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Na senda dos monges! – Capítulo X , O fim do império do Brasil.

  1. O fim do império do Brasil.

proclamação da república.

Proclamação da República.

 

Em 1888, quando estava retornando da segunda viagem da temporada, chegou a notícia da abolição definitiva da escravidão no Brasil. Em 13 de maio a Princesa Isabel, filha e regente em lugar do pai D. Pedro II, que estava em uma de suas muitas viagens ao exterior, promulgou a Lei Áurea. Ficava definitivamente extinta a escravidão no Brasil.  Não sendo proprietária de escravos, essa lei em nada afetou a vida da família Batista. Antônio e Isabelita haviam vindo morar na propriedade, enquanto o tio João ocupava o posto de administrador na Estância Ribas.

Desde o final da Guerra do Paraguai, os ideais republicanos vinham ganhando impulso. Em 1870, logo ao findar da guerra, foi lançado o Manifesto Republicano. Em todas as capitais e cidades de maior importância foram fundados clubes republicanos, junto com jornais que tinham a mesma orientação ideológica. Os militares, no contato com os colegas de Uruguai e Argentina, onde o governo era republicano, sentiam-se desprestigiados pelo governo imperial. Em todo período, jamais um militar ocupou o cargo de Ministro da Guerra, ficando portanto sempre subordinados a ministros civis. D. Pedro II demonstrava uma pequena predileção pela marinha, deixando os militares numa posição de inferioridade.

A gradual redução do número de escravos, obrigou os fazendeiros a buscar mão de obra em outras áreas, tornando o custo da produção mais alto. O comércio de mulas na feira de Sorocaba vinha decaindo anualmente, com a construção de diversas ferrovias. Dessa maneira os tropeiros viram reduzido seu mercado e sentiram a necessidade de mudar de atividade. No dia 14 de novembro de 1889, foi assinado o decreto, dando ao Engenheiro Teixeira Soares a concessão para construção e exploração por um longo período de uma ferrovia, começando em Itararé – SP e terminando em Santa Maria da Boca do Monte, no RS. O próprio Teixeira Soares, responsável pela construção na década anterior da ferrovia Paranaguá/Curitiba, fizera anos antes o levantamento e um traçado prévio da nova ferrovia a ser construída. Com isso o trabalho dos tropeiros ficaria definitivamente substituído.

Não bastassem todos os problemas enfrentados pelo governo imperial, ainda havia o fato de um isolamento político em relação ao resto da América do Sul, por ser a única monarquia do continente. A isso se tinha que somar uma lenta rebeldia dos prelados católicos contra a instituição do padroado, herdado de Portugal. O catolicismo era a religião oficial e assim os padres, seus superiores os bispos, eram em verdade assalariados do governo. Dessa forma, para que uma bula papal tivesse vigor no império, era essencial que passasse pelo aval do monarca. A lenta infiltração da maçonaria nas fileiras políticas, levou dois bispos a se rebelar, pedindo ao papa a excomunhão dos membros das lojas maçônicas. O resultado foi uma disputa, conhecida como questão religiosa pois o alto escalão do governo era todo composto por maçons.

O último sustentáculo do império ruiu com a abolição da escravatura. Os fazendeiros, revoltados com o fato de não receberem uma indenização equivalente ao custo dos escravos libertados, tornaram-se republicanos de última hora. Um boato foi lançado sobre uma ordem de prisão contra o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, convencendo-o a aceitar colocar-se ao lado dos republicanos. Mesmo gravemente doente, saiu de madrugada, próximo ao raiar do dia, dirigiu-se até a Praça da Aclamação. Ali estava aquartelada uma unidade militar e lhe foi oferecido um cavalo. Ele montou, retirou o chapéu e exclamou:

– Viva a República.

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Imagem comemorativa da proclamação da república.

Desdeu do cavalo e voltou para casa, onde ficou em sua cama da qual saíra contrariando ordens médicas. Em poucas horas formou-se um governo provisório, tendo como presidente o próprio Marechal.  Mal. Floriano Peixoto ficou como vice, os ministros Benjamim Constant, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos eles integrantes da maçonaria.

Pouco antes de iniciar o retorno de Sorocaba, João Maria foi surpreendido pela notícia da proclamação da república, sendo o Imperador enviado para a Europa, longe do país que tanto amava desde criança. Era sua pátria. Os pais eram portugueses, mas ele nascera brasileiro e vivera a vida inteira como tal. Sua maior mágoa foi sem dúvida a privação do direito de viver em sua terra natal.

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Assinatura da primeira constituição repúblicana.

A República surgiu prometendo muitas mudanças, mas o começo foi bastante conturbado. Não existia uniformidade de ideias. Em cada província, agora chamada Estado, havia formas de pensar a organização do governo com características diferentes. Faltavam elementos capazes de tomar as rédeas do poder e administrar o imenso país. Até ali, quem ocupava os cargos administrativos era monarquista e não era tido como alguém de confiança. Sendo militar, pouco afeito à vida civil e suas peculiaridades, além de doente, Deodoro da Fonseca, primeiro presidente, não resistiu muito. Menos de um ano depois da promulgação da primeira constituição republicana e realização da eleição, ele renunciou. Em seu lugar tomou posse Mal. Floriano Peixoto, mesmo contrariando as disposições constitucionais. Implantou uma ditadura militar, dissolveu o congresso e ficou conhecido como o Marechal de Ferro, tamanha era sua rigidez de conduta e intransigência.

As dissidências frequentes levaram a várias trocas de ministérios, algumas revoltas. Outro problema sério foi a consolidação dos governos estaduais, sendo que em vários deles ocorreu uma sucessão de governantes em regime de alta rotatividade. No Rio Grande do Sul, Júlio Prates de Castilho, unido com Pinheiro Machado e Assis Brasil, formaram o Partido Republicano Rio-Grandense.  Na oposição estava o Partido Federalista do Rio Grande do Sul, tendo no comando Gaspar da Silveira Martins, monarquista liberal. Júlio de Castilhos conseguiu aprovar uma constituição estadual, redigida por ele mesmo, sendo em seguida eleito presidente do estado.

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Começo do movimento federalista.

  Em 1893, eclodiu a Revolta Federalista. De um lado estavam os revoltados cognominados maragatos, usando como identificação os lenços brancos amarrados ao pescoço. Também eram chamados de gasparistas por serem aliados de Gaspar da Silveira Martins. Defendiam a implantação de um governo parlamentarista, nos moldes do segundo império, dando maior autonomia aos governos estaduais.  Os adeptos de Júlio de Castilho, chamados castilhistas e aliados ao governo central, eram chamados também de pica-paus ou ximangos e se identificavam pelo uso de lenços vermelhos.

Boa parte dos caudilhos do estado fazia parte do grupo dos federalistas e tinham propriedades no território do Uruguai, usando esse fato para arregimentar homens e armas longe dos olhos dos castilhistas. Um dos primeiros combates fortes ficou conhecido como cerco de Bagé. O caudilho Gumercindo Saraiva, comandando cerca de três mil homens, todos excelentes combatentes à cabalo, hábeis no manejo da lança, espada e facão, deslocou-se para Dom Pedrito. Dali realizava ataques relâmpagos às posições castilhistas, causando instabilidade entre as tropas leais ao governo.

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Estado maior de Zeca Neto

Alguns meses antes, haviam surgido rumores na região de Passo Fundo e Soledade sobre a reaparição do Santo Monge. O que era um pouco difícil de acreditar, pois o homem, se ainda estivesse vivo, deveria estar beirando 90 a 100 anos de idade. As descrições e maneiras de agir eram bastante semelhantes ao que os mais idosos, contemporâneos de João Maria no Botucaraí e Campestre, costumavam contar. Em pouco tempo tornou-se voz corrente entre o povo mais humilde a volta do monge. Ele, segundo contavam, prometera voltar, apenas ninguém sabia quando. Com o encerramento das tropeadas para Sorocaba, a atividade da propriedade da família Batista sofreu uma queda significativa. As mulas eram somente para uso próprio e agora predominava o gado de corte.

Quando Gumercindo Saraiva passou nas proximidades com sua tropa, João Maria teve um surto de patriotismo às avessas. O governo republicano se instalara prometendo melhorar tudo e até o momento nada disso acontecera. Os federalistas tinham razão. Certo que não haveria mais como restaurar a monarquia, trazendo a família de D. Pedro de volta, mas a forma de governar poderia ser semelhante. Os estados tendo maios liberdade de ação, poderiam estimular o progresso em suas regiões. De um momento para outro, selou seu melhor cavalo, levou consigo um velho fuzil, uma espada que pertencera a Antônio na Guerra do Paraguai e se apresentou ao comandante.

