Arquivo mensais:setembro 2014

Gaúcho de São Borja! – Capítulo V

 

Agora sim, casamento de verdade.
          Boa noite, Francisco!
          Boa noite, senhorita Margarida!
          A mãe falou que você queria falar comigo. Você deve estar com ódio de mim.
          No dia eu fiquei bastante chateado, mas depois pensei melhor. Acho que fui insensível aos seus sinais todo esse tempo.
          Você percebeu? Eu tinha medo de ser mais insistente. Você poderia ficar ofendido.
          Se é verdade o que você falou, eu estou disposto a conversarmos e nos entendermos.
          Você também me ama?
          O que você acha? Estou aqui por causa disso. Se aceitar meu pedido e sua mãe autorizar, quero ser seu namorado, noivo e depois casaremos.
Diante disso a jovem emocionada caiu em um pranto silencioso. Imaginara que havia jogado for a qualquer chance de felicidade ao lado do homem que seu coração amava e ali estava ele pedindo a sua mão em namoro. Sentia-se nas nuvens e não conseguia conter as lágrimas. A um aceno de cabeça de Carlota, Francisco aproximou-se e com delicadeza afagou o cabelo dela dizendo:
          Eu esperava que ficasse feliz. Não gosto de ver você chorando.
          Eu choro de felicidade. Você de fato me perdoou?
          O passado, é passado. Vamos recomeçar a vida daqui para frente.
Os dois não perceberam a saída de Carlota e em pouco estavam abraçados, trocando carícias suavemente. Francisco enxugou as lágrimas de Margarida e ela se aconchegou em seus braços fortes. Conversaram pouco pois as palavras eram dispensáveis. Francisco olhou atentamente para o rosto suave e belo da jovem, perguntando-se onde estivera com a cabeça para não ter notado o carinho estampado naqueles olhos. Enquanto murmurava palavras carinhosas afagava suavemente o corpo da mulher que confessara publicamente amá-lo acima de tudo. Logo Sia Balbina assomou à porta e falou:
          Dona Carlota está chamando para jantar.
Os dois se olharam e bastou isso para se entenderem e Margarida falou:
          Nós já vamos, Sia Balbina.
Pegou na mão de Francisco e o guiou para a sala de jantar, onde Carlota e Balbina os aguardavam.
          Sente-se, Francisco. Vá se acostumando. Vai ser membro da família.
          Com sua licença. Vou demorar um pouco a pegar o jeito.
          Isso logo passa. Vamos comer que a comida está ótima.
Sentaram-se e logo estavam comendo, trocando algumas observações sobre trivialidades. Francisco sentia-se um pouco constrangido. Nunca sentara à mesa da patroa, menos ainda como namorado da filha. O passo mais importante for a dado e agora seria tocar em frente. Sabia que sua responsabilidade aumentava com a nova situação. Com certeza seria olhado de modo estranho por todos, mas não tinha o que recear.
A refeição terminou e, após alguns minutos, ele se retirou para seus aposentos. O dia seguinte trazia muito trabalho e não deixaria de cumprir suas obrigações. Nada mudaria com o fato de agora estar praticamente noivo da filha da patroa. Seu empenho seria maior ainda para não dar motivos a falatórios.
  Alguns meses depois, no dia 22 de maio de 1885, era realizado um casamento na fazenda Santa Maria. Dessa vez não haveria interrupção. O noivo era o mesmo, mas a noiva era Margarida Maria, filha da proprietária. Os convidados acorreram de todas as propriedades vizinhas, os amigos e parentes se faziam presentes. A noiva estava deslumbrante, em seu vestido simples, mas muito bem feito. O véu e a grinalda completavam o belo quadro. Carlota sentia realizar-se um sonho acalentado há tempo. A filha teria ao seu lado um homem de bem, honesto e responsável, em grande parte, pelo reerguimento da propriedade, após o tempo da guerra. Seria justo que partilhasse com Margarida o patrimônio que ajudara a construir.
Nos dias subsequentes, Francisco continuou fazendo o trabalho de capataz, mas Carlota lhe disse que deveria encontrar um substituto. Ele agora era patrão e ela queria que ele assumisse a parte administrativa. Estava disposta a lhe transferir gradativamente esses encargos, pois sentia-se cansada de desempenhar o papel de dona da casa e comandar a fazenda. Queria agora se preparar para os netos que certamente não demorariam em chegar. Haviam transcorrido quase 20 anos desde que o marido partira para não voltar. Tivera sobre seus ombros um trabalho de homem e ao mesmo tempo de mãe. Queria agora gozar um pouco a vida.
Os desejos da candidate a avó não tardaram em serem preenchidos com o anúncio de que um(a) neto(a) estava a caminho. Chamou Balbina e lhe determinou procurar em seus guardados os modelos de bordados, crochês, tricô e tudo que fosse roupinha de criança. O descendente que viria, seria recebido com muito amor, carinho e cuidados. As duas juntas, em combinação com Margarida, puseram-se a preparar o enxoval. Faltavam cerca de dois meses para a data prevista do parto e já havia um baú cheio de toda sorte de roupas, cobertores e mantas. O inverno não seria problema para o nascituro.
A data chegou e uma parteira veio atender a mãe em seus momentos de dar a luz ao filho. Sim, um filho nasceu. Um robusto menino, de voz forte que ecoou pela casa, instantes depois do nascimento. Estavam prestes a comemorar a independência do país. Estavam no dia 05 de setembro de 1886. O pai Francisco ficou orgulhoso do filho que lhe nascera. Ofereceu aos empregados uma rodada de caninha em comemoração. Pessoalmente não era dado a bebidas, mas em ocasiões especiais, consentia que os seus subalternos tomassem um gole. Mas apenas isso, pois detestava qualquer tipo de alteração provocada por ingestão de aguardente.
Os pais estavam muito contentes e o filho recebeu o nome de Pedro Antônio Monteiro. Foi batizado e o pai foi pessoalmente ao cartório na sede do município fazer o registro civil. Nascera pobre, ficara órfão e hoje era, por via do casamento, um dos fazendeiros mais prósperos da região. Conquistava gradualmente a admiração e o respeito dos vizinhos. Os empregados viam, no agora patrão, um homem que merecia tudo o que de bom conquistara. Era cordato e tratava bem a todos os seus servidores. Não enfrentava problemas de espécie alguma com a equipe que comandava. Soubera colocar em seu lugar um homem de grande capacidade de liderança para ocupar o posto de capataz.
Quando Pedro estava com um ano e meio, Margarida anunciou nova gravidez. No dia 13 de maio de 1889 nasceu Júlia Balbina Monteiro. Em termos de vigor rivalizava com o irmão, pois era dona de uma voz vibrante e forte. Nasceu no dia em que a Princesa Izabel, regente do império em lugar de D. Pedro II, proclamou a Lei Áurea. Era abolida a escravatura no Brasil. Os abolicionistas festejaram, porém os fazendeiros de café de São Paulo, Minas e estados vizinhos, se viram, de um dia para o outro, privados da mão de obra escrava. Isso gerou sérias dificuldades e, em alguns meses, os militares pressionados tomaram o poder e foi implantada a República Federativa do Brasil.
Foi um tempo de profundas mudanças do ponto de vista administrativo. O país, após mais de 70 anos de império, iniciava sua vida política com governo democraticamente eleito pelo povo. Houve muitas agitações, rebeliões e desencontros. No agora Estado do Rio Grande do Sul, antes era província, os efeitos da abolição foram menos sensíveis, uma vez que a mão de obra não estava calcada no braço escravo. Grandes contingentes de imigrantes italianos, alemães e poloneses já ocupavam grande parte da região agrária, não dedicada à criação extensive de gado nas regiões acima da serra e nas terras menos planas. Os efeitos foram mais politicos que de outra ordem.
Margarida e Francisco tiveram ainda uma outra filha, depois de dois anos do nascimento de Julia. Recebeu o nome de Joana Carlota Monteiro. A avó materna sentiu-se honrada em ter seu nome posto numa das netas. Os pequenos eram o motivo de sua alegria na velhice. Gozava de boa saúde, mas sabia que os anos áureos de seu vigor haviam transcorrido. Procurava aproveitar da melhor maneira todos os momentos de alegria que a vida lhe oferecia. A filha fizera um esplêndido casamento, pois Francisco, muito previdente e oportunista, soubera ampliar em alguns anos a área da propriedade. Na partilha de uma propriedade vizinha, surgira a oportunidade de adquirir uma das parcelas que ficava contígua à Fazenda Santa Maria.
A decisão foi tomada em comum acordo e o negócio de compra foi fechado. A incorporação dessa nova área representava um acréscimo de aproximadamente 25% da área anterior à propriedade. Assim era possível ampliar a criação de gado de corte e também implantar uma área de plantio de arroz irrigado. Era uma alternativa para os períodos em que a carne sofria os efeitos da oscilação de preço no mercado externo. Em poucos anos produziam, a cada período, uma bela safra de arroz. Com isso o tipo de trabalhadores também mudou, pois peões habituados a trabalhar com o gado, não se adaptavam ao trabalho no plantio. Para o corte e debulha, tarefas nessa época ainda feitas manualmente, contratava-se trabalhadores temporários. Sempre havia gente em busca de trabalho. Ficavam imensamente gratos quando conseguiam algumas semanas de trabalho em troca de uma boa remuneração.
Em conjunto com Margarida, com apoio de Carlota, Francisco conseguiu junto às autoridades a instalação de uma escola no perímetro da fazenda. Serviria ao mesmo tempo aos filhos dos seus empregados, bem como aos dos vizinhos. Tanto Pedro como Julia e depois Joana cursaram ali os primeiros anos de escola. A professora viera de Santa Maria e se adaptou bem ao povo local. As crianças a adoravam e o aprendizado era ótimo. Houve uma tentava de removê-la para a sede do município, mas os moradores unidos fizeram pressão e ela foi mantida no posto. Em conjunto os moradores foi construída uma casa com uma pequena área para server de patio, horta, jardim e pomar e ela ali foi morar. Ficou para sempre grata pela consideração que lhe dispensavam e seu empenho foi redobrado na regência das classes de alunos.
As crianças cresceram e viram a avó ficar grisalha, depois branca e bem velhinha. Siá Balbina, já idosa há muito tempo, não suportou o peso dos anos e pouco antes da virada do século XIX para XX, entregou a alma a Deus. Houve uma comoção geral na fazenda e vizinhança, pois era muito benquista em toda parte. Foi pranteada longamente e depois recebeu homenagens a cada ano que se comemorava seu aniversário natalício. Todos queriam lembrar-lhe os dias alegres, o sorriso franco sempre presente em seu rosto.

