viagem diferente. O veículo era usado e de menor potência que o seu Opala, deixado no Brasil. Ficou tentando comparer o desempenho do modelo europeu com o seu, de fabricação brasileira. O que ficava evidente era o menor consume de combustível, coisa que na Europa começava a ser levado em alta conta. A necessidade de importação de petróleo, aliada à alta do produto no mercado internacional, exigia o uso comedido do produto. Pensou consigo mesmo que, graças a Deus, o Brasil caminhava a passos largos em busca da autosuficiência na produção. O preço dos combustíveis ainda estava em nível razoável.
 
Foi deixado no aeroporto pelo sobrinho que logo depois foi para o local da realização do curso de que iria participar. Manoel procurou o balcão da Varig e ali fez os procedimentos necessários ao embarque para o Brasil. Teria que fazer uma baldeação em Marraquesh, até onde iria em uma aeronave menor. Estaria embarecando pouco antes do anoitecer e seria obrigado a uma espera de três a quatro horas antes de continuar para Recife, depois Rio de Janeiro, a seguir São Paulo.
Chegando a Congonhas.

 

Decolagem em Congonhas.

 

Patio de embarque em Congonhas.

 

Área de check in em Congonhas.
 
Ao chegar aqui, encontrou os trabalhos da reforma praticamente concluidos. Faltavam apenas detalhes de acabamento, a colocação da nova placa de identificação. Procurou pelo responsável para verificar a necessidade de algum material faltante. Este lhe informou que adquiria os materiais e os incluiria no valor final do serviço, junto com os comprovantes. Adiantou os valores e Manoel considerou que não havia exagero. Já previra a ororrência dessa situação. O automóvel estava a sua espera e para matar a vontade, deu um longo passeio com Eduarda por diversos bairros. Pararam em um restaurante para almoçar e depois foram ao cinema.
 
Ao sairem da sessão da tarde, anoitecia e foram até a casa da moça. Jantou ali, contando as novidades encontradas em Portugal. O novo governo estava se empenhando em melhorar as condições gerais da economia, o que se refletia na evolução positiva da qualidade de vida da população. O objetivo dos novos governantes era inserir o país no Mercado Comum Europeu. Isso facilitaria uma porção de coisas. Havia porém alguns requisitos a serem preenchidos para ser aceito nessa organização. Tanto a Espanha como Portugal estavam nessa busca. Era possível que o ingress na comunidade aconteceria quase simultaneamente. Eram por assim dizer o mesmo território.
 
Ao ir levara fotografias de seu carro, da namorada e também do estabelecimento adquirido. Haviam ficado com a mãe e os irmãos. De lá trouxera uma porção de rolos de filme para revelar aqui. Teria o que mostrar da terra natal. O interessante era que, mesmo tendo nascido lá, sentire-se estrangeiro ao chegar. Havia se abrasileirado de tal modo que até seu sotaque característico havia se modificado sensivelmente. Era agora quase imperceptível. Sua mãe percebera a diferença tão logo lhe pusera os olhos ao chegar. No final estava novamente falando igual aos familiares, coisa que demoraria poucos dias e teria perdido novamente.
 
Aproveitou e pediu naquele dia mesmo a mão de Eduarda ao pai, Isidoro. Fez o pedido sem delongas, prometendo levar a moça no dia seguinte a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado condizente. Ela ficou encantada com o pedido e aceitou prontamente. O pai não se opôs por ver que a filha estaria em boa companhia, apesar de o noivo já ter alguma idade. O que importante era se amarem e terem garantidas as condições de uma vida material minima para não sofrerem privações. Ele mesmo trabalhara a vida inteira e teria ainda alguns anos pela frente para se aposentar. Nunca tivera sobras, mas também não faltara o suficiente para alimentar, vestir e educar os filhos.
 
A mãe sempre trabalhara, ficando inativa somente nos períodos de gestação avançada. Mesmo com os filhos pequenos, deixara-os aos cuidados da avó e retomara o trabalho em uma pequena indústria. Em mais algum tempo poderia também se aposentar, de forma que teriam uma velhice sem grandes sobressaltos. Bastaria que não os atingisse nenhuma doença grave e poderiam aproveitar os anos da velhice para gozar um pouco a vida. Isso era algo bem próximo de um ideal, nem sempre ao alcance de todas as pessoas. Para comemorar o fato de a filha caçula ser pedida em casamento, foi aberta uma garrafa de vinho. Era produção brasileira, mas de boa qualidade.
 
Eduarda perguntou se haveria quem prepararia as refeições no estabelecimento ao ser reaberto. Manoel falou que havia mantido contato com uma senhora para ocupar essa vaga, mas que poderia dispensar seus serviços se ela assim o desejasse. Ela lhe disse:
– Pensei em trabalhar junto com ela para aprender mais sobre cozinha. Depois eu assumiria o comando, quando nos casassemos.
– Tu sabes que nem havia pensado nisso. Mas é um excelente arranjá. Melhor não poderia ser, minhã querida.
– Vou pedir para sair da loja. Estou mesmo cansada de atender aqueles fregueses nada gentís que aparecem.
– Acho que freguêses chatos vamos ter também no restaurante/bar. Mas tu vais ficar na cozinha e não terás contato tão direto com os mesmos.
– Sempre gostei de cozinhar e vou me sentir melhor nesse trabalho que vendendo sapatos a filhinhos de papai, metidos a besta.
– Acho que esses não irão aparecer no nosso estabelecimento. Ali a maioria é trabalhador que mora na região e alguns amigos que vou chamar para a inauguração. Assim eles se encarregam de fazer propaganda.
– Tu não vais te arrepender das mesas de sinuca e pebolim? O pessoal começa a beber e pode se tornar inconveniente.
– Deixa comigo e com o Francisco. Ele sabe lidar com esse povo. Está no ramo faz muito tempo. Vai ser importante como auxiliar.
– Sorte ele ter ficado para trabalhar contigo.
– Eu não iria deixar ele sair. Fiz questão de pagar seu salário pelas férias que está tirando para garantir que fique comigo.
 
Era hora de voltar para seu lugar de hospedagem. Poderia providenciar nos próximos dias uma cama, colchão e guarda roupa para poder se mudar. Tinha agora onde morar, não precisaria mais pagar hospedagem. Em poucos dias inauguraria o estabelecimento e teria onde fazer as refeições. Planejava fazer a inauguração por ocasião do feriado de sete de setembro, data da independência. Haveria um clima festivo para receber os clientes no retorno. As comemorações se restringiriam ao primeiro dia, depois começariam a pagar por tudo que fosse consumido. Não era nenhum perdulário capaz de rasgar dinheiro. Queria dar as boas vindas aos antigos e novos fregueses, nada mais.
 
Ninguém vai para frente em um negócio, pondo-se a distribuir presentes, comida e bebida de graça. Estava jogando uma isca, para depois puxar o anzol e fisgar todos eles. Que eles fossem, além de fregueses, seus amigos, não havia problema nenhum. Apenas não iria misturar negócios com amizade. Faria valer o ditato: Amigos, amigos! Negócios a parte.
 
Com a aproximação da inauguração começou a receber perguntas do tipo:
– Quando vamos poder nos divertir no seu estabelecimento, Manoel?
– Estou louco para jogar umas partidas de sinuca aqui perto de casa. Não vou mais ter que andar longe para isso.
– Vou inaugurar no dia sete de setembro, na hora depois do almoço. Vou aproveitar para ter mais gente aqui, pois no dia seguinte é sábado e domingo. Assim posso ter três dias de bom movimento.
– Bem esparto você, Manoel. Estou torcendo para que o dia sete chegue depressa.
– Calma que ele chegá logo. Ainda preciso terminar algumas coisas.

 

 
Seguiam seu caminho e ele trabalhava na arrumação de tudo para o dia sete. Havia instalado sua residência no andar superior e estranhava o enorme espaço vazio. Ficou preocupado com a situação, pois a vida toda vivere sempre próximo de uma porção de gente. Houvera ocasião em que dividira o mesmo quarto com colegas nas pensões em que ficara hospedado. Precisava se acostumar à solidão. Em alguns meses estaria casando com Eduarda e iria dividir aquele espaço com ela. Aproveitaria a presença dela na cozinha para decidirem sobre as reformas e móbilia para o espaço que seria o lar deles. Esperava ter vários filhos, se Deus lhe concedesse essa alegria. Apenas lamentava não ter tido tempo de dar essa alegria à mãe.
 
O tempo correu célere e logo estava na véspera da inauguração. Todas as providências haviam sido tomadas. O estoque de bebidas, os ingredientes para a preparação dos salgados e comida estavam armazenados no depósito, ou na geladeira. Dormiu um sono agitado naquela noite, sonhando que havia esquecido alguma coisa imperdoável e se recriminava. Ao acordar percebia que tudo não passava de sonho. Na dúvida chegou a descer para conferir se estava tudo em ordem. Constatou pela enésima vez que nada faltava. Voltou para cama e dormiu. Algum tempo depois novamente o sonho do esquecimento, agora de um outro ítem. Acordou e percebeu que havia tido novo sonho. Esteve a ponto de voltar para conferir tudo novamente, mas desistiu. Estaria cansado ao extreme logo no dia da inauguração.
Máquina de fliperama.

 

Máquina de fliperama.
 
Receber os fregueses com festa, mas a fisionomia cansada e aparentando um estado de ânimo incompatível com o clima, não condizia com o que esperava que fosse. Decidiu tomar um copo de água com açúcar e dormir. Dessa vez conseguiu e dormiu até ser acordado pela campainha da porta de entrada. Era a cozinheira, Francisco e logo se juntou a eles Eduarda. Desceu rapidamente depois de se vestir, mesmo antes de lavar o rosto. Daria uma desculpa e depois tornaria a subir para terminar sua preparação matinal. Em minutos os três assumiram seus lugares e começaram a trabalhar. Havia uma porção de coisas a providenciar antes que chegasse a hora de abrir.
 
Fizeram sem demora um bule de café bem forte e aqueceram também leite. Eduarda foi até uma padaria nas proximidades e comprou alguns pães para acompanhar. Assim ao descer o aroma do café recém coado veio ao encontro de Manoel. Era isso mesmo que estava precisando para terminar de acordar, depois da noite mal dormida que tivera. Sentou-se e tomou uma xícara de café e passou manteiga em um pão, pondo-se a comer incontinenti. Francisco por sua vez estava arrumando as mesas, limpando tudo com esmero. Queria que tudo estivesse impecável no momento de abrir o estabelecimento. Manoel observou o vai vem do empregado e se congratulou pela ideia de mantê-lo a qualquer custo. Não saberia o que seria dele sem sua ajuda, pelo menos nos primeiros tempos. Era uma atividade completamente diferente em sua vida.
 
Ao terminar, perguntou à dona Arminda e Eduarda se havia alguma coisa faltando na cozinha e foi informado de que estava tudo perfeito. Se constatassem alguma coisa em falta, daria tempo de avisá-lo para providenciar. Deu um beijo na noiva, depois foi se juntar à Francisco no serviço de limpeza e arrumação do salão de jogos e refeições. Conferiu as bebidas colocadas no refrigerador para gelar. Seria imperdoável faltar cerveja gelada, gêlo para uma caipirinha, um uísque ou qualquer outro destilado que algum freguês decidisse pedir.
 
Depois de revisar tudo, com ajuda de Francisco que era mais experiente no assunto, sentou-se por um momento e olhou para as mesas, do restaurante, caminhou depois até a entrada do salão de jogos. Ali correu o olhar por sobre as mesas de sinuca, o pebolim, a um canto uma máquina de fliperama. Testou o funcionamento, colocando uma ficha na ranhura destinada a isso. Realizou uma jogada, coisa que fazia pela primeira vez e viu a bolinha ser lançada na região superior, tocar nos diversos sensores, produzindo um ruido característico. Enquanto a bolinha era lançada de um sensor contra o outro e ameaçava chegar à base, onde seria sua função usar os controles existentes na lateral para impedir a passagem. Se conseguisse lançar a bolinha de retorno à região superior, ela poderia repetir o processo, enquanto os pontos seriam acumulados no visor.
 