Foto antiga dos combatentes do Cerco da Lapa, 1894.

Defensores da Lapa – PR.

Não tardou e estava engajado na tropa, especialmente pelo fato de saber ler e escrever, o que era coisa rara na época. Ficaria sob as ordens praticamente diretas do comandante. Ficou encarregado de redigir os documentos, correspondências que fosse necessário enviar. Recebeu o posto de tenente, para dar maior respeitabilidade perante os demais homens. Dessa forma, os meses finais de 1893 encontraram João Maria, a caminho do Paraná. Em diversas ocasiões encontraram tropas pica-paus e se bateram em renhidos entreveros. O terreno não favorecia nem a uns nem outros, todavia os maragatos estavam mais habituados ao combate a cavalo, encontrando pela frente, em geral, tropas de infantaria.

Maragatos em Urussanga - SC

Maragatos em Urussanga – SC

De combate em combate, chegaram em princípios de janeiro às portas da antiga Vila do Príncipe, agora denominada Lapa. Ali encontraram renhida defesa das posições pelas forças comandadas pelo General Carneiro. Eram 639 militares além de um pequeno número de voluntários. Defenderam por 26 dias a posição, sem ceder, contra um contingente de aproximadamente 3000 combatentes. A feroz resistência deu ao governo de Floriano Peixoto tempo para organizar o contra-ataque, sendo que, ao final o comandante Coronel Carneiro tombou ferido e morreu sem saber que havia sido promovido a General por ato de bravura. Os sitiantes tomaram a Lapa e avançaram contra Curitiba, que também foi tomada, porém por pouco tempo.

Coronel Gomes Carneiro

Coronel Gomes Carneiro, defensor da Lapa.

Impedidos de prosseguir, e desgastados pelo longo sítio mantido antes de tomar a Lapa, Gumercindo bateu em retirada. Nessa retirada, muitos homens se perderam, foram perseguidos e mortos. Gumercindo retornou ao Rio Grande do Sul, onde continuou a luta. Na véspera de um ataque, no dia 20/08/1894, foi alvejado à traição e morreu.

Durante a retirada das terras de Curitiba, João Maria seguido por um pequeno grupo de homens, pegou um caminho, imaginando encurtar a distância e se perderam. Continuaram em frente, esperando encontrar Gumercindo mas adiante, mas foram surpreendidos por um piquete de cavalaria e perseguidos. Com pouca munição e bastante cansados, foram tombando um a um e João Maria, vendo que restava somente ele, conseguiu alcançar um capão de mato onde pretendia se esconder ou ao menos despistar os perseguidores. Pouco antes de conseguir ficar oculto, um tiro o atingiu no quadril, do lado direito. Reparou que não fora um ferimento grave, mas precisaria encontrar ajuda para pensar o ferimento.

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Ruina da Lapa, restante do Cerco durante revolução federalista.

Por enquanto o mais importante era conseguir colocar entre ele e seus perseguidores a maior distância possível. Caminhou vagarosamente pelo mato, sem fazer ruído e se escondeu no fundo de um valo, sob uma pedra que se projetava para cima. Os perseguidores passaram a poucos passos sem perceber sua presença, pois o cavalo, que ele mesmo domara, sabia estarem em perigo. Manteve-se imóvel sem fazer o menor ruído. Ouviu os homens falando entre eles, retornaram por outro lado, um pouco mais longe de onde estava e no final desistiram, dizendo:

– Um deles escapar não é problema. Pegamos os outros todos.

– Mas eu sei que acertei ele na hora que entrou no mato. Ele não está longe.

– Mas procuramos por tudo e nada. Deve ter parte com o demo.

– Vai ver que tem mesmo. Se não morreu agora, vai morrer no caminho que ainda tem pela frente. Por esses sertões, onde vai conseguir ajuda?

Era realmente uma questão séria. Ferido, sozinho, distante de qualquer ponto de referência ou gente conhecida, precisaria poupar suas energias ao máximo para resistir à caminhada. Outra saída seria encontrar um caboclo morador desse sertão e pedir ajuda. Eles habitualmente conhecem bastante o uso de ervas para curar feridas, seria uma coisa providencial se encontrasse alguém. Lembrou do tempo que tropeava e lhe veio à memória a existência, alguns quilômetros para frente, de uma pousada. Talvez ainda houvesse quem ali vivesse, mesmo com o fim das tropeadas.

Começou a se mover, sentindo um pouco de dor no ferimento. Um pouco adiante, parou na beira de um riacho cristalino para beber água e dar de beber ao animal. Sentou-se à sombra de um arbusto e removeu as roupas no local ferido. A bala entrara pelas costas e não saíra. Isso era ruim. Se tivesse saído, a ferida teria menos chances de arruinar do que com ela ali, alojada. O corpo reage aos resíduos de pólvora provocando inflamação e isso poderia trazer complicações sérias. Arrumou as roupas de modo a não cobrir o ferimento e amarrou um lenço que sobrara no alforje em torno da cintura para proteger o lugar.

Tentou montar. O cavalo se afastara alguns metros e pastara o capim bem viçoso que ali crescia. Viu ali perto, na vegetação que crescia ao longo do pequeno curso d’água um pé de goiaba e havia frutos maduros. Lembrou que estava a horas sem comer e foi até lá, pegando uma porção deles para comer na hora e outros para ter o que ingerir no caminho. O cavalo parecia agradecer pelo capim que lhe era disponibilizado. Estavam agora sozinhos. O grosso da tropa certamente estava longe e os companheiros que o haviam seguido ficaram tombados. Esperava que os inimigos se dignassem a dar sepultura a eles.

O sol diminuiu a intensidade e ele começou a sua caminhada. Deixou o cavalo andar a passo, pois assim sentia menos a ferida. Os olhos estavam fixos à frente, buscando um lugar onde pudesse encontrar abrigo até se recuperar. Talvez um bugre ou caboclo que topasse retirar a bala de seu quadril e assim apressar a cicatrização. Depois teria tempo para retornar ao sul. Nesse momento lhe ocorreu que, os irmãos e demais familiares, ao saber do retorno de Gumercindo, sem que ele estivesse com eles, iriam supor que haveria morrido. Se não se cuidasse era o que aconteceria em poucos dias.

Caminhou por aquele dia, dormiu em um abrigo abandonado na beira da trilha e seguiu caminho na manhã seguinte. Por horas não encontrou vivalma. Quando a noite se aproximava, viu ao longe uma fumacinha subindo. Parecia ser uma chaminé, ou uma fogueira. Tentaria chegar perto, sem levantar suspeitas. As roupas que o identificavam como maragato haviam ficado para trás, ou estavam tão danificadas que estavam irreconhecíveis. Em meia hora sentiu o cheiro da fumaça e carne sendo assada. Nessa hora também sentiu a primeira fisgada na ferida, dando sinal de que ela estava infeccionando. Continuou caminhando, sentindo os sinais da febre aparecer. O rosto ficou afogueado, um suor gelado escorreu pela espinha e temeu pela sua vida.

Se o morador ou autor da fogueira não lhe pudesse fornecer ajuda, estaria em maus lençóis. Cavalgou mais alguns minutos e deparou com uma cabana rústica, de onde se elevava por uma chaminé de pedras, uma pequena coluna de fumaça. Parou a alguns metros da porta e chamou:

– Ó de casa! Ó de casa!

Aguardou um instante e na porta iluminada pelos últimos raios solares, apareceu uma figura de mulher. Era jovem, tinha traços indígenas, mas as características não eram totalmente nativas. Parecia uma mestiça. O que estaria fazendo essa mulher ali no meio daquele sertão, aparentemente sozinha?

O primeiro gesto que ela teve foi de empunhar uma lança bem grande, disposta a se defender. Rapidamente ele levantou as mãos e falou:

– Eu estou ferido. Venho em paz. Estou precisando de ajuda.

– Quem é filha?

– Um homem e está ferido, diz ele.

Um ruído se fez ouvir, a lança permaneceu levantada, pronta para atacar e depois um homem idoso, deveria ser septuagenário ou algo assim, emergiu da cabana. Era na verdade o avô da jovem. Haviam sido atacados por posseiros em busca de erva mate, pinhão e os pais haviam sido mortos. Conseguira se esconder com o avô e agora estavam ali, sobrevivendo com o que ela conseguia caçar, pescar e colher de frutas, além dos pinhões na época apropriada. O pobre homem não poderia mais ir em busca do alimento, embora parecesse bem forte. O corpo estava encurvado pelo peso dos anos, mas o olhar permanecia vivo, perscrutador.