Em meio a várias alternâncias no comando dos destinos do país, chegou-se a 1914 e chegou a notícia de que a Alemanha e seus vizinhos estavam em guerra. Por sorte ninguém aqui quis saber de se envolver no conflito e as consequências sentidas foram apenas no plano econômico, pois os países em guerra eram em maioria compradores de nossos produtos. A Guerra terminou e na Rússia explodiu a rebelião marxista levando à derrubada da monarquia, implantando-se em seu lugar um governo socialista que se prolongou até final da década de 80.

Mineiro sovina! – Capítulo III

 
 
As entrevistas prosseguem.
            Nos próximos três dias, a rotina seguiu, apenas houve um dia em que compareceu a dois encontros pela manhã e dois à tarde. Os estilos e tamanhos dos escritórios variavam de conformidade do gosto do(s) dono(s), e se ajustavam à disponibilidade financeira também. Entre as propostas havia de tudo. Desde as que lhe propunham algo pouco acima de um trabalho escravo e sem perspectivas de crescimento. Havia também quem propusesse algo que estava evidente ficara acima das possibilidades. Ficou na dúvida na motivação que determinara isso, mas por prudência separou as duas que lhe pareceram for a da realidade. Igualmente descartou imediatamente as que não mereceriam o esforço de serem analisadas. Feito isso restaram seis. Cinco eram praticamente equivalentes, e uma delas trazia em si um diferencial significativo.
            Fez uma análise criteriosa das outras cinco, deixando essa para o fim. Estabeleceu um paralelo entre elas e verificou que, salvo ligeiras variações, as propostas eram basicamente iguais. Qualquer uma delas não seria de modo algum desprezível para qualquer candidato a trabalho, recém formado bacharel como era seu caso. Por fim dedicou-se a estudar detalhadamente a última que sobrou. O que ela trazia de diferente das demais não era no tocante aos valores de ganhos em sim, mas na parte que se referia às perspectivas de crescimento dentro da hierarquia da empresa. Era deveras tentador imaginar que, se tudo corresse bem, em alguns anos estaria ocupando uma sala ampla, tendo sob suas ordens auxiliares, comandando uma pequena equipe de advogados iniciantes. Poderia estar defendendo causas na cidade como nas vizinhas, bem como na capital Belo Horizonte.
            Depois de anotar detalhadamente as vantagens de cada proposta, foi sentar-se com os pais e a irmã após o jantar e lhes apresentou suas conclusões. Queria saber a opinião de todos e eles lhe disseram o que pensavam. Em linhas gerais as opiniões eram condizentes com as próprias observações, apenas ligeiras divergências, que vistas do ponto de vista de cada um pareciam mais ou menos relevantes. Todavia, a proposta mais tentadora era realmente aquela que do princípio lhe parecera a melhor. Houve unanimidade na indicação dela como a melhor opção. Era no entanto necessário cuidado na assinatura do contrato de trabalho, para não cair em uma armadilha, algo bastante comum em situações análogas.
            Depois de uma intense troca de ideias e opiniões, sugestões diversas, José Silvério decidiu que escreveria uma carta educada a cada escritório, agradecendo a proposta recebida e deixando em aberto a possibilidade de futuramente voltar a fazer contato. Havia encontrado outra colocação que lhe parecera mais vantajosa e aceitara. Era importante manter-se em bons termos com os colegas de categoria. Iriam se defrontar nos tribunais, acusando, defendendo esse ou aquele cliente. Qualquer animosidade gratuitamente granjeada poderia ser nociva nessas ocasiões.
            Dedicou a manhã seguinte à redação das respectivas cartas, sobrescreveu cada envelope caprichosamente, fechou e selou. Após o almoço depositaria cada uma delas no correio e levaria aquela da proposta escolhida em mãos ao escritório. Passara-se uma semana nesse afã de comparecer às entrevistas e analisar as propostas, até tomar sua decisão. Havia deixado combinado um prazo de até sete dias para isso e portanto não estava for a disso. Se tudo corresse como o esperado, em questão de um ou dois dias estaria trabalhando. Começaria a escalada na carreira de advogado, coisa que sempre sonhara desde sua adolescência, depois que tivera oportunidade de assistir a parte de um julgamento. Aquele ritual todo o encantara e ainda lhe causava arrepios cada vez que adentrava a sala de um tribunal. Apesar de ter estado em inúmeras ocasiões presente a novos processos no correr dos anos de faculdade.
            Passada a hora do almoço, colocou em uma pequena valise os envelopes que colocaria no correio, vestiu uma roupa discreta e foi desincumbir-se do que se propusera naquela tarde. Era segunda feira. A agência dos correios não ficava muito longe e em pouco tempo as cartas estavam despachadas, pois já as havia trazido seladas. Depois seguiu até próximo à praça principal, não longe do forum, onde estava instalado o escritório da empresa de advocacia Sete Lagoas Advogados Associados S/C. Ali chegando entregou à recepcionista o envelope e ela, ao reconhecê-lo, falou:
          O doutor Onofre pediu que, se o senhor viesse, aguardasse um pouco pois ele deseja lhe dizer umas poucas palavras.
          Não tem problema. Tenho tempo e posso aguardar o tempo necessário.
          Ele está atendendo um cliente, mas em poucos minutos irá atendê-lo.
Sentou-se em uma confortável poltrona e ali ficou aguardando o momento de falar com o diretor da empresa. Pôs-se a folhear uma revista de direito que se encontrava num suporte apropriado e leu notícias recentes. Eram novidades dos últimos julgamentos e sentenças exarados nos tribunais da região e capital
Passaram-se pouco mais de vinte minutos e uma porta se abriu, dando passagem a um homem com aspecto de empresário bem sucedido, talvez um fazendeiro endinheirado residente na cidade. Quem o acompanhava era o doutor Onofre. Tão logo se despediram, o doutor Onofre o viu e logo o chamou pelo nome.
          Pode entrar doutor José Silvério.
Ele não se fez de rogado. Apenas estranhou o fato de ser chamado logo pelo nome. Pelo visto o entrevistador ficara bem impressionado com o candidato e passara as informações ao chefe ou recomendara descartá-lo. Essa última possibilidade era remota, pois nesse caso o diretor não tomaria a seu cargo fazer essa tarefa pessoalmente. Restaria aguardar e enquanto isso suar frio por um momento até o veredito.
          Sente-se doutor José.
          Obrigado doutor Onofre. (Guardara bem o nome para não esquecer).
          Como tem passado?
          Bastante atarefado em comparecer a várias entrevistas, analisar as propostas e tomar decisão.
          E qual foi sua decisão? Vai trabalhar com a gente?
          Acabo de entregar a carta de aceite à recepcionista. Se quiser posso pegar com ela.
          Deixe que eu mesmo peço para ela trazer.
Levantou o interfone e falou à recepcionista, ordenando que lhe trouxesse a carta que José Silvério deixara em suas mãos. Em segundos a porta se abriu e a funcionária entrou trazendo o envelope, que entregou ao doutor Onofre.
Tomando de um instrumento apropriado, cortou o lado certo e de dentro retirou uma folha de papel, onde estava declarado por José Silvério o aceite da proposta recebida para trabalhar no escritório que Onofre dirigia. Depois de ler atentamente a carta, doutor Onofre falou:
          Seja bem vindo ao nosso grupo. Sua qualificações são as melhores possíveis, suas respostas na entrevista deixaram excelente impressão e além do mais, um de nossos sócios conhece seu pai há muitos anos. Trata-se do doutor Carlos Oliveira. O pai dele é cliente do comércio de seu pai.
          Acho que conheço. Estava cursando direito quando eu ainda estava no secundário.
          É provável que sim e as recomendações dele não poderiam ser melhores.
          Fico contente em que tenham gostado de minhas qualificações e também da minha maneira de encarar a vida.
          Já temos um lugar reservado para seu começo. Como ainda não tem registro da OAB, vai atuar como assistente dos advogados em atividade. Em princípio vai atuar mais diretamente sob as ordens do doutor Carlos Oliveira, mas eventualmente posso requisitar seus préstimos, assim como os outros colegas. Vai ter bastante trabalho. Isso garante pelo menos que não irá se aborrecer.
          Quando devo começar?
          Amanhã é um bom dia. Hoje já está chegando ao fim do dia. Mas esteja aqui amanhã às 8 horas e vamos lhe mostrar o que fazer.
          Obrigado e prometo me esforçar para não decepcionar.
          Tenha uma boa tarde, doutor José.
          Igualmente, doutor Onofre.
Deixou o escritório, deu adeus à secretária e saiu para a rua.
Foi assim que o bacharel em direito, José Silvério da Silva, começou a dar os primeiros passos na profissão de advogado. Enquanto adquiria prática atuando como assistente dos advogados que trabalhavam no escritório, foi se preparando para realizar o exame da OAB. Só depois poderia atuar individualmente, tornando-se responsável por causas. Ter a seu serviço um assistente e secretário, o que não ocorria no começo. Sonhava com o dia em que teria seu próprio gabinete. Uma sala onde teria a seu dispor todos os requisitos de conforto e privacidade para tratar com os clientes que lhe fossem destinados.
Os bons resultados obtidos na universidade lhe valiam o respeito dos patrões e também dos colegas de trabalho. Isso era um grande passo. Teria tempo para galgar os degraus sucessivos da profissão. Não lhe faltava ambição para tanto e nem tampouco capacidade para deslindar os mais complexos meandros do direito processual brasileiro. Por vezes era preciso ser um verdadeiro desvendador de labirintos, para conseguir enxergar claro no cipoal de leis, decretos e normas a serem seguidas. As precedências e mesmo algumas contradições tinham que ser harmonizadas para o bom andamento dos trabalhos.
Os meses correram acelerados, ocupado que estava com sua preparação para a prova da OAB e o trabalho de análise dos processos, redação de pareceres, nem se deu conta e estava às vésperas da realização da prova. No dia marcado, lá estava ele, como nos tempos da universidade, nervoso, as mãos suadas. Estava enfrentando o momento decisivo em sua vida. Sem o registro da OAB não seria um advogado de verdade. Só poderia defender os clientes diante do juiz ou dos jurados, quando tivesse sido aprovado nesta prova. Tinha que manter a calma, por em uso tudo o que havia aprendido e a experiência adquirida durante os meses no escritório.
Aguardou com ansiedade a publicação do resultado. Quando encontrava com outros candidatos que haviam feito a mesma prova, aproveitava para trocar ideias, discutir respostas às questões que considerava mais polêmicas, em especial as que tinham que ser respondidas por escrito. No dia em que soube da publicação do resultado, correu para a primeira banca de jornais e comprou um exemplar onde buscou avidamente a página em que estavam estampados os nomes dos aprovados. Já estava à beira das lágrimas, quando finalmente viu o seu nome estampado na lista dos aprovados. Soltou um grito de alegria, assustando as pessoas que se encontravam ao seu redor. Houve quem lhe indagasse o que significava aquela euforia. Meio atabalhoadamente lhes mostrou o título da matéria e seu nome estampado na lista.
Em seguida encaminhou-se apressadamente para o escritório. Queria compartilhar com os colegas e em especial com os seus contratantes. Agora seria questão de dias para que tivesse em seu cartão de visitas impresso o número de registro na OAB. Seria um advogado em todos os sentidos, não apenas um bacharel em direito. Teria oportunidade de exercer a profissão para a qual tão arduamente se preparara. Gostava do glamour da profissão, mas principalmente, amava a justiça. Iria envidar todos os esforços para que sempre se fizesse o que a lei estabelece e o que o bom senso manda.