Na primeira tentativa conseguiu leva-la até uma lateral, de onde ela foi lançada para um ponto mais acima e dali retornou como um risco para a base. Tentou em vão evitar a passagem. Ela vinha com muita velocidade e foi cair no local apropriado. Dali seria transportada ao reiniciar o jogo colocando nova ficha. Tinha ao todo cinco bolinhas. Gastara por enquanto apenas a primeira e acabou se entretendo por alguns minutos até concluir que conseguira, para uma primeira tentativa, acumular uma soma de pontos considerável. Deixou a máquina e foi conferir as mesas de sinuca. As bolas estavam em seus lugares, os tacos colocados nos suportes e giz disponível em quantidade suficiente para muitas partidas que provavelmente seria jogadas ali, dentro de algumas horas.
 
O preço por partida no dia da inauguração estava pela metade do preço, para cativar os fregueses. Um antigo fregues lhe falara que estava tratando de organizar um campeonato e queria saber se Manoel lhe daria apoio na iniciativa. Ele concordara, apenas queria saber o que isso implicaria em seus compromissos financeiros. Precisaria apenas adquirir os troféus para os vencedores, segundos e terceiros colocados. Ele passara em uma loja especializada, fazendo um levantamento para saber quanto isso iria lhe custar. Observou que, se a quantidade de partidas jogadas alcançasse determinado número, poderia arcar com a despesa adicional, sem haver prejuízo. Havia que levar em consideração também o consume de bebidas.
 
Era hora de almoçarem para estarem prontos no momento de abrir. Isso ocorreria exatamente às 14 horas. Uma dupla de tocador de violão e sanfona haviam sido contratados para animar o ambiente nesse primeiro dia. Eles haviam chegado pouco antes e estavam a postos, os instrumentos afinados e em condições de uso. Também foram convidados a almoçar e eles não recusaram. Sabiam que depois teriam uma tarde inteira para tocar e alegrar os fregueses de Manoel. Em toda redondeza não se falava nada além da inauguração do bar/restaurante reformado. Do lado de for a começou a se formar uma aglomeração, uns conversando com os outros, olhando para os relógios à espera domomento de serem abertas as portas.
 
     Manoel não seria condescendente. Faria como prometido. Abriria exatamente no momento em que o relógio estivesse indicando 14 horas, do dia sete de setembro de 1983. Era algo que seria uma característica de seu estabelecimento a pontualidade no abrir. Não poderia garantir nada sobre a hora de fechar, pois dependeria da disposição dos freguêses em jogar e gastar seu dinheiro. Ele não seria bobo em dispensar alguém disposto a deixar seu dinheiro em sua caixa registradora. Esperava apenas que lhe deixassem algum tempo para dormir, pois precisaria estar em pé no dia seguinte pela manhã. A sorte era o ajudante Francisco que poderia ir dormir mais cedo e vir em seu auxílio pela manhã.
 

 

Para mais imagens de aeroportos, mesas de sinuca e máquinas de Fliperama, basta digitar o nome no google. Pode-se escolher os sites.
 
 
 

Um japonês especialista em cachaça – Caítulo VI

 

Estádio do Pacaembu, fachada.

 

Vista aérea do Pacaembu.

 

Panorâmica do Pacaembu.

 

6. Operário orgulhoso.
Na sexta feira Manoel estava no laboratório pegando os resultados e foi até o consultório do médico. Passou por um exame geral, não sendo constatada nenhuma enfermidade que se pudesse detectar com o exame feito. O exames de sangue e raio-X atestavam que não sofria de deficiência nos components do sangue, não era anêmico, não tinha tuberculose ou outra doença do pulmão. Por isso o médico lhe escreveu um atestado com o qual teria garantido o acesso ao emprego que tanto se empenhara em conquistar. Ainda não havia decidido se iria mesmo mudar-se para São José dos Campos, próximo à indústria. Isso ficaria para a semana seguinte.
No final de semana foi assistir a um jogo de Palmeiras e Coríntians no estádio do Pacaembu. Havia ido no sábado pela manhã até uma agência onde adquirira o ingresso. Achou por bem evitar usar uma camisa de qualquer um dos times, uma vez que poderia ocorrer de acabar no meio da torcida contrária e isso seria uma temeridade. Ouvira falar da grande rivalidade entre as torcidas desses clubes. Os irmãos perguntavam sobre os estádios e times do Brasil. Ele prometera assistir a um jogo e relatar a experiência na próxima carta. No sábado depois do almoço foi até a oficina onde encontrou seu Chico a sua espera. Acertaram as contas relativas aos últimos serviços que fizera antes de ser chamado para o novo emprego.
Saiu dali com o saldo de suas comissões e ainda uma pequena gratificação, dada por Chico. Além disso era sempre bem-vindo, se por acaso precisasse fazer um bico num dia de folga ou algo assim. Bons mecânicos eram sempre bem aceitos em toda parte. Não existiam ainda cursos que ensinassem o serviço. Era no dia a dia das oficinas que os profissionais eram formados e aqueles que tinham interesse, eram atentos aos detalhes, logo se destacavam. Chico lhe desejou sucesso no novo trabalho.
No domingo à tarde, munido de uma camera fotográfica portátil, extravagância que cometera em nome da sua nova condição de metalúrgico, foi para o Pacaembu. As torcidas entravam separadas, para evitar tumultos já antes do ingresso no estádio. Entrou pelo lado da torcida alvi-negra, indo sentar-se em um lugar bem retirado, o mais no alto da arquibancada. Seu desejo era ficar o mais possível afastado de qualquer confusão. A cantoria das massas torcedoras, separadas por um alambrado além de um espaço deixado vazio, não paravam de cantar, rufar tambores, tocar cornetas e agitar bandeiras.
Não perdeu tempo, pondo-se a registrar da maneira que sabia as imagens que conseguia captar em sua camera. Estava preparado com filme sobressalente para o caso de querer bater mais chapas, ou alguma não ficar bem focalizada. Deixou a maior parte das chapas de que dispunha para serer usadas durante o jogo. Mandaria revelar tudo, separando as melhores imagens para enviar aos irmãos em Ancede, Portugal.
Pacaembu em dia de jogo.
 
A partida ia começar e a entrada dos times foi saudada com uma gritaria ensurdecedora das torcidas. Uma aplaudindo e apoiando, enquanto a adversária vaiava o time que entrava. Depois a cena se repetia, ao entrar o time adversário. Nessa época era comum os times entrarem separadamente em campo. O jogo começou e era bem disputado. Teve que reconhecer que era bem disputado. Não fora sem motivo que recentemente o Brasil se sagrara campeão da Copa do Mundo na Suécia. Os craques brasileiros jogavam de uma maneira de encher os olhos. Era uma opção para ocupar os domingos a tarde, quando não estivesse empenhado em outra atividade. Valia a pena assistir um belo jogo de futebol.
Os lances de ataque e defesa se sucediam de lado a lado. Os dribles, as roubadas de bola, algumas trombadas mais rudes que eram apontadas como faltas a serem cobradas pelo time que sofrera o lance. Os goleiros se empenhavam em evitar que a bola entrasse nas metas sob sua responsabilidade. Quase ao final do primeiro tempo ocorreu um lance de falta a favor do Coríntians nas proximidades da área do Palmeiras. A barreira foi formada, os restantes jogadores se dispuseram em posições estratégicas e por fim o juiz autorizou a cobrança. O jogador encarregado do lance, foi de uma felicidade tal que fez a bola descrever uma caprichosa curva por cima da barreira, indo encontrar a rede de proteção no canto oposto ao que o goleiro se preocupara em guarnecer pessoalmente.
A cobrança da falta fora perfeita. A trajetória da pelota foi tal que se transformou em um lance indefensável. Nesse momento o juiz apontou o centro do gramado e a torcida alvi-negra estrugiu em delírio. Do lado de verde reinou silêncio, onde pouco antes eram ouvidos gritos de vaia ao cobrador e aos adversários. Pouco depois a primeira etapa foi encerrada, seguindo-se um período de pessoas se movimentando para irem ao banheiro, tentativas de lançamento de objetos de um lado a outro entre as torcidas nos pontos em que ficavam mais próximas. Manoel nunca havia ido assistir a um jogo de futebol em um grande estádio. Imaginou por que razão os torcedores queriam se agredir mutuamente. Não havia liberdade de escolha? Cada um torcia pelo time que mais lhe agradasse. Não fazia sentido querer negar aos outros a livre escolha.
Ficou consigo a pensar na incongruência da situação. O que seria do time que sempre fosse vencedor, que tivesse todos os torcedores? Não tendo torcedores, o time deixaria de existir. Deixando de existir, o outro não teria mais adversário e também perderia o sentido de existência. Na sua concepção imaginava que depois do jogo deveriam se reunir e comemorar a vitória ou lamentar a derrota, mas sem maiores consequências. O bom do esporte era exatamente o fato de que, ora um ora outro poderia ser vencedor. Bastava por vezes um lance de sorte para definir o resultado de uma partida. Os treinamentos, a busca por jogadores mais talentosos, tinham como objetivo melhorar o desempenho do time de um clube. Era esse o motivo dos torcedores pagarem o ingresso para assistir às partidas. Prover recursos aos dirigentes para pagar pelos direitos dos clubes detentores de contrato com os jogadores. Assim poderiam ter os mesmos em seus plantéis.
Quando o jogo terminou, haviam acontecido mais dois gols, sendo um segundo do Coríntians, dessa vez em jogada vinda da esquerda para o meio da área. Ali um jogador habilidoso dera um único toque na bola que for a parar no fundo das redes. Novamente a torcida alvi-negra foia o delírio enquanto a de verde iniciou algumas vaias ao próprio time. O treinador palmeirense fez duas substituições em sua zaga, além de uma outra no ataque. O time ficou mais consistente, conseguindo evitar as sucessivas investidas alvi-negras e organizar por suas vezes alguns ataques. Por diversas vezes o goleiro corintiano foi obrigado a realizar defesas espetaculares.
Diz o ditado que água mole, em pedra dura, tanto bate, até que fura. Foi o que aconteceu nessa partida. De tantas tentativas, finalmente, agora já aos 44 minutos da segunda etapa, um atacante palmeirense deu um drible fenomenal no zagueiro corintiano e chutou da entrada da área, no canto contrário ao daquele em que o goleiro estava mais perto. A bola sacudiu a rede e agora foi a vez da torcida verde levantar e vibrar. Mas o tempo estava se esgotando rapidamente. Havia mais três minutos de acréscimo devido às interrupções do jogo em várias ocasiões. O time verde se empenhou ao máximo para conseguir a igualdade no placar, mas o alvi-negro se manteve intrépido na defesa. Chutavam a bola para o lado que o nariz estivesse apontado. Seguiam uma expressão segundo a qual nessa hora: “Chuta para o mato, que o jogo é de campeonato”.
Quando soou o apito final, houve um princípio de tumulto no qual alguns torcedores tentaram atingir os adversários, mas um contingente de policiais estava ali para impedir a briga. Houve muitos que sairam resmungando e gritando ameaças, outros fazendo gestos relativos à vitória por 2 x 1 do time corintiano. Enquanto isso Manoel esperou pacientemente até que o clima amainasse e só então iniciou o deslocamento na direção da saída. Do lado de fora, o policiamento estava empenhado em manter os torcedores o mais separados que fosse possível. Mesmo assim seria impossível manter a distância entre eles, na medida em que se afastassem do estádio.
Geralmente ocorriam alguns incidentes de agressões após as partidas, pois havia quem não se satisfazia em caçoar dos adversários derrotados. Tinha necessidade de manifestar de modo físico sua superioridade e isso sempre descambava em violência, não raramente até ferimentos com armas. Um fato extremamente lamentável. Por maior que fosse o empenho das autoridades, não se conseguia evitar esses fatos. Tendo esperado o tempo adequado Manoel finalmente embarcou em paz no ônibus e foi para a pensão. Levava consigo a camera e o cartucho com o filme todo exposto que havia trocado pelo outro. Aproveitaria para tirar algumas poses no dia seguinte no novo emprego e depois mandaria revelar os dois de uma vez.
Chegou à pensão e ali havia entre os hóspedes tanto corintianos quanto palmeirenses. Mas esses não eram exaltados e sequer haviam ido ao estádio. Tinham ouvido o jogo pelo radio de dona Marinês, instalado na sala de refeições. Ao verem Manoel, trazendo a camera na mão, quiseram saber de onde vinha e ele lhes contou do jogo que for a assistir. Logo choveram perguntas diversas que ficaram na maioria sem respostas. Ele não sendo torcedor de nenhum dos times, apenas um espectador interessado em apreciar o espetáculo, não reparara em determinados detalhes.
Expressou sua estranheza com as agressões entre as torcidas, as atitudes literalmente beligerantes demosntradas por muitos dos presentes. Isso tornava a presença de pessoas com filhos ou familiares, idosos um ato temeroso. Havia o risco de sofrer agressões, ser pisoteado em caso de tumulto ou correria.
– É por isso que a gente não vai ao estádio, Manoel.
– Eu fui hoje por ter prometido aos meus irmãos em Portugal umas fotografias de um jogo aqui no Brasil. Depois do campeonato mundial na Suécia, o povo de lá está muito interessado em saber como é o futebol do Brasil.
– Conseguiu tirar boas fotos?
– Creio que sim. Não tenho prática com essas máquinas. Vamos ver o que vai sair. Quero mandar umas para meus irmãos e contar sobre o jogo.
– O jogo como foi na sua opinião?
– Gostei. Os dois times jogaram bem. Apenas o primeiro gol do coríntians foi de falta e uma cobrança perfeita. O goleiro não tinha nada a fazer. O segundo gol foi o mais bonito, pois foi uma jogada rápida e bem feita.
– E o gol do Palmeiras, como foi?
– Uma jogada de craque do palmeirense. Nem deu para ver direito como ele passou por aquele adversário. Sei apenas que passou e chutou de maneira indefensável no canto esquerdo do goleiro, longe das mãos deste.
– Se tem mais uns minutos de jogo, o verdão arrancava o empate.
– Acordaram tarde demais, – falou um corintiano.
– Se houvessem empatado, não seria um resultado injusto. Mas jogo é jogo e não tem muita lógica, – falou Manoel.
 