Depois de entregar a ela suas armas e se apresentar de mãos limpas, permitiram que se aproximasse da cabana. O ferimento foi lavado com água trazida de uma fonte próxima. A temperatura baixa do líquido, ajudou a refrescar sua pele, baixando a febre. O olhar do idoso logo detectou o que acontecia:

– Bala ficou em ferida! Pólvora fazer corpo criar inflamação. Amanhã precisa tirar bala ou homem vai morrer.

Ao ouvir falar em morte, João Maria sentiu um calafrio. Seria sua sina morrer ali, no meio do nada, perdido em um recanto do sertão? Sobre um fogo um caldeirão fervia um cozido de carne. A jovem conseguira caçar um cateto e parte da carne estava sendo cozida. O restante estava acondicionado para conservar até o dia seguinte, com sal e ervas aromáticas colhidas na floresta. O estado febril não deixava João Maria sentir fome, mas a jovem insistiu em faze-lo ingerir um pouco de caldo. No começo pareceu não ter sabor, mas aos poucos percebeu o efeito das ervas usadas para temperar e uma sensação confortável invadiu suas entranhas. Logo caiu em um sono profundo, deitado sobre uma esteira colocada num canto da cabana.

Durante a madrugada a jovem por diversas vezes molhara suas faces e membros para baixar a febre. Por ordem do avô preparara uma infusão de uma mistura de raízes maceradas. Depois de algumas horas era hora de beber o líquido. O gosto era forte e amargo, mas decidiu confiar na sabedoria do velho indígena. Ele mesmo estava vigilante, observando as reações do doente. Sob os cuidados dos dois desconhecidos o dia amanheceu e a febre havia tido uma ligeira melhora. Comeu alguns pinhões e frutos silvestres, seguidos de nova porção da infusão das raízes amargas. O idoso levantou, também comeu um pouco, bebeu água trazida pela neta da fonte.

Pegou uma pequena faca e a amolou cuidadosamente com uma pedra. João Maria lançou um olhar receoso para aquela lâmina, imaginando qual seria a sua finalidade. Pouco depois, o idoso mandou colocar água sobre o fogo para ferver. Depois falou:

– Vou preparar um chá para lavar ferida depois que tirar bala. Vai doer um pouco, mas depois melhora. Pior seria se fosse ferida de flecha com veneno. Se veneno ser forte e pegar no lugar certo morre logo. Não tem tempo de salvar.

– O senhor vai tirar a bala? Vai ter que cortar?

– Depender. Se bala está muito fundo, precisar abrir um pouco para conseguir tirar. Você homem valente, guerreiro forte, não vai chorar como mulherzinha.

Diante dessa afirmação, João Maria engoliu o medo, morderia os lábios, a língua e aguentaria o que fosse preciso para tentar sobreviver.

Quando a água ficou quente, um punhado de ervas e raízes foi colocado em infusão enquanto a água esfriava. Quando o líquido ficou bem escuro com a absorção das substâncias das plantas, o velho começou a coar o líquido, vertendo-o em uma cabaça bastante grande. A medida que a água na vasilha ia sendo transferida para a cabaça, o momento crucial se aproximava. Terminada a operação, o velho testou o fio da faca, passou-o em uma raiz e depois o molhou no líquido.

– Vamos tirar bala! Ficar virado de lado para poder ver bem ferida.

João Maria virou-se ficando na posição mais confortável possível e se preparou para o próximo passo. Em segundos sua sorte seria decidida. Sua recuperação dependia das mãos desse homem idoso. Pelo rosto do homem percebeu que a ferida estava com aspecto bem feio. A bala parecia ser do tipo que fragmenta e havia rasgado a pele onde penetrara. Um pouco da água, ainda morna, foi despejada sobre a área ferida e aos poucos sentiu um leve amortecimento. Sentiu as mãos apalpando a região e logo uma dor mais forte assinalou o momento em que os dedos pressionaram o local onde o projétil estava alojado.

– Estar bem fundo. Mim precisar cortar um pouco para conseguir tirar. Vamos despejar mais um pouco de água e fazer tomar um pouco para diminuir dor.

Uma cuia com um pouco do chá foi aproximada de sua boca, e sentiu a boca ficar amortecida na medida em que ingeria o líquido. Logo um torpor se espalhou pelo corpo e ficou mais relaxado. Não imaginava o que havia ingerido, mas parecia uma benção, pois aparentava que a dor sumia aos poucos. Depois de esperar por alguns minutos, o velho pegou de sua faca, fez uma incisão em cruz sobre o ferimento, aumentando a área de abertura. Depois, com o dedo ágil procurou até localizar o projétil. Uma leve fisgada fez João gemer de dor, mas ouviu a risada do velho.

– Este ser bala suja. Ter pontas para machucar mais, fazer estrago maior. Dentro tem tipo de veneno. Vamos lutar para vencer veneno que branco usou. Mim não saber qual é, mas conhecer muitas ervas para curar venenos.

A palavra veneno e bala com pontas fez João lembrar dos projéteis que ao atingirem obstáculos se fragmentam, transformando-se em estilhaços de aço que estraçalham os tecidos. A possibilidade de terem usado projéteis envenenados lhe fez perpassar um calafrio pelo corpo. Se fosse um veneno conhecido pelo velho índio ele teria melhores condições de curar a ferida. Não sabendo do que se tratava, restava tentar tudo que sabia e torcer para que não fosse um veneno letal. Como já estava ferido a praticamente dois dias, não deveria ser algo tão terrível, mas poderia ser uma doença difícil de curar.

Agora uma compressa de folhas amassadas com raízes foi colocada sobre o ferimento. Em alguns minutos ele dormiu profundamente. Enquanto isso a jovem saiu para procurar frutas frescas e mais alguma caça, talvez um peixe no rio distante um quilômetro da cabana.  O velho acendeu um cachimbo feito com bambu e ficou fumando lentamente enquanto observava o paciente. Depois de algum tempo a febre retornou e João começou a delirar. Havia água fria numa cabaça grande e o velho começou a molhar o rosto e os braços do doente. Com muito esforço, a temperatura baixou um pouco.

Ao entardecer a jovem voltou trazendo um par de belos peixes que conseguira fisgar com sua lança especial e uma porção de frutas colhidas na mata. João estava acordado e recebeu de suas mãos pedaços de fruta.

– Precisa comer para vencer veneno. Se não comer ficar fraco e morrer – disse ela suavemente.

Como poderia uma criatura tão jovem e suave na aparência, dizer essas coisas com tamanha serenidade? Devia ser a forma de vida que levava desde o nascimento. Comeu um pouco e voltou a dormir. Antes de se prepararem para passar a noite, o emplastro foi renovado, fizeram-no beber mais uma porção do chá anestesiante, depois de tomar um pouco de caldo com farinha de pinhão. Alguns pedacinhos de carne desmanchando de tanto cozinhar vieram misturados e ele apreciou a mistura. Depois que bebeu o chá não tardou a dormir. Acordou a certa altura da madrugada com a jovem aplicando água fria em sua testa e braços. A febre estava alta novamente.

Amanheceu sentindo-se enfraquecido. Parecia ter enfrentado uma jornada de vários dias de caminhada ininterrupta. Os braços pareciam de chumbo, as pernas pareciam pedras. O velho refez o emplastro, trocando uma parte dos ingredientes, pois percebera que o efeito não havia sido o esperado. Assim passaram-se vários dias, tantos que João perdeu a conta. Não saberia mais dizer quanto tempo ficara deitado ali, até que um dia viu no rosto do velho um sorriso de satisfação. Era sinal de que a crise havia sido superada.

– Homem branco vencer veneno. Agora precisa se alimentar bem para ganhar força.

– Tem certeza que o perigo passou?

– Sim. Já começar a sarar. Em uma semana estar fechada ferida e ficar só cicatriz.

– Se não fossem vocês dois, eu a essa hora teria virado comida de urubu ou bichos do mato.

– Você ser forte. Esse ser grande sorte. Índio velho não conhecer veneno usado em bala.

– Mas conseguiu me curar. O senhor é um grande curandeiro.

– Lua Serena ter mérito. Ela caçar e pescar para alimentar todos nós.

– Onde está ela?

– Logo voltar. Foi caçar e buscar frutas. Um pouco de pinhão, palmito.

– Nunca vou poder agradecer a vocês o suficiente pelo que fizeram por mim.

– Basta nunca atacar meu povo, defender famílias índios contra brancos malvados.

– Isso é uma barbaridade que eu nunca pratiquei. Fico com nojo quando ouço contarem essas coisas feitas por gente de minha raça.

– Agora descansar um pouco. Já falou bastante. Depois precisa comer bastante para ganhar força.