 

            Foi parabenizado efusivamente pelo escritório inteiro, a começar pelos sócios e terminando nas faxineiras e serventes. Ligou para o pai, para lhe informar da novidade.  Ao saber da notícia, o Sr. Pedro, não conteve as lágrimas, correu ao encontro da esposa para lhe contar a boa nova. Deixou o estabelecimento por algum tempo aos cuidados dos empregados e foi encontrar com o filho. Precisava dar nele um abraço. Antes de sair pediu à cozinheira a preparação de uma refeição especial para o almoço. Queria comemorar em família, a conquista do filho. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo IV

 

Paixão infantil se transforma em amor.
            Para Margarida a vida fluía plácida e serena. Suas preocupações principais eram dominar os conhecimentos necessários para administrar com sabedoria um lar, supervisionar os trabalhos de criadas, dedicar horas e horas a fazer trabalhos manuais, outras tantas em ler. Todavia, pelo menos duas vezes por semana ela saia a cavalgar pelos domínios da fazenda, em sua bela égua alazão. Fora dada de presente pela mãe por ocasião dos seus quinze anos. Carlota encarregara Francisco de lhe ensinar os rudimentos de montaria, coisa que ela dominara rapidamente. No princípio Francisco a acompanhava pessoalmente, ou encarregava um dos peões de tal tarefa. Enquanto não estivesse segura sobre o animal, havia sempre algum risco de sofrer uma queda num lugar distante e necessitar de socorro.
            Aos poucos ela adquiriu desenvoltura e se aventurou a explorar os recantos mais afastados sozinha. Diversas vezes cuidou de selar o animal ela mesma, pois fizera questão de dominar esse detalhe, para poder se defender em caso de necessidade. Não revelara que, na verdade, sua intenção é sair solitária, a vagar pelos lugares mais ermos, apreciar as belezas naturais que ali estavam disponíveis.
            Em uma dessas ocasiões levou um susto. Estava perto de um córrego, bem na beira de um capão de mato, quando a égua refugou seguir avante. Em vão a amazona instigou o animal a caminhar. Ela ameaçou empinar e Margarida lembrou que era preciso acalma-la, acariciando-lhe a crina, o pescoço e falando calmamente. Com a rédea manobrou para o lado ao que ela obedeceu prontamente. Alguns passos adiante, parou e olhou para trás e então viu uma enorme serpente, pronta para dar o bote, visível sob uma moita de espinheiro, ao lado da qual ela estivera prestes a passer. Pensou consigo mesmo que não havia problema em deixare o animal peçonhento ali, pois aquele lugar pelo visto dificilmente seria usado para pastoreio de gado. Que ficasse ali em paz.
            Em um galope bem disposto retornou para partes menos afastadas e tomou a resolução de não mais ir tão distante, salvo se estivesse acompanhada. Sua sorte for a égua ser muito mansa e ter apenas se recusado a chegar perto do lugar em que estava o perigo. Sua percepção sensorial a avisara da existência do risco. Enquanto o animal caminhava a passo de volta para casa, ia conversando carinhosamente com ela e em diversos momentos recebeu como resposta leves bufidos do animal. Voltou para casa e depois de algum tempo contou para Carlota o acontecido. Uma leve reprimenda pela audácia de ir tão longe e depois um elogio por ter seguido o instinto do animal. Naquela circunstância nenhum cavalo obedeceria ao comando se expondo a uma picada de cobra.
            Passaram a fazer cavalgadas em companhia uma da outra. A mãe, cansada das ocupações administrativas, gostava de percorrer sua propriedade, ver pessoalmente o estado das pastagens, o progresso da criação, de modo que na maior parte das vezes cavalgavam juntas.
            Os meses se sucederam, depois os anos se somaram e Margarida continuava em sua vida alegre e despreocupada. Quando contava com 18 anos completes, houve um fandango na fazenda vizinha e ali compareceram todos os rapazes e moças da redondeza. Os músicos eram excelentes e a dança rolava alegre. Valsas, vaneiras, xotes, tangos, polcas e outras danças se sucediam. Em dado momento Margarida viu Francisco dançando com uma jovem bonita e conversando animadamente. Ao final da música viu que os dois permaneceram parados juntos de mão dada e ela sentiu uma pontada no peito. Haviam convivido mais como irmãos os últimos anos e ele estava em seu pleno direito de dançar com quem quisesse, bem como iniciar namoro e mesmo casar.
            Foi um choque ver o capataz naquela situação. Decidiu parar de dançar por um momento, foi até um pequeno reservado e ali sentou para pensar por alguns momentos. Quando a mãe veio indagar o que havia alegou uma ligeira indisposição, mas não revelou o real motivo disso. Voltou ao salão depois e dançou mas nada estava como devia. Cada vez que levantava o olhar seus olhos caiam sobre Francisco e seu par. Pelo visto havia algo de mais sério acontecendo, do que um leve flerte. O coração de Margarida estava cada vez mais inquieto até que, não suportando mais, disse à mãe que gostaria de voltar para casa pois não estava se sentindo muito bem.
            Carlota levou-a sem demora ao lar e lá Siá Balbina preparou-lhe um chá de camomila com erva doce para acalmar. Aos poucos, mesmo vendo constantemente o par diante dos olhos, o sono a dominou. Dormiu pesadamente, tendo pesadelos onde via Francisco no altar recebendo a bela jovem pore sposa e ela impotente sem poder fazer nada. Ao acordar, pensou longamente no assunto e decidiu deixare o tempo correr. Se fosse desígnio de Deus eles se casarem, não adiantaria nada tentar impedir. De fato em alguns meses ficou sabendo que o casal estava noivo e logo marcariam o casamento. Ela ia frequentemente até a área de trabalho dos peões e conversava com Francisco, usando sempre uma roupa bem bonita, enfeitando o cabelo, exibindo todos os seus generosos dotes femininos. Imaginava que, se tivesse uma chance de conquistá-lo, teria que ser por esse meio, do contrário, precisaria se render às evidências. Um dia alguém repararia nela e lhe faria a corte.
            Em verdade havia vários rapazes da região interessados nisso, mas lhe pareciam muito superficiais, sem consistência. Não queria ter ao seu lado alguém que precisaria ser comandado, como se for a um mero serviçal. Queria um homem firme, decidido e másculo. Isso ela não havia encontrado ainda, tirando Francisco que estava comprometido com outra.
            A data do casamento foi marcada e seria realizada uma cerimônia simples na capela da fazenda e depois um churrasco para os trabalhadores além dos parentes e vizinhos. Tudo foi preparado, sem exageros, mas não havia carência de nada. Seria uma bela festa de casamento como mandava o costume campeiro. Na hora da cerimônia, Margarida demorou mais do que o costume para se arrumar, sendo apressada pela mãe que não queria chegar atrasada.
            No momento em que o padre realizava o ritual do casamento, antes da cerimônia da missa propriamente dita, chegou o momento de perguntar:
          Se alguém entre os presentes tiver alguma coisa que possa impedir esse matrimônio, que fale agora ou cale-se para sempre!
Alguns instantes de silêncio e quando a cerimônia já ia ter prosseguimento, uma voz forte e cristalina se fez ouvir.
          Eu tenho, padre!
Todos os olhares procuraram para a pessoa que pro?nunciara essas palavras e constataram tartar-se de Margarida. Carlota atônita quis saber o que acontecia, mas ela continuous a falar em alto e bom som:
          Padre, eu amo esse homem! Esse homem é meu! Se não puder ser assim, vou sair daqui e irei para um convento para dedicar minha vida a Deus.
          Minha filha! Que é que você está dizendo? Porquê não falou nada antes?
          Eu pensei que era ilusão minha, mas no momento em que vi ele se tornar marido dela, senti que seria a última oportunidade de encontrar o que andei procurando em vão. Francisco, case-se com ela e eu vou ser freira. Se aceitar ficar comigo, prometo agora ser fiel para toda a minha vida. Pode marcar a data do casamento, até mesmo agora eu aceito e aproveitamos todos os preparativos.
Depois de falar isso, Margarida sentou-se no banco e começou a soluçar convulsivamente. Carlota não sabia o que fazer. Queria pedir ao padre para seguir com a cerimônia, queria atender a filha e se estabeleceu uma celeuma complete. A noiva, diante da revelação inquiriu de Francisco o significado daquele fato e o coitado ficou sem palavras. Em nenhum momento desconfiara de nada e não soube o que responder. Tomando isso como uma forma de ocultação da verdade, ela decidiu que não queria mais se casar, rumando para a saída e abandonando o local. Francisco, sem saber como agir, ficou longamente parado, seus olhos perdidos no vazio, tentando atinar com o significado do ocorrido.
Margarida ficara transtornada? Ou quisera fazer uma travessura? Não seria admissível pois jamais lhe dera motive de desgosto. Sempre lhe atendera com boa vontade, fizera suas vontades, seus caprichos de menina mimada. Aos poucos foi penetrando em seu intelecto que, muitos dos atos tomados por manhas de menina rica, na verdade haviam sido tentativas de chamar sua atenção. Ele é que não se dera conta, imaginando estar muito abaixo dos anseios dela. E se estivesse enganado e se tratasse realmente de um mero capricho de Margarida! Enquanto isso se passava, a capela aos poucos foi se esvaziando, os convidados, diante da retirada da noiva voltaram para suas casas e a capela ficou praticamente vazia.
Restavam ali apenas o padre, Francisco, alguns peões e criadas, e a família de Carlota. Esta pediu escusas ao padre, lhe recompensou generosamente dizendo-lhe que conversariam sobre o assunto em outro momento. Agora precisava por ordem em sua cabeça, na da filha e tomar pé daquela balbúrdia.
A notícia do casamento desfeito por obra de Margarida interferindo no momento crucial, se espalhou por toda região como fogo em rastilho de pólvora. Muita gente falou o que devia e o que não devia. Margarida cogitou em ir realmente para um convento, para assim permitir à mãe aos poucos abafar o escândalo. Estavam a pensar nessa possibilidade, analisando as opções que o padre havia sugerido, quando Francisco entrou no jogo.
À tardinha, na hora do lusco-fusco, quando as lides do campo estavam encerradas e todos se recolhiam aos seus lares para o repouso da noite, ele se apresentou na casa grande e pediu para conversar com dona Carlota. Ela o recebeu imediatamente e quis saber se havia algum problema acontecendo na fazenda. Nos dias que seguiram ao casamento frustrado, ela ficara totalmente desligada de tudo.
          Não há nada demais com a propriedade, com o gado, nada mesmo, dona Carlota.
          Então o que o traz aqui Francisco? Você deve estar descontente com o seu casamento desfeito por obra de minha filha. Ela está se preparando para ingressar num convento. Assim ela sai do caminho e você pode refazer sua vida com sua noiva com calma.
          Não é isso que estou pensando fazer, dona Carlota. Estive pensando sobre várias coisas e me dei conta que a menina Margarida muitas vezes me deu sinais de estar interessada em mim como homem, mas eu não percebi. Não me considerava digno de levanter os olhos para ela pensando em algo assim.
          Não que isso seja alguma coisa comum, mas eu não teria ficado nem um pouco surpresa e menos ainda, descontente se isso viesse a acontecer. Para dizer a verdade em muitos momentos cheguei a desejar que assim fosse.
          Não sei agora, mas se a menina Margarida quiser pensar melhor e deixar de lado a decisão de ir para o convento, estou disposto a fazer uma tentativa de nos entendermos.
          Podemos fazer a prova agora mesmo. Basta eu chamar minha filha e perguntar a ela. Você quer?