Vista da Vila Belmiro em Santos.

 

Outra vista da Vila Belmiro.

 

Vista aérea da Vila Belmiro.
 
Continuaram a defender cada um o seu time, caçoando dos derrotados, estes lembrando de outras ocasiões em que a vitória sorrira ao time verde e assim passou o tempo. Não tardou e o jantar foi servido. Alguns hóspedes que tinham viajado para cidades vizinhas, voltaram e se juntaram aos que estavam presentes. Formaram-se grupos diversos, onde as conversas giravam ou em torno do jogo do Pacaembu, outros falavam de um encontro entre São Paulo e Santos na Vila Belmiro, resultando em empate. Manoel passou por todos os grupos, trocou algumas palavras e foi deitar cedo. Queria levantar cedo para não perder a hora de entrar.
O primeiro dia seria provavelmente de recepção, apresentação dos documentos, a identificação dos locais de trabalho, os chefes de setores, normas internas da empresa, equipamentos de segurança. Ainda não existiam muitas leis regulamentando os aspectos de segurança, mas as empresas por sua própria conta mantinham seus próprios sistemas internos. Estava em jogo o uso de máquinas de altíssimo custo e precisariam ser usadas de modo adequado. Qualquer descuido poderia significar danos ao equipamento, como também acidentes com os trabalhadores. Isso sempre representava uma série de transtornos.
Durante o sono teve sonhos agitados, misturando cenas do estádio com o que viria a ser seu local de trabalho a partir da manhã seguinte. Quando percebeu era hora de levantar e ainda estava um pouco sonolento. Teria que tomar uma xícara de café bem forte para ficar bem desperto. Pegou a pasta em que colocara todos os documentos que precisariam ser entregues e desceu para a sala de refeições. O café acabava de ser coado e exalava um odor característico. Pegou uma xícara e pediu um pouco de café para tomar sem açúcar mesmo.
Tomou pequenos goles da bebida escaldante até sorver a última gota. Sentiu que os sentidos ficavam mais alertas e logo estaria em forma para enfrentar seu primeiro dia de trabalho, no novo emprego. Sentou-se à mesa onde já estava colocado o pão ainda quentinho que o padeiro entregara. Um bule com leite, geléia, um pote com manteiga, e o açucareiro. Serviu o leite e depois que dona Marinês trouxe café, colocou um pouco misturado ao leite. Gostava, como ele dizia”, de leite com café, apenas o suficiente para dar uma ligeira cor. Tomava-o sem açúcar desde criança.
Passou manteiga no pão, um pouco de geléia e comeu, mastigando bem. Depois pegou outro pedaço de pão e repetiu a operação. Era aconselhavel reforçar o café, pois não sabia a que horas teria oportunidade de comer alguma coisa novamente. O primeiro dia era uma incognita. Antes de sair, relembrou se não esquecera nada e foi buscar a câmera para tirar algumas fotos do local e de seus colegas de setor. Estava orgulhoso de sua nova condição. Dava mais um passo no caminho da realizção de seu sonho. Disse adeus a dona Marinês e saiu. Em quinze minutos chegava ao local de embarque no transporte que o deixaria logo depois no ponto para seguir até a fábrica.
Como havia saido um pouco mais cedo, chegou faltando ainda vinte minutos para a hora da entrada em serviço. Foi dos primeiros a chegar. Havia colegas de trabalho no ônibus em que viera, outros vinham caminhando pois moravam nas proximidades, ou haviam descido de transportes coletivos em outros pontos. Em poucos minutos formou-se uma aglomeração razoável diante do portão de entrada. Do lado interno foi notada a movimentação dos encarregados de abrir e liberar o acesso ao recinto da indústria. Era uma entrada especial, diferente da de clientes, fornecedores ou outros visitantes. Formaram uma fila dupla, sendo orientados para terem em mãos os documentos solicitados anteriormente.
 
Sendo dos primeiros a chegar, Manoel era o terceiro de uma das filas e logo a entrada foi liberada. Caminharam por uma passagem e chegaram a um balcão onde havia quatro funcionáarios para receber e conferir os documentos. Depois de passar por essa etapa, foram dirigidos a uma sala maior onde eram separados em seus grupos. Aos poucos ia conhecendo quem seriam seus colegas de trabalho. Os outros grupos estariam trabalhando ali, apenas em setores diversos. Inicialmente as conversas foram poucas. Eram todos desconhecidos e era preciso se conhecerem para estabelecer conversações. Começaram a se apresentar enquanto esperavam e aos poucos um murmurio se fez ouvir no recinto que em pouco tempo se encheu de gente. Em dado momento um homem de seus quarenta anos, chegou junto ao grupo de Manoel e falou:
– Bom dia pessoal!
– Bom dia, – ouviu-se um pouco mais que um murúrio.
– Eu sou Paulo de Oliveira e vou levar vocês ao setor em que irão trabalhar. Parece que o grupo está complete. Vou fazer a chamada para verificar.
Começou nomeando um a um em ordem alfabética. Eles por sua vez respondiam com um “presente” decidido. Não queriam ser tidos como tímidos ou desinteressados. Não havia faltado nenhum dos chamados.
– Muito bem. Me acompanhem até a sala de uniformes para escolherem seus jalecos. Tomara que ninguém precise de tamanho especial, – disse correndo o olhar pelo grupo. – Parece que não vai acontecer isso. Devemos ter um par para cada um.
 
Indústria metalúrgica moderna.

 

Outra visão de indústria metalúrgica.
 