Voltou-se para o lado e em segundos estava dormindo serenamente. Pela primeira vez dormia sem o fantasma da febre pairando sobre seu corpo. A crise estava superada e bastaria agora refazer as forças e poder voltar para casa. A jovem índia Lua Serena voltou pouco depois e começou a preparar os alimentos que conseguira trazer. Recebeu com satisfação a informação de que o paciente finalmente vencera a crise que, por várias vezes parecia ser insuperável. Aproximou-se dele e surpreendeu um sorriso amplo no rosto do homem que conhecera vivendo um momento crucial da vida. Um ferimento à bala, arruinara e por pouco não lhe levava a vida. Vira-se sentindo um aperto no coração ao pensar na possibilidade da morte do homem.

Não sabia o que isso significava, mas desconfiava que estava ficando inclinada pelo homem branco. Não sabia o que o avô diria se ficasse sabendo disso. Eram os últimos sobreviventes da sua tribo e não teria homem de sua raça para dar continuidade ao ciclo da vida. Sabia que isso fazia parte da vida das pessoas quando atingem a idade adulta. Terem filhos e cria-los para ficarem em seu lugar quando deixassem essa vida. Também não sabia o que ele diria sobre esse assunto. Talvez nem quisesse saber dela, por ser descendente de indígenas. A mãe era mestiça, filha de branco com índia e isso a tornava parcialmente branca. Não era totalmente índia.

Preparou a comida e ficou contente ao ver o paciente tentar sentar-se para comer. Estava fraco, mas com a ajuda que ela lhe deu, conseguiu sentar-se e comer normalmente pela primeira vez em quase um mês, desde que ali chegara montado em seu cavalo. O animal estava sendo bem cuidado e alimentado nos capinzais existentes nas proximidades. Estava liso e manso. Chegara a montar nele e dar algumas voltas pela redondeza. Assim conseguia ir mais rapidamente até os locais de pesca e coleta de frutos para alimentar aos três.

Durante a refeição João lembrou do animal, ao ouvir seu ruído do lado de fora. Ao ouvir prestou atenção e ouviu:

– Seu cavalo estar aí fora. Bem forte e gordo. Andei nele para ir pescar e caçar. Também colher pinhão e frutas.

– Eu pensei que ele nem estava mais por aí. Isso é ótimo. Que bom saber que vocês se deram bem.

– Ele ser muito manso e um ótimo animal. Entender tudo que eu falar para ele.

– Vejo que você fala com os cavalos e eles entendem. Fico contente com isso. Ele agora é seu.

– Ele ser seu. Vai precisar dele para voltar para sua casa.

– Minha família deve pensar que eu estou morto. Nem vão notar se eu não voltar. Minha filha vai ficar com muita saudade.

– Você ter uma filha?

– Fui casado com uma descendente de sua raça. Minha filha é Isabel. A mãe era Ceci.

Ela sentiu um pequeno impacto com essa informação. Ele tivera uma mulher, mas pelo jeito ela morrera ou fora embora. E dissera que ela também era mestiça. Tinha uma chance de ganhar seu coração e assim formar uma família com ele. Poderiam se estabelecer ali mesmo, extrair erva mate para vender, coletar pinhões e vender. Começou a sonhar.

Décio Adams

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Na senda dos monges ! – Capítulo IX – Dominando as letras e números!

 

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Carreta usada na época dos tropeiros, peça do museu

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Gravura da Feira de Sorocaba, de Getúlio Delphim.

 

  1. Dominando as letras e números.

 

Na próxima viagem para Sorocaba, João Maria estava com dois cargueiros abarrotados de objetos para comerciar. Eram de fabricação local e não faziam concorrência com as mercadorias do dono da tropa. Integrou-se ao grupo e trabalhou com mais afinco no desempenho das suas funções de empregado. Numa das primeiras noites da viagem, reparou em um senhor já mais idoso, pouco ativo na lida com os animais, mas sempre próximo do líder da tropa. Indagou do amigo quem era aquele homem e ficou sabendo tratar-se de um homem letrado. Era versado em matemáticas, fazia todas as contas do patrão. Tinha fluência no escrever, sabia até espanhol e italiano.

– Eu bem que queria aprender a ler e escrever, fazer contas.

– Isso é coisa para poucos. Muito difícil aprender, – falou o velho tropeiro.

– Mas se começassem a ensinar a gente quando pequeno, não ia se tão difícil. Depois de burro velho é claro que fica difícil.

Sem eles perceberem o senhor Feliciano Chaves se aproximara e ouvira as últimas palavras. Ficou curioso e indagou:

– O que é que burro velho tem dificuldade em aprender?

– O João aqui disse que gostaria de aprender ler e escrever, fazer contas. Eu disse que é muito difícil. É coisa para poucos.

– Não é nada difícil. O mais importante é ter vontade de aprender. O que move o aprendizado é a vontade, a curiosidade.

– Tá vendo, seu Aparício! O homem está dizendo que não é impossível aprender ler e escrever.

– Você gastaria algumas horas do seu descanso para aprender?

– Eu até gastaria, mas quem ia querer ensinar?

– Se eu estou perguntando é por que posso mostrar como se faz. Mas precisa perseverança. Tenho comigo um bocado de papel que foi usado de um lado e ia jogar fora. Podemos usar do outro lado para você aprender.

– Podemos começar hoje mesmo?

– Hoje ainda não. Tenho umas contas para terminar para o patrão, antes de dormir. Amanhã podemos começar. Vou tratar de fazer as contas e depois vou dormir. Amanhã o dia é puxado.

O jovem ficou entusiasmado com a perspectiva de saber ler e escrever, fazer contas. Estava olhando longe, no dia em que seria comandante de uma tropa de propriedade da própria família. Se soubesse ler e escrever, fazer contas poderia negociar melhor. Não teria que depender de alguém para fazer isso por ele. Se o seu Feliciano se dispunha a ensinar essa arte, ficaria para sempre agradecido. Mal sabia ele que o bom homem estava procurando alguém para lhe ajudar. Era muito trabalho que tinha a fazer sempre no começo e final das viagens. No meio do caminho não havia muito serviço, mas na hora das vendas, novas compras, calcular os lucros, descontar os prejuízos e gastos, o pagamento das despesas. Um ajudante seria bem-vindo com certeza.

João Maria passou o tempo antes de dormir falando da expectativa de saber ler e escrever, importunando os ouvidos do companheiro de jornada. Por fim Aparício dormiu enquanto ele ainda falava. Em dado momento se deu conta de estar falando sozinho e o acampamento inteiro dormia. Puxou o poncho sobre a cabeça e também procurou conciliar o sono. Pela manhã, logo cedo estava acordado e ativo. Foi o primeiro a cuidar dos animais de montaria, dos cargueiros. Na hora do desjejum já estava levemente sado, apesar do frio da manhã. Passou o dia em atividade fabril, levando outros a perguntar o que lhe dera e ele por fim confidenciou a alguns mais chegados, que iria aprender ler e escrever.

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Gravura de tropeiros em marcha.

 

Foi motivo de risadas gerais, especialmente dos mais velhos, mas não se importou. Mostraria a todos de que ele era capaz. Se outros podiam aprender, ele também o fariam. Ansiava pelo final do dia, quando o seu Feliciano o chamaria para a primeira lição. Depois de acomodar a tropa e arrumar o acampamento, viu o velho escriturário arrumando um cavalete e sobre ele colocar umas tábuas, formando uma pequena mesa. Já estava livre das tarefas e se aproximou perguntando se poderia ajudar, ao que ouviu:

– Venha aqui que vamos começar, enquanto o jantar não fica pronto. Vamos aprender primeiro os números, que é mais fácil.

Tremendo de emoção o jovem sentou-se e ficou esperando. Logo tinha diante de si um pequeno quadro, uma espécie de moldura, com uma placa cinza escura na parte interior. Além disso uma haste de metal com uma extremidade afilada. Era a lousa e o estilete para escrever. Iria usar a lousa antes de passar para o papel. Ali poderia escrever e apagar quantas vezes fosse necessário e só quando dominasse a arte de escrever e fazer contas, começaria a escrever no papel. Mal pode esperar pela primeira lição. O preceptor, embora não tivesse recebido nenhuma formação para o ensino, tinha o dom natural de desempenhar essa função.