    %

Mineiro sovina! – Capítulo II

Mineiro sovina!
 
Capítulo II

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.

 

Lago em uma praça em Sete Lagoas.

 

Ano novo, vida nova!
            Viajou de volta a terra natal em um avião da Varig, às vésperas do ano novo. Comemorou o início do ano de 1976 junto com a família. O pai convidou os parentes mais próximos e amigos para, junto com o Ano Novo, festejar a graduação do filho no curso de direito. No momento da passagem de ano, muitos fogos espoucaram acima da casa dos Silva, farto sortimento de champagne foi estourado, ficando as taças constantemente cheias. Muitos quitutes de que se encarregara a mãe, junto com duas tias muito próximas, fizeram a alegria dos comensais presentes em acompanhamento ao champanha que rolou farto. A casa estava cheia e demorou bastante até que, um a um começaram a voltar para casa. No dia seguinte haveria almoço em suas casas e ninguém queria estar com cara amassada de noite mal dormida.
            Na noite do dia primeiro de janeiro, José debruçou-se sobre as propostas de trabalho que havia guardado em sua mesa de cabeceira. Eram ao todo 12 convites recebidos. Não iria em princípio menosprezar nenhum, mesmo dos escritórios mais humildes. Não era de bom alvitre ser descortês com ninguém. Era altamente provável encontrar no futuro muitos desses mesmos profissionais como oponentes nas causas em que estivesse atuando. Faria a todos uma visita, ouviria a proposta que tinham a oferecer. Com todas elas em mãos, analisaria uma a uma, selecionaria aquelas que melhor se adequassem às suas expectativas. Depois junto com os pais decidiria pela melhor opção.
Colocou os cartões em ordem e estabeleceu um roteiro que iria percorrer. Teria que tirar uns três dias para completar as visitas, talvez mesmo quarto, pois não fazia ideia de quanto demoraria cada entrevista. Nem se haveria necessidade de aguardar para poder conversar com o encarregado. No Segundo dia do ano, logo cedo passou a mão no telefone e ligou para os números constantes nos cartões de visitas que haviam lhe colocado em mãos. Agendou para aquele dia três entrevistas. Haveria tempo para uma quarta, mas era preferível deixar uma folga no horário. Detestaria chegar atrasado para a entrevista. Ficaria mal visto nesse caso.
Optara por começar pelos endereços mais próximos de casa. Vestiu uma roupa sóbria, porém de corte perfeito, pegou o automóvel do pai que ele não iria usar durante o dia e se dirigiu para o primeiro encontro. Era um escritório modesto, mas bem instalado. Esperou por alguns minutos enquanto o chefe atendia um cliente importante. Foi convidado a entrar no gabinete mobiliado de modo informal e confortável. Em cerca de meia hora saia dali com uma proposta bem interessante em sua maleta. Despediu-se prometendo analisar e dar resposta em no máximo uma semana.
Era hora de ir almoçar. A mãe deveria estar olhando para o relógio a cada dois ou três minutos, imaginando por que ele estaria demorando. Não fazia muito mais de uma hora que saira de casa, mas a segunda entrevista seria apenas às 14 horas, um pouco mais distante que a primeira. Chegou em casa no momento em que a auxiliar de sua mãe nos serviços domésticos terminava de arrumar os pratos e talheres sobre a mesa. Em instantes o pai entrou vindo do Mercado que, por falta de clients nessa hora próxima do almoço, ele fechara um pouco antes.
          Ainda bem que chegaram na hora certa. Não gosto de ver a comida esfriando na mesa ou nas panelas. Requentar depois fica pior ainda.
          Sua mãe resmungona como sempre, – falou Pedro dirigindo-se ao filho.
          Resmungona eu? – indagou Elisa.
          Vocês dois não vão começar a brigar bem agora, ou vão? – disse José.
           É melhor fazer a oração e começar a comer que ganhamos mais, – disse Pedro e começou imediatamente a fazer o sinal da cruz, para depois iniciar a recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.
Ao terminar a oração acrescentou:
          Abençoa senhor esse alimento que vamos tomar, para que fortaleça nosso corpo e mantenha o espírito animado.
A refeição transcorreu sem novidades. Todos estavam ocupados em saborear o excelente almoço preparado por dona Alice, auxiliada pela ajudante, que fazia as refeições com a família. Estava a serviço fazia muito tempo e a consideravam quase como uma filha. A única novidade ficou por conta de Lucia Helena, irmã de José. Chegou alguns minutos depois, pois estava na faculdade de pedagogia, no centro. Suas aulas terminavam na hora do meio dia. Como não ficava longe conseguia chegar ainda em tempo de almoçar com a família. Muito extrovertida e brincalhona, chegou logo provocando o irmão:
          E meu querido irmão já arrumou emprego?
          Calma maninha! Estou fazendo as entrevistas e depois vou decidir onde vou trabalhar.
          Minhas colegas estão curiosas por conhecer você. Eu falei que vou cobrar pedágio para chegar perto.
          Mas minha filha! Onde já se viu uma coisa dessas?
          Vamos aproveitar mãe. Não é todo mundo que tem um irmão bonitão como o meu e ainda por cima advogado recém formado.
          Não vai me colocar em fria, Lucia Helena. Vê lá o que você vai aprontar.
          Nada demais. Estou pensando em fazer uma tabela. Que tal: para olhar de perto CR$ 50,00, para sentir o cheiro CR$ 70,00 e para dar um beijo no rosto R$ 100,00. Do jeito que essa meninada está, arranjo fácil do dinheiro do mês.
          Garanto que nem lembrou de dividir com ele o que arrecadar. Isso é fazer uso indevido da imagem alheia, – falou o pai.
          Depois eu vejo e dou uma gorjeta para ele. Uns 20% acho que está bom.
          Vou ver o que diz a lei sobre isso. Não esqueça que sou bacharel em direito.
          Uai! Eu vou ter todo trabalho, tenho que cobrar, me preocupar para que ninguém fure a file, nem saia sem pagar. Você só vai aparecer, ficar uns minutos e pronto. Vinte está bom. Vá lá 30%.
          Acho bom parar com isso, minha filha. Seu irmão está buscando emprego e não pode aparecer por aí em nenhum escândalo. Imaginou se isso cai na boca dos reporteres de radio e televisão? Um Deus nos acuda.
          Mãe, eu estou apenas brincando. É que eu gosto de provocar meu irmãozinho. Ele é muito sério, sisudo. Até parece um velho carrancudo.
          Também não é para tanto. Apenas procure manter a linha. Se quero ser respeitado como advogado, terei que ter uma certa atitude. Não posso me permitir certas brincadeiras.
          Mas agora falando sério. Já foi a alguma entrevista?
          Acabei de chegar da primeira, pouco antes de você voltar. Se eu demorasse um pouquinho mais ia tropeçar com você na entrada.
          E a secretária, não jogou um olhar para o teu lado?
          Ela é bem passada. Deve ser muito eficiente, pois não tem nada de bonita. Pelo jeito é até casada. O que vem a ser uma vantagem. Não existe o risco de algum dos advogados se envolver com ela ou um cliente ficar caído por ela.
          Falou o profissional super competente. Eu vou descansar um pouco e depois vou para a biblioteca pública procurar um livro para fazer um trabalho. Os da faculdade estão todos emprestados e se eu quiser fazer um trabalho decente, tenho que me virar.
          Essa era a vantagem da Federal em Belo Horizonte. Não havia falta de livros.
          O problema aqui é que tem quem pegue o livro, renova o empréstimo e nunca devolve.
          Mas não tem limite de tempo para ficar com os livros?
          Ter tem, mas as bibliotecárias tem seus apadrinhados(as) e acobertam as renovações indevidas.
          Um caso sério.
          Mas não vamos discutir por isso. Se for caçar encrenca o tempo passa e meu trabalho não sai. Dá licença.
Levantaram-se todos e foram sentar um instante enquanto tomavam um saboroso café recém coado. Em alguns minutos Pedro foi até o banheiro e depois retornou ao Mercado. Estava na hora de comandar os funcionários que estariam abrindo dali a alguns minutos. Alice e a ajudante Rosa trataram de recolher os pratos, talheres e demais utensílios. Rosa foi lavar a louça e Alice, após um retoque na sua maquiagem, uma arrumação de leve no cabelo foi para junto de Pedro. No período da tarde ela se encarregava de ficar no setor de caixa e comando das entregas de compras dos clientes.
José, depois de alguns minutos, preparou-se para ir ao encontro da sua entrevista. Perguntou se Lucia Helena queria uma carona até a Biblioteca o que ela aceitou de bom grado. Percorreram a distância não muito grande até o prédio em estilo moderno que abrigava o acervo de livros, jornais, revistas e demais material impresso à disposição da população para consultas. Despediram-se e José retornou um pouco até o local onde se daria a entrevista logo mais.
Estacionou e conferiu se seu aspecto estava em ordem, olhando no espelho interno do veículo. Tudo estava certo e ele, faltando cerca de 10 minutos, se apresentou na sala de espera do escritório. Era um pouco mais amplo e os móveis denotavam um certo progresso perceptível em detalhes da mobília. Apresentou-se e a secretária, uma loira sobriamente vestida, aparentando em torno de 20 anos, lhe ofereceu um estofado para sentar-se. Indagou se queria uma água, m café ao que ele agradeceu.
          Vou anunciar sua chegada ao Dr. Jorge. Talvez ele possa recebê-lo imediatamente.
          Obrigado.
Ela levantou o telefone e em instantes falava com seu chefe anunciando a presença do jovem advogado para a entrevista:
          O Dr. Jorge já vai lhe atender. Aguarde apenas um minuto.
Passados pouco mais de trinta segundos a porta se abriu e o Dr. Jorge em pessoa estava ali, recortado na porta, contra o fundo do gabinete e convidou José a entrar. Já dentro do gabinete, mais luxuosamente mobiliado que o outro, sentaram-se em confortáveis poltronas e teve lugar uma entrevista bem mais minuciosa que a da manhã. Era perceptível que o Dr. Jorge sabia exatamente o que buscava ao contratar um novo auxiliar. Suas questões eram pertinentes e abordavam questões cruciais em diversos pontos da legislação. Para José isso foi uma alegria. Estudara aprofundadamente os códigos e as leis. Estava muito bem preparado para esse tipo de questionamento. Quando perceberam havia decorrido uma hora aproximadamente.
Dr. Jorge lhe passou sua oferta de trabalho para os meses até a obtenção da sua carteira da OAB. Depois mudaria de nível, pois passaria a atuar primeiro em ações mais simples, para gradativamente subir na escala de importância. José anotou detalhadamente todos os pontos e se despediu, prometendo uma resposta para no máximo uma semana.
Saiu dali mais animado, pois dentro das perspectivas aqui a situação era bem mais vantajosa que no primeiro. Lá ficaria por um ou dois anos, talvez mesmo três, sendo pouco mais do que um contínuo de luxo, sem responsabilidades, sem oportunidades de atuar nem como assistente em ações de qualquer natureza. Encaminhou-se resolutamente para o lugar em que deixara o automóvel e foi para a outra entrevista. Ainda faltavam mais de trinta minutos o que permitia que chegasse sem pressa.
A outra entrevista foi semelhante a anterior e diferiam pouco uma da outra no tocante à proposta de trabalho. Pouco depois de 5 h da tarde estava encerrado seu dia e voltou para casa, não sem antes fazer um giro pela cidade. Nos últimos meses não tivera oportunidade de ver os bairros novos onde estava havendo um frenético vai e vem de veículos transportando material de construção, pedreiros e serventes em atividade por toda parte. Gostava de ver o progresso chegando aos lugares, casas sendo erguidas, telhados colocados, muros rebocados e depois pintados. Depois de satisfazer sua curiosidade, dirigiu-se calmamente para a casa dos pais.
Encontrou o casal atarefado em atender os clientes que passavam no estabelecimento para adquirir o necessário para as emergências, outros fazendo compras maiores para uma quinzena ou mesmo um mês. Sem demora José se pôs a ajudar no que pudesse ser útil. Sentia-se bem ajudando os pais, pois eles haviam passado anos trabalhando duro para que ele pudesse ficar na capital e apenas estudar. Não era longe, mas para ir frequentemente para casa não havia possibilidades. As estradadas ainda eram precárias e a viagem demorava bastante. Isso e os muitos trabalhos de pesquisas, atividades práticas que o curso exigia e oferecia, tornavam o tempo escasso.