Enquanto eles saiam os outros grupos também procediam à chamada para conferir a presença dos novos contratados. Ao chegarem à uma sala cheirando a tecido novo, havia vários roupeiros encarregados de trazer os jalecos. A experiência adquirida em empregos anteriores os habilitava a determinar a olho o número do candidato a sua frente. Em poucos minutos todos eles dispunham de um par de jalecos e um cadeado numerado com chave. O número correspondia ao armário que seria de uso pessoal de cada um. Ali ficariam guardados seus pertences pessoais, bem como o jaleco ao sair ao final do expediente.
Na sala contígua ao local em que iriam trabalhar, estavam os armários e ali vestiram os jalecos. Se algum não servisse, deveriam voltar ao local da distribuição para efetuar a troca. Manoel experimentou os seus, movimentou os braços e todos os sentidos percebendo que não havia problemas para fazê-lo. Haveria um tempo para se acostumar ao uniforme. Era ótimo, pois aprendera no curso do SENAI a necessidade do uso de vestuário apropriado, diferente do que costumavam usar na vida diária. O melhor seria usar por baixo uma camiseta ou outra roupa de malha, para não tolher os movimentos. Fechou os demais pertences no armário e foi para perto do senhor Paulo a espera do passo seguinte. Em poucos minutos o grupo todo estava ali, exceto um colega mais magro que trouxera os jalecos de tamanho maior que o seu número e fora fazer a troca. Logo voltou e se juntou a eles, quando foram levados para um amplo salão onde se encontravam enfileirados um grupo de máquinas de mesmo modelo.
Eram praticamente iguais a um que tivera oportunidade de manejar durante o curso no SENAI. Seria facílimo o início do trabalho, pois em minutos estaria senhor da máquina que lhe caberia usar. Receberam a chave para acionamento da respectiva máquina. Deveriam deixar tudo em ordem ao final do expediente, pronto para reiniciar o trabalho no horário seguinte. Essa chave ficaria em poder de cada um, até o dia em que deixasse a empresa. A máquina ficaria sob a responsabilidade do operador. Sua manutenção e eventual interrupção do uso, no caso de apresentar problemas de funcionamento. Feitas essas recomendações, cada um recebeu uma folha com as especificações técnicas graficas e escritas de uma peça. Eram pré moldadas na fundição e que precisavam ser usinadas para deixá-las nas especificações da montadora.
O ganho no final do mês seria influenciado pelo desempenho de cada um. Deveriam se preocupar com a perda de tempo, mas também com a percisão na execução do serviço. Cada peça refugada pelo controle de qualidade representaria perdas para o responsável. Significava que deveriam trabalhar diligentemente para render o máximo, mas igualmente estar atentos às medidas. Alguns do grupo fizeram perguntas que o senhor Paulo respondeu atenciosamente. Depois foram liberados para iniciarem o trabalho. O almoço seria ali mesmo na indústria. Saberiam depois a localização do refeitório. Talvez o primeiro dia não trouxesse um almoço primoroso, pois a equipe também estava iniciando naquele momento, embora tivessem recebido treinamento na semana anterior.
Em poucos segundos os enormes tornos começaram a ronronar e foram verificados todos seus comandos antes de iniciarem a execução do serviço. As ferramentas de corte foram conferidas uma a uma. Depois começou-se a ouvir o ruido das ferramentas cortando o aço. Uma pequena pilha de finas ritas metálicas enroladas foi se formando aos pés de cada máquina. As máquinas eram novas e facilitavam o trabalho. A fundição era de boa qualidade, não exigindo habilidades especiais. Sempre existia o risco de haver rebarbas de metal restantes de defeitos de fundição, o que representava um atraso na execução do serviço de torno. Cada peça pronta, era colocada em uma bancada existente a retaguarda do operador.
O grupo começou a operar quase no mesmo rítmo. Apenas dois colegas tiveram alguma dificuldade com as máquinas, pois haviam aprendido a operar máquinas ligeiramente diferentes o que exigia algum tempo para se adaptar. Haviam iniciado o trabalho em torno de 9 h e às 10 h 15 min, sou uma sirene, avisando que era hora de um pequeno interval de quinze minutos. Suficiente para irem ao banheiro e tomar um copo de café com biscoitos servidos na sala ao lado. Nas bancadas estavam empilhadas algumas peças usinadas. No momento da interrupção para o almoço seriam removidas, anotadas na ficha de cada operador e etiquetadas.
Dali seguiriam para o controle de qualidade, para depois seguirem até a expedição. Manoel foi ao banheiro e tomou seu café, sentindo-se aliviado da tensão anterior. O batismo de fogo havia passado. Sentia-se agora dono do lugar. Estava senhor da sua máquina. Ele a operava com perfeição. Ao seu lado os companheiros, quase todos oriundos dos diversos cursos do SENAI, estavam em igualdade condições com ele. Os seus movimentos pareciam quase sincronizados, diferindo por frações de segundos. Quando um se virava para colocar uma peça na bancada, logo os outros também faziam o mesmo.
No momento em que soou novamente a sirene cada um tinha em sua bancada um bom número de peças prontas. Foram levados ao refeitório onde o cheiro de comida despertou o apetite de todos. O cheiro percebido quando ainda estavam a uma distância de 50 metros do lugar, deixava saber que a refeição seria de boa qualidade. Um almoço excelente foi servido. Carne com molho, arroz, feijão e saladas diversas, completadas com sobremesa. Sem esquecer o refresco à escolha de cada um.
Manoel num primeiro momento ficara pensando em ir almoçar na rua e na visita durante a semana anterior indagara nas redondezas da existência de restaurantes populares. Agora via que o almoço era servido na própria empresa e isso o deixava mais tranquilo. Nenhuma empresa quereria ter seus operários doentes por conta de alimentação inadequada ou com problemas. Almoçaram e depois foram espairecer por pouco mais de meia hora, antes do reinício do trabalho. O total do às 12 horas, sendo que cinco minutos antes soara a sirene. Era o tempo para que cada um juntasse em um recipiente as aparas metálicas acumuladas sob a máquina. Elas seriam prensadas e enviadas novamente para a fundição. Não havia como desperdiçar o metal.
Quando deu 13 h 20 soou a sirene chamando para se apresentarem às dali a dez minutos nos postos de trabalho. Alguns projetos de amizades, conversas haviam sido iniciadas. Era uma convivência, projetada para ser prolongada, que se iniciava. Sem demora cada um se encaminhou para seu lugar de trabalho, passando pelos banheiros antes. Às 13 h 30 soou a sirene para início do turno de trabalho. Cada um acionou sua máquina e deu início ao turno de trabalho. As peças a serem usinadas eram as mesmas e continuariam sendo por aquele e mais dois dias pelo visto. Aos poucos os operários se habituaram e dominaram melhor as suas máquinas, conseguindo acelerar sua produção, sem descuidar dos detalhes.
Às 15 h soou a sirene novamente para os quinze minutos de intervalo, o cafezinho e uma ida ao banheiro, se necessário. Havia é claro um grande filtro com água para matar a sede. O ambiente era levemente climatizado para evitar a transpiração excessiva dos operários. As bancadas já apresentavam um bom número de peças usinadas e e a pilha de peças a trabalhar existente ao lado de cada máquina parecia não diminuir sensivelmente. Era um trabalho aparentemente monótono, porém exigia atenção constante para evitar falhas. Nisso residia a necessidade de boa preparação técnica dos operadores. O controle emocional e capacidade de manter a concentração eram fundamentais.
E quando menos esperavam, soou o sinal de encerramento do expediente. Tinham os dez minutos para proceder à limpeza do local e deixare a máquina em condições de uso na manhã seguinte. As ferramentas usadas eram devolvidas para passarem pela equipe de afiação. Na manhã seguinte teriam à disposição novo kit para usar naquele dia. O que se viu nos rostos daquele grupo de operadores ao deixare o lugar de trabalho. Antes de saírem ouviram uma rápida preleção de seu Paulo sobre o primeiro dia de trabalho. Em sua maioria haviam tido um ótimo desempenho. As dificuldades iniciais de alguns estavam superadas e tudo prometia fluir sem problemas dali por diante. Desejou-lhes bom descanso e os liberou.
A maioria saiu dali orgulhosa. Esse emprego representava o começo de uma vida de trabalho ou o reinício de uma carreira interrompida por um motive qualquer. Os colegas mais próximos se despediram entre si e Manoel foi até a pousada para combinar sua mudança para ali no final de semana. Queria fazer isso com calma, sem atropelos. Seria perfeitamente viável percorrer a distância até à capital nos dias dessa primeira semana. Depois veria a possibilidade de adquirir uma bicicleta e percorrer a distância da pousada até a indústria pedalando. Demorou cerca de meia hora para chegar ao estabelecimento e não teve dificuldades em deixar combinado o aluguel de um quarto com café da manhã e jantar.
Estava orgulhoso de seu trabalho e fez questão de apresentar o crachá que lhe haviam entregue ao sair. Era agora operário da indústria de peças que iniciara suas operações naquele dia. Depois de combinar tudo, voltou até perto da indústria e tomou o ônibus para voltar à capital. Chegaria um pouco atrasado na pensão. Teria que comer alguma coisa que tivesse sobrado do jantar, salvo o caso de dona Marinês ter guardado um prato para ele. Isso não tinha importância. Comeria o que houvesse ou iria até um bar e comeria um salgado. Um dia não fazia mal algum. Os outros seriam diferentes.
A semana transcorreu sem novidades. Cada dia a camaradagem entre os colegas aumentava, encontravam-se ao chegarem pela manhã, sorriam e se davam palmadinhas nos ombros. Depois ficavam por horas sem trocar palavra praticamente enquanto prestavam atenção máxima nas ferramentas que cortavam o aço, transformando peças brutas fundidas em aço, em algo bem acabado. Sentiam satisfação em ver as aparas de metal caindo e formando aquela pilha característica no chão. Eram o resultado que sobrava do seu trabalho. Em outra ocasião esse mesmo metal poderia estar novamente em suas mãos na forma de outras peças, de outras formas sendo trabalhadas para uso posterior.
A primeira semana chegou ao fim e todos se despediram para o descanso merecido. No sábado Manoel fez sua mudança para a nova moradia. Um colega de pensão foi com ele ajudando a carregar parte de suas bagagens. Assim ficaria sabendo onde o amigo estaria morando a partir daquele dia. Manoel despediu-se de dona Marinês. Já fizera o acerto com a dona do estabelecimento e agradecera o grande carinho que lhe dispensara. Depois de se instalar na nova moradia, levou o colega para almoçarem juntos. Depois procurou e encontrou uma loja que estava aberta e adquiriu uma bicicleta. Aprendera a andar anos antes, mas fazia tempo que não pedalava. Aproveitaria o resto da tarde e o domingo para lembrar como se fazia e não ter problemas na segunda feira.
Não precisou de muito tempo para sentir-se dono da situação e o resto do dia, bem como o domingo para passear por todos os lados, explorando os bairros de São José dos Campos, sua nova cidade. Encontrou um laboratório fotográfico e lá deixou os filmes que estavam totalmente utilizados. Ficariam prontas na semana seguinte. Quando fosse retirar poderia escolher as fotografias de que quisesse cópias e elas seriam providenciadas. Haveria tempo para fazer isso após a saída do trabalho que ocorria às 17 h 30. Indo de bicicleta chegaria antes de fechar o estabelecimento. Então poderia mandar aos irmãos as fotos do jogo de futebol e também de seu novo local de trabalho.

Pedira ao chefe para bater uma pose mostrando ele em ação no torno, outra no refeitório, no patio de recreio e diante da fachada da indústria. Queria que a família sentisse orgulho de seu sucesso na nova patria. 

Indústria metalúrgida nos primórdios.

 

Peças diversas feitas em cobre.

 

Um japonês especialista em cachaça! – Capítulo IV

Veiculos em São Paulo anos 50

 

Ônibus do transporte coletivo em SP.

 

Movimento nas ruas de SP nos anos 50.
Fotografias baixadas da página Fotos de São Paulo anos 50.

 

4. – Um bom começo, traz uma supresa 
 
desagradável.
 
            O almoço na pensão era simples mas bem temperado e nutritivo. Dona Marinês viera mocinha com os pais do nordeste e a vida dura levara-lhe os pais quando contava apenas com 16 anos. Um irmão mais velho e outros dois menores foram obrigados a dar conta de se cuidarem mutuamente. Empregara-se em um restaurante como ajudante e fizera de tudo. Começando com faxina, depois lavar louça, cortar legumes e finalmente iniciara seu aprendizado na cozinha. A cozinheira, já um pouco idosa, com gosto foi delegando tarefas à voluntariosa mocinha e assim em algum tempo tinha dominado todos os segredos que a velha senhora detinha.
 
            Um dia a cozinheira ficou doente e foi desenganada pelos medicos. Como isso aconteceu de um momento para outro sem aviso prévio, quem ficou provisóriamente no lugar da cozinheira, foi Marinês. Colocou em prática tudo que aprendera e usou a criatividade para incrementar alguns pratos, sem no entanto alterar-lhes a essência. Resultou que no final da refeição o dono do restaurante veio lhe dar congratulações pelo excelente desempenho. Vários clientes habituais haviam vindo lhe externar sua satisfação com os pratos que haviam ficado mais saborosos. Indagaram inclusive se havia trocado a cozinheira, ao que ele falou que não. Deveria ser alguma inovação da mesma.
 
            Não faria uma mudança definitive antes de saber o verdadeiro estado da antiga funcionária. Sabia que ela era idosa e poderia não resistir ao ataque de coração que sofrera. Após uma semana de internação, pequenas melhoras e recaídas depois, a velha profissional encontrou o descanso eterno. Restava ao proprietário decidir pela contratação de uma nova cozinheira ou confirmar a antiga ajudante para a posição de titular. Decidiu esperar mais um ou dois dias e observar o comportamento da jovem. Ao final da semana, antes de qualquer decisão, foi conversar com Marinês.
 
            A coitada levou um susto quando o patrão veio lhe falar novamente em questão de poucos dias. O falecimento da chefe havia deixado uma lacuna profunda e ela imaginou que havia sido considerada incompetente. Seria provavelmente despedida e teria que procurar outro trabalho. Ao contrário do que supunha, o patrão veio lhe propor algo que mudaria sua vida.
            – Marinês, você aceita ser a nova cozinheira chefe?
            – Eu, seu Júlio?
            – Sim, você. Por que a surpresa?
            – Pensei que o senhor não estava satisfeito com meu trabalho e iria me demitir.
            – Demitir você! Não notou que nesses dias houve um aumento bem grande de fregueses no estabelecimento? Desde aquele dia que vim lhe fazer o elogio a cada dia mais gente nova tem vindo comer aqui e depois veio elogiar sua comida.
            – Eu estava ocupada trabalhando e nem percebi nada.
            – Quer dizer que não tem nada contra a ideia?
            – Espero saber fazer tudo o que a Dona Joana fazia. Ela tinha muita experiência.
            – Eu acho que você soube aproveitar bem a convivência com ela e aprendeu tudo direito. Vou avisar aos demais auxiliares que a partir de hoje você é a nova cozinheira chefe. Seu salário vai melhorar bastante e espero que saiba mandar os outros fazer o serviço menos importante. Dedique sua atenção aos detalhes para que os pratos fiquem ainda melhores. Acho até que pode aprender a fazer algumas coisa novas. Vou verificar se há alguém para lhe passar umas receitas diferentes. Vamos ampliar nosso cardápio.
            – Eu nem sei o que dizer, seu Júlio. É claro que eu aceito e quero que sempre me fale se alguma coisa tiver que ser melhorada.
 