Para ensinar os números usara a associação de objetos concretos com os numerais, facilitando dessa forma o aprendizado. Após uma hora e pouco, quando foram chamados para jantar, João Maria já sabia rabiscar os primeiros algarismos. Depois de comer fariam mais um pequeno avanço antes de descansar. O simples fato de iniciar seu aprendizado, deixou o rapaz eufórico. O companheiro Aparício o viu todo excitado com o que conseguira aprender naquele tempo tão curto e se convenceu de que ele realmente iria conseguir. Não imaginara que isso fosse possível para alguém depois de atingir a idade madura. Se seus ossos não estivessem já um tanto duros, talvez até se aventurasse também a aprender.

A partir dessa noite, praticamente todos os dias estava João Maria, sentado ao lado de Feliciano, muitas fezes empenhado na realização de tarefas passadas pelo instrutor, que por sua vez se ocupava em se desincumbir de suas funções. Estava entusiasmado com a velocidade que o aprendiz demonstrava ter no domínio de cada novo ensinamento. Parecia antever o que viria e logo estava desenhando os números e letras que aprendera. Mais alguns dias e já saberia ler algumas palavras, talvez escrever pequenas frases. Era encorajador assistir ao seu progresso.

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Feira de Sorocaba, gravura de Getúlio Delphim.

 

Ao chegarem em Sorocaba, depois de algumas semanas, o jovem aprendiz de primeiras letras já conhecia o alfabeto, conhecia as principais sílabas e escrevia algumas frases curtas. No meio do caminho haviam encontrado alguns exemplares de jornais velhos, folhetos de propaganda de remédios e outras coisas escritas. Tudo era guardado por João Maria. Nas horas de descanso, estava sempre decifrando alguma coisa escrita. Quando enroscava em alguma palavra mais complexa, perguntava ao mestre que se encarregava de esclarecer. Em algumas ocasiões era obrigado a ler o texto para poder explicar o significado, pois suas letras não eram lá essas coisas tão aprofundadas.

O Líder da tropa fia com bons olhos o empenho do jovem em aprender. Pensava no dia em que o velho ajudante não pudesse mais acompanha-lo nas viagens. Teria de um substituto mais jovem e preparado pelo antigo ajudante. Muitos tropeiros velhos e calejados, olhavam admirados o empenho do jovem em ler e escrever. Houve que lhe profetizasse um futuro brilhante, pois era sabido que pessoas letradas sempre tinham maiores chances de progredir do que os trabalhadores braçais. Os dias de estadia na feira foram de trabalho intenso. As continhas aprendidas na viagem foram úteis para orientar suas ações na negociação das mercadorias que trouxera.

Soube fazer o cálculo do lucro obtido e isso lhe trouxe um prazer indescritível. Havia ganho mais que o dobro do preço pago na origem. Ao começar a viagem nem imaginara que, ao chegar ao final, saberia fazer a conta do lucro obtido. Mostrou suas contas ao mestre que lhe mostrou alguns pequenos erros cometidos, de modo que o lucro era um pouco maior que que calculara. Mas era pequena a diferença. Precisava aperfeiçoar suas técnicas de cálculos. Enquanto permaneceram em Sorocaba as lições ficaram interrompidas, para serem reiniciadas logo que começassem a volta.

Ao chegar em Santa Maria, foi um João Maria eufórico que se apresentou à família. Estava sabendo escrever algumas palavras e principalmente fazer as contas mais elementares. Vendeu os produtos que comprara para trazer, entregou as encomendas recebidas e reuniu tudo, fazendo o balanço da viagem. Sentaram-se em família para fazerem um levantamento do que dispunham em capital para iniciar a abertura da área de terras requerida. Depois de somar tudo que haviam guardado, João fez uma estimativa, que em um ano poderiam começar a dar os primeiros passos. Talvez até antes, se conseguissem alguns dias de folga para irem pessoalmente fazer parte do serviço.

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Tropeiros atravessando rio.

 

A dificuldade era o fato de Antônio ter o ombro esquerdo imóvel e João não poder se afastar da fazenda. No final combinaram que, Antônio poderia desempenhar o serviço de capataz na ausência de João. Este e o sobrinho João Maria, iriam com dois ou três peões trabalhar na abertura do local da construção, preparação de toras para serraria e seu transporte para a serraria. Mal terminaram de fazer o serviço e já era hora de iniciar nova viagem para Sorocaba. João Maria estava ansioso por fazer nova viagem e dar prosseguimento às lições de escrita e leitura. Agora já podia aprender as contas mais complexas, como porcentagens, juros e coisas assim. Era bem mais complexo, mas com algum esforço conseguiu também aprender esses passos.

Com certeza jamais seria um erudito, mas não dependeria de ninguém para lhe fazer as coisas mais elementares, quando quisesse organizar suas próprias tropas, levando os animais produzidos na propriedade da família. Projetava transportar quantidades consideráveis de erva mate para revender e assim alavancar os negócios. Sonhava alto o rapaz. O tio ficou espantado com a rapidez que ele demonstrava em aprender os segredos da escrita, leitura e aritmética. Em alguns meses estava apto a ler com bastante fluência e redigir pequenos textos, sem dificuldade. Não perdia ocasião para ler tudo que lhe aparecesse. Bastava conter letras ou números e ele estava disposto a ver do que se tratava. Tanto empenho, só poderia resultar em um desenvolvimento fora do normal.

No tempo que tinha disponível até a próxima viagem para Sorocaba, aproveitaram e fizeram a roçada e derrubada para localizar a sede da propriedade, além de um bom pedaço de pasto, especialmente numa área onde a vegetação era menos densa, na área mais próxima da água. Ali o capim cresceria mais viçoso, devido a umidade e assim permitiria um bom desenvolvimento da criação. Alguns dias antes de iniciar a viagem, deixou o tio e os peões terminando o serviço começado e tratou de adquirir as mercadorias que levaria junto na tropa, em seus dois cargueiros. Cuidou para não misturar os objetos de comércio do patrão com aquilo que levava para seu comércio particular. Não desejava criar atritos.

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Gado vadeando um curso d’água na tropeada.

 

A primavera estava próxima. Era hora de iniciar a viagem. Assim seria possível fazer até duas, antes da entrada do próximo inverno. João Maria encontrou com Feliciano que lhe estava ensinando os rudimentos da escrita e matemática. Passaram uma semana preparando a parte burocrática inerente ao total da tropa e mercadorias que seguiriam nessa remessa. Era ocasião de praticar o que aprendera e adquirir prática na elaboração do controle necessário para manter as contas em ordem. Era preciso saber o quanto havia custado cada unidade e o preço pelo qual poderia ser vendido, sem que isso significasse prejuízo. Havia que levar em conta cada tostão despendido no caminho, seja com alimentos, despesas inesperadas, pousos mais prolongados, pastagens. Tudo representava custos determinantes do resultado final de uma viagem bem sucedida.

Alguns dias antes da primavera ter início em termos cronológicos, partiram de Passo Fundo, onde haviam se reunido boa parte dos integrantes da comitiva. Um lote adicional de mulas estava esperando nas proximidades da divisa com Santa Catarina/Paraná. Pouco antes do Natal estavam chegando de retorno, trazendo as bruacas recheadas de mercadorias compradas em Sorocaba, bem como um variado sortimento de erva mate para distribuição por toda região. O clima ajudara e haviam demorado pouco em cada pouso. Apenas o suficiente para refazer os animais do cansaço da viagem, uma boa forragem de pasto para aguentar mais uma etapa e a caminhada prosseguira. A volta havia sido mais rápida do que o esperado.

Todos os momentos de folga foram aproveitados por João Maria, agora já dominando a escrita e cálculos básicos para exercitar o que havia aprendido. Quando surgiam dúvidas perguntava ao mestre Feliciano, como o chamava. Quando este também sentia dificuldades em explicar pedia ajuda ao “Pai dos Burros”, um velho dicionário que estava todo ensebado de tanto uso. Assim ia dominando aos poucos as palavras mais complexas. Era assíduo leitor de jornais obtidos em Sorocaba e deles trazia um bom sortimento, especialmente de artigos importantes que recortara. As propagandas eram menos interessantes e só serviam para fazer volume, por isso eram descartadas na medida do possível. Os outros peões ficavam ora curiosos pelas leituras que o colega fazia, ora faziam mofa de seu empenho em saber ler. Na opinião da maioria isso servia para pouca coisa.

Eles que ficassem com suas opiniões. Mal sabiam que ele estava conquistando seu passaporte para uma vida diferente do que vinham vivendo seu pai, tios, avô e bisavô. Tinha ambição e queria sair do lugar comum da vida de peão do nascer ao morrer. Por enquanto era peão, mas não morreria nessa condição, disso tinha certeza. O que não valia a pena era apregoar tais ideias, para não ser motivo de chacota. Já tinham suficiente para lhe amofinar a paciência com o seu desempenho na primeira noite com uma mulher. A cada pouco tempo alguém lembrava e imitava os gemidos e resmungos que haviam ouvido mantendo-se colados à parede do lado de fora do quarto.