Por volta das 19 horas o movimento foi acabando e trataram de fechar o estabelecimento. O dinheiro foi guardado num cofre, as portas bem trancadas, as mercadorias foram repostas para estarem na manhã seguinte prontas à espera dos primeiros clientes que se apresentassem. Era muito desagradável ver clientes procurando produtos e estarem em falta, por falta de reposição. Tudo arrumado, os empregados saíram e foram para suas casas, enquanto a família se recolhia para o descanso noturno.

Antiga estação ferroviária em Sete Lagoas.

 

Igreja lembrando passado.

 

O mineiro sovina! – Capítulo I.

 Hoje começo a publicar os capítulos de novo livro, cuja redação venho protelando há mais de um ano. Estão faltando desenvolver alguns aspectos da trama para lhe dar a forma final. Desejo colher críticas e sugestões para poder aperfeiçoar o trabalho antes que ele vá para o processo de edição e depois publicação como livro, não necessariamente acabado, mas o mais próximo possível do ideal. 

Paisagem da região de Sete Lagoas (Serra do Cipó).

 

Linda vista de uma cachoeira entre montanhas em Sete Lagoas (Serra do Cipó)

 

O mineiro sovina!
 
Capítulo I

 

A formatura.    
José Silvério da Silva, filho de um pequeno comerciante do ramo de alimentos em Sete Lagoas, estado de Minas Gerais, concluiu com brilhantismo o curso de bacharel em direito, pela Universidade Federal de Belo Horizonte. Na cerimônia de colação de grau, o pai, Pedro da Silva, não cabia em si de contentamento. A mãe, dona Elisa Ramos da Silva, vertia lágrimas de alegria em abundância. O sacrifício necessário para permitir ao filho se manter e estudar fora alto. Estavam colhendo os frutos do que haviam plantado ao longo dos anos.
No retorno à cidade natal, José Silvério encontrou uma grande festa. Seu pai queria compartilhar com os amigos, parentes e vizinhos a conquista do filho. Seria sem dúvida um advogado de renome em um future próximo. Por sinal já tinha recebido um convite. O principal associado de um dos maiores escritórios locais de advocacia, pedira para lhe fazer uma visita com vistas ao possível ingresso na sua equipe de trabalho que comandava.
Pedro havia alugado as instalações de um clube para realizar a festa. Houve fartura de comida, bebida e no final, animado por uma orquestra contratada a bom preço, foi realizado um animado baile. Todos os presentes vinham parabenizar José Silvério, augurando-lhe um futuro promissor. No decorrer da festa foi sutilmente convidado a comparecer nos próximos dias a mais de um escritório de direito. Havia os de maior expressão e também os que ainda se encontravam em fase de expansão. Todos queriam ter em seus quadros um bacharel que acabara de se formar na capital do estado com menção honrosa, fato que for a publicado em todos os jornais locais.
            Nos primeiros dias, após o retorno, tratou de visitar os amigos, os avós, os tios, sem deixar de fazer uma visita a todos os escritórios que o haviam convidado. Ouviu as diversas propostas de trabalho, as funções que iria desempenhar, os ganhos iniciais e principalmente as possibilidades de fazer carreira. Iria analisar todas elas e faria sua escolha. Para isso iria levar em conta os aspectos econômicos, bem como as áreas de atuação de sua preferência. Não havia pressa, afinal estavam às vésperas das festas de fim de ano e ninguém iria tomar decisões importantes em litígios durante aqueles dias. Poderia gozar um merecido descanso junto à família. Depois iria mergulhar com todo gás no trabalho, fosse onde fosse recair a sua escolha.
            O pai lhe proporcionou uma estadia de alguns dias no Rio de Janeiro, onde visitou os locais turísticos, aproveitou o sol nas belas praias. Paquerou as belas banhistas, sem no entanto se envolver com nenhuma delas. Os anos de convivência acadêmica na tradicional Belo Horizonte, haviam lhe ensinado alguma coisa no tocante as mulheres. Não deixaria nenhuma aventura leviana por em risco suas aspirações de futuro e havia assimilado muito bem o espírito tradicional mineiro. No primeiro e Segundo ano de sua permanência em Belo Horizonte, envolvera-se em dois casos amorosos. A experiência não for a das melhores. Ao se ver desvencilhado decidiu ir bem menos fundo nessa questão, deixando para mais tarde, quando sua situação profissional estivesse consolidada para pensar em constituir família. Havia tempo suficiente para isso.

            Não deixou de se fazer presente a algumas casas noturnas para se divertir. Previa nos próximos anos com muito trabalho, muitas horas dedicadas aos estudos e análise de processos. Fazia questão de ser um bom profissional e para isso precisaria primeiro conseguir aprovação na prova da OAB, conquistando assim seu registro de advogado. Só então seria um profissional de verdade. Por ora estava habilitado a atuar em alguns cargos públicos em que não precisaria atuar em tribunais, perante juízes. Tinha porém o desejo de ser complete em sua profissão. Era ambicioso e queria também recompensar o sacrifício dos pais durante os longos anos de estudos na capital.