            Assim ela assumira a chefia da cozinha do restaurante e algum tempo depois ele se tornara um dos pontos mais procurados pelos comerciários, funcionários públicos, advogados e mesmo empresários que estavam na região, na hora de almoçar e jantar. A nova posição de Marinês no restaurante, permitiu ajudar mais a família e custear os estudos dos irmãos para poderem ocupar melhores posições. Um belo dia encontrou um conterrâneo muito galante, aparentava estar bem colocado na vida e se apaixonou por ele. Após alguns meses se casaram e foram morar na casa que Marinês conseguira comprar com suas economias.
 
            O mais triste da história veio depois de passados os dias de festa e comemoração. O noivo apaixonado, gentil e atencioso, sempre ostentando prosperidade, mostrou ser bem diverso, uma vez casados. Sua prosperidade era apenas de fachada, começando a ficar até tarde na cama, usando para isso uma desculpa qualquer. Logo começou a pedir dinheiro para despesas de viagem de negócios e Marinês, a princípio deu de bom grado. Um momentâneo aperto logo seria superado e tudo voltaria ao que parecera ser.
 
            No entanto esse dia de normalizer tudo nunca chegou. Ao contrário, cada vez mais o marido se tornava exigente, pedindo mais dinheiro, demonstrando um ciume doentio, querendo vigiar os passos da esposa. Isso não tardou a deixare a infeliz bastante constrangida. Tinha crises de nervosismo no trabalho, mostrava-se irritadiça com as auxiliares, cometeu alguns erros na preparação de pratos e o patrão percebeu.
 
            Veio conversar com Marinês querendo saber o que acontecia. Inicialmente ela deu a desculpa de que andava nervosa. O marido a pressionava para terem um filho e ela estava demorando a engravidar. Isso a deixava for a de seu normal. Por algum tempo isso funcionou, ela se esforçou por controlar suas reações indesejáveis e aparentemente tudo voltou ao normal.
 
            Um dia o marido veio pessoalmente ao restaurante fazer exigências à mulher. Queria que ela exigisse aumento de salário, participação no negócio, pois ela teria condições perfeitamente de buscar trabalho em um estabelecimento mais categorizado. Julio ficou indignado, pedindo de modo firme, embora comedido que ele se retirasse do recinto. Os clientes ficaram alarmados e alguns se puseram ao lado do dono para lhe garantir a segurança. Um deles saiu de mansinho indo em busca de socorro policial existente não muito longe.
 
            Alguns minutos depois uma dupla de agentes de segurança chegaram ao estabelecimento e convidaram o arruaceiro a se retirar. Diante da recusa, deram-lhe voz de prisão e o levaram ao destacamento a duas quadras dali.
 
            Quando Marinês soube como o episódio terminara caiu em uma crise de choro e desespero. O que seria de sua vida? Como poderia continuar trabalhando se o marido estava se indispondo abertamente com o patrão? Os auxiliares a confortaram e se esmeraram em seguir suas orientações para completar o serviço daquela refeição. Depois do encerramento do serviço, Júlio chamou seu advogado e debateram a atitude a tomar diante do acontecido. Marinês estava preocupada com a prisão do marido. Também temia pelo que ele faria se fosse solto. Como ele iria reagir a tudo isso? Em menos de dois anos de casamento ele se transformara de um homem gentil, suave e carinhoso em alguém irascível, cruel e malvado. Em várias ocasiões se mostrare relativamente agressivo.
 
            Ainda não a agredira para valer, mas temia que isso seria apenas questão de dias, talvez mesmo hoje. O advogado sugeriu que deixassem o arruaceiro curtir um dia ou dois na cadeia. Isso Marinês julgou ser o pior a fazer, pois demosntraria pouco caso com a sua condição. Acompanhada do homem de leis foi até a delegacia para verificar em que pé estava a situação do marido. Lá chegando, foi avisada pelo delegado que o mesmo estava na cela igual a um tigre selvagem enjaulado. Trocaram impressões sobre a melhor atitude a tomar e, a pedido de Marinês, ele foi solto. Não sem antes receber do delegado uma boa descompostura pela desordem que causara no restaurante.
 
            Na hora ele prometeu se emendar, mudar de atitude, dizendo que estivera transtornado por negócios que não haviam corrido como o esperado. Clientes que lhe haviam dado calote e coisas assim. Marinês tinha quase absoluta certeza de que isso tudo não passava de invenção. Desconfiava há algum tempo de que na verdade ele não trabalhava, apenas gastava dinheiro e talvez mesmo participasse de atividades ilícitas. Apenas não tinha provas nem certeza de nada.
 
            Saíram da delegacia e seguiram para casa. Depois que se separaram do advogado o indivíduo não tardou a voltar com suas exigências à Marinês. Queria que ela se demitasse do restaurante e ele a levaria a um amigo, dono de outro estabelecimento. Ali se tornariam sócios, ganhariam muito mais dinheiro e ele inclusive assumiria a gerência, pois o dono estava adoentado. Precisava de tratamento e repouso. A insistência foi tanta que ela por fim aceitou.
 
Carros antigos em São Paulo.

 

Desfile de Romi-Isettas em São Paulo
 
            A saída de Marinês do restaurante, deixou Júlio muito compungido. Não seria fácil encontrar alguém para substituí-la com facilidade. Uma ajudante novamente veio a resolver seu problema. Não tinha o traquejo de Marinês, mas com um pouco mais de prática daria conta do recado.
 
            Marinês foi para o novo restaurante, mas nada do que o marido falara era verdadeiro. O dono era bastante grosseiro, exigente e para falar a verdade, pouco entendia do negócio. Depois descobriu que ganhara dinheiro de maneira pouco limpa e agora queria ter seu negócio legal, honesto. Assim teria uma forma de dar uma orígem aparentemente honesta, ao dinheiro que tinha. Desconfiou que não deixara de exercer sua atividade ilícita, inclusive que o marido era cúmplice dessa ocupação. O tempo passou, uma série de desentendimentos com o patrão, levaram Marinês ao ponto de querer largar tudo e desaparecer. Em um belo dia ouviu o marido falando com o patrão e combinarem o próximo golpe. Sentiu o coração desfalecer.
 
            Então era essa a fonte do dinheiro usado pelo agora marido, no tempo de namoro e noivado, para aparentar prosperidade. Estavam metidos em roubos e receptação de mercadorias roubadas. Tinham um esquema de suborno com homens da polícia e mesmo dos escalões superiors para lhes dar amparo as atividades. Ficou apavorada com a descoberta. Durante vários dias ficou indecisa. Deveria revelar o que sabia às autoridades? Deveria ficar quieta e fazer de conta não saber de nada? Havia o risco de ir denunciar exatamente a alguém que estivesse mancomunado com a quadrilha. Isso a colocaria diretamente na boca do lobo. Em caso de descobrirem as atividades ilegais, qual seria sua defesa?
 
            Depois de muito pensar, aproveitou um momento de folga e foi falar com o Senhor Júlio. Meio sem jeito procurou contar o que ficara sabendo e revelou suas dúvidas sobre o que fazer.
            – Mas você tem certeza disso que me falou?
            – Eu ouvi eles falarem sem medo. Pensavam que eu tinha saído para fazer compras. Voltei antes e eles não perceberam. Quando terminaram eu saí de perto para não me verem. Acho que se eles descobrissem eu ali escutando, seria possível até que corresse perigo de vida.
            – Penso que deveria denunciar isso, mas sem que seu nome apareça. Me autorizas a conversar com o advogado sobre isso?
            – Eu não sei se devo, mas preciso fazer alguma coisa. Não posso ficar quieta esperando sem fazer nada. Eu também estou envolvida nisso. Afinal sou casada com um deles.
            – Volta para a sua cozinha, Marinês. Fica quieta e deixe por minhã conta. Vou conversar com meu advogado e encotraremos uma forma de ajudar você. Talvez se consiga fazer uma denúncia ou passar uma pista para autoridades superiores.
            – O complicado é saber que tem gente graúda envolvida na história.
            – Temos que tomar cuidado para que isso não caia nos ouvidos errados, que o tiro pode sair pela culatra.
 
            Marinês voltou ao novo restaurante bem a tempo de não ser surpreendida pelo marido durante a volta. Isso não podia acontecer de maneira alguma. O advogado ouviu de seu Júlio a narração da história e começou a juntar os fatos. Havia um rumor de que existia uma quadrilha dedicada a roubos, assaltos diversos, e ninguém sabia quem eram os cabeças. Os pequenos delinquentes era presos e interrogados, mas não revelavam os nomes de quem comandava o esquema. Não tardava e algum advogado apresentava um habeas corpus, conseguia impugnar os depoimentos, desqualificar as testemunhas e livravam o malfeitor. Enquanto isso a quadrilha prosseguia em atividade. Passavam alguns dias quietos e logo voltavam a agir, mudando de região, de foco de seus ataques. Assim disfarçavam bastante as pistas, dificultando sua identificação.
 
            O advogado fizera algumas indagações de modo sutil e soubera de um promotor interessado em por a quadrilha atrás das grades. Alegando um motivo qualquer agendou uma entrevista com o jurista. Depois de falar de assuntos de menor importância abordou o verdadeiro motivo que o levara ali. Narrou por alto os fatos, sem inicialmente citar nomes. Depois disso o interesse do promotor estava despertado. Indagou detalhes e pormenores. O advogado decidiu contar todos os detalhes. O homem encarregado de fazer a aplicação da lei, ouviu com atenção, anotou tudo detalhadamente e prometeu sigilo absoluto.
 
            Dispunha de maneiras de conduzir uma investigação, usando para isso homens de sua confiança nas fileiras das forças de segurança. Quando tudo estivesse descoberto e identificado, as prisões seriam efetuadas de uma única vez. Demorou alguns meses até que a equipe do promotor conseguiu levantar todas as informações. Na verdade o que parecia uma pequena quadrilha, revelou-se uma organização bem mais ampla, com ramificações em diferentes areas e escalões dos órgãos públicos. Seria uma operação bem complexa e o êxito era bem difícile, devido a impossibilidade de saber em quem seria possível confiar. Qualquer funcionário, agente ou mesmo autoridade, poderia ser um integrante da organização criminosa.
 
            No final conseguiu reunir provas suficientes para prender de uma única vez, pelo menos, a maioria dos cabeças da organização. Era claro que alguns iriam escapar, mas se conseguissem lhe quebrar a espinha dorçal, talvez depois fosse possível desmontar o resto. No mínimo demorariam muito para refazer toda estrutura. No dia que iriam realizar as prisões, a quadrilha tinha marcado mais um grande golpe. Havia um agente de confiança infiltrado e estava passando as informações de tudo. No momento da ação criminosa, os bandidos foram até certo ponto como tudo for a combinado.
 
Bondes convivendo com os carros nos anos 50 em SP.

 

Uma das primeiras trincheiras nas ruas de São Paulo.
 
            De repente apareceram veículos de policiais, agentes a pé, policiais militares de todos os lados, como um verdadeiro enxame. Enquanto os encarregados de realizar a ação criminosa foram surpreendidos e presos em sua quase totalidade, os cabeças identificados até ali, eram surpreendidos em suas casa por outras equipes e por sua vez conduzidos ao quartel general da operação. Reuniram um contingente bem maior de pessoas do que inicialmente haviam sido identificados. Foi preciso fazer uma triagem para ver quem realmente fazia parte e quem caira no meio da questão por acaso.
 
            Para surpresa das autoridades, encontraram no meio dos detidos uma porção de rostos conhecidos, ocupantes de posições dentro da administração pública e das forças de segurança. Isso ocorrera nos anos após o término da Segunda Gjerra Mundial. Os processos de investigação continuaram, os julgamentos e condenações foram extensos, alguns conseguiram ser absolvidos ou ter suas penas reduzidas. Os principais chefes eram exatamente o patrão e o marido de Marinês. Os dois se viram condenados a penas bastante longas.
 