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Mulas de carga e parte da tropa a caminho de Sorocaba.

 

A melhor coisa a fazer era deixar que falassem sem se sentir avexado pois, quanto mais ficasse chateado, mais sentiriam satisfação em lhe apoquentar. Ficara uma dúvida em sua cabeça na forma de calcular os preços do custo final e o lucro sobre os produtos transportados. Isso envolvia questão de porcentagem e ainda não havia compreendido bem essa parte. Sempre que Feliciano dispunha de alguns minutos de tempo, lá estava João Maria a lhe interrogar como fazia essa ou aquela conta. De tanto repetir, por fim ele entendeu e nunca mais esqueceu. Muitos anos mais tarde, sabia fazer esses cálculos todos sem problemas. Em cada ocasião lembrava da paciência de Feliciano em lhe explicar. O bom homem havia viajado em companhia de tropeiros até idade avançada. Só parara quando não mais conseguia se manter sobre a sela e os olhos não mais ajudavam a enxergar os números e letras.

Tinha amealhado um pequeno pecúlio com o qual viveu até seus últimos dias, na periferia de Passo Fundo, com a esposa e uma filha viúva. Quando ele pendurou a sela e guaiaca, João Maria já havia há anos assumido por conta a condução de tropas. A propriedade de Passo Fundo estava em plena atividade, com um bom plantel de éguas e vários jumentos para fazer a cobertura. A cada ano uma tropa de mais de quinhentas mulas saia da propriedade, além de um bom lote de gado de corte para charqueada. Compravam nas redondezas e mesmo de propriedades da fronteira mais outro tanto de mulas, de modo a transportar a cada viagem em torno de 800 a 1000 animais. Nas cargueiras eram transportados artigos típicos da região com boa aceitação em Sorocaba.

No império do Brasil a escravidão negra estava caminhando para a extinção, seguindo o exemplo de outros países. Há tempo o tráfico estava proibido. Depois viera a Lei do Ventre Livre, isto é, filhos de escravos nasciam livres. A Lei dos Sexagenários, tornando livres os escravos com mais de 60 anos de idade, de modo que o número de escravos decrescia gradativamente. Em 1885, durante uma de suas primeiras viagens por conta própria, João Maria voltou e encontrou a família de luto. O avô Afonso, que tantas histórias lhes contara, ensinara a manejar o velho mosquetão até ser capaz de acertar um palito a mais de 50 metros, mesmo com o cano gasto de tanto usar, havia falecido. Adormecera igual um passarinho e esquecera de acordar na manhã seguinte. A avó Zulmira não demorou muito para seguir os passos do marido. Deixaram saudades, mas haviam vivido uma vida repleta de realizações, além de superar grande número de dificuldades próprias da época.

Em 1886, estando os primos e irmãos todos casados, restando apenas João Maria solteiro, finalmente encantou-se com uma morena, filha de mãe bugra. Em pouco tempo a levou até o padre mais próximo e pediu para que os casasse. Ao chegar em casa com a mulher na garupa, todos indagaram o significado daquilo e ele apenas informou:

– Ela agora é minha mulher. Vamos fazer uma festa para comemorar. Não precisa preocupação pois o padre já nos casou e o juiz confirmou.

Acostumados com as excentricidades do filho, Antônio e Isabelita balançaram as cabeças pensativos, concordando. Uma semana depois, os peões da propriedade, os primos e irmãos estavam reunidos para festejar o enlace matrimonial, um pouco fora dos padrões normais, mas o noivo era assim mesmo. Não se ligava muito em formalidades. Isabelita falou ao marido:

– Nós nem podemos dizer nada. Nós fugimos e casamos quando nossos filhos já tinham nascido.

– Era isso mesmo que me ocorreu antes. Quando pensei em dizer alguma coisa, lembrei de nós fugindo pelos campos da Argentina, resolvi ficar bem quieto.

O casamento acontece pouco tempo depois da viagem a Sorocaba. João Maria voltara um pouco preocupado. Os negócios não andavam muito bem por lá. Algumas linhas de ferrovia haviam sido construídas e com isso boa parte do transporte de café e outros produtos era feito por trem, reduzindo assim a demanda de animais de carga. Quem ainda procurava por eles eram os cafeicultores da região serrana de Minas Gerais, onde era preciso recolher o grão dos cafeeiros plantados nas encostas e para isso nada melhor do que uma mula.

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Museu do tropeiro, cangalha e bruacas de taquara.

 

Em companhia com o pai e tio, sócios na propriedade, sentaram para confabular sobre o que fazer. As suspeitas de João Maria eram ainda pouco aprofundadas, mas ele parecia ver mais à frente. Lera nos jornais notícias cada vez mais veementes sobre pronunciamentos de abolicionistas e previa que logo a escravidão seria abolida. Com certeza isso iria provocar alguma mudança política no país. Não saberia dizer o que, mas sentia cheiro de mudança na forma de governo. Mesmo não sendo especialista em política, podia perceber nas entrelinhas dos artigos que lera, a tendência à implantação de uma República, à semelhança dos países vizinhos Uruguai, Argentina, Paraguai.

Diante do quadro exposto por João Maria, João e Antônio sugeriram mudar gradualmente de ramo, passando a criar gado de corte em lugar das mulas. Estavam mesmo precisando reformar o plantel de éguas para criar. Era ocasião de trocar as éguas por vacas e um ou dois touros. Começariam a vender carne, em lugar de besta de carga. Os lucros auferidos nos últimos anos, estavam em parte guardados para as emergências e poderiam ser perfeitamente aplicados na mudança de rumo. Decidiram manter as éguas para mais uma recria, mas começariam a procurar vacas para ampliar a criação de gado. Um lote de novilhas, em princípio destinadas ao abate, seria deixado para matrizes e assim dependeriam menos de investir capital no processo.

Em menos de dois meses a esposa de João Maria estava grávida. Sua beleza mestiça ficou ainda mais realçada, deixando o marido, um pouco madurão ainda mais apaixonado. Naquela temporada não faria a segunda viagem. Deixaria para a próxima primavera, quando teriam um lote maior e levariam tudo de uma vez, economizando dessa maneira os gastos da viagem. Logo nos primeiros sinais de arrefecimento do inverno, João Maria partiu com a tropa. Nem se empenhara demasiadamente em trazer muitos animais da fronteira, pois tinha o pressentimento que a procura iria ser pouca. Foi o que aconteceu. Conseguiu vender o que levara, mas não faltou nenhum animal. Nenhum comprador ficou sem ter suas necessidades supridas. Alguns tropeiros haviam deixado de tocar tropa, trocando por outras atividades, ou por levar apenas cargas em outros caminhos.

O retorno aconteceu na antevéspera do Natal. A esposa Ceci de João Maria, estava a poucos dias de parir. Seu ventre estava redondo, os seios entumecidos se preparando para aleitar o filho. Logo depois do Ano Novo, no dia 15 de janeiro, começou o trabalho de parto. A parteira mais próxima foi chamada e fez tudo que podia para ajudar a jovem a ter seu filho. Por mais que fizesse, ministrasse infusões de ervas para provocar a dilatação, nada parecia adiantar. Depois de quase vinte horas de sofrimento, em determinado momento ela soltou um grito surdo e emudeceu. Seu corpo jovem sofrera algum rompimento interior e ela perdera a vida. Sem hesitar a parteira fez uso de uma faca afiadíssima que carregava na bolsa, cortou a pele e o útero, retirando dali a criança que ainda estava com vida.

A mãe morta foi deixada de lado e a criança recebeu toda atenção. Depois de vários minutos ela finalmente teve um pequeno espasmo e logo soltou um gemido, querendo ser choro. Estava enfraquecida depois de ficar longo período em sofrimento sem conseguir nascer. O útero estava cheio de sangue, fazendo supor ter havido o rompimento da artéria que causara a morte da mãe. Ficou João Maria viúvo, menos de um ano depois de casar e com uma filha pequena nos braços. A avó Isabelita se prontificou a tomar conta da criança. O filho, acostumado a lidar com coisas menos delicadas, não saberia cuidar de um ser tão delicado como ela. Mesmo assim a criança era bem desenvolvida Tão logo conseguiram fazer algum alimento chegar ao seu estômago, ela começou a se refazer e o rostinho ficou corado.