Cachoeira na Serra do Cipó.

 

Cachoeiras em sequência na Serra do Cipó.

Para melhor visualizar as imagens, clique sobre elas e amplie ao máximo.

 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo II

 

Gaúcho de São Borja!
 
Capítulo II
Manejando o laço(www.abril.com.br)
Fazenda Santa Maria.
 
 
            Se retrocedermos algumas décadas, encontraremos por volta de 1875, a bisavó de Joaquim, dona Carlota Vargas, parente distante da família do futuro presidente Getúlio Vargas. Havia sido casada com Fulgêncio Vargas, homem de trabalhador e sério, porém incapaz de ficar sossegado enquanto existisse algum lugar na região em que houvesse peleia em jogo. Foi com disposição que se engajou nas tropas brasileiras no combate ao invasor Francisco Solano Lopes, presidente do Paraguai. Em pouco tempo estava comandando um pequeno regimento de cavalaria e se destacou em vários combates. Avançou rumo às terras paraguaias e lá encontrou seu fim, pouco antes do final das hostilidades. Ficou sepultado por lá e mais tarde a família conseguiu remover os restos mortais para o jazigo existente na fazenda.
            Encontrava-se pois dona Carlota viúva e com toda a carga de trabalho da fazenda Santa Maria, pesando sobre seus ombros. Homens bons para comandar os peões nas lides com o gado eram relativamente raros. Muitos haviam sucumbido assim, como seu marido Fulgêncio no conflito contra Solano Lopes. Tinha uma filha para terminar de criar e uma fazenda com falta de braços para conduzir. O belo gado de corte, outrora orgulho dos donos, estava reduzido, pois boa parte for a vendida ao exército a preço abaixo do mercado e um outro tanto for a roubado, morrera por falta de cuidados. Tudo isso deixava a senhora, de resto muito resoluta e guapa. Montava e laçava igual um peão, não ficando para trás. Só assim conseguia manter o domínio sobre aquele bando de homens rudes e muitas vezes violentos.
            Havia entre os mais jovens ao seu serviço um menino que lhe chamou a atenção. Hábil no laço, na doma de cavalos e com os novilhos na hora de marcação ou outras atividades era brilhante. Era bem quisto entre os companheiros e, apesar da pouca idade, tinha sempre uma sugestão inteligente a dar para aumentar a eficiência dos trabalhos. Carlota começou a prestar atenção especial ao peão, pouco mais que um menino, mas comportamento de homem. Permitia prever que seria um homem de grande valor no futuro, contanto que fosse conduzido de forma correta.

            A falta de um homem de confiança a quem encarregar de cuidar da preparação desse jovem para ocupar futuramente uma posição de destaque entre os servidores da fazenda, deixou Carlota em uma posição ambígua. Se tomasse o jovem sob sua proteção direta, poderia estabelecer um clima constrangedor para ele perante os demais. Deixá-lo avançar sob algumas más influências que sabia existirem entre seus servidores, poderia por a perder uma personalidade ainda em formação. O que facilitou a tarefa, foi o fato de que a cada dia a popularidade do jovem aumentava entre os peões, conquistando inclusive a admiração dos mais velhos e antigos. Assim foi possível atribuir ao mesmo algumas atribuições, inicialmente mais elementares, que exigiam dele um desempenho diferente. Inteligente e sensível ele logo percebeu que estava tendo um tratamento diferenciado por parte da patroa.

Momento de oração antes do início de rodeio(itzbrasil.blogspot.com)


            Em uma conversa com um dos mais velhos, alias um tio seu, ele foi orientado a não deixar que essas distinções lhe subissem à cabeça. Importante seria fazer seu trabalho com o máximo de dedicação e não deixar esse tratamento diferenciado recebido da patroa, influenciar seu relacionamento com os companheiros. Ele foi bom discípulo e seguiu os conselhos do velho peão. Gradativamente suas responsabilidades foram ampliadas e chegou um dia em que não foi mais possível ocultar a existência de uma posição especial de parte de Francisco Souza Monteiro na fazenda. Houve algumas murmurações maldosas por parte de alguns peões, mas foram surpreendidos por Carlota que lhes pediu explicações. Caso não cessassem com as maledicências, teriam seus contratos encerrados e estariam sem trabalho. Ser despedido numa época de carência de trabalhadores, poderia significar vagar por muito tempo a procura de outra colocação. Até mesmo necessidade de ir para longe em busca de um trabalho.
            Quando Francisco contava com 20 anos completos, foi oficialmente nomeado por Carlota para a posição de Capataz da fazenda. Sabia que o jovem enfrentaria algumas resistências por parte dos mais antigos, mas também conhecia sobejamente sua perspicácia e habilidade em lidar com situações mais complexas. Diversas oportunidades tivera de observar a forma como ele enfrentava situações adversas e sempre soubera contornar de modo sutil cada um dos problemas enfrentados. Ele saberia dominar de modo firme, mas sem truculência aqueles homens de per si dados a algumas grosserias e comportamentos menos distintos.
            Havia chamado o novo capataz para conversar, lhe propusera a situação e ele inicialmente não quisera aceitar. Considerava-se inapto para a função, mas Carlota lhe fez ver uma série de situações em que se saira esplendidamente bem. Isso aos poucos elevou a auto-confiança do rapaz, criando nele uma auto-estima fundamentada em seus próprios méritos. Recebeu o pedido de não deixar a nova função transtornar-lhe os pensamentos, ao que acedeu de bom grado. Aos poucos iria recebendo as instruções e passaria gradativamente a exercer seu novo cargo, até ficar plenamente investido em sua autoridade perante os demais servidores da propriedade.
            Foram precisos apenas poucos dias para Francisco tomar pulso da situação e todos os peões, do mais idoso ao mais jovem, passaram a respeitá-lo, principalmente por causa da forma calma e prudente com que enfrentava todas as dificuldades. Logo granjeou, além do respeito, principalmente a admiração dos subalternos. Nunca se furtava de participar dos trabalhos. Geralmente era o primeiro a estar na lide e assim não deixava espaço para murmurações e maledicências. Inicialmente de modo humilde ele sugeriu a Carlota algumas mudanças na condução da criação e logo falava com autoridade. Todas as mudanças introduzidas produziram resultados positivos. Em pouco tempo a fazenda retomava os caminhos da prosperidade conhecida em tempos passados.


Touro no rodeio(baixarmusicasonline.com , 0.jpg)


            Carlota sentiu-se muito satisfeita com a decisão tomada. Soubera transformar um jovem, ainda inexperiente, em capataz de inestimável valor. Não foram poucos os vizinhos que ofereceram a ele o lugar em suas fazendas, inclusive nesse momento em melhores condições econômicas, mas ele declinou das ofertas. Sabia ser grato a quem soubera ver em sua inexperiência valores de que nem ele teria imaginado ser possuidor. A alegria da dona era tanto mais complete, uma vez que evitava que a fazenda tinha o seu nome devido a uma homenagem que seu avô fizera à sua avó Maria Vargas. For a uma mulher de rara beleza, alem de  incomparável valor humano e moral. Temos aí a origem do nome da fazenda de nossa historia.

Debate entre os presidenciáveis!

Um debate diferente!

      É isso que eu espero desse encontro dos candidatos ao cargo máximo da nação. Um debate diferente, sem posicionamentos tendenciosos, questões capciosas e de dupla interpretação. Ficarei imensamente chateado se houver qualquer desvio de conduta de quem está encarregado de conduzir os trabalhos. 
      Ainda faltam sete dias para o evento. É tempo suficiente para uma preparação adequada do quê vai ser perguntado e o que vai ser respondido. Importante é assistir com o espírito desarmado e identificar entre os postulantes ao cargo quem está mais apto a sentar naquela cadeira, ambicionada por tanta gente. Desejo aos organizadores bem como aos participantes, que estejam iluminados e nos mostrem a realidade de suas intenções, seus verdadeiros projetos, para que assim nos ajudem a fazer as melhores escolhas no dia da realização do pleito. Não vamos esquecer a data: 16/09/2014, marquem em suas agendas.  

          Recebi o texto e fotografia assim como está aqui postado, por e-mail. Decidi compartilhar e assim contribuir para o esclarecimento dos milhões de eleitores dos quatro cantos do país. Espero que todos, sem importar o credo religioso a que pertençam, assistam e consigam diminuir suas dúvidas sobre o candidato que irão indicar na urna. 

Debate em TV católica deixa presidenciáveis sob pressão
Em 05/09/2014
Candidatos em campanha são hábeis em driblar polêmicas. Geralmente sacam do colete respostas evasivas ou confusas. Com blá-blá-blá às vezes incompreensível, tentam manipular os interlocutores para não se comprometer.
Temas explosivos como aborto, casamento gay e células-tronco são evitados a todo custo. Nos raros casos em que um candidato anuncia sua posição, procura não se aprofundar no assunto a fim de evitar contestações e fazer disso uma arma para os adversários.
Nos debates realizados na Band e no SBT, a maioria dos presidenciáveis pisou em ovos quando questionados sobre esses temas delicados. E eles têm razão em temer prejuízo à campanha e, consequentemente, perda de votos.
Veja o que aconteceu com Marina Silva após titubear sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Anunciou ser a favor, voltou atrás e agora tenta limpar sua barra dizendo ter sido mal interpretada.
No dia 16, um evento poderá deixar não apenas um, mas vários candidatos à Presidência na maior saia justa. É a data do debate presidencial na TV Aparecida, realizado em parceria com a CNBB(Confederação Nacional dos Bispos do Brasil).
O debate será retransmitido por outras mídias católicas, como emissoras de rádio, portais de notícias e redes sociais. Será a primeira vez que uma rede católica irá sabatinar os postulantes ao Palácio do Planalto.
A posição da igreja sobre interrupção de gravidez, união entre pessoas do mesmo sexo e manipulação de células embrionárias é conhecida.
Agora os líderes brasileiros do catolicismo — e boa parte dos fiéis, especialmente os indecisos em relação ao voto — querem conhecer a opinião definitiva dos candidatos à Presidência.
“Como católicos, como filhos de Deus, nós devemos dizer ao Brasil e a todos aqueles que desejam governar o Brasil, o que se espera de um homem ou de uma mulher pública”, anunciou Dom Vilson Basso, Bispo de Caxias (MA), no TJ Aparecida.
Pelo visto os presidenciáveis não terão como fugir da raia. Imagine o clima de tensão entre assessores e marqueteiros. As respostas precisam ser bem ensaiadas, para não gerar um possível estrago na reta final da campanha.
Não é fácil ser ecumênico quando se anseia governar o Brasil. De um lado estão os evangélicos em alerta. Do outro, católicos atentos. E há a pressão por manter o estado laico, sem que a interferência de nenhuma ideologia religiosa na condução do país.
“A igreja acompanha a situação do povo e acompanha por onde caminha a política nacional. Por isso tem de se manifestar e não pode se omitir em um momento tão importante”, explicou Dom Severino Clasen, Bispo de Caçador (SC), em entrevista à TV Aparecida.
O debate será promovido pela cúpula da Igreja Católica no dia 16, ao vivo a partir das 21h30, no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, que fica no complexo do Santuário Nacional de Aparecida, no interior paulista.