            O que aumentara suas condeçaões foram as acusações cumulativas de assassinatos, com formação de quadrilha, roubos e assaltos. Dessa forma eles permaneceriam por mais de quinze anos enjaulados. Era possível que, se tivessem bom comportamento, em oito ou dez anos viessem a gozar de regime semi-aberto ou algo assim. O restaurante foi interditado, ficando Marinês momentaneamente sem emprego. Nessa situação encontrou-se com Júlio e ele lhe indicou um estabelecimento que estava à venda. Conseguiur vender a casa que era sua, tinha algum dinheiro guardado e o que faltou o antigo patrão lhe adiantou. Ela adquirira a pensão, onde até hoje trabalhavad, vivendo e lamentando sua má sorte.
 
            Tivera nas mãos a grande chance da vida e a desperdiçara com um homem que, ao que parecia, estaria saindo em pouco tempo da prisão. Manoel enquanto isso se tornou elemento essencial na oficina de seu Chico Cearense. O que aprendera na terra natal estava servindo para lhe garantir um meio de sobrevivência nesse início na capital paulista. O patrão estabelecia os preços dos serviços e lhe pagava uma comissão sobre o total, descontado o custo das peças. Ele desconfiava que as peças custavam menos, mas não tinha acesso à esses detalhes. Nem se preocupou demasiado com isso , pois não tinha intenção de fazer disso seu modo de vida. Esperava apenas terminar seu curso no SENAI para ir em busca de um lugar na indústria. Os meses passaram e as aulas de aprendizagem, embora exigissem bastante dos alunos, eram extremamente estimulantes.
 
            Desde criança Manoel sonhara com aquilo. Teria como participar da fabricação de peças para os automóveis que iriam ser produzidos no país. Certo que seria apenas uma peça na grande engrenagem da indústria, mas um bom número de pessoas iria rodar pelas rodovias do país, em um veículo com algumas peças que ele ajudara a fabricar. Isso o enchia de vontade para continuar a estudar e logo estaria usando um uniforme de uma grande indústria.
 
            Quando terminou o custo, tendo sido aprovado com louvor e recebido seu diploma, procurou a fábrica da Willys Overland do Brasil, mas ali não havia vagas para a sua especialidade. O encarregado da recepção lhe deu a indicação para procurar uma das indústrias de peças. Na fábrica de automóveis, na verdade apenas era feita a montagem dos carros, a solda das peças de carroceria, a pintura e por último a colocação das demais peças como eixos, rodas, Sistema de transmissão e moteres. Por último vinha o acabamento e controle de qualidade.
 
            Um pouco frustrado foi até uma das indústrias de peças. Na primeira não usavam muito serviço de tornearia, mas na segunda sim, encontrou o que procurava. Preencheu sua proposta, deixou as informações de sua habilitação e lhe prometeram entrar em contato em alguns dias. Voltou para a pensão e no dia seguinte foi trabalhar na oficina para ocupar o tempo. Tinha serviço começado e queria terminar. Um carro estava com a suspensão toda desmotada, esperando peças para substituição das que estavam desgastadas. Ao chegar o patrão o chamou e indicou onde estavam as peças que deveria usar.
 
            Eram usadas, pois o carro era mais antigo e não existiam peças novs genuinas. Tinham que recorrer aos depósitos de ferro velho que desmotavam os carros, por algum motivo destruidos ou danificados. As peças eram vendidas para usar nos veículos do mesmo modelo que estivessem precisando ser consertados. Levou todo material para perto do lugar em que iria trabalhar e começou a executar o trabalho com diligência. Em alguns momentos pediu ajuda a um rapaz ainda aprendiz, quando era necessária força auxiliar. Dessa forma, ao final do dia o serviço estava quase pronto.
 
            Chico perguntou se poderia excepcionalmente terminar o serviço, pois o dono tinha urgência. Como não tinha mais o compromisso de ir para aula à noite, continuous e quando já anaoitecia, conseguiu terminar de colocar a última peça. Conferiu tudo desde o começo e constatou que estava tudo em ordem. Nenhum parafuso ficara sem apertar devidamente, nenhuma trava faltava ser colocada. Estava pronto para um teste de rua. Chico sentou-se ao volante e fez o motor funcionar. Depois de uma tossida inicial, devido ao fato de ter ficado alguns dias parado, o motor roncou forte. Foi dada uma volta na quadra e não se verificou nenhum problema.
 
            Nisso o dono do veículo chegou, viu o serviço pronto, deu por sua vez uma volta e verificou que ficara tudo em ordem. Regateou um pouco na hora de pagar, mas no fim quitou o débito e saiu dali dirigindo seu veículo reformado. Estava pronto para mais uma longa temporada de bons serviços.
 
            Nesse meio tempo, o ex-marido de Marinês e o comparsa haviam sido liberados da prisão em liberdade condicional. Como pau torto não endireita, em poucos dias haviam articulado um esquema de conseguir dinheiro de modo fácil. Alugaram um grande galpão, meio abandonado e ali iniciaram a desmontagem de carros roubados. As peças eram vendidas nos ferros velhos, cujos donos não perguntavam da procedência. Bastava que o preço estivesse em níveis aceitáveis e o negócio era fechado. Assim começou a ocorrer um surto de roubos de carros em todo estado. Por caminhos tortuosos, placas trocadas, na calada da noite eles eram trazidos para o galpão onde um grupo de elementos se encarregava do desmonte.
 
            Em algumas horas o carro desaparecia, sem deixar vestígio. As peças eram levadas para os mais distantes recantos da capital, expostas em ferro velho. Os donos de oficinas agradeceram uma oferta extraordinária de peças para reposição nos carros que tinham que consertar. Antes chegavam a demorar vários meses até conseguirem peças e poderem fazer a manutenção. Além de tudo, os veículos desmontados ocupavam os espaços em suas oficinas.
 
            Por outro lado as autoridades policiais se viam às voltas com um crescente número de queixas de roubo de veículos, ocorridos nos mais distantes recantos do estado. Não havia uma região de concentração. Aconteciam roubos em toda parte, de modo sistemático. O que mais intrigava era o fato de que esses veículos simplesmente sumiam de vista. Por mais que se procurasse, não era possível encontrar nem rasto. Em determinado momento um agente reparou num caminhão carregado de peças de automóveis. De onde viriam essas peças?
 
            Decidiu seguir o veículo e viu quando ele encostou num ferro velho e ali descarregou parte do que trazia. Depois foi até outro estabelecimento semelhante e descarregou o restante. Levou a questão ao delegado sob cujas ordens servia. Relatou detalhadamente o que observara e o superior perguntou:
            – E o que tem isso? Deve ser um ferro velho vendendo para outro peças que estão sobrando, não acha?
            – Tive a impressão de que ali tem coisa errada, doutor. O motorista e o ajudante, ficavam olhando de modo estrando ao redor, como se temessem ser surpreendidos a qualquer momento.
            – Anotou o modelo do caminhão, o número das placas?
            – Claro, doutor. Até já fiz o levantamento do nome do proprietário. Está tudo aqui.
 
            Estendeu uma folha de papel em que anotara tudo que conseguira reunir. O delegado leu tudo e quando viu o nome do dono do caminhão, teve um lampejo de entendimento. O nome não lhe parecia estranho. Apenas não lembrava de onde o conhecia. Isso não seria difícile descobrir. Bastaria mandar um aviso a todas as delegacias e órgãos policiais. Em um ou dois dias teria a informação. Se o nome fosse de alguém ligado a atividades criminosas logo teria a resposta.
 
            O que ele não esperava, era que as placas levaram a um endereço e um homem que tivera seu carro furtado há algum tempo. As placas pertenciam a um automóvel de passeio e não um caminhão. Isso deixou o caso mais complicado. Significava que o tal caminhão também era provavelmente furtado e as placas eram falsas. Precisariam mandar um aviso a todas as unidades policiais para ficarem de olho nesse caminhão. Depois seria esperar pelas respostas.
            Em três dias chegou a resposta. O veículo estava naquele momento descarregando peças de automóvel num ferro velho no bairro, bem perto da delegacia. Sem demora uma equipe foi até lá para averiguar. Ao chegarem o veículo estava de saida. O motorista lançou um olhar enviesado aos agentes e seguiu seu caminho. O chefe da equipe resolveu seguí-lo e logo percebeu a tentative de despiste que ele estava usando. Quando entrou em uma rua que não tinha outra saída salvo do outro lado, depois de uma grande volta. Conseguiram avisar uma outra equipe para ficar de campana na saída da rua enquanto eles o seguiam de longe, como quem não está interessado nele.
 
            Num dado momento, o caminhão sumiu de vista, depois que passou por uma curva e nada mais era visível. A única coisa na redondeza era um velho galpão, que certamente pertencera a alguma empresa que fechara as portas ou encerrara sua atividades no local. Pararam a alguma distância e caminharam lentamente até as proximidades parando para ouvir detalhadamente. No início não ouviram nada, mas um ruido de marteladas vinha de longe, o tinido de ferramentas era levemente audível. Isso deixou os policiais em alerta.
 
            Comunicaram com a delegacia e deram conta do que acontecia. O delegado decidiu sabiamente chamar a equipe de volta. Mandaria alguém sem identificação vigiar o logal depois. Estava parecendo que estava prestes a identificar uma organização bem maior do que imaginava. Os encarregados de vigiar foram dois agentes, disfarçados de varredores, roçadores para remover o mato que crescia em alguns lugares ao longo da rua. Enquanto trabalhavam, ficavam vigiando o galpão. Durante o dia não viram nada de anormal, a não ser um outro caminhão saindo com a carroçeria coberta por uma lona. Era possível suspeitar de peças de carros escondidas debaixo do encerado.
 
            O delegado decidiu deixar outra equipe de plantão para vigiar durante a noite. Era provável que os veículos roubados eram trazidos sob o disfarce da escuridão. E foi isso que aconteceu. Em horários diversos, três carros de passeio e um pequeno caminhão entraram no galpão. O portão foi fechado e não se viu ninguém sair. Provavelmente os motoristas tinham de um lugar de saída por outro lado, para não dar na vista. Tendo essas informações em mãos, o delegado se reportou aos superiores pedindo orientações e reforços para uma ação conjunta. Desconfiava tratar-se de uma quadrilha superior às forças de que dispunha em sua delegacia.
 
            Foram feitas mais algumas diligências e fez-se um levantamento de todos os estabelecimentos de comércio de peças usadas que recebiam suprimentos provenientes desse galpão. Poderiam ter também outros lugares de fazer o desmanche. Uma vez feito o levantamento, até as oficinas que compravam as peças dos carros roubados foram identificadas. Uma delas era a de Chico Cearense, onde Manoel trabalhava.
 
            No instante em que o dono do carro embarcou para sair dali, a oficina foi invadida por um grupo de policiais, dando voz de prisão a todos os presentes. Surpresos ninguém se mexeu, pois não sabiam de nada anormal em suas vidas. Em poucos minutos estavam sendo conduzidos a delegacia mais próxima para serem interrogados.
 
            As perguntas giravam em torno da questão de compra de peças usadas em ferro velho para colocação em veículos estragados. Foram confrontados com o fato de existir uma quadrilha de roubos e desmonte de carros, para vender as peças. Nem Chico, muito menos Manoel e os outros que estavam com ele, tinham qualquer ideia desse assunto. Foram identificados e seus depoimentos anotados. Depois disso foram liberados e puderam voltar para casa. Ninguém tinha ideia do significado daquilo tudo. Chico comprava suas peças usadas há anos dos mesmos fornecedores. Realmente percebera ultimamente a existência mais abundante de peças a venda, mas jamais imaginara que isso se devia ao roubo que aumentara recentemente.
 