João Maria pranteou a esposa por vários dias, antes de conseguir se aproximar da filha. Parecia de início estar revoltado com a criança por ter sido a causa da morte de sua mãe. Quando enxugou as lágrimas, pegou a criança no colo, aninhou-a junto ao peito e ficou longos minutos ali, vertendo lágrimas, agora de amor e ternura pela pequena. Era o fruto do amor que o unira à Ceci que tinha nos braços. Infelizmente Deus não havia permitido que ele tivesse as duas juntas. Uma partira para que a outra ficasse em seu lugar. A esposa de um dos empregados tivera filho poucos dias antes e seus peitos tinham leite em abundância. Logo lembraram dela e, em troca de uma gratificação, passou a amamentar a pequena. Vinha várias vezes ao dia dar de mamar à criança.

Em alguns meses já era possível fazer com que ela se alimentasse com sopinhas e alimentos mais sólidos, deixando de ter a necessidade premente do leite materno. Mesmo assim mamara, mas agora mais espaçadamente. Depois de alguns meses, João Maria preparou nova tropa para levar à Sorocaba. Partiu com o coração apertado, deixando para trás a filha, agora com oito meses de vida. Já sorria, se alimentava regularmente e ameaçava ficar em pé, apoiada nas perninhas. Era a alegria dos avós e do pai. Durante a viagem não passou um dia sem pensar na filha, uma porção de vezes. Fez o propósito de procurar um presente bem bonito para comprar e trazer para ela. Por mais que procurasse, nada encontrou que julgasse digno de sua pequena Isabel. Dera-lhe o nome da mãe, apenas tirando do diminutivo.

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Roupas e apetrechos de tropeiros.

 

Ao voltar ela estava com quase um ano de vida e, a não ser por ela, a vida de João Maria parecia completamente vazia. Não sentia a antiga alegria de viver, a disposição para trabalhar por horas sem parar. A vida de Ceci, ligada a ele por um período tão curto, parecia ter levado uma parte de seu ser para o túmulo. Precisava reencontrar sua antiga disposição, afinal tinha a responsabilidade de criar a filha que ficara. Ela, tão pequena e frágil, certamente não tinha culpa alguma do ocorrido e merecia ter o melhor ao seu alcance para crescer feliz. Ao reencontrar com ela, pareceu reviver em parte, embora uma leve sombra pairasse sobre seu semblante continuamente.

O aniversário de nascimento de Isabel, era também o de morte de Ceci. Portanto a comemoração ficou para um dia posterior. Não sentia vontade de comemorar nada, logo no dia em que completaria um ano sem a sua amada Ceci. Demorara longos anos para se enamorar, mas quando isso ocorrera, fora algo avassalador como uma tempestade. O coração ficara pulando no peito igual um potro xucro, fazendo o sangue pulsar nas veias como um balão inchando e desinchando alternadamente. Havia apressado o casamento. Sempre tinha a impressão de que pressentira a perda prematura da mulher amada. Deixara em seu lugar a pequena Isabel. A única coisa que se permitiu fazer no dia do aniversário foi levar a filha no colo até a sepultura da mãe e lhe dizer calmamente:

– Querida Ceci! Aqui está nossa filha. Você a deixou comigo e vou cuidar dela para sempre. Descanse em paz meu amor.

Voltou abraçado à filha, com os olhos vermelhos de chorar, enquanto a pequena, percebendo em sua inocência a tristeza do pai, tentava fazer carinho em seu rosto. Diante desse gesto ele enxugou o pranto e falou:

– Minha filha! Somos nós dois que vamos cuidar um do outro. Sua mãe está lá no céu, junto com Deus e Nossa Senhora. Vai ficar olhando por nós enquanto vivermos nessa terra.

Logo a menina começou a caminhar, exatamente no dia de seu aniversário. Esse gesto fez João Maria recobrar a alegria. Em seus passinhos vacilantes, mesmo assim parecia ter a graça e leveza do andar de Ceci. Os avós Antônio e Isabelita estavam eufóricos com o progresso da neta. Ela lhes dizia que, a mãe não pudera ficar com eles, mas ela estava ali e merecia a comemoração de sua data natalícia. Mas era tarde para organizar qualquer coisa. Preparariam um almoço especial para o dia seguinte e convidariam os padrinhos, primos e demais crianças para estarem presentes. Assim foi feito.

Depois do almoço um bolo foi cortado, refrescos foram distribuídos entre os presentes e, na ausência de presentes, ela ganhou muitos abraços e beijos. Estava comemorada a data e ela, parecendo adivinhar o motivo de tanta agitação, não parava de perambular de um lado a outro em seus passinhos ainda trôpegos, recusando-se a ficar no colo de quem quer que fosse. Dessa forma, a data de falecimento de Ceci, virou por outro lado dia de festa nos próximos anos, em comemoração do aniversário da filha Isabel.

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Gaúcho típico do século XVIII

 

Décio Adams

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Na senda dos monges! – Capítulo VIII – Um tropeiro na família.

  1. Um tropeiro na família

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Tropeiros na estrada do sertão.

Quando o pai Antônio retornou da Guerra do Paraguai, João Maria contava com dezesseis para dezessete anos de idade. Desde cedo andava a cavalo, tendo começado em um petiço manso e muito apegado ao menino. Todas as manhãs, quando via o dono sair de dentro de casa, estava na beira da cerca nas proximidades e sossegava apenas depois de receber sua dose de afagos, acompanhados de uma pequena espiga de milho, ou um generoso torrão de açúcar. Na maior parte do tempo o menino o montava em pelo, sem ao menos usar rédeas. O comando era feito com a pressão dos joelhos e o ficho sabia qual era a vontade do dono.

Esse idílio seguiu por vários anos, até que o animal, já de idade um pouco avançada, pois fora destinado ao guri já calejado da vida, sentiu o peso dos anos. Sua saúde deteriorou e não era mais possível carregar o dono. O olhar era triste, parecendo implorar a morte, não sendo mais capaz de desempenhar a tarefa que por tanto tempo era o prazer da sua vida. Negou-se a comer e nenhum recurso havia para reverter a situação. Num dia cedo, amanheceu morto em seu estábulo. Ajudado pelo avô e os irmãos, cavaram uma cova e arrastaram com uma carreta o corpo até a beira, sepultando-o. O lugar ficou marcado e mesmo o capim crescendo viçoso, os outros animais parece que respeitavam a sepultura do petiço.

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Na senda do monge! – Capítulo VII – A Guerra do Paraguai.

  1. A guerra do Paraguai.

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    Civís durante a Guerra do Paraguai.

 

A família Batista continuou crescendo, reunindo netos periodicamente aos primeiros que haviam nascido. Ao despontar a década de 60, Roque e Alice eram pais de mais quatro pequenos, sendo três meninos e duas meninas. Júlio e sua mulher tinham tido mais dois meninos e uma menina. Já Antônio e Isabelita haviam acrescentado mais dois meninos. Afonso e Zulmira eram avós de peito estufado. Aos domingos era habitual reunirem a maioria dos netos. Os meninos geralmente pediam ao avô para contar histórias do tempo da Guerra dos Farrapos. Ele se fazia de rogado, apenas para tornar os pedidos mais insistentes. Depois punha-se a narrar suas aventuras daquele período de quase 10 anos que passara nos campos de batalha.

Todos os anos na época da Páscoa em especial, Afonso fazia questão absoluta de levar a família, desde o mais novo ao mais velho, para participar, ao menos uma vez ou duas durante a Quaresma, de uma via sacra na encosta do Cerro do Campestre. As crianças ouviam atentamente a narração de sua estadia ali, nos primeiros tempos, quando João Maria ainda se encontrava na região. O afluxo de romeiros em busca de cura nas Águas Santas, arrefecera com a ausência do Monge, mas jamais deixou de existir. A primitiva organização da comunidade prescrita por João Maria ainda se mantinha. Os doze zeladores, a aplicação das oferendas seguia em termos gerais o preconizado pelo documento “Aos do Campestre”.

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Na senda dos monges! – Capítulo VI – Os netos nascem.

  1. Os netos nascem.

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Vista de Santa Maria à noite, luz no horizonte.

 

"Distritos de Santa Maria v2006" por Imagens SM - Mapa segundo a Prefeitura Municipal de Santa Maria. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Distritos_de_Santa_Maria_v2006.png#/media/File:Distritos_de_Santa_Maria_v2006.png

“Distritos de Santa Maria v2006” por Imagens SM – Mapa segundo a Prefeitura Municipal de Santa Maria. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Distritos_de_Santa_Maria_v2006.png#/media/File:Distritos_de_Santa_Maria_v2006.png

Uma das primeiras providências tomadas na família Batista, depois da volta do filho considerado perdido, foi realizar o casamento dos jovens. Eram ambos menores de idade e foi preciso uma carta dirigida aos pais da moça na Argentina, pedindo a autorização ou sua vinda pessoal para o enlace. O recente conflito entre os dois países fez com que houvesse uma demora maior na obtenção da resposta. Como a paz havia sido assinada, os pais se dispuseram a vir assistir ao casamento da única filha, mesmo não concordando com o casamento dessa forma. Não havia o que fazer já que o indesejável acontecera. Apenas haveria um ligeiro retardamento devido a questões burocráticas de momento.