Gaúcho de São Borja! – Capitulo I – Gaudêncio das Neves

Gaúcho de São Borja!
 
          A partir de hoje estarei publicando periodicamente um capitulo ou parte dele, do meu livro que leva o título acima. Espero comentários, críticas e sugestões visando levar o trabalho a um nível de qualidade mais elaborado. Por melhor que alguém esteja preparado, terá sempre o que aperfeiçoar na arte de escrever obras no campo literário ficcional. Conto com a colaboração dos leitores para corrigir deficiências na parte publicada além de ideias para os capítulos subsequentes. Resguardo-me o direito de decidir quais as sugestões irão figurar nos capítulos a serem escritos. Hoje temos o primeiro capítulo, onde aparece nosso personagem principal. Depois de concluido o trabalho, será reunido em um volume a ser publicado por uma editora e também na forma de ebook.  


Montaria em touro(vidavegetriana.com)
 
Gaudêncio das Neves.
            No município de São Borja, estado do Rio Grande do Sul, nasceu aos oito de março do ano de 1955, um menino, que na pia batismal, recebeu o nome Gaudêncio das Neves. Seus pais, Pedro Paulo das Neves e a esposa, Maria Conceição das Neves, convidaram para padrinhos os patrões Joaquim Monteiro e a esposa Ana Maria Monteiro. Vale dizer que Pedro Paulo era o braço direito de Joaquim, no trabalho da fazenda Santa Maria, tanto a lavoura de arroz, quanto a criação de gado de corte de alto padrão estavam a seu cargo.
Pedro Paulo supervisionava as equipes de trabalho em ambos os setores, transmitindo aos encarregados as ordens do patrão. Este passava boa parte do tempo em sua vivenda da cidade sede do município, ficando o cotidiano por conta de Pedro Paulo. Maria Conceição por sua vez supervisionava o setor leiteiro, encarregado de abastecer os empregados da fazenda com leite e seus derivados. O excedente era entregue à uma nascente indústria de laticínios local.
  Joaquim e Ana Maria, sentiram-se grandemente lisonjeados em ter o rebento de seus mais valiosos auxiliares por afilhado. Não faltavam presentes em todas as oportunidades como o natal, a páscoa, o aniversário e mesmo sem motivo especial, sempre encontravam razão para encher o pupilo de presentes.
O casal vinha acumulando frustrações nas tentativas de geraram um herdeiro. Recorreram a todos os meios ao alcance das suas posses. Consultaram médicos especialistas na capital Porto Alegre, mas nada acontecia. Já estavam atingindo a idade em que as probabilidades de fecundação se tornam ainda mais remotas. Ainda não estava em uso nessa época a técnica de fertilização in vitro. Começavam a inclinar-se pela adoção de uma criança. Ao se tornarem padrinhos do filho de seus empregados, diminuiu sua ansiedade por um filho. Transferiram para o afilhado o afeto que iriam dedicar ao filho e esqueceram a ideia de adoção. Tinham a quem se dedicar, como se fora o próprio filho. 
Assim a infância de Gaudêncio transcorreu entre comparecimento às aulas na escola que servia à fazenda, onde convivia com os filhos dos os outros empregados e também de alguns vizinhos, provenientes de propriedades menores existentes nas proximidades. Os pais souberam imprimir uma educação bastante rígida ao menino, tendo para isso o apoio dos padrinhos. Tudo isso tornou Gaudêncio um adolescente tranquilo e seu desenvolvimento em um jovem adulto ocorreu de forma razoavelmente harmoniosa. Não excluindo algumas travessuras, um ou outro ato de desobediência.
            Foi sempre um menino ativo. Gostava especialmente de cavalgar e não perdia oportunidade de se reunir aos peões nas lides com o gado. Aos catorze anos sabia manejar habilmente o laço e não se furtava a uma montaria em um potro xucro, o que lhe valeu algumas quedas, inclusive uma fratura no braço e uma luxação da mão esquerda. Nada disso o fazia desistir de ser peão, para desespero de sua mãe, que vivia cheia de apreensões pela integridade física do filho. Em parte isto se explica, pois tivera complicações pós-parto o que a tornara impossibilitada de ter mais filhos. Assim temia que alguma coisa mais grave acontecesse com o único que pudera gerar.
            Houve um período em que se interessou pelo cultivo do arroz e por dois anos, acompanhou todas as etapas do trabalho nos campos irrigados. Aprendeu a preparar a terra, plantar, controlar o mato, depois inundar os arrozais com água da represa e mantê-los assim até a maturação dos grãos. Tinha que saber o momento de retirar a água e aguardar a hora de por as máquinas para colher o cereal. Mostrou-se um aprendiz dedicado, recebendo numerosos elogios do encarregado dos arrozais.           
          Gaudêncio não faltava a nenhum fandango organizado na fazenda ou nas redondezas. Tornou-se exímio dançador e sua presença era apreciada pelas prendas sempre dispostas a bailar com o jovem. Mesmo aquelas que já estavam com mais idade, sentiam-se lisonjeadas em conceder uma contradança ao jovem dançarino. Havia pencas de chinocas interessadas em namorar com ele, apesar da pouca idade. Nos bailes do CTG, ocorria uma verdadeira disputa pela parceria com ele. Em diversas ocasiões ele foi campeão das competições de dança por equipe e também nas individuais.

Laçando um novilho(mtg-rs.blogspot.com).


            Nos rodeios, sua habilidade com o laço e na montaria do cavalo lhe trouxeram diversos prêmios e troféus. Chegou a participar de rodeios em outras localidades, onde também se destacou em diversas oportunidades. Cada vitória do filho era um motivo de orgulho para os pais e, como não poderia deixar de ser, dos padrinhos. Afinal era tido por eles como o filho que Deus não lhes concedera ter.

Montaria em potro sem sela(atuacao20101.wordpress.com).
Montaria em cavalo xucro com sela(maisindaia.com.br).


            A madrinha fazia muito empenho em que Gaudêncio fosse viver por uns anos na cidade para cursar a escola e assim elevar seu grau de instrução, porém o menino não aceitava se afastar da vida da fazenda. Aquilo era como que um vício que fluía em seu sangue e não houve meio de convencê-lo a ingressar numa escola, depois de concluir o aprendizado das primeiras letras, saber fazer as contas básicas. Sempre dizia que já sabia suficiente para o que tinha precisão. Assim a vida seguiu, calejando o jovem a cada dia nas lides do campo e plantação.
Curitiba, 2014 (Republicado em 26/02/2018)  

Decio Adams, IWA

[email protected]

[email protected]

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 99805-0732

Se beber, não dirija! Também não entre no facebook!

Novo risco para os alcoólatras!

      Hoje ao ler a coluna Pelas ruas da cidade, de autoria do jornalista e escritor Edilson Pereira, no jornal Tribuna do Paraná, de 05/09/2014, me deparei com uma descoberta importante, feita pelo ilustre autor. Trata-se do relato de uma vivência que ele teve em um táxi de nossa cidade Curitiba. Vou transcrever aqui como ele redigiu em sua coluna. O crédito é inteiramente dele e acho importante compartilhar, para que mais pessoas tenham possibilidade de conhecer o que ele encontrou em suas andanças pela cidade. Aí vai o artigo que ele publicou. 

Se beber não dirija e muito menos entre no facebook.

    Entrei no táxi de Antônio de Souza Pinto. Ele estava de olho roxo. Perguntei se estava bem e ele disse que não. Fiquei quieto. Ele perguntou se eu não ia indagar sobre o olho roxo. Taxista se divide em duas categorias: os que gostam de falar e os que odeiam falar. Parece que há uma terceira categoria, um meio termo. Na realidade são os que pertencem a uma das duas categorias e fazem um esforço sobre-humano para serem gentis, falando pouco, tanto num caso como no outro. Pinto pertencia à categoria dos que gostam de falar. Então não adiantava fingir que não sabia e perguntei: O que aconteceu no olho, amigo? Chamar alguém de amigo não ofende. Pinto respondeu: “Foi o facebook”. 

       Não entendi e pensei:” As pragas tecnológicas contaminam. Parece epidemia!”. No ônibus todo mundo de fio conectado ao ouvido, ligado em outro universo, ouvindo música ou, pior, falando pelos cotovelos. Parece bando de loucos. E, depois do facebook, gente o tempo todo como galinhas tecnológicas catando milho no celular, no ônibus, na rua, nas filas, no parque, em todos os lugares, mandando mensagens quase sempre sem urgência e publicando mensagens sem interesse. O facebook faz parte disso. O motorista do ônibus tem facebook e avisa ao cobrador que adicionou a gostosa do financeiro e curte tudo o que ela publica, para ver se rola um lance legal. Normalmente não rola nada. Mas o cara está lá na maior curtição. 

        Agora Pinto diz que o facebook quebrou a sua cara. Como não queria fazer outra pergunta eu disse: “O facebook anda violento”. Pinto contou que aquilo virou um poço de encrenca e está dando um tempo com o facebook. Sujeito ressabiado com rede social, ele disse que “a pior coisa do facebook é você chegar em casa, beber e entrar na rede para fazer comentários”. Logo acrescentou:” Amigo, não faça isso se não quer arrumar encrenca ou tragédia”. Concordei. Eu também já andei falando bobagem com quem não devia, surtei com uma dona que estava na maior alegria, curti posts de quem não conhecia e fiz gracinha com comentário de quem não sabia. Andei desconfiando que tinha gente de cara virada comigo. Mas com Pinto o negócio foi cruel. 