            Manoel chegou na pensão tarde da noite, com fome e teve que se contentar com um copo de leite que encontrou na geladeira e um pedaço de pão. Comeu e foi dormir. Na manhã seguinte decidiu dormir um pouco mais e depois foi tomar café. Enquanto comia, Marinês indagou de sua vida e ele lhe narrou o que acontecera no dia anterior. Nesse momento ela deu um pequeno “tapa” na própria testa e falou:
            – São eles!
            – Quem dona Marinês?
            – São eles. Sairam da prisão há uns três meses e já estão aprontando outra vez.
            – Continuo não entendendo. De quem a senhora está falando?
            – Do meu ex-marido e do comparsa dele. Estavam presos há mais de dez anos e agora estão soltos. São paus tortos que não endireitam nunca.
            – A senhora acha que eles tem a ver com a questão dos roubos de carros?
            – Isso começou quando? Não faz coisa de dois ou três meses?
            – Pelo que o delegado falou, sim. Mas será que eles sairam da prisão e já estão metidos em roubo de carros?
            – Sou capaz de apostar que sim.
            – Tomara que peguem eles logo.
            Ao chegar à oficina, Manoel viu a porta fechada. Uma fita amarrada e um pequeno cartaz dizia: “Estabelecimento interditado até o esclarecimento de utilização de peças de carros roubados”.
 
            Pronto. Mais uma vez via sua vida sendo envolvida de modo indireto em questões com a justiça. Só torcia para que não viesse atrapalhar seu ingresso na indústria. Investira seu trabalho, seus esforços na obtenção dos requisites para esse emprego e não queria que um envolvimento com justiça viesse atrapalhar seus planos nesse momento.
 
            Dois dias depois saiu nos jornais estampada a fotografia dos dois ex-presidiários, que estavam comandando uma organização dedicada ao roubo de carros e posterior desmonte. As peças eram vendidas aos donos de ferro velho, que por sua vez as vendiam aos donos de oficinas ou carros para aplicação nos veículos quebrados. Junto com eles um grande grupo de ladrões, puxadores, motoristas foi detido. As culpas eram menores, porém todos tinha sua participação nas ações criminosas. Até mesmo uma ou duas mortes haviam ocorrido durante as ações de roubo, quando os donos reagiram a ação.
 

 

            A sorte era que os donos de oficinas eram tidos como partícipes sem culpa, apenas tendo servido como aplicadores finais das peças. Não tinham como saber da orígem criminosa do que compravam. Os preços haviam continuado no mesmo nível de sempre, até um pouco mais caras em alguns casos. Dessa forma foram inocentados. Isso significou um imenso alívio para Chico Cearense e seus empregados. Quem mais ficou satisfeito com esse desfecho, foi Manoel. Não teria por que temer quanto ao seu ingresso na indústria. 
 
Ponte sobre avenida em São Paulo.

 

Garagem americana nos anos 50.
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo I.

 

Mosteiro de Santo André em Ancede Portugal (Imagen baixadas da internet)
1

 

 Bar Snocker do Portuga.
 
 
Na década de setenta do século XX, existiu no bairro da Mooca, da cidade de São Paulo, em uma rua de vocação mista, meio residencial meio comercial, um estabelecimento de nome:
BAR SNOKER DO PORTUGA
O nome doproprietário era Manoel Silvério Ferreira. Nascido em Ancede, à margem do rio Douro, no ano de 1934, logo depois da implantação do Estado Novo, também denominado Salazarismo. Regime ditatorial que sucedeu, em 1933, à um período de ditadura militar iniciado em 1928. O país viveu poucos anos no regime republicano, uma vez que a monarquia constitucionalista sobrevivera até 1912. Um golpe militar em 1928, colocou os militares no poder, que posteriormente foi transferido aos civis. Salazar serviu-se de sua posição destacada no cargo de ministro das finanças no regime militar, para assumir a presidência do conselho de ministros. Junto com Marcello Caetano e Albino dos Reis, liderarm o governo de Portugal até 1968, e continuou com Marcello até 1974.
 
Seus pais Dolores da Cruz Ferreira e Joaquim Ferreira viviam na periferia do povoado. Joaquim trabalhava nos parreirais existentes nas proximidades. Dolores, quando as condições permitiam, também trabalhava em atividades temporárias nas propriedades, especialmente nos períodos de colheita da uva e preparação do vinho. Isso tornava o nível de vida econômico da família oscilante. Manoel era o último de uma família com sete filhos, intercalados por no máximo dois anos de diferença. Dessa forma, a partir de certo ponto, a mulher estava ocupada com os cuidados da prole, além de frequentemente estar grávida. Impossibilitada de trabalhar para ajudar no sustento, Dolores via angustiada o marido aceitar todo e qualquer trabalho extra

Portugal, viveu sob o regime monárquico constitucional até 1912. Manteve até a década de 70 do século XX algumas colônias na África e Ásia. Com o fim da monarquia foi implantado o que hoje é denominado de Primeira República e durou apenas até 1928.

para garantir mais algum dinheiro. Mesmo assim as dificuldades eram grandes.

O nascimento de Manoel determinou o encerramento dessa sequência, devido à necessidade de uma intervenção cesariana. Um problema nos ovários levou o médico responsável a optar por sua remoção. Novas gestações representariam elevado risco de vida para a mulher. O regime de governo iniciado por Salazar e seus amigos, inicialmente pareceu trazer alívio às agruras dos trabalhadores em geral. Mas uma sequência de manifestações contrárias ao governo geraram o recrudescimento repressor dos órgãos encarregados da segurança. Com isso a vida seguia tendo suas dificuldades de sempre. Havia sempre o risco de, qualquer palavra dita de modo indevido, ser interpretada como ofensiva ao regime, acarretando ao emissor desagradáveis consequências.
Rio Douro, na região de Ancede, Portugal (Imagem baixada da Internet).
 
Os anos passaram e, mesmo com toda dificuldade, os filhos cresceram. Graças a Deus, tinham boa saúde, não tendo grandes dificuldades por esse lado. Quando Manoel Silvério

Notável é a semelhança dos acontecimentos ocorridos em Portugual e no Brasil, praticamente à mesma época. No final da década de 20, surgiu nos quartéis o movimento denominado tenentismo. Seu apoio foi fundamental para o golpe aplicado a Júlio Prestes, poucos dias antes de sua posse na presidência.

Os militares depuseram o presidente e instauraram um governo provisório. Convidaram Getúlio Dornelles Vargas, candidato derrotado na eleição para assumir. Até 1934 governou por decretos. Com a promulgação da nova constituição o país voltou ao regime republicano. Em 1937, o congresso foi dissolvido, proclamado o Estado Novo que durou até 1945/46, quando o poder passou ao presidente eleito nas urnas.

atingiu a idade de 10 anos, a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge, com os aliados buscando de todas as maneiras derrotar as tropas de Hitler. Portugal se mantinha neutro, preocupado em controlar seus próprios problemas internos. O conflito que atingiu o mundo inteiro, não deixou de ter sérias influências na vida dos lusitanos. A guerra provocou escassez de uma grande variedade de produtos no mercado mundial, ocupado no esforço de guerra. Isso se refletia indiretamente na vida do povo de Portugal.

 
Manoel frequentava a escola, usando os livros e outros materiais que os irmãos mais velhos haviam usado. Pouco havia que tivesse possibilidade de ser comprado novo. Apenas o estritamente necessário. O menino era medianamente interessado nos deveres escolares. Estudava apenas o suficiente para ser aprovado. O que chamava sua atenção eram as máquinas; os equipamentos a que tinha acesso restrito devido às condições reinantes. Por isso não perdia nenhuma oportunidade de descobrir tudo que pudesse a respeito de cada uma que lhe caia sob os olhos. O pai Joaquim falou repetidas vezes que isso não lhe traria vantagens. Melhor seria tratar de ingressar em algum órgão do governo e assim garantir melhores condições de vida. Isso requeria dedicação aos estudos, coisa que não estava nos planos imediatos do menino.
 
Dolores se esmerava em supervisionar suas atividades escolares em casa. A realização dos deveres, exercícios, redações e estudar para as provas. Mal ela descuidava, estava ele examinando alguma coisa ligada às máquinas. Tinha coleções de folhetos explicativos de diferentes máquinas e equipamentos, principalmente as de guerra, tão em voga nessa época. Tudo ele queria saber e quase ninguém podia satisfazer sua vontade, por desconhecere o assunto. Os irmãos e irmãs estavam atingindo a idade adulta ou na adolescência. O mais velho Joaquim Ferreira Filho, estava cursando o ensino secundário e se preparava para ingressar num curso técnico. Visava romper o ciclo de pobreza a que a família estava fadada se permanecessem na ignorância. Não havia oportunidade de crescer,almejar uma posição melhor remunerada sem um diploma.
 
Os demais caminhavam no mesmo rumo. Apenas Manoel Silvério recalcitrava. O que ele queria era saber de máquinas. Não para ser operador de uma delas. Tinha vontade de participar da fabricação, montar, desmontar, fazer manutenção. Os pais insistiam que ali no interior não havia escola em que pudesse cursar algo nessa área. Para enviá-lo à capital ou ao Porto, onde isso seria possível, não dispunham de dinheiro. Que fizesse um esforço especial para conseguir ser aprovado em uma escola pública e com um emprego em meio expediente talvez conseguisse seu objetivo.
 
Manoel viu ali uma oportunidade e começou a dedicar maior empenho na escola. Seu rendimento melhorou, enquanto sua paixão pelas máquinas crescia. Não tardou e começou a sair a tarde, ficando horas for a de casa sem ninguém saber de seu paradeiro. As tarefas escolares ficavam para tràs e era obrigado a ficar até tarde da noite para terminar. Assim na manhã seguinte tinha dificuldades em sair da cama e depois manter-se acordado durante as aulas.
 
Um dia Dolores decidiu seguir-lhe os passos para ver onde ele passava tantas horas, quase todas as tardes. Qual não foi sua surpresa quando o viu entrar em uma oficina de manutenção de automóveis e outros veículos, além de toda espécie de máquinas existentes na época. Ficou do lado de for a decidindo o que faria. Iria lá dentro pegar o filho pelo braço e o levaria para casa? Ou esperaria para ver o que ele estava fazendo naquele lugar? Não foi preciso esperar muito. Ele havia sumido para o interior e em poucos minutos saiu com uma roupa bastante folgada, pois havia pertencido a alguém mais velho. Eram visíveis os sinais de graxa e sujeira proveniente das máquinas que eram desmontadas.
 
Apesar da pouca idade, 12 para 13 anos, ele fazia tudo com enorme cuidade e dedicação. Estava aprendendo e por enquanto lhe confiavam a desmontagem das partes menos importantes. Mesmo assim ele dedicava enorme atenção a cada gesto, cada volta de parafuso. Depois de solta a peça era removida cuidadosamente e colocada num lugar apropriado e em ordem. Assim saberia a sequência que teria que seguir para montar depois de feito o conserto. A mãe ficou um longo tempo ali observando e se retirou, voltando para casa, quando um dos donos a viu, começando a prestar atenção em sua atitude. Pensara que o filho estava envolvido em atividades menos nobres e ele estava ali, aprendendo na prática o que tanto queria saber.
 
O que causava admiração é que, ao voltar para casa, ele não trazia nenhum sinal de sujeira nas mãos ou no resto do corpo. Não lhe fez nenhuma pergunta nem falou nada. Iria conversar primeiro com o marido, explicando o que descobrira. Não tinha intenção de impedir o aprendizado do menino. Certamente precisariam conversar com o dono da oficina para que tudo ficasse dentro da normalidade. Era importante que soubessem ser ele um menino de família e não um moleque perdido, sem eira nem beira.
 