– Vamos casar com o filho no colo, – falou Antônio.

– Eu imagino como eles devem ter se sentido, com a fuga de vocês dois. Me ponho no lugar dos pais de Isabellita, – falou Zulmira.

– Ahora no podemos hacer más nada. Lo mas importante está feito, como dizem ustedes.

– Vocês dois formam uma bela dupla de malandros. Vocês se merecem. Eu, no lugar deles, daria uma surra nos dois para aprender a respeitar os mais velhos. Não foi isso que eu lhe ensinei, menino.

– Mas se eu não a roubasse, nunca mais iria poder vê-la. O único jeito era o rapto.

– Se tivessem capturado os dois, você ia apodrecer numa cadeia em Buenos Aires, meu filho.

– A Isabellita ia fazer o pai me tirar de lá, não ia?

– Si, amor! Yo iba hacer papá sacar usted del carcel.

– Está vendo, mamãe? Eu não ia ficar muito tempo preso.

– Esse mundo não é mais o mesmo.

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Na senda dos monges! – Capítulo V, (Um jovem rebelde)

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Pinturas de cenas da Guerra do Prata, contra Juan Manuel Rosas e Manuel Oribe.

  1. Um jovem rebelde.

 

Roque aceitou fazer a experiência como ajudante do capataz na fazenda do padrinho de Alice, Sr. Jerônimo Albuquerque. Começou no princípio do mês seguinte, dando tempo ao pai para resolver a questão do cargo de capataz na Fazenda Ribas. Os filhos de Gumercindo voltaram e sentaram-se para conversar seriamente.

Depois de algumas ponderações, o filho João foi nomeado capataz, ficando Roque liberado para seguir seu caminho. A única exigência era Afonso continuar a dar apoio e orientação ao jovem. Houve algumas objeções de peões mais velhos que se julgavam merecedores de ocupar o cargo. No entanto tinham total carência de espírito de liderança. O rapaz, aos 19 anos de idade, foi suficientemente humilde e ponderado para não entrar em atrito com os subordinados. Com serenidade e bom senso conquistou a confiança da maioria, o que tornou as objeções insignificantes. Sua presença constante junto ao grupo, sempre na frente para enfrentar as tarefas mais complicadas, logo se tornou motivo de orgulho de bom número dos demais. Passaram a considerar uma honra trabalhar sob as ordens de alguém tão bem habilitado para o posto que ocupava.

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Na senda dos monges! – Capítulo IV ( Arraial do Campestre).

Nascer ou por do sol no botucaraí.

Botucaraí, na Candelária – RS.

  1. Arraial do campestre.

 

O ano de 1847 estava findando e Afonso se sentia bom. Zulmira e a mãe Salviana insistiram que continuasse a visitar regularmente a fonte do monge. Temiam que a doença voltasse e depois ficasse mais difícil ou impossível de curar. No primeiro domingo de dezembro, bem cedo, embarcou numa charrete que os novos patrões haviam conseguido para ele, pois andar a cavalo com aquela perna rija era bem desconfortável. Ao seu lado ia a esposa solícita, acompanhando o marido. Ele era seu herói, depois da participação na guerra e não aceitava de modo algum que ele lhe fosse levado. Sobrevivera a dois ferimentos e estava superando uma doença normalmente considerada incurável.

Ninguém havia atestado, mas tinham praticamente certeza de que o mal que afetara os pulmões de Afonso era a tísica. Doença para a qual ainda não existia cura na medicina. As águas santas do campestre e do Botucaraí haviam operado o milagre. Saíram bem cedo e chegaram em torno de 10 horas. O movimento em torno da fonte era intenso. Era preciso esperar a vez para conseguir se lavar, colher água limpa para beber nos próximos dias e assim completar o processo de cura. Passaram praticamente o resto do dia ali, até retornarem em tempo de chegar à fazenda antes do escurecer. Nesse dia o monge estava no outro morro, onde também encontrara uma fonte de iguais propriedades. Muita gente havia ido lá e encontrado os mesmos resultados.

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Na senda dos monges! – Capítulo III ( De peão a soldado)

Escadaria do morro Campestre.

Morro Campestre do Menino Deus, escadaria de acesso.

  1. De peão a soldado.

 

Gumercindo Nunes Ribas era um próspero estancieiro nos campos das proximidades de Santa Maria da Boca do Monte. Era no começo do século XIX, um homem na faixa de seus 50 anos de vida.  Seu capataz era Francisco Lopes Batista, casado com Salviana Maria Silva Batista. Em 23 de março de 1804 nasceu dessa união um menino. Depois de três lindas meninas, finalmente um homem para regozijo do pai Francisco. Andava preocupado em ter somente filhas e nenhum machinho para dar continuidade à família Batista.

Em menino conhecera a região das missões jesuíticas, especialmente a localidade de Caaró e tomara conhecimento dos mártires Afonso Rodrigues, Roque Gonzales e João del Castilho. Sabedor da morte violenta dos três, prometeu naquele momento que seu primeiro filho receberia o nome Afonso, em homenagem a um dos homens que sacrificara a vida pela evangelização dos indígenas. Se mais viessem iria homenagear também aos outros dois. Assim sendo, de comum acordo com Salviana, registrou o menino com o nome Afonso Silva Batista. O patrão Gumercindo e sua esposa Emerenciana Gomes Ribas foram os padrinhos.

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Na senda dos monges. -Capítulo II (Indo para o sul)

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Botucaraí, vista do lado do rio.

Indo para o sul.

 

 

Depois de algumas semanas de caminhada, dormindo algumas noites em celeiros. A chuva torrencial e sem uma gruta para se abrigar, levaram-no a pedir pouso em propriedades ao longo da estrada. Haviam-no convidado para a refeição e aceitara apenas alimentos leves. Pão, legumes e frutas. Em várias ocasiões passara algum tempo palestrando com o proprietário da casa. Sua voz era sempre serena, embora grave. Tinha na mente passagens bíblicas, evangélicas, profecias e salmos. Sabia sempre recitar alguma parte e depois fazer uma interpretação aplicável aos dias correntes. O tropeiro lhe deixara o animal para ser usado. Quando se encontrassem novamente, poderia devolvê-lo ou então deixar em algum lugar de pouso.

Diversas vezes pernoitara na beira do acampamento de tropeiros em viagem para Sorocaba. Passou por Jacarezinho, Castro, Ponta Grossa e chegou à Lapa. Ali encontrou um maciço rochoso, com uma vertente abrupta voltada para o povoado próximo. Habituado a procurar abrigo em lugares aparentemente inóspitos, localizou uma gruta onde se fez sua morada temporária. A longa caminhada, tivera como efeito deixar os ossos doloridos. O corpo cansado necessitava repousar.  A vegetação da encosta forneceu a cama, a lenha e algumas frutas silvestres. Um pedaço de pão e uma fatia de queijo completariam a refeição frugal da noite que se aproximava. O burro encontrou pastagem e água nas proximidades, onde o deixou amarrado.

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Na senda dos monges! – Capítulo I, (Revisto)

morro de araçoiaba

Morro Araçoiaba, Sorocaba, SP.

Na senda dos monges.

 

  1. Giovanni Maria D’Agostini.

 

– Buon jorno, signiori!

– Bom dia!

– E qui que necessito me apresentar para ter documento de strangero?

– Sim. É aqui mesmo.

O funcionário da prefeitura de Sorocaba, responsável pelo cartório, em pleno dia 24 de dezembro de 1844, levantou-se e pegou no grosso livro de registro de estrangeiros. Abriu-o procurando a primeira página em branco, para fazer mais um assentamento. Nesse dia haviam se apresentado vários outros. Esse pelo jeito de falar, deveria ser italiano. Usava uma espécie de hábito religioso, estatura mediana, cabelos compridos, barba cerrada longa, caindo sobre o os ombros e peito. Tinha semelhança com os Freis Capuchinhos, que nessa época andavam pelo interior do país, evangelizando a população.

– Qual é o seu nome?

– Mio nuomo es Giovanni Maria D’Agostini. Nascito en Italia. Puode vere qui en este papel. – falou o homem entregando um papel dobrado, quase ilegível de tanto uso. Sujo de suor e terra das estradas do mundo.

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