          Depois de trabalhar até meia-noite, Pinto chegou em casa e tomou todas. Em seguida, entrou na linha do tempo de Adalice e se engraçou com um selfie da loirinha num tubinho preto. Loirinha essa que sabia ser irmã de seu amigo Demerval. Na manhã seguinte ela contou tudo ao irmão, que não fez cara feia, nem disse nada. Assim que chegou ao ponto de táxi e encontrou Pinto com aquela cara amassada de ressaca, simplesmente enfiou a mão no coitado. O olho ficou roxo. Para Pinto largar de ser besta e respeitar as irmãs dos outros. Inclusive no facebook. Pinto tentou reagir, mas estava atordoado e não se lembrava do que dissera para a irmã do amigo. Fez cara de quem não gostou, saiu de cena e foi pegar seu iPhone para conferir o que escrevera. 

         Quando viu as safadezas que havia escrito, chamou Demerval num canto e disse: “Foi mal, cara. Tô morrendo de vergonha da Adalice. Fala para ela me perdoar. É que tomei umas a mais ontem, sabe, aí a gente perde a noção”. Demerval depois de baixar o braço no amigo estava calmo e aconselhou: “Se beber não dirija e muito menos entre no facebook! Você ainda vai acabar levando um tiro”. Ali no carro, Pinto disse: ” Agora eu estou assim, de olho roxo e longe do face”. Eu fiquei quieto pensando que a chamada plataforma é coisa inteligente e barata. Converso com uma amiga que está em Londres, outra está em Paris e um colega está no Japão. Tudo a custo zero. Não tem nada mais democrático. Mas o diacho que a maioria das pessoas escreve bobagens, posta tolices sobre política, sexo e religião. Como se o facebook fosse mudar a cabeça de alguém. Depois de contar sua história, Pinto fez o resto da viagem quieto, refletindo sobre como ia viver de agora em diante sem poder olhar o face. Não vai ser fácil. Mas será melhor que levar um soco no olho. Que não é coisa bacana, embora seja um aviso importante.  
Edilson Pereira, jornalista e escritor. Jornal Tribuna do Paraná, 05/09/2014

          Ol
hem só  o que pode resultar de umas bebidinhas a mais. Se dirigir, pode dar uma trombada num poste ou outro carro, atropelar alguém, além de cair numa blitz da polícia de trânsito e ser multado, ter o carro apreendido e por aí vai. Se entrar no facebook, corre o risco de falar o que não deve a quem não gosta e o resultado é uma verdadeira “
trombada” na munheca de um irmão enfezado da pessoa que se sentiu ofendida. Pode até ser que nem isso haja acontecido, mas contou ao irmão e esse sim ficou muito “puto” e foi tirar satisfação com o amigo. Sugiro que de hoje em diante o slogan passe a ser:
                 
                     “Se beber não dirija e não entre no facebook”. 

     Boas lições tem a vida a nos ensinar. Cabe a nós estar atentos e tomar nota cuidadosamente para não sofrer as consequências de atos, aparentemente inocentes, mas que podem trazer consequências sérias. Umas palavras digitadas de modo impensado podem causar um desgosto considerável. Depende apenas de quem está do outro lado da linha e principalmente se tem um irmão ou marido ciumento. Garanto que muita gente irá se partir de dar risada, mas o Pinto, com seu olho roxo não achou nenhuma graça da história. Ao contrário, ficou foi é muito chateado e triste. 

Ódio milenar.

Palestinos(Hammas) x Israel.
           O moderno estado de Israel, tem a mesma idade que eu. Foi criado por resolução da ONU em agosto de 1948, sendo que eu nasci em 23 de dezembro do mesmo ano. Em 1967, durante meu serviço militar, ocorreu a guerra dos seis dias, vencida por Israel que conquistou vasta área de território aos vizinhos árabes, especialmente na região até hoje em litígio na Faixa de Gaza, ocupada pelos palestinos. Desde essa época venho acompanhando, ano após ano, as agressões de lado a lado. Alguns intervalos com relativa paz, porém sempre um verdadeiro caldeirão, pronto a explodir ao menor sinal de agressão, ou mesmo gesto que possa ser interpretado como tal. 
             Recentemente, impulsionado pela curiosidade, despertada por frequentes comentários ouvidos sobre o conteúdo pacífico do Alcorão, o livro sagrado do Islam, religião dos muçulmanos, comecei a ler esse livro. Estou no momento na parte dos comentários escritos por um exegeta, explicando e interpretando os milhares de versículos das mais de 100 Suratas que compõe a parte da assim denominada revelação divina ao profeta Maomé(Mohamad). O que chamou minha atenção é a quantidade de vezes que são mencionados Abraão, Jacó, José do Egito, Lot, Jó, Moises, Jesus Cristo, sua mãe Maria, Davi, Salomão, além de outras figuras judaicas/cristãs. Os mentores do islamismo conhecem com perfeição as escrituras judaicas, cristãs e outras. Uma nota constante é a afirmação da mensagem de amor, caridade e convivência pacífica com os não muçulmanos. Isso está em franco contraste com as mensagens de ódio divulgadas nos meios de comunicação pelos combatentes de grupos radicais islâmicos. Os crimes que assistimos nas últimas semanas sendo divulgados ao vivo contra jornalistas americanos e ingleses, são abertamente contrários à mensagem encontrada no livro sagrado e sua interpretação. 
              O ódio parece remontar ao tempo de Ismael, filho de Abraão com a escrava e depois Isac, filho de Sara, sua esposa. Com o nascimento de Isac, Abraão foi levado a rejeitar Ismael, tendo sua mãe enfrentado muitas dificuldades para o sustentar e lhe dar educação. Durante séculos antes da era cristã, os israelitas e os descendentes de Ismael (árabes) conviveram ora em paz, ora em estado de guerra. Também compartilharam períodos de dominação babilônica e outros povos. Na época de Jesus Cristo, estava toda a região sob o domínio romano. Cerca de quatro séculos depois surgiu o profeta Maomé e com ele foi implantado o islamismo. Nesta época a região estava sob o domínio quase pleno dos árabes, depois da dispersão dos judeus pelo mundo (Diáspora). 

            O surgimento do moderno estado de Israel provocou o desalojamento de parte da população palestina de suas terras, o que criou certamente resistência e gerou muitos conflitos. É possível dizer sem medo de cometer um erro grave que Israel viveu poucos ou nenhum dia de paz completa desde seu surgimento em 1948. Há sempre um estado de prontidão dos reservistas, quer masculinos como femininos. Não sei se atualmente ainda acontece isso, mas alguns anos passados, os reservistas guardavam em suas casas o fardamento básico, bem como as armas, permitindo uma rápida mobilização e pronto estado de prontidão para o combate. Depois de 1967, aos poucos foram sendo estabelecidos tratados de paz com os demais estados árabes da região, fixados os limites dos territórios, devolvidos partes conquistadas por Israel, permanecendo apenas o conflito na Faixa de Gaza. 

            Assistimos constantemente à divulgação de parte dos palestinos de acusações feitas à Israel que teria atacado com bombas e mísseis populações civis. De outro lado Israel relata pequenos atos de hostilidade praticados quase que diariamente em diversos locais do território, bem como a utilização de crianças, mulheres e idosos como escudos humanos. Colocam-nos sobre telhados, em terraços e outras posições que os exponham aos ataques israelenses, sendo que por trás, nas mesmas instalações estão os lançadores de mísseis utilizados pelos combatentes do Hammas. Dá a perfeita noção de que, enquanto não houver um completo desarmamento do espírito, seja de um lado ou de outro, preferencialmente de ambos, não será possível estabelecer uma paz duradoura na região. 

          As acusações de ambas as partes em conflito dirigidas aos opositores, aparentam justificar as ações de guerra e o resultado é o que assistimos quase diariamente nos meios de comunicação. Crianças, mulheres e velhos sendo retirados dos escombros dos bombardeios. Visto dessa forma, isso colocaria Israel como um agressor cruel e sanguinário. Quando olhamos as imagens mostradas por Israel, vemos que as aparentes vítimas inocentes dos ataques, foram colocadas ali propositalmente para disfarçar a realidade. Destinam-se a proteger as armas de agressão a Israel. Não sou de forma alguma favorável a ação israelense, pois ela sempre é contundente e parece ser bem desproporcional com a agressão sofrida. 

            Quem quiser saber o quanto muçulmanos, judeus e cristãos estão unidos pelas mesmas crenças, apenas alguns detalhes os separam e colocam em campos opostos, aceite minha sugestão. Leia o Alcorão, não com o fim de se converter, mas para saber que na verdade não há motivos para tamanha divergência e agressividade de alguns grupos radicais. Ao longo da história temos assistido a várias demonstrações de fanatismo religioso que levaram sempre à prática de um grande número de atrocidades. O que estamos assistindo hoje no Iraque, nada mais é do que a repetição do que já ocorreu no passado em outros lugares. No Afeganistão, países africanos também temos assistido a ocorrência de crimes horrendos em nome de Alá. Isso não encontra fundamento nos escritos de Maomé. É uma interpretação errônea de pequenos trechos, sem ver o contexto geral e completo. Cometem-se um número de crimes horrendos em nome de Deus, da fé, da religião. É puro fanatismo, jamais sugerido ou determinado pela revela
ção divina nos livros sagrados de nenhuma religião.

           Sugiro aos dirigentes dos órgãos como ONU e assemelhados que se empenhem em levar um pouco de racionalidade aos dirigentes políticos das nações em conflitos internos ou com os vizinhos, que se coloquem na posição das vítimas inocentes que tombam tanto de um quanto de outro lado. Pouco importa o número delas. Uma única vida humana inocente ceifada por projéteis, bombas e outros artefatos deveria ser motivo suficiente para frear os ímpetos de agressividade. Mas infelizmente, para o mal dos inocentes que a cada dia sucumbem nas áreas de conflito, ninguém pratica a lei do amor, do perdão e misericórdia. Enquanto isso não vier acontecer, dificilmente teremos paz de verdade e duradoura.