No silêncio da alcova pôs-se a conversar baixo com o marido, narrando todos os pormenores do que havia visto. Joaquim ficou um instante pensativo, coçou atrás da orelha como era seu hábito, depois perguntou:
– E tu não foste perguntar quem é o dono ou o responsábel pelo estabelecimento?
– Sabes, Joaquim! Não quis perturbar o menino. Penso que será melhor nós dois termos uma conversa séria com ele e depois ir até lá falar com quem é reponsável pelo serviço.
– Pensaste, bem! Pensaste bem! Se chegasses assim de surpresa ele poderia se assustar, ficar nervosa e mesmo se machuvar. Não imaginas o perigo que são aquelas ferramentas que usam para desmontar e montar essas máquinas.
– Não é preciso me falar, marido meu. Eu vi com estes olhos, que a terra há de comere. Tem umas chaves que são quase do tamanho dele. Mas ele as maneja como ninguém.
– Vou recomendar ao responsável para tomar cuidado. Se ele se machucare, depois ficamos nós com os cuidados para tratar dos ferimentos, ou coisa pior.
– Nossa Senhora de Lourdes que o proteja! Vou fazere uma promessa a Santinha! Acendere umas velas diante da imagem do mosteiro.
– Não adianta nada só fazer promessas, minhã querida. Precisamos tomar nossas precauções.
– Mas nunca é demais pedir a proteção do alto, marido meu.
– Ele deve estar terminando de fazer as tarefas escolares. Já é tarde. Vou na cozinha tomar um copo d’água e ver se ele já terminou. Então é isso que ele anda fazendo e de manhã tem preguiça de levantar. Não é preguiça, é cansaço mesmo.
– Os irmãos estão todos dormindo há um bom tempo. E ele não tem deixando as coisas da escola para trás. Ainda bem. Ele parece que descobriu o caminho que vai seguir.
Joaquim levantou, saiu disfarçando, como quem acabara de acordar depois de dormir um pouco e foi tomar sua água. Ao passar perto da mesa, viu o filho ainda concentrado sobre um caderno, escrevendo números, fazendo contas.
 
– Falta muito para terminares, meu filho?
– Só um pouco, pai. Logo vou dormir.
– Cuidado com a lâmpada. Confere se está bem desligada para não gastar combustível desnecessário.
– Pode deixar, pai. Eu sempre cuido.
– Durma bem depois.
– O senhor também, pai.
 
Voltou para a cama e conversaram por mais uns minutos até ouvirem o menino apagar o lampeão e ir para sua cama. Em minutos reinava silêncio total na pequena casa. O espaço era pouco, mas era o que seus recursos podiam pagar. Era preciso aguentar e buscar um meio de melhorar. Os filhos faziam planos para quando se formassem e tivessem seus empregos. Prometiam dar dias melhores aos pais. Joaquim pensava em seu íntimo, se os políticos permitissem que alguém progredisse. Pareciam cada vez mais empenhados em arrancar o máximo em impostos de todo mundo para manter sua máquina de repressão das manifestações contrárias ao regime. Havia multidões encarceradas, superlotando os presídios. Frequentemente corriam notícias de rebeliões em presídios, logo reprimidas violentamente.
Apresentação folclórica na praça, perto do Mosteiro de Santo André.
 
Não eram raros os casos de presos desaparecidos nas penitenciárias, de quem nunca mais se ouvia falar. Como tantos outros lusitanos, Joaquim sonhava com o dia em que houvesse paz no país. Não fosse preciso temer a cada dia pessoas sendo colocadas na prisão por motivos pouco mais que banais e, por vezes, voltar dentro de um esquife, ou em estado lastimável. Não era esse o sonho acalentado pelo povo do país ao dar apôio a Salazar quando havia sido implantado o regime atual. As promessas eram de um período passageiro para por ordem na casa e se passara mais de uma década, nada de ordem e a opressão cada vez mais severa. Será que os filhos teriam a chance de ver dias melhores?
 
Pensando nessas questões, dormiu devido ao cansaço do dia de trabalho árduo. Ao encerrar o trabalho na vinha, for a ganhar alguns cobres extras num serviço de limpeza do quintal de uma senhora idosa da vizinhança. Ela não lhe pagava muito, mas era alguma coisa para ajudar. Assim ajudava ela. Vivia da magra pensão que o marido, um funcionário público de baixo escalão lhe deixara ao morrer. 
 
Logo cedo, os filhos sairam para a escola, Joaquim foi trabalhar, ficando Dolores sozinha para preparar o almoço. Era o momento em que todos chegavam famintos.  Por sorte, com os trocados ganhos no serviço na tarde anterior, pode ir até uma bodega comprar alguns mantimentos. Dessa forma o sustento da família estava reforçado por alguns dias. Nem sempre isso era possível. Deu mentalmente graças a Deus e pôs-se a trabalhar.
 
Primeiro fez uma faxina na casa. Depois da noite de sono, sempre ficava alguma sugeria espalhada por todos os lados. Por volta de nove e meia, iniciou a preparação do almoço. O dia correu normal. Naquela noite, depois que os irmãos foram dormir, Maneol viu os pais sentarem-se diante dele, perto da mesa e ficou apreensivo. O que significaria aquilo? Fizera alguma coisa errada? Logo imaginou que alguém denunciara suas escapadas vespertinas até a oficina. Nem lhe ocorreu que a mãe o seguira e vira com os próprios olhos o que ocorria. Esperou alerta, pronto a se defender, ou até mesmo inventor uma pequena mentira para safar-se da enrascada.
– Meu filho, – falou Dolores. – Eu e seu pai precisamos conversar com ti.
– O que aconteceu, mãe? – indagou o menino.
– Ontem, quando você saiu daqui escondido, eu segui você.
Ele ficou vermelho igual um tomate maduro. A própria mãe desvendara tudo. Não adiantaria inventar nada. Eles sabiam de tudo e provavelmente iriam impedir que voltasse à oficina. Ficou esperando a continuação.
– Tua mãe me contou Manoel, que você está indo naquela oficina que tem perto da praça. Deveria ter avisado a mim e tua mãe do que ia fazer. Pensamos que estivesses a fazer travessuras. No fim descobrimos que estás a aprender um trabalho.
– Estou aprendendo a desmontar e montar as máquinas. Ainda não faço as coisas mais complicadas, só as bem simples.
– Mas estás a te expor ao risco de te machucares seriamente. Ou pensas que aquelas ferramentas não machucam se usadas de modo errado?
– Eu si pai. Tomo muito cuidado.
– Tu ainda és menino. Não tens força para certas coisas. Podes cair e se cortar, quebrar um braço ou perna.
– Mas isso acontece até brincando. Outro dia mesmo o Francisco da tia Maricota, quebrou o braço nas brincadeiras na escola.
– Nós sabemos disso, mas abusar da sorte não é conveniente. Achamos melhor esperar mais uns dois anos para começares a trabalhar.
O menino olhou com os olhos suplicantes para os pais e lágrimas rolaram por suas faces. Quando parecia que iria apoiar a cabeça nos braços cruzados a sua frente, olhou resoluto para os genitores e falou:
– Eu prometo não me machucar. Deixem eu continuar a ir na oficina, pelo menos um pouco todos os dias.
Os pais se entreolharam significativamente e Dolores falou:
– Vamos fazer uma experiência por mais umas semanas, digamos até o final do mes. Se nada acontecer, tu continuas. Mas se voltares machucado, acabou oficina.
– Obrigado, mamãe, papai! Prometo estudar mais ainda para não dar trabalho na escola.
– Isso é algo que nem se discute. A escola tem preferência. Se apareceres com notas baixas, reclamações dos professores ou algo assim, também terminou a história da oficina.
– Amanhã seu pai vai passar lá no final da tarde, ao voltar do trabalho para conversar com o dono da oficina. Vamos combinar dereito isso. Não é justo trabalhar de graça. Mesmo que esteja aprendendo, mas sempre faz alguma coisa.
– Assim você ganha uns cobres para comprar alguma coisinha que precise.
O menino pôs a mão no bolso e retirou algumas notas amarfanhadas. Entregou ao pai que contou e viu que ele ganhara um bom trocado. Olhou para o menino e falou:
– Aqui tem dinheiro igual a uma semana de trabalho meu. Você ganhou isso ou como veio prar no seu bolso esse dinheiro?
– Pode perguntar ao Senhor João, dono da oficina. Ele me pagou hoje as duas semanas que trabalhei lá. Já sei desmontar e montar uma porção de coisas. Mais tarde vou aprender a descobrir os defeitos e consertar. Aí vou ganhar bem mais dinheiro.
– Mas não penses só em dinheiro. Tens que pensar na vida e saúde. Tens muito que viver e não vale a pena estragar a saude ainda criança.
– Quando tenho que tirar peças muito pesadas, peço ajuda. Os outros também me pedem ajuda e assim nos viramos.
– Guarde esse dinheiro. Se a mãe precisarr, ela fala e você ajuda com alguma coisa na despesa da casa.
– Vou ficar só com uns cobres. O resto eu deixo com a mãe para comprar o que estiver faltando.
 
A mãe separou um pouco do dinheiro e entregou-o ao menino. Guardou o resteo no bolso do avental, junto com uns trocados que haviam sobrado do último serviço extra de Joaquim. Pensou no que poderia comprar para melhorar nível de alimentação da família. Quem imaginaria que o caçula, motivo de preocupação com suas ideias diferentes, começasse tão cedo a ajudar a manter a casa. 
 
Depois de conversar com os pais, o menino ficou aliviado por saber que eles aprovavam o que vinha fazendo e estes, por sua vez, ficaram menos apreensivos com as perspectivas de futuro do filho. Dava para perceber que ele aprenderia a encontrar o caminho por sua própria conta. Era o que demonstravam suas atitudes nas últimas semanas. Começara escapando da vigilância da mãe e voltara horas depois. Já havia feito isso uma ou duas vezes antes, mas voltara logo. Dera uma desculpa qualquer e ficara por isso mesmo. Finalmente estava tudo explicado.
 
O menino terminou de fazer suas tarefas, o coração aos pulos, quase não conseguiu fazer tudo direito, tamanho era seu contentamento. Os pais por sua vez se recolheram ao seu quarto, conversando alguns minutos antes de dormir profundamente. Na hora de sair para a aula, Manoel deu um beijo na mãe, outro no pai e saiu. Os dois se olharam, se entenderam sem dizer palavra. Compreendiam-se no simples olhar, dizendo por vezes mais do que muitas palavras vazias. Logo a seguir Joaquim também foi trabalhar. Dolores lavou a louça do desjejum e passou uma vassoura na casa, deixando tudo arrumado em um instante. Estava com o espírito alegre. Enquanto fazia seus afazeres pensava no quanto poderia comprar de cada ingrediente, um pouco de peixe, um bocado de carne de porco, além de outros ingredients mais baratos e duráveis.
 
O almoço parecia uma pequena festa. Os irmãos olharam para a mãe indagadoramente, como que a dizer:
– O que estamos comemorando? Papai ganhou um aumento? Ganhou na sorte grande?
Ela apenas sorriu enigmaticamente e continuou servindo os alimentos. No momento em que estava tudo pronto, nada mais se falou. Todos comeram com gosto e Manoel, sabendo que a melhoria na mesa, era decorrente do dinheiro que deixara com a mãe. Sentiu-se imensamente satisfeito. Estava dando sua contribuição na casa, apesar de sua pouca idade. Quando os irmãos e irmãs seguiram seus afazeres, ele já com a roupa trocada, saiu depois de dar um ligeiro adeus à mãe. Caminhava eufórico com a situação. Seu trabalho, ainda como aprendiz, proporcionara à toda família uma refeição bastante substancial. Poder-se ia dizer quase um banquete.
 
O tempo passou, os anos sucederam-se rapidamente e logo os filhos mais velhos estavam se formando nos seus cursos técnicos. Manoel estava agora com 15 anos. Os rumores de um retorno à guerra no resto do continente e do mundo estavam cada vez mais distantes. O menino agora já era capaz de fazer sozinho uma porção de serviços bastante complexos nos veículos e com isso seus rendimentos também cresceram. Ninguém mais ingorava a situação e ele participava ativamente das conversas sobre as despesas da casa. Fazia planos sobre seu futuro

Mausoléu de família nobre em Ancede, Portugual